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3 de junho de 2005. Há uma década, em uma tarde fria na capital paulista, nascia meu filhote Alexandre.  10 anos depois, entre tantas coisas a se comemorar na vida, esta é a mais especial. Parabens, filho mais que querido! Teu sorriso é uma fonte de alegria inesgotável! Ser teu pai, uma experiência única, maravilhosa e transcendente! Te amar e brincar contigo, passear por ai e te ver correr e crescer, me traz emoções sublimes!

Confesso que a noticia da tua vinda suscitou muito mais que um frio na minha barriguinha…Tínhamos três bebes de um ano e alguns meses correndo pela casa quando, inesperadamente, minha companheira Selma pediu água; e mais água; e mais água: “nossa, que sede! Sera que estou com diabetes?”, ela perguntava… E tome água, literalmente, até que caiu a ficha: “Estou gravida!”. Exames confirmaram. Varias vezes. Gelei. Mais um! Correndo atrás de dar conta de todas as demandas emocionais, financeiras, logísticas, familiares e outras trazidas por três bebes, agora vinha mais um! Não vai caber no carro! Eu bem que havia dito para não exagerarmos nas celebrações do aniversario delas…

Assim, entre tantas expectativas, ele veio. Grandão. Faminto. Com uma vontade enorme de viver. Trazendo uma felicidade contagiante, inédita. Conquistando a todos e a todas.Alezinho, como todos o chamam aqui em casa, é um menino maravilhoso. Alezão, como também às vezes o chamamos, é um figurinha charmoso. Alex, como é internacionalmente conhecido, é um amigo leal. A chegada dele trouxe novas e profundas interrogações para a minha cabeça: como seria ser pai de um menino? A violência que atinge garotos adolescentes chegara nele? Machismo? Vou ter que dar porrada e falar grosso? Enfim, esta data querida, esta década de ‘pai de menino’ me traz uma serie de questões simultaneamente difíceis e prazerosas.

Conviver entre as mulheres dá aos homens mais confiança.

Muito se discute sobre a ‘insegurança’ de meninos e homens em face do avanço das mulheres e meninas na nossa sociedade. Criam-se clubes e associações exclusivamente masculinas, e mesmo programas educativos apenas para meninos e homens, para que estes se sintam ‘a salvo’ e possam manifestar a sua masculinidade ‘ameaçada’ sem os ‘perigos’ representados pela ‘feminilização’ da sociedade.

Deste modo, este versinho acima, que empresto de um poema de outro Alexandre, o Lara, traz uma serie de significações interessantes sobre as relações de gênero.  Em sua poética, meu amado amigo Xandão expressa não apenas seu sentimento, mas a sua certeza de que, para nos conhecermos, para termos segurança e confiarmos em nós mesmos, precisamos conviver com os ‘diferentes’. No caso, as ‘diferentes’, as mulheres. Ou seja, para o Xandão, ao invés de isolarmos as pessoas em guetos por sexo (ou por qualquer outra diferença visível ou invisível), na verdade temos que conviver mais todos e todas juntos, e assim crescermos como pessoas aprendendo através dos olhares dos ‘outros’ – no caso especifico aqui, os ‘outros’ seriam as crianças do outro sexo.

Concordo totalmente com meu poeta. Ate porque, do meu ponto de vista paternal, as possíveis diferenças entre meu filho e minhas filhas sempre se deram muito mais, inicialmente, pelas idades diferentes do que pelas diferenças sexuais. Junte-se a isso o fato do ‘grupo das trigêmeas’ ter tido uma socialização diferenciada entre a família e nos anos iniciais na escola. Ou seja, as construções sociais sobre as irmãs mais velhas, que sempre vinham no coletivo, e as relações sociais que meu filho teve de enfrentar e desenvolver em relação a isso, vão fazendo dele quem ele é,  muito mais do que qualquer possível diferença sexual.

Claro que crescer e conviver com meninas traz uma dimensão totalmente nova para a vida. Apenas lembrando uma historinha emocionante, entre tantas outras, que destaca os acréscimos que a convivência plural traz. Já faz uns três ou quatro anos. Voltávamos de um passeio a Wollongong, uma cidade praieira ao Sul de onde moramos, cerca de 90 minutos de casa. Subindo a serra em nossa ‘minivan’, as crianças conversavam sobre um filme que haviam assistido, que tinha uma cerimonia de casamento engraçada. Ato continuo, elas perguntam como foi o nosso casamento, escutam um pouco, e  começam a discutir como celebrariam os próprios casamentos – cada menina fala dos seus sonhos, uma quer casar na praia, entre os golfinhos e outras coisas – e o Alezinho entra na conversa, imaginando e sonhando com a própria cerimonia de casamento! Sorrindo no meu coração, eu pensava que, enquanto outros meninos batiam suas cabeças por ai jogando rúgbi ou ‘virando homens’ entre brutamontes, meu filhinho criava historias sobre seu casamento!

Ou seja, ‘conviver entre as mulheres’ traz ao meu meninão uma serie de vantagens que ele não teria se vivesse fechado entre meninos. Ele discute sexo, bebes e menstruação. Fala sobre sentimentos. Coloca suas duvidas e participa das conversas. Cresce como criança, evolui como ser humano.

Claro que, como toda convivência, esta traz desafios. Há atritos. Mas as meninas também têm atritos entre elas. Todos têm. Ele gostaria de ter um irmão gêmeo, para jogar bola com ele, quando as meninas não querem. Mas isso não é ‘privilegio’ de ser menino, tampouco uma ‘guerra dos sexos’ instaurada na minha família. Pessoas têm atritos entre si, conversam e se resolvem.  Ser menino é aprender a conversar, a usar argumentos, a enxergar o outro lado – alias necessidades de todos os gêneros, etnias, culturas.  Construções que não são fáceis de serem atingidas, mas como aprende-las se não convivendo entre os ‘diferentes’?

Assim, neste aniversario de dez anos, só temos a celebrar a existência, a felicidade e os desafios que o nosso meninão nos traz – com toda a sua vivacidade e energia.

Uma década de meninice! Ou a lúdica fiança

Quando tinha seis anos, o Alezinho ganhou um premio como ‘o jogador de futebol mais promissor na Australia’, entregue diretamente por Lucas Neill, na época o capitão da Seleção Australiana de Futebol, os Socceroos. Mais que por suas habilidades, ele foi o vencedor daquele concurso porque as fotos dele jogando mostravam que ele já era ‘o jogador sorridente’.

Essa é a mais pura das verdades. Nos campos, jogando bola em jogos oficiais ou em peladas no parque e na escola, ele continua sorrindo, vivendo intensamente o prazer de chutar uma bola, dar um drible, fazer uma assistência, ou mesmo de fazer boas defesas – um grande goleiro, nosso filhote.  Eu morro de medo dele logo mais se confrontar com o mundo violento e agressivo do futebol, e se decepcionar. Mas ele está  consciente disso, nós s conversamos muito a este respeito, e fazemos a critica dos ‘machões bobões’ que por vezes infestam o nosso amado esporte. Mas ele vai ter que aprender e tem batalhado para lidar com isso, com as diferentes manifestações de masculinidades, inclusive a ‘hegemônica’ com as suas demonstrações de ‘macheza’ no mundo esportivo– e desconstrui-las, como vem fazendo. Acredito que ele também faz uso da sua dança para reconfigurar a própria masculinidade: ele é um exímio dançarino! Faz sapateado desde os cinco anos de idade, entre outras danças urbanas; no palco ele apresenta uma energia toda particular, e um sorriso confiante!

Conviver com outras masculinidades agressivas tem sido  outro grande desafio para nosso filho, com certeza muito maior e mais difícil do que conviver entre as mulheres. Na escola, nos recreios, nos treinos esportivos…Ele tem batalhado para encontrar um equilíbrio entre conquistar o seu espaço e os distúrbios provocados por meninos que, por ainda não terem aprendido a viver e conviver com outros e outras, precisam impor suas vontades à  força. Equilíbrio é a palavra-chave aqui: outro dia, conversando com a sua professora, ela comentou a sua admiração pelo nosso menino, falando como ele era um garoto equilibrado, mostrava interesses diversos nas coisas da escola, no aprendizado, em ciências naturais, nas brincadeiras, nos esportes, na musica – e da dificuldade dele em se relacionar com os meninos mais agressivos.

Fico preocupado com o desenvolvimento da sua masculinidade. Mas acho que ate agora, nesta década de vida, ele vem se virando e se resolvendo bem. Penso que o segredo dele para conquistar  este equilíbrio  é o fato dele ser um menino extremamente lúdico, que brinca e se diverte muito com a vida, com seu corpo, seus amigos, sua família, suas experiências e suas ideias. Desde o inicio deste ano, ele vai sozinho para a escola, pedalando a sua bike – e me conta dos prazeres corporais e intelectuais, das aventuras que a vida sobre duas rodas lhe proporciona.

Nestes dez anos de meninice, filhão, te desejo exatamente isso: a construção e vivencia de uma masculinidade marota e lúdica, cheia de prazer e alegria. Em todos estes anos tem sido uma felicidade indescritível te acompanhar nestas caminhadas, cambalhotas, tropeços e corridas. Quero estar perto por pelo menos mais umas dez décadas.

Te amo.

Papai

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