A Avaliação Antropométrica na Escola: Mais Que Uma Abordagem Anátomo-fisiológica

Por: Vagner Maia Brandão.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (1998), um dos objetivos do Ensino Fundamental (3° e 4° Ciclos) é:
"fazer com que os alunos sejam capazes de conhecer o próprio corpo e de cuidar, valorizando e adotando hábitos saudáveis como um dos aspectos básicos da qualidade de vida e agindo com responsabilidade em relação à sua saúde e à saúde coletiva" (pág. 7).

Tendo isso em vista, este estudo justifica-se pelo intuito de propor uma avaliação antropométrica na escola como forma de acompanhar o desenvolvimento dos alunos, tendo a intenção de fazê-los conhecer a diversidade de padrões de saúde, beleza e desempenho que existem nos diferentes grupos sociais, analisando criticamente os padrões divulgados pela mídia. Dentro de uma perspectiva que não sirva apenas como uma forma de classifica-los ou para se obter uma informação vazia e sem utilidade.

O objetivo deste trabalho é: analisar a possibilidade de uma avaliação antropométrica na escola nos quatro anos finais do Ensino Fundamental como um ponto de partida para se configurar, nas aulas de Educação Física, momentos de reflexão e discussão sobre o corpo, sociedade, ética, estética e relações interpessoais.

Não é intenção do autor tentar trazer de volta ideais da concepção higienista de Educação Física, onde havia a preocupação singular de formar pessoas sadias, fortes, dispostas a ação, muito menos da concepção Eugenista com uma perspectiva de seleção, eliminando os fracos e premiando os fortes, no sentido de "depuração da raça" (Ghiraldelli, 1988).

E sim, desenvolver uma grande oportunidade de se trabalhar aspectos ligados a saúde, e abordar temas atuais como: importância da prática de atividade física; mídia e o processo de criação de estereótipos; alimentação; atualidades do esporte; características relacionadas ao gênero e respeito às diferenças; sexualidade, entre outros.

Portanto, essa proposta de avaliação antropométrica não é um ato isolado de avaliar por avaliar para se obter dados que, provavelmente, sem um aprofundado debate não leve a nenhum processo de reflexão e conscientização.

Avaliação antropométrica na escola

"A educação física escolar é uma disciplina que trata, pedagogicamente, na escola de uma área denominada aqui de cultura corporal" (COLETIVO DE AUTORES, 1992, P.62). No seu corpo de conteúdos podem ser abordados assuntos relacionados à saúde, valores éticos, sociais, culturais e políticos.
Ela pode proporcionar informações e estimular os estudantes à adoção de comportamentos favoráveis para a manutenção ou aprimoramento de componentes do estilo de vida relacionados à saúde, através de intervenções que promovam não só o desenvolvimento de habilidades físicas, mas também de habilidades cognitivas, afetivas e sociais que por fim reflitam em comportamentos mais conscientes, autônomos e positivos em relação à saúde e qualidade de vida.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1998) propõem três blocos de conteúdos, onde um deles é o conhecimento sobre o corpo. Para se conhecer o corpo, além de abordar os conhecimentos anatômicos, fisiológicos e biomecânicos, é importante a compreensão da dimensão emocional.

Segundo COLL (1996) e ZABALLA (1999), conteúdo está relacionado com conhecimento ou saber, portanto, é tudo aquilo que possui um objetivo de aprendizagem em uma proposta educacional.

DANTAS (2005) trata incessantemente do tema corpo, abordando-o historicamente dentro de várias perspectivas (ética, cultural, sócio-política, artística, estética, entre outras). E segundo Romero, autora de um dos capítulos do livro:
"urge uma mudança de mentalidade e de práxis educativa, a partir de uma conscientização corporal, e, nesta mudança, é preciso que haja um pensamento uníssono em torno de um objeto: o homem. Mas é preciso vê-lo não dissecado ou decantando seus movimentos, mas vê-lo na sua totalidade, na sua corporeidade" (p. 89).

No entanto, a Educação Física em nosso sistema de ensino, geralmente, tem sido caracterizada pela prática de exercícios físicos, ou práticas esportivas, desprovidas de um planejamento educacional com objetivos claramente estruturados, uma metodologia bem fundamentada e uma avaliação criteriosa.

Sobre isso, SHIGUNOV & NETO (2002) relatam que observa-se que na Educação Física escolar não constam objetivos direcionando o ensino desta disciplina para uma prática continuada das atividades físico-motoras, e em muitas escolas, as aulas teóricas são praticamente inexistentes. Além disso, na preparação das aulas, poucos são os que modernizam os conteúdos, os processos e os objetivos, ministrando todos os anos o mesmo assunto.

Isso tem contribuído para construção de uma concepção técnico-esportiva que permanece hegemônica, reproduzindo e reforçando um modelo de homem e sociedade excludente, alienante e pouco significativo em termos de valores para a qualidade de vida.

As aulas de Educação Física não devem atingir extremos: totalmente prática ou somente teorização. A Educação Física é uma área de conhecimento que possui uma especificidade: o movimento humano consciente. É preciso que a prática seja realizada com embasamento teórico, sem perder suas características.

Na maioria das instituições os professores têm priorizado e enfatizado os conteúdos técnicos e fisiológicos das ciências do movimento humano, criando um esteriótipo tecnicista e pouco significativo as suas intervenções.

O movimento a ser privilegiado na ação educativa deve vir revestido de uma dimensão que extrapola limites orgânicos e biológicos, deve ser analisado em sua totalidade, resultante segundo Castellani (1988) da interação bio-fisiológica e sócio-cultural.

Por isso, é importante que o aluno perceba o ser humano como um todo (ser biológico, social e cultural) e não mais numa visão cartesiana, onde o homem é dividido em partes.

Nesse sentido, a avaliação antropométrica representa um importante recurso de assessoramento para análise física de um indivíduo, seja ele atleta ou não, pois oferece informações ligadas ao crescimento, desenvolvimento e envelhecimento (Marins, 1998, p.33).

Medidas como massa corporal, estatura, percentual de gordura, perímetros (torácico, abdominal, braço, antebraço, coxa, perna) podem ser mensuradas numa nova perspectiva de conhecimento do corporal, além de análise postural.

É importante que se utilize metodologia, protocolos e critérios de avaliação adequados. Além disso, as avaliações devem ser periódicas, permitindo uma comparação.

Todo o processo deve ser discutido para que os alunos não adotem uma postura passiva de apenas absorver as informações. O quê está sendo medido, como e para quê, à todo momento deve estar claro para os alunos. Inclusive, com os mesmos podendo participar da mensuração.

Os resultados não devem ter impacto negativo, a avaliação deve ser encarada com naturalidade e servir de base para futuros planos e conquistas nos diferentes aspectos, e numa perspectiva de prevenção.

É importante fazer com que os alunos entendam o corpo não só anatomicamente ou fisiologicamente, mas o corpo atual, impregnado de novos valores de moral, de beleza, marcado pelas características da sociedade em que está inserido.

O diálogo deve ser permanentemente estabelecido para que aconteça a abordagem de outras temáticas imprescindíveis para concretização de uma prática pedagógica reflexiva e consciente. Só assim é que surge a oportunidade de se fazer uma ligação com questões sócio-culturais como: envelhecimento, sexualidade, diferenças de gênero (construção cultural e fatores biológicos), deficiências motores e respeito às diferenças, crescimento e desenvolvimento, modismo e estereotipação, esteróides anabolizantes, atividade física e saúde (qualidade de vida e fitness), entre outras.

Considerações finais

A avaliação antropométrica não pode ser considerada como solução para a abordagem de conhecimentos relacionados ao corpo. Na verdade, ela é apenas mais um instrumento que se utilizado de forma coerente, e dependendo da intencionalidade, pode fornecer informações para aquisição de conhecimento sobre o próprio corpo e, de valorização e adoção de hábitos saudáveis. Além de compor um programa de análise e reflexão da realidade com seus grandes problemas sócio-culturais.

A prática desta avaliação deve partir de alguns pressupostos que direcionam, orientam, não só a intencionalidade de quem propõe a avaliação mas, igualmente, a escolha dos procedimentos a serem adotados e, principalmente, o que fazer com os resultados conseguidos.

O interesse dos alunos por temas ligados ao corpo e saúde é compreensível já que são conhecimentos que têm significado e que podem ser utilizados em suas vidas diárias. Também são temas abordados constantemente pela mídia. Além disso, fazem referência à estética, aspecto valorizado pelos adolescentes.

Esta aproximação com a realidade dos alunos, pode propiciar o confronto do conhecimento científico com o saber que esses trazem do cotidiano. Além disso, o aprofundamento sobre a realidade através da problematização desperta curiosidade e motivação nos alunos.

Porém, na atualidade a expectativa de corpo que se tornou hegemônica está fundamentada a partir de seu culto. Assim, a mercadorização do corpo torna-se presente na sociedade atual, na qual esse corpo mercadoria é moldado e vendido pelo mercado, constituído por academias, clubes, medicamentos e produtos de beleza, manuais de dieta e intervenções cirúrgicas que têm se expandido cada vez mais.

Cabe também a Educação Física escolar desmistificar essa visão de corpo-mercadoria e fazer com que os alunos conheçam a diversidade de padrões de saúde, beleza e desempenho que existem nos diferentes grupos sociais, analisando criticamente os padrões divulgados pela mídia e evitando o consumismo e o preconceito

Obs. O autor, prof. Vagner Maia Brandão (vagnermaiab@ig.com.br) leciona na rede municipal de R das Ostras

Referências bbliográficas

  • Brasil. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física/Secretaria de Educação Fundamental (3º e 4º Ciclos), Brasília: MEC/SEF, 1998.
  • Brito L T, Matarelli L M. A importância da produção de conhecimento na Educação Física Escolar. In: GARCIA E S, LEMOS K L, GRECO P J. Temas Atuais IV em Educação Física e Esportes. 1ª ed. Belo Horizonte: Health, 1999.
  • Coletivo de autores. Metodologia do ensino de educação física. São Paulo: Cortez, 1992.
  • COLL C. Os componentes do Currículo. In: Psicologia e Currículo: Uma aproximação psicopedagógica à elaboração do currículo escolar. 1ª ed., São Paulo: Ed. Ática, 1996.
  • Dantas, Estélio H. M. Pensando o corpo e o movimento. Rio de Janeiro: Shape, 2005.
  • Ghiraldelli JUNIOR, Paulo. Educação Física progressista: a pedagogia crítico-social dos conteúdos e a Educação Física brasileira. São Paulo: Loyola, 1988.
  • Shigunov, Viktor & Neto, Alexandre Shigunov. Educação Física: conhecimento teórico x prática pedagógica. Porto Alegre: Meditação, 2002.
  • Zaballa A. Introdução. In: Como trabalhar os conteúdos procedimentais em aula. 2º ed. Porto Alegre: Artes Médicas Sul Ltda., 1999.
  • Zaballa A. Educação Física. In: Como trabalhar os conteúdos procedimentais em aula. 2º ed. Porto Alegre: Artes Médicas Sul Ltda., 1999.

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