A Educação Para o Lazer nas Escolas de Acordo com a Literatura Vigente

Por: Fernanda Silva dos Santos.

X EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

A Carta Internacional de educação para o lazer por finalidade informar aos governos, às organizações não-governamentais e às instituições de ensino a respeito do significado e dos benefícios do lazer e da educação para e pelo lazer. É também orientar os agentes de educação, incluindo as escolas, a comunidade e as instituições envolvidas na capacitação de recursos humanos sobre os princípios nos quais poderão se desenvolver políticas e estratégias de educação para o lazer.

Neste sentido, diferentes e inovadoras exigências são atribuídas nas diversas esferas do cotidiano, a saber, educação, saúde, lazer e trabalho, que são considerados mercados em expansão, estabelecendo, como exigências históricas, modificações na lógica e na organização do sistema de produção e, conseqüentemente, nas relações sociais e educacionais.

Assim, as vivências lúdicas são tidas como fortes elementos que contribuem para a compreensão do novo mundo social e as reais possibilidades de intervenção sócio-educativas, devido ao fato destas práticas corporais estarem inseridas dentro do contexto do lazer, um espaço propício para as mudanças de valores, de condutas e de atitudes.

Ao evidenciar as possibilidades de intervenção pedagógica via a relação - lazer e educação - autores como Dumazedier (1974 e 1980), França (1999) e Melo (2003) relatam em seus estudos o duplo processo educativo desta intervenção pedagógica: a educação pelo e para o lazer, ou seja, veículo e objeto de educação, considerando além das possibilidades de descanso e divertimento, desenvolvimento pessoal e social.

Refletir sobre relação, lazer e educação, não é tarefa fácil visto a enorme falta de consenso quanto aos seus conceitos entre os autores, como também, essa discussão requer uma adoção de postura e posicionamento como relata Gomes (2004, p.126) "[...] face da gama de possibilidades, aspectos, desafios e dificuldades que tal questão envolve".

Neste sentido, o presente artigo procurou discutir junto à literatura especializada, os conteúdos presentes na Carta Internacional de Educação para o Lazer, de que forma estes podem atuar como instrumento de intervenção pedagógica e de que maneira se pode fazer uso destes no cotidiano das relações sociais e educativas.

Educação para o lazer nas escolas

Segundo a WLRA o objetivo de se trabalhar o lazer nas escolas é tentar fazer com que os alunos através de um desenvolvimento psicosocial, possam alcançar uma qualidade de vida desejável, onde família, comunidade e sociedade sejam diretamente afetados. (ITEM 1).

França (2003) afirma que o lazer apresenta aspectos educativos que contribuem para a compreensão e intervenção do novo mundo social, além de possuir praticas corporais que venham a contribuir para a melhoria da qualidade de vida, possibilidades de construção da cultura humanizada, socialização, princípios éticos e críticos sobre a sociedade.

O educador por sua vez deve identificar esses aspectos e fazer uma reflexão junto aos mesmos a fim de poder transmitir ao aluno o valor histórico-educativo do lazer na contemporaneidade. Para Taffarel (1995), são papeis fundamentais da educação assegurar o acesso a tais conteúdos, propiciando ao estudante o exercício da criticidade, compreensão e intervenção na realidade, buscando com isso uma educação de qualidade para todos.

O lazer se refere a um campo específico da experiência humana, incluindo liberdade de escolha, criatividade, satisfação, diversão e aumento de prazer e felicidade. Também compreende formas amplas de expressão e de atividades, as quais perpassam pelos conteúdos culturais do lazer, a saber: os conteúdos esportivos, manuais, artísticos, intelectuais e sociais (ITEM 2.1).

O lazer dessa forma é visto como algo integrante da vida social do indivíduo conforme evidencia Dumazedier (1979) em seus estudos.
Ao ser considerado um caminho que leva o ser humano ao desenvolvimento pessoal, social e econômico, como um elemento imprescindível na aquisição de uma qualidade de vida melhor, este também é considerado um produto cultural e industrial, gerador de empregos, bem e serviços, não podendo ser compreendido separado de outras metas de vida. Vários fatores possuem relação direta com o lazer, como políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais, podendo ampliá-lo ou dificulta-lo (ITEM 2.2 e 2.6).

O conceito de lazer, numa perspectiva de melhoria de qualidade de vida, está voltado para o desenvolvimento do sujeito como pessoa e membro de uma coletividade que, por meio das relações lúdicas, insiste na longa jornada rumo ao prazer. A melhoria na qualidade de vida resulta da qualidade de interação entre pessoas e destas com o meio, vivendo uma sociedade em transformação (BRAMANTE, 1992).

Ao ressaltar a importância do lazer como um produto cultural e industrial, gerador de empregos, Melo (2003, p.18-19) aponta o crescimento deste setor e relata que "[...] uma em cada dezesseis pessoas, trabalha em atividades associadas a lazer e entretenimento, em um mercado que gera cerca de 212 milhões de empregos".

Por meio das diversas atividades vivenciadas no âmbito do lazer pode-se favorecer o ser humano na aquisição e aprimoramento dos aspectos relacionados a saúde e o bem-estar geral, ao possibilitar experiências que se adeqüem às suas próprias necessidades, interesses e preferências (ITEM 2.3).

Justifica-se esse item nos estudos de Wankel e Berger apud Schwartz (2000), onde os autores salientam o aprimoramento da auto-estima e do bem estar geral, quando o tempo livre é ocupado com atividades prazerosas, escolhidas por opção própria.
Ao considerar este campo tão importante quanto à educação, o trabalho e a saúde, onde nenhum ser humano poderá ser privado deste direito por discriminação de sexo, orientação sexual, idade, raça, religião, credo, saúde, deficiência física ou situação econômica como apontado no ITEM 2.4, torna-se importante compreende-lo como uma prática social, capaz de incluir a todos, como também, um direito humano evidenciado na constituição brasileira (BRASIL, 1988).

O lazer não é um conteúdo exclusivo de uma única disciplina, ele deve ter seu potencial detectado em cada matéria, currículo e atividade extracurricular, incluindo-se naquelas mais apropriadas (direta e indiretamente), visando enriquecer seus conteúdos e estimulando o interesse no aprendizado por parte do aluno. A incorporação do lazer nas atividades educacionais e culturais, dentro e fora de escola, é outra forma de se trabalhar tal conteúdo. (ITEM 2.2)

As diferentes disciplinas escolares como português, geografia, e outras, devem buscar refletir sobre a educação para o lazer. No entanto a atual prática escolar nos remete a perceber que somente a Educação Física e a Educação Artística têm uma maior relação com o lazer, transmitindo práticas a serem vivenciadas com maior engajamento corporal. Bracht (2003) defende a idéia de que [...] a escola como um todo deva assumir a educação para o lazer como tarefa nobre e importante, o que implica em colocar em questão as próprias finalidades sociais da instituição escolar. Isso implicaria em uma razoável mudança naquilo que poderíamos chamar de cultura escolar [...]

Como assevera Bracht (apud PIMENTEL, 2003), a Educação Física possui uma essência pedagógica, pois é um espaço onde se trata de um saber especifico: o jogo, a dança, a luta, o esporte e a ginástica tematizados enquanto saberes escolares. Esses conteúdos estão sendo construídos ao longo da historia da humanidade e são integrados à cultura dos locais onde são praticados, dentro ou fora do espaço escolar.

Dentre os conteúdos do lazer podemos encontrar propostas de flexibilidade curricular ampliando o envolvimento escola-comunidade, a fim de implementar o compartilhamento de experiências culturais de lazer dentro do processo de aprendizagem, permitindo ao aluno a liberdade de escolha em tais atividades. Os princípios de tentativa e erro incorporados no lazer promovem um prazer sem frustrações. (ITEM 2.3)

Dumazedier (1994) afirma que a grande vantagem das atividades de lazer é permitir escolhas e, por conseqüência, aprender a escolher. Elas estimulam a iniciativa e favorecem, assim, o desenvolvimento da autonomia. O lazer nesse sentido vem a ser entendido enquanto cultura vivenciada no "tempo disponível", tendo como característica o caráter desinteressado, apresentando-se em um duplo aspecto educativo: o lazer como veiculo e objeto de educação.

As abordagens de ensino e aprendizagem da educação para o lazer nas escolas devem ocorrer individualmente e em grupos, seja dentro ou fora do ambiente escolar, facilitando a animação, criatividade, experimentação pessoal, auto-aprendizado, aulas teóricas e orientação, fazendo com que o educando seja mais estimulado do que instruído. (ITEM 2.4)

Em função dessa necessidade, busca-se com a Educação Física oferecer aos alunos diferentes atividades da cultura corporal, não se restringindo apenas a um dos seus conteúdos, mas diversificando-os, instrumentalizando-o para que tal apropriação ocorra, formando um aluno crítico e criativo, e formador de sua autonomia. Tal processo só tem sentido à medida que procura satisfazer as necessidades individuais e sociais e não criá-las (Cavalari apud Marcellino, 2003).

Segundo o Coletivo de Autores (1992), a dinâmica curricular sobre a cultura corporal, busca desenvolver uma reflexão pedagógica sobre o acervo de formas de representação do mundo que o homem tem produzido no decorrer da historia, exteriorizadas pela expressão corporal: jogos, danças, lutas, ginástica, esporte, entre outros, que podem ser identificados como formas de representações simbólicas de realidades vividas pelo homem, historicamente criadas e culturalmente desenvolvidas.

A educação para o lazer nas escolas necessita de uma variedade de profissionais com conhecimentos específicos da área. (ITEM 2.5). Para gerar continuamente novas competências diante de uma realidade cada vez mais dinâmica, o profissional necessita de conhecimentos atualizados para atender as novas necessidades. A importância da formação cientifica, encontra-se aí explicitada, auxiliando-os na contínua aquisição desse conhecimento (Pimentel, 2000).

A dinâmica social que envolve os interesses do lazer possui características psicológicas e socioculturais muito complexas, as quais o profissional do lazer deve compreender. Para tanto é necessário que se pesquise e aplique tais conhecimentos de maneira ética para um melhor resultado final. (Pimentel, 2003).

Em relação ao teor dos currículos escolares, o programa elaborado pela WLRA (2005), nos mostra que o lazer não é um conteúdo exclusivo de uma única disciplina, este deve ter seu potencial detectado em cada matéria, currículo e atividade extracurricular, como também, estar incluso naquelas mais apropriadas (direta e indiretamente), visando enriquecer os seus programas e estimular o interesse no aprendizado por parte do aluno. A incorporação do lazer nas atividades educacionais e culturais, dentro e fora de escola, é outra forma de se trabalhar tal conteúdo (ITEM 2.2).

Neste sentido, as diferentes disciplinas escolares como português, geografia, matemática entre outras, devem buscar a reflexão sobre a educação para o lazer. No entanto a atual prática escolar nos remete a perceber que somente a Educação Física e a Educação Artística têm uma maior relação com o lazer, transmitindo práticas a serem vivenciadas com maior engajamento corporal.

Bracht (2003, p.164) defende a idéia de que:"[...] a escola como um todo, deve assumir a educação para o lazer como tarefa nobre e importante, o que implica em colocar em questão as próprias finalidades sociais da instituição escolar. Isso implicaria em uma razoável mudança naquilo que poderíamos chamar de cultura escolar [...]".

Como afirma o autor acima, citado por Pimentel (2003), a Educação Física possui uma essência pedagógica, pois é um espaço onde se trata de um saber especifico: o jogo, a dança, a luta, o esporte e a ginástica tematizados enquanto saberes escolares. Esses conteúdos estão sendo construídos ao longo da historia da humanidade e são integrados à cultura dos locais onde são praticados, dentro ou fora do espaço escolar.

Porém, quando se focaliza as estruturas informais, o programa elaborado pela WLRA (2005), nos revela que as intervenções pedagógicas, como também suas estratégias, devem pautar na promoção de propostas de flexibilidade curricular que amplie a relação "escola-comunidade", a fim de implementar o compartilhamento de experiências culturais de lazer dentro do processo de aprendizagem, permitindo ao aluno a liberdade de escolha em tais atividades. Sabe-se que os princípios de tentativa e erro incorporados ao lazer promovem um prazer sem frustrações (ITEM 2.3).

Torna-se premente elevar as discussões relacionadas a educação para o Lazer em todos os cenários e foros apropriados, assim como apoiar a implementação de estratégias e programas de educação para o lazer. Ao unir esforços para introduzir estratégias de educação para o lazer, em concordância com os princípios que formam a base desta Carta, então, os benefícios do lazer ficarão acessíveis a todos.

Obs. A autora, Fernanda Silva dos Santos (nanda_flu@yahoo.com.br) é acadêmica da UFES

Referências

  • Bracht, Valter. Educação física escolar e lazer. In: Werneck, Christiane Luce Gomes, Isayama, Hélder Ferreira (org.). Lazer, recreação e educação física. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. p. 267., p. 147-172.
  • Bramante, A C. Recreação e lazer: o futuro em nossas mãos. In: MOREIRA, W.W. Educação Física & Esporte: perspectivas para o século XXI. Campinas: Papirus, 1992.
  • Brasil. Constituição da República Federativa do Brasil. São Paulo: Tecnoprint, 1988.
  • Brunhs, Heloísa Turini. O culto do corpo-prazer, e o fenômeno lazer e o lúdico. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v.12, n.1,2,3, p. 271-275, [s.m.] 1992.
  • Coletivo de Autores. Metodologia do ensino de educação física. São Paulo: Cortez, 1992.
  • Dumazedier, Jofre. A revolução cultural do tempo livre. Tradução de Luis Otávio de Lima Camargo. São Paulo: Studio Nobel, SESC, 1994.
  • França, Tereza Luiza de. Educação para e pelo lazer. In: MARCELLINO, Nelson Carvalho (org.). Lúdico, educação e educação física. 2ª edição. Ijuí: Ed. Unijuí, 2003. 230p., p. 33-47.
  • Gomes, C. L. Dicionário crítico do lazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
  • Kunz, Eleonor (org.). Didática da educação física. 2ª ed. Ijuí: Ed. Unijuí, 2004.
  • Lévy, P. O que é virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.
  • Marcellino, Nelson Carvalho (org). Lúdico, educação e educação física. 2ª ed. Ijuí: Ed. Unijuí, 2003.
  • MELO, V. A. Introdução ao lazer. Barueri/SP: Manole, 2003.
  • Pimentel, Giuliano Gomes de Assis. Por que pesquisar o lazer? Iniciação Cientifica Cesumar, Maringá, v.2, n.1, p. 33-36, mar./jul. 2000.
  • ¬¬¬__________. Lazer: fundamentos, estratégias e atuação profissional. Jundiaí, SP: Fontoura, 2003.
  • Schwartz, G. M. Homo Expressivus: as dimensões estética e lúdica e as interfaces do lazer. In: BRUHNS, H. T. Temas sobre lazer. Campinas/SP: Autores Associados, 2000, p. 87-99.
  • Taffarel, Celi N. Z., ESCOBAR, Micheli Ortega, França, Tereza Luiza de. Construção do tempo pedagógico para a construção-estruturação do conhecimento na área de educação física & esporte. Revista Motrivivência, ano 7, n.8, 1995.
  • Werneck, Christiane Luce Gomes, ISAYAMA, Hélder Ferreira (org.). Lazer, recreação e educação física. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
  • WLRA. Carta Internacional de Educação para o Lazer. Disponível em: http://www.saudeemmovimento.com.br/conteudos/conteudo_exibe1.asp?cod_noticia=195 . Acesso em 17 set. 2005.

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