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 Há muito vimos refletindo acerca dos papéis destinados a Educação Física no cenário das instituições de ensino no país. A Educação Física, enquanto disciplina curricular jamais alcançou no universo escolar uma autonomia pedagógica (Bracht 1992). Ao analisarmos sua função pedagógica, percebemos que a importância a ela atribuída recai na maior parte das vezes sobre o desenvolvimento da aptidão física.


 Pautada nesta perspectiva a Educação Física fundamenta-se essencialmente nos princípios da biologia para formar um homem apto, capaz de superar-se, competir e concorrer, características indispensáveis para sua inserção no modo de produção capitalista.
De acordo com o "Coletivo de Autores" os princípios que norteiam o paradigma da aptidão física visam,
(...) adaptar o homem à sociedade, alienando-o da sua condição de sujeito histórico, capaz de interferir na transformação da mesma. Recorre à filosofia liberal para formação do caráter do indivíduo, valorizando a obediência, o respeito às normas e a hierarquia.
Castellani Filho explicita a questão quando afirma que,
(...) a Educação Física é confundida por razões historicamente construídas, com educação do físico, educação do corpo - no sentido mesmo menor, de adestramento, reforçando a visão dual Corpo x Mente; Matéria x Espírito.(1988:03).


 O pensamento conservador na Educação Física possui raízes de dimensões históricas acompanhando, em maior ou menor grau, o projeto hegemônico de sociedade. (...) em certos períodos da história tornou-se valioso instrumento de ação e intervenção na realidade educacional e social. (Soares 1994:85).


 Partindo desta reflexão buscaremos através de um breve relato histórico, identificar os códigos assumidos pela Educação Física ao longo dos tempos.


 No século XVIII sob o modelo de produção escravista a classe dominante não via com bons olhos as atividades corporais (na escola). Havia uma valorização das atividades intelectuais ao mesmo tempo em que eram desprezadas as atividades corporais. Tal postura baseava-se nos valores dominantes durante a período colonial, onde o trabalho "físico" (manual) ficava a cargo dos escravos, enquanto à elite cabiam os assuntos intelectuais.


 A partir da segunda metade do século XVIII começa a surgir no país, com o advento da Revolução Industrial, uma nova ordem social, política e econômica, que trouxe consigo a necessidade de um "novo" homem com um perfil mais empreendedor, forte e ágil onde a energia física é transformada em força de trabalho (Sistema Capitalista Industrial).


 A Educação Física adequa-se a novos padrões de conduta definidos pelos higienistas a par dos interesses da classe dirigente, pretendendo inculcar no homem a idéia de que aquele que cuidava do corpo era saudável física e moralmente, objetivando assim produzir um corpo e uma nova "raça" para a nova sociedade. A prática de atividades corporais era pensada, pois essas idéias correspondiam à classe hegemônica, qual seja aquela que dirigia a sociedade em todos os âmbitos.


 Em 1882 com a Reforma do Ensino Primário, Rui Barbosa defende a Educação Física como matéria curricular, sem romper, no entanto, com a visão dicotomizada de homem: o corpóreo esta subjulgado e serve de suporte ao espiritual, consagrando assim o aforisma de Juvenal "mens sana in corpore sano". Vale ressaltar que tal parecer não foi aprovado na época.


 É somente no século XIX que, vinda da Alemanha, é difundida no Brasil a ginástica, considerada como Educação Física obrigatória no ensino formal pois:


 (...) desenvolver e fortalecer física e moralmente os indivíduos era portanto uma das funções a serem desempenhadas pela Educação Física no sistema educacional e uma das razões para sua existência"(Coletivo de Autores, 1992: ).
Por sua vez, a influência militarista veio promover a moral e o adestramento físico dos jovens, tendo em vista prepará-los para a defesa da nação, formando, dessa forma, a idéia de cidadão-soldado. A preocupação centrava-se na eugenização da raça brasileira, na segurança nacional e no cumprimento dos deveres para com o desenvolvimento econômico.


 Os métodos ginásticos levados à escola que desenvolviam valências como força e resistência e tinham como objetivo o treinamento para a aptidão provinham das instituições militares o que, segundo Bracht, explicita a transferência dos códigos desta instituição para a Educação Física.


 Após a segunda guerra e com o fim do Estado Novo (início do desenvolvimentismo), a lógica da competitividade leva a Educação Física a assumir como referencial o esporte que afirma-se como elemento hegemônico da cultura do movimento (Bracht, 1992:22), trazendo consigo, para o interior da escola, todos os seus códigos institucionalizados. O esporte na escola passa a obedecer a um conjunto de normas pautadas pela disciplina e obediência às regras, tornando-se alicerce para o esporte de rendimento. A Educação Física competitivista está a serviço da elitização social e tem por objetivo a superação individual como valor desejado para a nova ordem social e econômica.


 Segundo Ghuiraldelli, (...) a Educação Física Competitivista é um aríete das classes dirigentes na tarefa de desmobilização da organização popular (1988:20).


 É somente na década de 80 que com a falência do desenvolvimento econômico e retomada dos movimentos democráticos, que começam a surgir novas perspectivas renovadoras e progressistas para a Educação Física. Dentre elas uma pedagogia que compreende uma reflexão crítica do próprio papel da escola na sociedade de classes (Bracht 1992). Tal proposta causa um embate político/teórico quando critica o caráter instrumental bem "apolítica" e "acrítica" assumida pela Educação Física até então comprometida com o modelo social vigente. Trata-se de uma transformação pedagógica através da superação do eixo paradigmático da aptidão física por aquele denominado histórico social.


 Por outro lado, no panorama mundial com a falência do sistem social real e retomada do capitalismo sob a égide do neoliberalismo, se estabelece um novo modelo econômico.


 Uma política de exclusão com a estratégia da mínima intervenção do estado na economia e que tem como alguns de seus presupostos a estabilidade monetária, a disciplina orçamentária, a desigualdade social; com o intuito de dinamizar economias avançadas e a criação de um "natural" exército de reserva. (Anderson 1995).


 É a partir desta perspectiva que objetivamos fazer uma análise do mundo do trabalho focalizando o sistema econômico capitalista e suas características, a reestruturação do modo de produção fordismo/toyotismo e as possíveis alterações no perfil do trabalhador, tendo em vista atender as necessidades da estratégia neoliberal de ajuste econômico. Investigaremos ainda como a educação/educação física estão situadas em tal projeto político. Posteriormente faremos uma análise acerca dos atuais desafios da concepção de Educação Física pautada nas questões históricos sociais frente ao ordenamento do mundo do trabalho.


 Para servirem de eixo norteador de nosso estudo estruturamos as seguintes questões: Será que a realidade prática corresponde a formulação teórica da Educação Física? O que falta a Educação Física para incorporar-se à educação emancipadora de forma efetiva e comprometida com a ampliação da consciência social e crítica dos alunos?


 Obs. A autora, pós-graduanda, é professora da Rede Municipal de Juiz de Fora, professora substituta do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Juiz de Fora.


 Referências bibliograficas


Anderson, Perri. Pós neoliberalismo / balanço do neoliberalismo, SP: Paz e Terra 1995
Bracht, Walter. Educação física e aprendizagem social, Porto Alegre: Magister 1992.
Castellani Filho, Lino. Projeto SESG / MEC - PUC - SP. 1998
Coletivo de autores. Metodologia do ensino da educação física, São Paulo: Cortez 1993.
Frigotto, Gaudêncio. Educação e crise do trabalho: perspectivas de final do século, Pretópolis, RJ: Vozes 1996
____________ . Educação e crise do capitalismo real. 2a ed. - SP: Cortez 1996
Ghiraldelli Júnior, Paulo. Educação física progressista, São Paulo: Loyola 1991.
Soares, Carmem Lúcia. Fundamentos da educação física escolar. 1990.
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