100 Anos de Foot-ball no Maranhão

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Levantamentos históricos recentes dão conta de que o futebol, no Brasil, não foi introduzido por Charles Miller - brasileiro, filho de ingleses - em fins do século XIX, como comumente se afirma, e sim, que o esporte bretão foi implantado por práticas e clubes elitizados ao estilo pressuposto de sua pátria original. O futebol introduzido por ordens religiosas - jesuítas, por exemplo - que teriam se antecipado a Miller em duas décadas.

Nosso Dejard MARTINS, em suas memórias sobre o esporte em Maranhão - Esporte, um mergulho no tempo - afirma que a escalada do "foot-ball association" no Brasil se dá pelas primeiras "peladas" disputadas nas praias do Rio de Janeiro e de Santos, por marujos ingleses - algumas com a participação de funcionários de firmas inglesas -, já por volta de 1864, e que, em 1874, um grupo de marujos exibiu-se na praia da Glória.

No Colégio de São Luís, da cidade de Itu-SP, por volta de 1872 já se praticava um futebol, à moda da Universidade de Eton. Do que se tem conhecimento na formação da história do 'foot-ball' na Inglaterra, é que a Eton tinha deixado, há muito, a prática de um 'jogo de bola', mais particularmente o 'rugby' para associar-se a outras Universidades, que tinham feito opção pela prática do 'foot-ball association'. Demais, os padres Jesuítas foram adeptos dessa prática e não de uma outra modalidade de 'jogo de bola' no Brasil. Os padres recreavam-se com bola.

O relacionamento dos Jesuítas com a prática do "foot-ball association" e outras modalidades esportivas decorreu de uma necessidade recreativa. A partir de 1858, a Inglaterra, emérita praticante do "foot-ball" propagou-o pela Europa, sendo muito bem aceito, na Itália, pelos padres Jesuítas, sendo praticado no Colégio Pio-Americano de Roma. Os Jesuítas sentiram que essa modalidade esportiva atendia aos princípios pedagógicos na formação dos catecúmenos". Uma obra escrita pelo padre J. M. Madureira, intitulada 'A Companhia de Jesus: sua pedagogia e seus resultados', conta-nos a atividade dos religiosos no Brasil. Coincidência ou não, entre os padres que vieram ter em nosso País, dois eram ingleses: os irmãos Robert e William Godding. Coube-lhes desenvolver no Colégio São Luís de Itú o 'foot-nall association', em 1880, adoção que obedeceu aos mesmos princípios prevalecentes no Colégio Pio Latino-Americano de Roma.

Dejard Martins afirma ainda que, "... para nós, que pesquisamos o assunto, a convicção é de que o "foot-ball association" foi introduzido no Brasil como coisa nossa, em 1880, no Colégio de São Luís de Itu, por inspiração dos irmãos ingleses Robert e Willame Godding. Eles antecederam em 15 anos, a Charles Willame Müller, que no nosso entendimento, foi responsável, isso sim, pela popularização do esporte bretão no Brasil, quando de sua chegada em 1895 ... seria uma injustiça relegar a um plano secundário esse trabalho dos padres jesuítas ... e vamos mais longe. Sem dúvida, essa atividade recreativa deve ter-se espalhado por outros educandários dirigidos por essa Ordem religiosa".

Corroborando a tese da transferência do futebol inglês para o Brasil via educandários religiosos, há informações de que se praticava o futebol no Instituto Granbery, de Juiz de Fora/MG, pelo menos, a partir de 1893.  Fala-se, também, que empregados de empresas inglesas de navegação, de bancos e outros teriam, no Rio de Janeiro, em 1875, de maneira informal, praticado o "foot-ball association", como forma de encher o tempo, recreando-se.
Em São Paulo, Mr. Hugh, um inglês "bem situado na São Paulo Railway", teria difundido o futebol em Jundiaí/SP, formando equipes mescladas com ingleses e brasileiros, em 1882. Também tem-se notícias de um tal de Mr. John - que mais tarde dirigiria tecnicamente o Clube Atletico Paulistano - reunindo empregados de empresas britânicas: Serviços das Docas, Cabo Submarino, City e Leopoldina Railway, para praticar o futebol. Os agentes ingleses se manifestam tanto de forma anônima, na exibição de 'peladas' nas zonas portuárias, quanto individualemente através de firmas e instituições, como técnicos e professores em companhias inglesas, fábrica e colégios.

Atribuir a origem do futebol no Brasil a Charles Müller é reduzir a experiência histórica brasileira a uma única fonte: a documentação oficial de um grande clube paulista. Essa visão do "estudante que vem do exterior" e "introduz o futebol", tornou-se de tal modo um estereótipo que é quase cena comum localizar-se a reprodução do personagem - com algumas variáveis - em algumas regiões brasileiras: entre outros, no Rio, Oscar Cox, no Paraná, Charles Wright. A tendência  positivista de se localizar o 'lugar da origem'  - que geralmente ocupa um espaço privilegiado de poder - gera a necessidade de se criar 'heróis fundadores', perdendo-se de vista, muitas vezes, a percepção do processo em que a 'fundação' não tem própriamente um lugar único. Certamente iremos encontrar de norte a sul do Brasil, diversos Charles Müller 'fundando' o futebol.

O FABRIL ATHLETIC CLUB

"A direção do Fabril Athletic Club avisa aos seus sócios que ainda não tiraram convite, que os procurem hoje, até 10 horas da noite, na sede do mesmo club". (O MARANHÃO, Quinta feira, 24 de outubro de 1907)

Djard MARTINS (1989) em seu "Esporte - um mergulho no tempo" registra que o nascimento das atividades esportivas em Maranhão se dá pelas mãos de JOAQUIM MOREIRA ALVES DOS SANTOS - Nhozinho Santos - e do clube esportivo e social fundado na Fábrica "Santa Izabel", o FABRIL ATHLETIC CLUB - FAC -  para a prática do "foot-ball association". Também foram praticados o Tênis, o Cricket, o Crockt, o Tiro, e o Atletismo:
"INAUGURAÇÃO DO FOOT BALL - "Realizou-se hontem  a grande partida inaugural do Fabril Athletic Club, a qual revestiu-se de maior importancia. No concurso  do encilhamento foi vencedor o Sr. Serejo, na corrida em Tandem venceram os srs. Joachim Belchior e Manoel Lopes, no Place Kick [chute à bola] foram: em primeiro logar mister Dolber e em segundo mister J. Moon; no concurso de peso mister Moon. Na partida de Foot Ball, foi vencedor o partido encarnado. Como não estivessem devidamente preparados na Tug of War [cabo de guerra] os do partido preto, foi vencedor o encarnado. Houve um segundo desafio, que ficou indeciso. A residência do Club está muito bem preparada e a assistência do acto compareceram muitas famílias e cavalheiros da boa sociedade. Serviram de juizes da senha o sr. Edmundo Fernandes pelo Theam Black and Whate e Henoch Lima pelo Red & Whate. É, incontestavelmente, o Foot Ball a melhor diversão que existe no Maranhão. Damos parabéns  aos diretores de tão importante club, pelo esforço verdadeiramente louvavel que têm empregado em prol de uma instituição tão útil à saúde e à mocidade maranhense. A solenidade compareceram três bandas de música, as quaes executaram bellos trechos". (O MARANHÃO,  28 de outubro de 1907)

A primeira partida de futebol no Maranhão, oficialmente, foi disputada no dia 27 de outubro de 1907:  "... ficou definitivamente estabelecido que a data de 27 de outubro de 1907 era a data de fundação oficial da associação fabrilense. O clube, para festejar o evento, promoveu grande festa na sede social, à Rua Grande, 220 ... Várias atrações foram  organizada: concurso de encilhamento, que foi ganho por Serejo. Na corrida, sairam vencedores Joaquim  Belchior e M. Lopes. No 'place-kick' E. Dolber tirou o primeiro lugar, ficando Jasper [Moon] em segundo. No  concurso de peso, vitória de Jasper [Moon], que lançou o  peso à distância de 9 1/2 jardas. Depois, aconteceu o ponto alto das festividades, o jogo de futebol, reunindo as equipes internas do F.A.C.: 'Black and White' 'e 'Red and White', culminando com o triunfo dos 'vermelhos', por 2 a 0".

A segunda partida ocorreu em 24 de novembro de 1907, conforme noticiado em "O Maranhão": "FABRIL ATHLETIC CLUB - Com extraordinário concorrencia de famílias e cavalheiros, realisou hontem essa sympathica sociedade sportiva a sua segunda partida de foot ball. Coube ao partido preto os louros da victoria de hontem, por haver ganho dois goals contra um. A função começou a 3 1/2 da tarde. Pelo presidente do club foi offerecido, depois da partida, um volioso brinde ao capitão do partido vencedor. A festa, que correu com muita animação, durou até 8 horas da noite, terminando por um soiree, a piano, entre os socios do club e suas familias. Ao Fabril Athletic Club felicitamos pelo explendor da função de hontem." (O MARANHÃO, 25 de novembro de 1907).

Com a movimentação esportiva que se tinha nessa primeira década do século XX, "estávamos começando a experimentar uma época em que a nossa mocidade principiava a entender o quanto era importante praticar esporte e desenvolver a formação física" (MARTINS, 1989 : 261). Para esse autor, o esporte já não era novidade. Já se tinha conhecimento da prática do  "foot ball association" no Rio de Janeiro - Fluminense Futebol Clube, orientado por Oscar Cox - e em São Paulo - Clube Athletic paulistano, dirigido por John Hamilton.

Nhozinho Santos, ao regressar da Inglaterra em 1905 - onde fora estudar para técnico em indústria textil, na cidade de Liverpool -, tornara-se um ardoso praticante do "foot ball", e não se esquece de trazer em sua bagagem  os apetrechos necessários à prática desse esporte: chuteiras, apitos, bolas, etc., como também para outras atividades esportivas, como o "croket", "crickt", tênis.

Assim,  naquele final de ano de 1905, reuniram-se na residência dos Santos, na rua Grande, 1018 (Instituto Zoé Cerveira) além de Nhozinho,  seus irmãos Totó e Maneco, alguns amigos e convidados para tratar da implantação do "foot ball association" no Maranhão. Além dos irmão Santos, estiveram presentes: John Shipton, John Moon, Ernest Dobler, ingleses empregados na Boot Stearship Co. Ld. - Mala Real Inglesa -, Botho & Co. Ld., e os maranhenses Izidoro Aguiar, Edmundo Fernandes, Afonso Gandra, José Ramos Bastos, Antero Novaes, Carlos Neves, Antero Serejo, e outros mais.

Ficou estabelecido que na vasta área da Fábrica seria construido um campo para a prática do futebol. Foram sacrificadas algumas árvores, para que tivesse as dimensões necessárias para a pratica do esporte.

A princípio houve alguma dificuldade para se arranjar os onze jogadores para se formarem os times. Os treinamentos eram realizados com dois quadros de oito jogadores, cada. As competições no campo do FAC começaram a despertar a curiosidade dos transeuntes, que assistiam as partidas através de aberturas no cercado da Fabril. Ninguém entendia do que se tratava, ao observarem os rapazes correndo atras da bola, pois havia muita disputa e muita algazarra: "Sucederam-se os treinamentos com os 'sportmen' apurando a forma técnica, entendo melhor as regras ... não havia treinamentos físicos. A resistência vinha em decorrência do maior tempo dos coleticos que, às vezes, processavam-se até não ser mais enxergada a bola. Assim, decorreu o ano de 1906, uma ou outra disputa entre as duas formações, usando camisas e chuteiras e as bolas importadas".

Com a instituição do Fabril Athletic Club e a constituição das duas equipes, e por força das sucessivas disputas, criou-se uma rivalidade importante para despertar o maior entusiasmo pela conquista de belos feitos: "O primeiro embate oficializado pelo F.A.C. aconteceu a 28 de maio de 1907. No final, ocorreu a igualdade (2 a 2). Naquele tempo, um jogo empate reclamava logo a realização de outro para conhecer-se o vencedor. Isso ocorreu a 16 de junho de 1907, dessa feita com a vitória do 'Black and White' (1 a 0)". (MARTINS, 1989 : 285).

As equipe eram formadas pelos times do "Black and White": João Mário; A. Vieira e G. Costa Rodrigues; E. Simas, Moraes Rego e Joaquim Ferreira Belchior; F. Machado, John Shipton, John Moon, M. Lopes e C. Gandra. O do "Red and White" era formado por: João Alves dos Santos; Izidoro Aguiar e Alcindo Oliveira; Afonso Guilhon, Aluízio Azevedo e José Ramos Bastos, Antero Novaes, Ernesto Dobler, Carlos Neves, Manoel Alves dos Santos e Antero Serejo.

Embora Martins registre a data de 28 de maio de 1907 como sendo da primeira partida oficializada, ocorreu uma antes, a 12 de abril daquele ano, entre as equipes internas dos "Pretos" (Black and White) e a dos "Encarnados" (Red and White), com a duração de 50 minutos, com dois tempos de 25, com a vitória dos "pretos", por 1 x 0. O jogo teve prosseguimento, por mais 15 minutos, permanecendo o resultado. Essas equipes disputaram outras partidas:

26.05.1907 - Black and White 2 x Red and White 2
16.06.1907 - Black and White 1 x Red and White 0
25.06.1907 - Black and White 2 x Red and White 2
23.06.1907 - Black and White 1 x Red and White 1
26.06.1907 - Black and White 1 x Red and White 3
07.07.1907 - Black and White 0 x Red and White 2
14.07.1907 - Black and White 0 x Red and White 1

Podemos observar com certa facilidade que existe na trajetória histórica do futebol brasileiro determinantes que são comuns nas equipes que foram criadas até o iníco deste século (FREITAS FILHO, 1998, 2000). Uma das matrizes propostas por esse autor repete-se em São Luís do Maranhão: "... a convivência de estudantes brasileiros em escolas européias, nos quais a prática do futebol era bastante difundida. Quando retornam ao Brasil, estes estudantes apresentam este jogo para os seus amigos, e mesmo tendo certas dificuldades face às práticas esportivas dominantes na época, o futebol acabou sendo incorporado".  (p. 237).

Servimo-nos, uma vez mais, de Dejard Martins: "Houve muita semelhança no procedimento de Charles Müller e Nhozinho Santos. O paulista educou-se em Southampton e o maranhense, em Liverpool, ambas cidades inglesas. Até na idade ambos estavam certos, 21 anos. A diferença estava apenas na facilidade encontrada por Charles Müller para introduzir o futebol, porque já encontrou os ingleses do São Paulo Railway, um clube em franca atividade esportiva. Já Nhozinho, com a ajuda dos parentes, de amigos e de ingleses, aqui residentes, teve que fundar uma associação - o Fabril Atheltic Club - FAC, recrutar os poucos rapazes estrangeiros que trabalhavam em São Luís, no London Bank, Both Line Co., Westers, e que não eram muito amantes do 'foot-ball association'. Charles Müller era 'center-forward' e Nhozinho, 'goal-keeper'.". (p. 143).

Concordamos que a herança inglesa e norte-americana encontrada no esporte latino-americano não é somente paradoxal, como definiu Arbena, mas sobretudo pouco relevante pois foi apenas um ponto de partida.

Mas não se praticava só o "foot ball".  Também jogava-se o tênis, todos os dias, depois das quatro da tarde, sendo construida uma quadra regulamentar e "lá os amantes dessa prática deleitavam-se nesse elegante esporte". As festas dançantes, realizadas em seus salões, eram as mais requintadas, assim como realizavam-se conferências e representações teatrais. Mas estas, já são outras histórias ...

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