A Contribuição Cultural dos Jogos no Âmbito Escolar

Por: Cristiana Maria de Paula.

VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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1. Introdução

O presente artigo tem como meta, efetuar reflexões e uma análise crítica acerca do sentido dos jogos e das brincadeiras no âmbito escolar, na medida em que estes são grandes mediadores das diferentes formas de cultura, que compõe o cenário brasileiro.

Para tanto, analisemos a priori, o aspecto cultural, que é o jeito de convivência e expressão dos indivíduos, pertencente a todos, que nos faz participar de ideais e objetivos comuns. Reflete também o modo como as crianças brincam, a maneira como os adultos vivem, trabalham, fazem arte. Ela é transmitida socialmente, tornando-se necessário entender a sociedade na qual está inserida. Enfim, a história dos seres humanos é uma história de cultura, uma vez que tudo o que se faz está inserido num contexto cultural, sendo esta produzida e reproduzida enquanto produto da sociedade, da coletividade à qual todos pertencem, antecedendo-os e transcendendo-os.

No que tange a questão das diversas formas de atividades particularmente corporais, que a Educação Física abrange, optamos por selecionar o jogo, na medida em que o consideramos uma das manifestações mais antigas da cultura corporal.

2. Desenvolvimento

O jogo possui características próprias e não deve ser visto apenas como pré-condição para o aprendizado do esporte, visto que está presente em várias atividades humanas, proporcionando ao homem uma melhor compreensão da sua existência e um melhor relacionamento com seus semelhantes. Assim, "O jogo é uma invenção do homem, um ato em que sua intencionalidade e curiosidade resultam num processo criativo para modificar ,imaginariamente, a realidade e o presente"(Coletivo de Autores,1992,p.65).

Na verdade, os jogos devem ser vistos, antes de mais nada, como uma herança cultural, que possui a capacidade de refletir uma sociedade.

Podemos destacar, dentre os estudos mais recentes:

"BRACHT(1992),FREIRE(1992),MARCELINO(1990),TAVARES(1994) destacam que o ensino do jogo deve assegurar uma aprendizagem que resgate a história cultural, o lúdico e o significado humano e social do jogo ,garantindo a criança uma prática contextualizada ,com origem, fantasia, prazer, alegria, sentido e significado para sua formação, enquanto construtor e produtor deste saber "(Meneses,1997,p.574).

A História dos jogos nos permite compreender que ao longo dos séculos, a criança e estes assumiram diferentes significados. A convivência de crianças e professores com um conjunto de jogos e brincadeiras diversos, pode permitir que inúmeras experiências lúdicas se realizem e que as histórias neles contidas sejam lembradas, descobertas, transmitidas e questionadas.

Chegamos ao entendimento que o brincar nos é passado no momento em que nascemos, quando nos tornamos brinquedos de nossas mães -primeira herança cultura- como foi entendido no artigo "O brincar como experiência cultural". Outro ponto de relevância seria que as crianças, quando brincam, devem adquirir uma vivência ampla, incluindo valores humanos, significados e acima de tudo, cultura. E é a partir disso que buscamos fomentar a prática destes jogos como um todo, no dia-dia dessas crianças.

Ao longo do processo de aprendizagem destes jogos, estas concebem as práticas culturais de movimento como instrumentos para o conhecimento e expressão de sensações, sentimentos e emoções individuais nas relações com o outro.

Guedes, em seu texto "As crianças e os jogos tradicionais" diz que os jogos, em sua totalidade, vão provocar ações e reações dos seus praticantes, propiciar o relacionamento entre as crianças, promover o desenvolvimento das capacidades físico-motoras, do equilíbrio emocional e afetivo, oferecer uma imagem multidimensional da criança e por fim, refletir a cultura do país ao qual pertencem.

Atualmente, nota-se uma deturpação do real significado do jogo na sociedade contemporânea, a qual estabelece relações de competitividade, onde o lúdico e muitas das manifestações culturais estão sendo perdidas e esquecidas. Essa situação é decorrente da redução dos objetivos de ensino do jogo, ao campo esportivo, no qual o que prevalece a iniciação esportiva prematura, visando o alto rendimento atlético.

Com relação à transmissão de cultura, a história não se mostra única e linear. Existem povos que viveram processos distintos de desenvolvimento e que atribuem diferentes noções de família, adulto ou criança. Tal fato nos leva a perceber que os significados e valores dados aos brinquedos e brincadeiras vão variar de acordo com o contexto e com o tempo, na medida em que se percebe que as crianças, quando brincam, se defrontam a todo momento com os vestígios que as gerações mais velhas deixaram.

A área da Educação Física, por sua vez, permite que se vivencie diferentes práticas corporais advindas das mais diversas manifestações, propiciando a clara visão de como essa variada combinação de influências está presente na vida cotidiana. Este é um dos motivos pelos quais entramos em defesa da Educação Física na escola, uma vez que, através do resgate cultural, possa se desenvolver uma relação de alegria e prazer da criança com a escola, com intuito de superar assim ,a associação de escola como lugar de sofrimento e castigo. Além disso, levando em consideração a sociedade violenta em que vivemos, onde as ruas se tornam perigosas para estas crianças, limitando os espaços para tais jogos, o papel da escola em revitalizar a cultura destes em seus espaços, torna-se cada vez mais importante, o que fortaleceria a manutenção dessa cultura para as próximas gerações.

Atreladas a isso, pensamos ser tarefa da E.F. escolar, garantir o acesso dos alunos às práticas da cultura corporal, contribuir para a construção para um estilo pessoal de exercê-las e oferecer instrumentos para que as crianças tornem-se aptas para apreciá-las de maneira crítica. Esta concepção, certamente contribuirá também para o pleno exercício da cidadania, na medida em que, tomando seus conteúdos e as capacidades que se propõe a desenvolver como produtos socioculturais, afirma como direito de todos o acesso a eles.

Ao findar este artigo, percebemos que os jogos e as brincadeiras, legitimamente exprimem o saber popular referente à cultura de movimentos, que pode ser o ponto de partida para o fazer pedagógico da E.F. escolar, buscando alargar o conhecimento, compreensão e análise das conquistas desta cultura e seus diversos determinantes. Nesse sentido, é indispensável resgatar a cultura do mundo vivido pelo aluno, de forma lúdica, trazendo para as aulas diferentes situações de ensino ,onde os jogos tornam-se significativos para a identidade cultural e para a compreensão da realidade social em que vivemos.

As autoras, Cristiana Maria de Paula, Miriam Sperandio Baião e Sheila Candida Machado são graduandas em educação física - UFJF

3. Referências bibliográficas

  •  Meneses, Jean da Silva. As origens culturais do mundo lúdico do jogo: uma forma de despertar a identidade social no âmbito escolar. - anais do colégio brasileiro de ciências do esporte,1997.
  • Coletivo de autores. Metodologia de Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez,1992.
  • Marcondes, Marina. O brincar como experiência cultural.
  • Guedes, Maria da Graça Souza. As crianças e os jogos tradicionais.

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