A Ação Pedagógica do Professor de Educação Física Diante do Envelhecimento e do Consumo em Tempos de Capitalismo

Por: Sérgio Gustavo Alves.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Envelhecimento e consumo

Como não entender o processo natural da passagem dos anos, a mudança dos tempos, a influência devastadora dos conceitos do capitalismo que gera nos seres humanos o individualismo, o consumo e o conceito do descartável. A própria palavra velho, segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, significa "desusado", "antiquado" e "obsoleto". O termo serve para descartar coisas que já expiraram sua vida útil, é um termo cruel na concepção cartesiana, diferente do velho humano que expressa carinho, como: "o meu velho pai, o meu velho amigo etc."

O homem se tornou objeto de consumo na produção de bens e capital. O velho rio que corta meu bairro que deixou de ser caudaloso, perdeu muito da sua magnitude e hoje tem o aspecto descuidado, largado, consumido e diminuído, ou seja na ótica cartesiana meu velho rio está velho, sendo que, diante do bom senso dos que o usurpam a vitalidade, poderia retomar o seu velho fluxo, obviamente em detrimento dos que de certa forma invadem os seus leitos para se servir de suas riquezas.


Segundo Boff (2002)


"A nova ordem surgida após a implosão do mundo socialista não melhorou a situação do mundo. Ao contrário, radicalizou as contradições internas. O fosso entre riqueza e pobreza aumentou. O estado da terra é dramático. As promessas de paz duradouras esvaneceram-se logo. A lógica individualista e não-cooperativa da cultura do capital destruiu os laços de solidariedade entre os povos, exacerbou o individualismo, tentou desconstruir o Estado, visto como obstáculo à expansão dos capitais, e desmoralizar a política como busca comum do bem do povo, transformado-a em busca do bom funcionamento da globalização capitalista".

A grande preocupação teológica da igreja, em sua defesa dogmática pela bioética, onde a preservação da vida é algo indiscutível, inquestionável, a ponto de se contrapor ao incentivo da camisinha, ou outras formas que não prevaleçam a procriação como homossexualismo ou uso de contraceptivos, onde, milhões de pessoas contraem AIDS, e a preocupação é com a geração de vida para alimentar os mercados de mão de obra.

Segundo Romer (2003)

"Alemanha, Itália e Espanha, nações de uma vitalidade admirável há poucas décadas, com uma taxa de natalidade boa, estão vivendo uma angústia. Políticos da Alemanha tem dito que daqui a 45 anos faltarão 16 milhões de alemães para compor o mercado de trabalho se não houver uma mudança drástica nas tendências. Se continuar assim continentes inteiros terão um inverno demográfico assustador."
Essa necessidade de reserva de mão de obra jovem é uma necessidade do capitalismo, que não dá oportunidade de trabalho ao velho que é visto como lento na produção, e que em situações mais cruéis de países em desenvolvimento, com suas previdências falidas não dão nem o direito ao consumo de bens mais sofisticados, quando não tem que complementar a renda familiar para o auxilio da criação dos netos, ou em casos mais extremos onde são internados em instituições e perdem para outros o direito a gerir seu benefício da aposentadoria muitas das vezes ficando sem nenhum dinheiro para suas necessidades básicas.

Poderíamos nós educadores mudarmos tal situação, diante de tanta desigualdade social, onde a saúde do país caminha a passos lentos, para quem não tem como pagar, e morrem em filas de espera? Como pode existir um governo federal, estadual ou mesmo municipal que não fiscalizam seus recursos ou os deixam chafurdar no mar da corrupção, e pior conselhos locais especializados que atendem a interesses políticos e jogam pessoas de lugar para lugar, instituições que não deveriam gerar lucros e reverter todo o recurso disponível pelo SUS para o bem estar de nossos velhos, dando-lhes melhores condições de vida.

Segundo Medeiros e Diniz (2004) "Inúmeros outros casos demonstram que a deficiência não é uma experiência limitada a uma minoria reduzida, mas um fato ordinário e previsível no curso de vida das pessoas, assim como o envelhecimento".

Socialmente inadmissível a passagem do tempo é um fator natural, por qual todos vamos passar, mas que só admitimos, quando nos faltam a eficiência, e deparamos com fatos aos quais, precisamos de algum tipo de ajuda, por menor que seja, se a morte não vier de forma fulminante, como muitos gostariam que acontecesse, poderemos ficar dependentes, deficientes, e nosso destino poderá ser uma instituição onde as moscas serão seus amigos de convivência simbiótica. E uma parte dos recursos que deveriam ser destinadas a sua manutenção tem que ser revertidas em lucro para a instituição privada.

Para Monteiro(2003) "O humano é subjetivo, indeterminado, e não um objeto que possa ser classificado em série. Portanto a velhice não pode ser vista exclusivamente por uma perspectiva biológica, porque o humano não é somente uma entidade biológica. É, também, um ser social, cultural, psicológico e espiritual"

O homem busca a igualdade, mas não consegue compartilhar, socializar com os que estão além de seus mais íntimos, quando muito, não percebe, que estes outros, também são de sua responsabilidade. O tempo tomado pelas rápidas viradas econômicas e as novas invenções do mundo moderno, não permitem que este seja solidário para com os que estão a margem do sistema, parece mesmo que o programa a qual estamos inseridos estar com falhas graves, e a maquina não consegue buscar alternativas viáveis para que todos possam estar incluídos no mesmo contexto social, e colar esta etapa da era que convivemos lado a lado, tão próximos em época de globalização e tão sem visão do humano, é um momento único no meio dos séculos a qual virão, driblando a adversidade e solucionando de forma radical as deficiências do sistema ou sucumbindo ao percebido descontrole social, que afetará a todos os remanescentes do planeta.

A pratica pedagógica

Sabemos que não podemos salvar o mundo, mas também não podemos deixar de sonhar com um mundo socialmente melhor que atenda, principalmente estas pessoas que são colocadas as margens do rio do produtivismo do consumismo, ou seja, valores disseminados pelo capitalismo, onde pessoas são usadas o tempo todo, em benefício dos que estão no topo da pirâmide social do país.
Segundo Freire(2001)

"Imoral é a dominação econômica, imoral é a dominação social, imoral é o racismo, imoral é a violência dos mais fortes sobre os mais fracos. Imoral é o mando das classes dominantes de uma sociedade sobre a totalidade de outra, que deles se torna puro objeto, com sua maior ou menor dose de conivência."

O respeito às minorias inclusas no contexto, que fazem parte da massa produtiva do país, e que são execrados a guetos e não conseguem desvincular-se de preconceitos perpetuados, muita das vezes na própria escola, ou mesmo na formação dos professores, futuros educadores e propagadores do conhecimento, que é objeto de aproximação à verdade em níveis maiores ou menores.

A afirmação de Vitor Marinho (1983) de que Educação Física é Educação, que o uso do desporto é meio e não fim, um auxílio pedagógico de interação em grupo, rico e diverso, possibilitando integração entre pratica e conhecimento corporal, social, político, humano e tantos outros, mas para tanto há de se educar o educador, o investimento de base.

Educadores preparados para formar indivíduos críticos com a capacidade de distinguir as maquinações ideológicas, produzidas politicamente pelas classes dominantes, que é a maioria delegando poder a uma minoria que manipula todo o complexo sistema, que faz com que o conhecimento não seja objeto de desejo, dissemina o consumo, o prazer pelo fácil, pelo entretenimento sem conteudo dos programas de televisão, que de quebra ainda trazem a mídia devastadora, indutiva ao supérfluo, ao imediatismo.

Cabe aos educadores abrir janelas para o conhecimento, permitir, propiciar o acesso dos que tem vontade de busca-lo, mas são vencidos pelas disseminações inerentes da incompreensão do fato criado, manipulado.

Conclusão

Medina citado por Marinho (2005), coloca que: mudando os homens a sociedade mudará, e ainda: "Uma revolução verdadeira exige uma participação crítica de toda uma coletividade interessada em melhorar o padrão cultural de todos os seus membros [...] (recuperando) o sentido humano do corpo" (p. 145).

A transformação da sociedade depende da participação ativa de todos os educadores, inclusive o professor de educação física, onde o saber, o conhecimento, seja difundido e objeto de desejo de fácil acesso a todas as classes.

Como relata Löwy (2000) "A verdade absoluta jamais será conhecida, todo o processo de conhecimento é um processo de acercamento, de aproximação à verdade. Dentro do conhecimento cientifico há níveis maiores ou menores de aproximação da verdade".

Que o professor de educação física não se restrinja a pratica desportiva, que esta seja mais uma forma de educar, socializar o aluno para que esta sociedade injusta que necessita ser moldada, às custas de uma transformação radical do ensino da educação física, que nosso papel não é adestramento, e sim colaborar na preparação do indivíduo, para a vida, um indivíduo que envelhece, e para a verdadeira transformação social, que anseia o Brasil e o mundo, uma sociedade mais atenta e complacente com as diferenças de religião, nacionalidades, opção sexual, ou seja o respeito as desigualdades, que são tão questionadas e na verdade se assemelham.

Pela lei natural da vida todos estamos mais velhos a cada segundo, que o respeito aos nossos velhos, como pessoas que produziram uma vida inteira, o direito a gerir sua vida, participando das decisões, principalmente as que lhe afetam diretamente.

Os nossos velhos necessitam de dignidade tanto no processo de viver quanto no processo de morrer.

Aos nossos alunos uma educação global, não a dicotomia do corpo, que o tornem um indivíduo crítico e humano
Obs. O autor Sérgio Gustavo Alves (guga@compuland.com.br) é da UC Petrópolis

Referências bibliográficas:

  • Monteiro, Pedro Paulo,Envelhecer, Histórias, Encontros e Transformações, 2ºed. Belo Horizonte, Autêntica, 2003.
  • Freire, Paulo, Política e Educação, São Paulo, Cortez, 2001.
  • Boff, Leonardo, Fundamentalismo: Globalização e o Futuro da Humanidade, Rio de Janeiro, Sextante, 2002.
  • Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda, Novo Aurélio século XXI: O Dicionário da Língua Portuguesa, 3º ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999.
  • Marinho, Vitor, O que é Educação Física, São Paulo,Brasiliense,1983.
  • Marinho, Vitor, Consenso e Conflito, Educação Física Brasileira, 2º ed. Rio de Janeiro, Shape, 2005.
  • Löwy, Michael. Ideologias e Ciências Social: Elementos para uma análise Marxista, São Paulo, Cortez, 2000.
  • Notas: Veja entrevista (paginas amarelas): Karl Josef Romer (2003)

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