A Distância Entre a Previsão e a Constatação

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Blog da Katia Rubio - 2012

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Algumas coisas na vida parecem que não mudam nunca. Por mais que a tecnologia avance, que a ciência se desenvolva ou que os processos de aculturação se multipliquem tenho a nítida impressão que os anos ou séculos passarão e eu… passarinho, como diria Mario Quintana. Umas das questões que se enquadra nessa aporia é a previsão do tempo. Lembro perfeitamente da TV preto e branco da Telefunken que tínhamos em casa e as muitas piadas que eram feitas quando a pessoa com ar majestoso e douto falava do que iria acontecer no dia seguinte. E, independente daquela constatação, na manhã seguinte antes de escolhermos a roupa abríamos a janela do quarto, púnhamos a mão (ou até o braço todo dependendo do dia) para fora, ainda olhávamos para diferentes lados até que a vista alcançasse para então tomar a decisão derradeira que seria responsável pelo bem ou mal estar do dia. E assim nos acostumamos a confiar muito mais em nossa intuição (ou desejo) sobre o tempo do que necessariamente na previsão pautada na leitura da atmosfera.

Hoje já não precisamos mais esperar pelo jornal para saber como será o dia. Além da Previsão do Tempo ganhar destaque nos noticiários, e até um especialista quase sempre mulheres bonitas que aparecem de corpo inteiro na telinha, temos também diferentes aplicativos para telefone celular e imagens incríveis em inúmeros programas que podem ser acessados do computador. Imagens de satélite, tempo e temperatura em qualquer lugar do mundo e ainda a possibilidade de saber o que acontecerá nos próximos 4 ou 5 dias. Incrível! Mas… a mítica da mão para fora da janela permanece a mesma. Embora o aplicativo de meu telefone indique o que vai acontecer nas próximas horas há uma distância considerável entre a previsão e a constatação do momento. Foi possível provar isso na semana passada quando em meio à iminência de um temporal consultei o aplicativo e… bingo! “Tempo bom com possibilidade de chuva.” Caspita, mas bastava olhar para o céu e constatar que aquilo era o que o gaulês Asterix mais temia que acontecesse na vida – Que o céu lhe caísse sobre a cabeça. E dali tirei o título desse texto que é a distância entre a previsão e a constatação e imaginei diferentes paralelos para essa elucubração, afinal trabalho com esporte e pesquisa e lidamos com essas circunstâncias em quase todos os momentos de nossa vida.

Vejam só. O que nos mobiliza a começar um novo projeto de pesquisa é sempre uma pergunta cuja resposta ainda não foi dada, ou as que foram dadas não são suficientemente convincentes. E então nos aventuramos a buscar novos fatos, versões para chegar a novas constatações. Até que outro alguém, também movido pela inquietude ou curiosidade parta daquilo que você fez para chegar a novos resultados, gerando novas constatações. E assim caminha a humanidade: o conhecimento, as relações pessoais, as técnicas de treinamento. A inquietude da previsão sugere novas constatações.

Mas, o problema dessa parceria é que muitas vezes a previsão assume tons proféticos de realizações possíveis ou apocalípticas. Não vou entrar no mérito da conquista da Libertadores pelo Corinthians nem do rebaixamento do Palmeiras, porque mais do que previsível há aí uma dose de fanatismo e/ou sarcasmo que não vem ao caso. Falo de previsões como o fim do mundo por Nostradamus ou pelo Incas, o fim do capitalismo ou a condição de Top 10 do Brasil nos próximos Jogos Olímpicos. Previsão? Desejo? Necessidade? Vontade?

Previsões têm a capacidade de ser altamente mobilizadoras. Artimanha do psiquismo para fugir das armadilhas que os fins indesejados nos impõem elas exercem força mágica sobre os humanos desde que nos tornamos Sapiens e produtores de cultura. Não é à toa a condição privilegiada que videntes, magos e xamãs conquistaram em diferentes grupos sociais. E na atualidade a ciência passou a ocupar esse espaço quando especialistas (claro, sempre eles) que dominam determinada linguagem passaram a ter o poder de por meio de uma imagem ou resultado de exame clínico vaticinar o futuro dando um diagnóstico. E então se pode ver o sexo de um bebê (que antes esperávamos 9 meses para sabê-lo), uma osteoporose, um câncer, uma taxa de colesterol ou seja lá o que for. E a partir dessa informação traçamos nossos planos para o futuro: as cores do enxoval, um regime, uma cirurgia ou a vida eterna. E o que é mais curioso, é que deixamos de gozar o momento, uma vez que temos que nos preparar para o futuro. E assim como quando colocamos a mão para fora da janela para ver que roupa vamos usar e corremos o risco de sair de bota e suportar um calor de 30ºC ou sair de camiseta regata e ter que pedir um casaco emprestado para não pegar um resfriado, arriscamos deixar coisas importantes da vida passarem porque alguém disse que algo ia acontecer.
A melhor previsão de um bom futuro é o trabalho no presente!

Não digo com isso que não devemos confiar nas tecnologias e nas diferentes maquinetas que invadem nosso cotidiano, mesmo contra nossa vontade. O que aponto é que temos o livre arbítrio e o bom senso para fazer as diferentes reflexões que a vida nos exige. Acreditar demais em algo inventado pelo ser humano e que ainda passa pela necessária interpretação de alguém que domina aquela linguagem específica é temerário demais para quem deseja ter autonomia e um certo controle da própria vida.

E assim extrapolo essa divagação para as muitas previsões sobre o que teremos em 2016. Não acredito que haja qualquer esfinge em Delfos capaz de dizer, sem tremer, o que acontecerá no e com o Brasil nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Desde ter todas as instalações feitas e prontas de forma legal e sem corrupção até se destacar entre as 10 potências do mundo não sei o que me causa mais dúvida, afinal, como já escrevi acima, a melhor previsão para um bom futuro é o trabalho no presente.

Li que na semana passada Sebastian Coe esteve no Rio fazendo o ritual de passagem do conhecimento acumulado em Londres para o Rio. Um gesto nobre e altamente simbólico, bastante coerente com toda a simbologia olímpica. E como não sou niilista, quero crer que definitivamente os JO do Brasil começaram a ser organizados pra valer. Como diria meu colega José Cruz, será que agora vai? A contar pela história recente temos mais razões para duvidar do que acreditar, mas ainda assim seguimos apostando e tentando de alguma forma participar, colaborar para que as melhores previsões se realizem tal como as boas profecias. Mas é bom lembrar que assim como não há sorte nem surpresa na preparação de um atleta para ele se tornar olímpico, também é necessário muito planejamento e boa organização em todas as demais questões que envolvem os Jogos Olímpicos.

As previsões sobre os Jogos do Rio apontam para uma festa sem precedentes, em uma cidade altamente acolhedora, com um povo motivado a receber a todos com os braços abertos do Cristo Redentor.
Quero constatar em 2016 que de fato tudo foi feito não apenas para acolher aos estrangeiros, mas para dar a dignidade que os protagonistas do espetáculo esportivo denominados atletas devem e merecem ter. Quero constatar que mais do que preparar a casa para os outros fazerem a festa será tempo dos anfitriões mostrarem o quanto são prestigiados e apoiados para brilharem como de fato merecem.

Sei que pouco pareço com o caiçara que olha para os lados lendo o vento e as nuvens para dizer se hoje ou quando vai chover. Afinal, muitos que fazem isso dirão que o parágrafo acima manifesta muito mais o meu desejo do que a evidência de um raio x ou de uma ressonância. Mas, como já vi muito enxoval ser inutilizado na maternidade porque o ultrassom errou fica aqui manifesto o meu desejo de constatar que mais uma previsão foi em vão.

21/11/2012

Endereço: https://web.archive.org/web/20130317043213/http://blog.cev.org.br/katiarubio/2012/a-distancia-entre-a-previsao-e-a-constatacao/

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