A dança nos textos de Educação Física: análise de uma produção

Por: Ana Júlia Pinto Pacheco.

III EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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 1. Considerações iniciais


Com este estudo me propus a contribuir para a necessidade contínua de revisão da produção do conhecimento na educação física, restringindo-me a analisar na literatura brasileira como a dança tem sido considerada e refletida enquanto tematização na educação física. Empreendi esta revisão bibliográfica assumindo uma função problematizadora e, longe de realizar um balanço isento, à minha leitura está atrelado um modo de entender a educação física e sua relação com a dança. Neste trabalho apresento apenas um dos eixos de reflexão que serviram para balizar minha incursão pelos artigos analisados: Como é tratada a questão da marginalidade da dança nos tempo e espaço escolares? Os textos exploram suas causas e/ou propõem algum tipo de encaminhamento para minimizá-la?


 O corte temporal do estudo abarcou os últimos dez anos a partir do início de sua realização, ou seja, de 1986 até 1996 e o corpus de análise abrangeu 35 artigos publicados em dez periódicos da área de educação física, a saber: Discorpo, Motrivivência, Motriz, Movimento, Revista Brasileira de Ciência e Movimento, Revista da Educação Física - UEM, Revista do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, Revista Mineira de Educação Física, Revista Paulista de Educação Física e Sprint - revista técnica de educação física e desportos. É preciso ressaltar que aqui somente são apresentados os artigos que tratam de temática pertinente a este presente trabalho.


 2. Marginalidade da dança na escola: causas e encaminhamentos


Ao tratar do ensino da dança no Brasil, Dionísia Nanni (1995) comenta a vinda de vários artistas estrangeiros durante o séc. XIX que, no entanto, não fundaram escolas. A autora se limita somente a mencionar o preconceito em relação ao aprendizado da dança, sem desenvolver o assunto: "nossa sociedade, de origem portuguesa, preconceituosa, não veria com bons olhos o ensino da dança a suas filhas burguesas" (p.8). Maria do Carmo S. Kunz (1994) já manifesta uma insatisfação mais direta e atual relacionada ao processo educativo do ser humano, pois para autora "a educação formal tem negligenciado essa disciplina ou conteúdo" (p.166). No entanto, Kunz não elege esta temática como preocupação central de seu texto, limitando-se apenas a enunciá-la.
 Maria Luiza de Jesus Miranda (1994) aprofunda essa discussão, apontando como problemas: os preconceitos dos/as professores/as de educação física para com a dança, bem como o fato destes/as professores/as não terem tido formação suficiente que os/as capacitassem para o ensino da dança. Miranda (1994) apresenta um estudo que investiga os problemas relacionados à dança em situações de ensino superior, a saber: como conteúdo disciplinar em educação física e como curso de graduação em dança. Para tal, foram entrevistados/as professores/as que atuam em ambas áreas já citadas, professores/as de dança de academias, estúdios etc.. Como conclusão de seu trabalho, a autora destacou que os/as especialistas em dança consultados/as apontaram como "inadequado o estudo de Dança, como fenômeno sócio-cultural e como área de conhecimento específico, nos cursos de graduação de Educação Física" (MIRANDA, 1994, p.11).


 Outras assertivas tecidas por Miranda (1994), baseadas nas informações obtidas através do painel de especialistas, igualmente  criticam a presença da dança na educação física em função da sua superficialidade e impropriedade no curso, bem como apontam a inviabilidade do estudo da dança neste curso, dadas suas características estruturais, como carga horária insuficiente e pouca abrangência e aprofundamento do conteúdo. De acordo com a autora, assim se explicaria porque a dança não é incluída nos planos de aula escolares de educação física: por falta de capacitação profissional. A reduzida carga horária destinada ao estudo da dança nestes cursos não proporcionaria conhecimentos e segurança necessários para o seu ensino, o que por outro lado seria satisfatoriamente atingido em um curso superior de dança. Esta explicação parece-me por demais reducionista, só restando lembrar a influência de outros fatores como, por exemplo, os preconceitos sexistas em relação à dança e o processo de desportivização da educação física.


 Apesar de não refutar que existem problemas relacionados ao ensino da dança na educação física, não os interpreto como um indicativo de inadequação, no sentido de deslocamento de lugar. Antes, os vejo como possibilidade de melhorar a integração e a especificidade da dança dentro da educação física. Entretanto, para que isso se dê, é de fundamental importância o discernimento entre uma abordagem da dança na educação física e da dança enquanto objeto específico de formação. Este ponto não pode passar despercebido, pois o painel de especialistas questionado por Miranda (1994) considerou que a vivência de dança nos cursos de  Educação Física é "insuficiente para denominar-se formação em dança" (p.11). Fica a necessidade de um maior esclarecimento do significado dessa inadequação e dos critérios pessoais utilizados pelos/as especialistas para realizar um juízo crítico da dança no ensino superior. Sem dúvida, o curso de educação física é inapropriado para a formação específica em dança, e esta é uma questão teleológica. O eixo deveria ser direcionado para se o ensino da dança na educação física tem sido satisfatório aos propósitos da educação física e, caso necessário, que medidas seriam possíveis para assim fazê-lo.


 Miranda (1994) também argumenta que, quando o ensino da dança ocorre através da educação física, ele se torna uma seqüência de movimentos na qual só é observado o desempenho técnico, o que caracteriza uma abordagem tecnicista do ensino. Temos que concordar que a educação física através de certas instituições e de professores/as reforçou e reforça uma concepção tecnicista de movimento. Porém, não menos importantes são aqueles/as que se opõem a este modelo, propondo e trabalhando com e para uma educação física humanista e emancipatória. Arriscaria ainda dizer que as primeiras preocupações e reflexões sobre a dança como atividade educativa, tendo-se um entendimento de educação que ultrapassa a transmissão simples de conhecimentos, brotaram no seio das Escolas de Educação Física, cujo marco talvez seria o início dos trabalhos de Maria Helena de Sá Earp em 1939 como professora da Escola Nacional de Educação Física e Desportos. Ou seja, o desencadeamento de uma perspectiva pedagógica/educativa da dança deu-se com a educação física e como a própria autora escreve "foi através da Educação Física que a Dança começou a ser estudada em Instituições de Ensino Superior" (MIRANDA, 1994, p.3).


 A autora ainda sugere "que não é somente por ser Arte que a dança está sendo discriminada, mas também pelo fato de estar no currículo da Educação Física" (p.8). Considero uma visão simplista e distorcida a que atribui tal ônus àquela que durante décadas foi responsável pelo estímulo e permanência da dança na escola, mesmo que exíguo. Em vez de aprofundar o debate procurando compreender porque a dança vem sendo relegada a planos secundários, o que também ocorre na educação física, a autora transfere o problema para esta última. Seria mais interessante, em vez de simplesmente descartarmos o problema, se procurássemos entendê-lo e encaminhássemos possíveis soluções para a discriminação da dança e para a marginalidade que a dança vem enfrentando na própria educação física.


 Miranda (1994) preserva-se de um posicionamento explícito a respeito das argumentações dos/as especialistas, contudo, ainda assim empresta ao seu texto uma tônica que flui no sentido de consolidar o curso superior de dança. A síntese de idéias apresentada como conclusão de seu trabalho mostra claramente a ‘inadequação’ do estudo da dança no curso de educação física, ao mesmo tempo que denuncia a falta de reconhecimento, incentivo e investimentos do curso superior de dança. Se esta é uma interpretação possível, haveria ainda uma ligação entre a desqualificação da dança enquanto conteúdo da educação física para justificá-la somente no outro curso.


 Não se trata de formular uma posição contrária ao estabelecimento da dança em nível superior. Entretanto, não compartilho de uma postura exclusivista do conhecimento, quando proponho exatamente a democratização deste. A dança se constitui em uma rede de conhecimento com particularidades próprias e que dispõe de condições para se legitimar enquanto área de estudo no meio acadêmico brasileiro. Educação física e dança são campos diversos, por certo com muitos cruzamentos e interseções, mas que não se restringem ao âmbito motor, antes, aspectos culturais e artísticos são incorporados por ambas. Além disso, embora também não seja objeto específico de formação, a dança também é passível de ser abordada em cursos superiores de educação artística, de artes cênicas/teatro e até em outros menos usuais, como comunicação social. A adequação às necessidades e especificidade de cada curso não descaracteriza a dança, sobretudo amplia as suas possibilidades de interação e atuação.


 Dosmary de A. Fogaça Duarte (1995) também recorre ao argumento da deficiência na formação profissional, além dos ‘pré-conceitos’ sociais em relação à prática de dança pelo sexo masculino, para explicar o número reduzido de educadores/as que trabalham com dança nas escolas. Todavia, sua abordagem é diferenciada, pois não defende que a dança está ‘deslocada’ dentro da educação física. Ao contrário, reconhece a historicidade da relação entre educação física e dança, afirma que há consistência na permanência desta última na formação em educação física, porém entende que é preciso uma avaliação crítica desta graduação no sentido de tentar solucionar os problemas que vêm ocorrendo na prática escolar.


 Essa autora, ao tratar da questão do sexismo, aponta para mudanças no comportamento masculino. Isso seria verificado "a partir do momento que o homem observou que existem características em certos tipos de danças que não o fariam sofrer nenhum tipo de degradação da sua masculinidade" (DUARTE, 1995, p.297), e cita como exemplos de dança social o funk, o street dance, o hip-hop.  Contudo, faço outra interpretação desse caso. Não considero que os homens estão "liberando-se das amarras do preconceito", para empregar a mesma expressão utilizada por Duarte, diria que apesar da dança as amarras continuam bastante fortes. O fato de os homens dançarem e o rompimento de preconceitos não necessariamente conjugam uma relação de reciprocidade ou de causa-efeito.  Existe aí uma extrapolação que pode não proceder; ainda mais, podemos entender a participação dos homens em certas danças exatamente por elas reforçarem os estereótipos masculinos ao invés de representarem uma ruptura destes. A própria autora escreve a respeito dos exemplos de danças citados que eles são "uma expressão bem clara de masculinidade" (DUARTE, 1995, p.297). Aqui não podemos generalizar a dança. Não obstante, não desconsidero que um trabalho pedagógico através da dança possa começar com movimentos estereotipados, até mesmo para que possamos gradativamente densconstruí-los.


 O artigo da Revista Brasileira de Ciência e Movimento1, RBCM (1988), busca explicação para o ‘esquecimento’ da dança num processo mais amplo de ‘objetivação do corpo’, fruto de práticas racionais excessivas. Práticas estas acompanhadas de uma "visão comportamentalista, fracionada, que tende aos interesses da ideologia capitalista" (p.46). No artigo há também uma manifestação contra a retirada da dança do cotidiano do ser humano que "hoje dança apenas quando lhe é ‘permitido’ socialmente. Ele tem que reaprender a dançar e muitos têm dificuldade em função de um preconceito que nada mais é do que um condicionamento cultural" (p.46). No texto, ainda encontramos ressaltado o pensamento de que os meios de comunicação pasteurizam os princípios culturais, uniformizando o dançar entre outras ações. Como resultado, podemos ter uma dança reprodutora de modismos e que promove um esvaziamento da identidade social e cultural do grupo.


 Por fim, o artigo de Fátima C. do Valle Leitão e Iracema Soares de Sousa (1995) traz sua preocupação central dirigida para o sexismo relacionado à dança. De acordo com as autoras, o preconceito que gira em torno do homem que dança tem raízes nos modos conservadores de agir e pensar. As autoras reconhecem que existem diferenças biológicas, "porém, não é por isso que deve haver segregação" (p.251). Somando-se a isso, ressaltam o papel da escola como sustentadora da discriminação, propagando concepções, "como por exemplo, ‘a menina nasce para bailar, ser dócil, doméstica e o homem para jogar, trabalhar e endurecer’, e ainda ‘...se meu filho for bailarino eu o deserdo’ " (p.250). O artigo aponta a transmissão de estereótipos através de gerações como um fator condicionante de comportamentos diferentes, e até opostos, entre meninos e meninas. Estes padrões são incorporados inicialmente à vida familiar, reforçados pela sociedade e pela escola, inclusive nas aulas de educação física. Contudo, mais importante, é que o artigo assinala a própria educação física como um meio de tentarmos transformar estes modelos estabelecidos e elege a dança como um dos caminhos possíveis.


 Por outro lado, Leitão e Sousa (1995) entendem a dança como um modo de ‘suavizar’, ‘sensibilizar’, ‘dar leveza e sutileza’ aos homens. Neste sentido, tenho uma visão diferenciada, pois não vejo a dança associada apenas à delicadeza. Penso que este é outro ponto que também deve ser desmistificado. No entanto, não estou propondo uma ‘virilização’ da dança, recurso que tem sido utilizado para incluir os homens na prática desta atividade, e que nada mais faz do que dissimular os preconceitos referentes à sexualidade das pessoas. Explicando melhor, a dança deve aproveitar várias possibilidades dinâmicas do movimento (o delicado e o bruto, o forte e o fraco, o leve e o pesado, entre outras), mas de modo a rompermos com associações e estigmas sexistas e homofóbicos. Não se trata de suavizar homens ou de embrutecer mulheres, porém de explorar ambas situações independentemente do sexo e da orientação sexual da pessoa.


 2. Considerações finais


 Os pontos mais marcantes a respeito da marginalidade da dança na escola foram a formação inadequada do/a professor/a de educação física e o sexismo. Entretanto, os artigos que abordaram esse preconceito permaneceram mais no campo da denúncia. Apontaria para a necessidade de redirecionamento da dança na educação física, principalmente, no tocante às ações voltadas para a superação de manifestações sexistas. A dança nas aulas de educação física pode contribuir para que acabemos com concepções fechadas e restritas de masculinidade/feminilidade, bem como para que respeitemos as opções individuais. Este ponto seria fundamental para resgatarmos essa atividade no convívio escolar, mas para que isto aconteça, a dança tem que primeiro ser efetivamente incorporada à escola e à educação física. Isto é, apesar de poder ser um dos meios para a superação de manifestações sexistas, este não é um objetivo exclusivo da educação física ou da dança, sendo pertinente a discussão e ações conjuntas daqueles/as envolvidos/as no cotidiano escolar e familiar.

 Notas:


 1. Não há identificação do nome do/a autor/a deste artigo, portanto sua referência será feita a partir do nome do periódico: Revista Brasileira de Ciência e Movimento (RBCM).
  A autora é Professora da Escola Municipal Rachide da Glória Salim Saker - Niterói/RJ e
Professora da Escola Estadual Pinto Lima - Niterói/RJ
 palavras- chave: Educação Física, Dança, Análise Bibliográfica.

 Referências bibliográficas

Duarte, Dosmary de A. Fogaça. A evolução das atividades rítmicas e de dança no currículo do curso de educação física da Universidade Federal do Paraná, 1943-1995. In: Coletânea do III Encontro Nacional de História do Esporte, Lazer e Educação Física. Curitiba: DEF/UFPR, 1995, p.289-299.
Kunz, Maria do Carmo Saraiva. Ensinando a dança através da improvisação. Motrivivência, ano 4, n.º 5, 6 e 7, dez, 1994, p.167-169.
Leitão, Fátima C. do Valle & SOUSA, Iracema Soares de. O homem dança ... Motrivivência, ano 7, n.º 8, 1995, p.250-259.
Miranda, Maria Luiza de Jesus. A dança como conteúdo específico nos cursos de educação física e como área de estudo no ensino superior. Revista Paulista de Educação Física, v.8, n.º 2, jul./dez, 1994, p.3-13.
NANNI, Dionísia. Dança...educação. Sprint, ano 14, n.º 81, nov./dez, 1995, p.4-13.
Revista Brasileira de Ciência e Movimento. A dança no contexto da sociedade e da escola. Vol. 2, n.º 1, 1988, p.45-47.

 

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