A competição do esporte: Uma vitória ou derrota para a Educação Física?

Por: Diná Teresa Ramos de Oliveira.

VI EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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 Abordo neste trabalho, orientada pela perspectiva de uma ressignificação crítica do esporte(1), o(s) significado(s) da competição do/no esporte e os significados do esporte para aqueles que competem. Para tanto, discuto o padrão hegemônico de vivência esportiva/competitiva produzido e reproduzido socialmente, pautado na lógica da necessidade da vitória, do sucesso, da supremacia, da sobrepujança - elementos observados no esporte de alto rendimento, encontrado nas aulas de Educação Física, valorizado nas propostas de ensino do esporte, vivido nas peladas de final de semana etc. Perante o intento de superação de tal lógica esportiva (e não do esporte), com o prevalecente binômio vitória-derrota, desenvolvo uma reflexão sobre o sentido da oposição entre participantes ou equipes no esporte (competição) e aponto para a necessidade de uma significação crítica ou ressignificação crítica do esporte na vida das pessoas e na sociedade.


 Os debates e sistematizações sobre a Educação Física escolar que se orientam por um Projeto Político-Pedagógico crítico e localizam a Educação Física de forma comprometida com uma perspectiva, quer seja, transformadora, crítico-superadora, revolucionária, emancipatória ou simplesmente crítica, apresentam uma apreciação minuciosa sobre o esporte que serviu e ainda serve de modelo para as aulas de Educação Física - o Esporte espetacularizado e de Alto Rendimento. São apresentadas críticas aos interesses sociais, políticos e econômicos alicerçados nessa lógica esportiva (Bracht:1997), aos processos de socialização presentes e vigentes no esporte referenciado no modelo de alto rendimento (Bracht:1992), bem como, fortes questionamentos às propostas de ensino que também produzem e reproduzem essa mesma lógica.


 As principais críticas ao ensino do esporte pautado no padrão espetáculo e do alto rendimento, sintetizadas a partir dos estudos de Betti (1991), Bracht (1992,1997), Coletivo de Autores (1992), Kunz (1994), Reis (1994), Rigo (1995), Paes (1996) e Assis de Oliveira (1999), apontam que nessa orientação o esporte: ocorre de forma descontextualizada; de maneira autoritária; é excludente, valoriza os que sabem mais; limita a compreensão das/os alunas/os sobre o fenômeno esportivo; promove o respeito as regras e normas de forma incondicional; é alienante e acrítico; valoriza somente o vencedor; promove o individualismo; é extremamente diretivo; apresenta sessões com repetições exaustivas de movimentos estereotipados; e menoscaba o caráter lúdico.


 De tal forma, a Educação Física - no cotidiano das aulas, na divisão das alunas e dos alunos para as atividades, na seleção das/os melhores para participarem das equipes de treinamento, na exclusão das/os menos hábeis, fortes, ágeis, na participação servil nos oficiais Jogos Escolares etc. - sempre fiel a lógica universalizada do esporte de alto rendimento, representa importante aliada ao padrão hegemônico de vivência esportiva/competitiva pautada no binômio vitória-derrota. Portanto, ao considerar tal quadro e na expectativa de buscar superá-lo é necessário apreender o modo como vem sendo realizado o esporte, questionando a lógica socializada da necessidade de sempre precisar estar vencendo o outro e de derrotar alguém para satisfazer-se, desejar, almejar e participar da cultura esportiva.


 O que se defende não é portanto a eliminação do esporte das aulas de Educação Física, visão maniqueísta que, segundo Bracht (2000/2001), representou um grande equívoco da área. Mas sim, a defesa do esporte, que exige uma transformação didático pedagógica (Kunz:1994), uma reinvenção (Assis de Oliveira:1999) ou, como prefiro me referir, uma ressignificação crítica do esporte e do significado da competição para os participantes (Oliveira:2002).


 A questão que destaco neste artigo é justamente a compreensão equivocada de que o problema do/no esporte está na competição. Nesse caso, jogos de futebol, vôlei, basquete ou qualquer outro jogo esportivo coletivo deveriam ser eliminados, afinal, seguindo a mesma linha de raciocínio, apresentam na sua estrutura específica a competição como elemento característico. Evidencia-se, assim, a confusão que se faz entre o significado da competição no esporte e o significado dado pelos participantes/jogadores (alunas/os ou não).
Vencer? Jogar? Sobrepujar? Divertir-se? Subjugar? Inventar? Derrotar?


 A violência, a rivalidade exacerbada, a subjugação do adversário - situações nitidamente observadas no esporte, principalmente nas modalidades coletivas - não são inerentes ao esporte, mas sim, são expressões dos participantes que têm como a grande meta a ser alcançada, senão a única, vencer (sequer estou falando do esporte profissional, das equipes, dos patrocinadores etc. Preocupa-me o esporte no não-trabalho).


 Por conseguinte, para vencer vale: agredir - mesmo que dentro da regra; usar a força para machucar ou mesmo eliminar um participante-adversário da disputa; vale também ofender e xingar o outro; ameaçar - de preferência sem que o juiz/árbitro perceba; além de outras situações que poderiam retratar o ideal exclusivo da vitória. Poderia mesmo afirmar que, para alguns participantes do esporte, a vitória é mais completa quando além do placar vantajoso à sua equipe, o adversário também é submetido aos fatores anteriores. Afinal, o que, usualmente, dá sentido para as pessoas em participar do esporte é poder vencer, de preferência ser melhor e vencer.


 Na expectativa de superar essa lógica predominante no esporte, é apresentada por Kunz (1994) uma proposta na qual o autor aponta para uma transformação didático-pedagógica do esporte, a qual consiste na manutenção do significado central de cada modalidade esportiva e da transformação do sentido para os participantes. Afirma o autor que as principais alterações devem ser, "em relação às insuficientes condições físicas e técnicas do aluno para realizar com certa ’perfeição’ a modalidade em questão. Esta ’perfeição’ se concretiza a nível de prazer e satisfação do aluno e não no modelo de competição" (1994,120). O autor explica melhor a proposta de transformação didático-pedagógica do esporte usando o exemplo da corrida de velocidade no atletismo,


 (...) o significado do se-movimentar numa corrida de velocidade no Atletismo é justamente o correr à toda velocidade. Este significado da corrida de velocidade no atletismo, caso o conteúdo que se pretende trabalhar é o Atletismo permaneceria inalterado. Do contrário, também não estaríamos trabalhando com o conteúdo de uma modalidade esportiva chamada Atletismo. O mesmo deve acontecer com qualquer outra modalidade esportiva. (Kunz, 1994:119-120)


 (...) o mais importante nesta transformação, é que enquanto o significado dos movimentos esportivos permanece, o sentido individual e coletivo muda. Exemplificando com a corrida de velocidade do atletismo, o sentido desta corrida para um atleta é a "minimização de tempo" (...). (Kunz,1994:120)


 Compreendida a manutenção do significado central e transformação do sentido do esporte para os participantes, exemplificada pelo autor com o atletismo, retomo a questão das modalidades do esporte coletivo, que pode levar a outros equívocos. Afinal, qual é o significado central a ser mantido nas modalidades esportivas coletivas e competitivas? Uma possível e imediata resposta é: marcar mais pontos/gols que a outra equipe. O que não está errado, mas, se essa lógica for mantida, uma equipe com menos pontos/gols que a outra estará em situação de desvantagem e isso acarretará uma incompatibilidade de objetivos para as equipes e a impossibilidade de garantir uma mudança do sentido para os participantes. É exatamente essa situação que costuma ocorrer no padrão hegemônico do esporte em que um placar inferior ao final do jogo representa um sentimento de fracasso, e mesmo um demérito para a equipe derrotada, por ser a vitória sobre a equipe adversária o sentido cotidiano dado ao esporte - aquele que leva as pessoas a participarem da competição.


 Por outro lado, ao compreendermos que o significado central do esporte coletivo está em marcar pontos/gols e evitar sofrê-los, não há incompatibilidade de objetivos para as equipes participantes. Com essa compreensão do significado central também se constitui uma mudança do sentido para os participantes do jogo esportivo coletivo. Nesse caso, está mantida a lógica do esporte, com a competição e a disputa entre as equipes, mas não a rivalidade ou a sobrepujança e o placar final passa a ter aspecto secundário.


 Evidente que aqui se localiza a grande dificuldade desta proposta: transformar o significado, ou sentido como defende Kunz, que os participantes dão ao jogo, que diante da lógica do esporte de alto rendimento, está em vencer, ao invés de participar, compartilhar ou mesmo jogar.


 Portanto, para tal mudança, não há problemas em competir, mesmo porque é do caráter competitivo em tentar marcar pontos/gols e não sofrê-los que está o significado central dos jogos do esporte coletivo. A disputa e a competição não representam portanto um elemento que deva ser extraído do esporte coletivo, mantendo o seu significado central. Assim, o que se coloca como fundamental, é a necessidade de alteração do sentido do esporte ou a sua ressignificação crítica pelos seres humanos.


 Destas reflexões fica patente a necessidade de aprofundamento da temática e o próprio Kunz (1994) aponta que o acúmulo de discussões aparentemente ainda não forjou respostas consistentes, desfiando críticas e desafiando o ensino do esporte. Sem dúvida, discutir sobre a competição no esporte representa apenas um dos elementos necessários a uma ressignificação crítica do esporte na nossa sociedade e a uma Educação Física comprometida com as transformações necessárias a indecorosa realidade social.


 Notas


 1. Esse artigo é fruto da dissertação de mestrado; "Por uma Ressignificação crítica do esporte na Educação Física: uma intervenção na escola pública", desenvolvida através de um processo de reflexão, revisão da literatura e um trabalho de intervenção pedagógica junto a uma turma de 5a série de uma escola pública do Ensino Fundamental de Campinas na qual trabalhei, orientada pela dinâmica da pesquisa participante, nas aulas de Educação Física.


 Obs. A autora, professora Diná Teresa Ramos de Oliveira, é Mestre em Educação Física - Unicamp e professora da Universidade Cruzeiro do Sul
e:mail: dina.ramos @ ig.com.br


 Referências bibliográficas

  •  Assis de Oliveira, Sávio. A reinvenção do esporte: possibilidades da prática pedagógica. Recife/PE: UFPE: Dissertação de Mestrado, 1999.
  • Betti, Mauro. Educação física e sociedade. São Paulo: Editora Movimento, 1991.
  • Bracht, Valter. Educação física e aprendizagem social. Porto Alegre: Magister, 1992.
  • Bracht, Valter. Sociologia crítica do esporte: uma introdução. Vitória: UFES, Centro de Educação Física e Desporto, 1997.
  • Bracht, Valter. Esporte na escola e esporte de rendimento. Revista Movimento. Ano VI, N. 12, 2000/2001.
  • Coletivo de autores . Metodologia do ensino de educação física. São Paulo: Cortez Editora, 1992.
  • Kunz, Elenor. Transformação didático-pedagógica do esporte. Ijuí: Unijuí, 1994.
  • Oliveira, Diná Teresa Ramos. Por uma ressignificação crítica do esporte na Educação Física: uma intervenção na escola pública. Campinas: Dissertação (Mestrado em Educação Física). Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação Física, Unicamp, 2002.
  • Paes. Roberto Rodrigues. Educação física escolar: o esporte como conteúdo pedagógico do ensino fundamental. Campinas: Tese (Doutorado em Educação) Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação UNICAMP, 1996.
  • REIS, Heloísa Helena Baldy dos. O ensino dos jogos esportivizados na escola. Santa Maria:. Dissertação (Mestrado em Educação Física) Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, 1994.
  • RIGO, Luiz Carlos. A educação física fora de forma. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Ijuí - RS: Imprensa Universitária Unijuí, v.16, n.2, jan. 1995, pp. 82-93.

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