A Força da Cultura no Esporte

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Blog da Katia Rubio - 2012

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Nos últimos dias acompanhei de perto o Brasil Open de Tênis de Mesa, campeonato que reuniu 110 atletas de 50 países. É muito bom ver os melhores atletas da modalidade juntos, mostrando suas habilidades e também compartilhar esse clima de ONU esportiva que todo campeonato internacional proporciona: intercâmbio cultural, tietagem, modelo de referência de identidade e quase formação de ego ideal.

Um fato é inegável: a predominância oriental na modalidade, para não dizer a primazia chinesa nesse esporte. Em função da intensa massificação da modalidade, da formação de excelentes atletas e apenas 6 vagas (3 masculinas e 3 femininas) em Jogos Olímpicos para um país com mais de um bilhão de habitantes como a China, não é de se estranhar que haja chinesa polonesa, chinesa americana, chinesa francesa, defendendo Cingapura ou muitos outros países. E então, por uma questão de sobrevivência, muitos atletas chineses partem em busca de oportunidades e são acolhidos como atletas, como futuros campeões, ou ainda, como heróis nacionais em países que não conhecem o idioma, que têm características físicas absolutamente distintas, mas por tudo isso vestem literalmente a camisa de um novo país e passam a ser mais um dos seus.

Para o Brasil isso não é muito diferente. País acostumado a acolher e a incorporar a diversidade, que viu o esporte se desenvolver juntamente com o processo imigratório, uma vez que as práticas esportivas faziam parte do repertório cultural dos imigrantes que aqui chegaram, assiste no presente a mais um desafio: superar, também no tênis de mesa, a máxima ouvida de outras práticas esportivas – a impossibilidade de se superar a matriz!

Melhor eu explicar isso direito. Se olharmos para a história do esporte olímpico brasileiro vamos observar que há algumas modalidades que se firmaram ao longo das décadas, muito embora algumas nem tenham conquistado medalhas. É o caso do futebol, do atletismo ou remo no início da participação brasileira e outras modalidades que foram ganhando força e criando tradição nas edições olímpicas mais recentes.

Assim aconteceu com o voleibol. Esporte tradicionalmente dominado pelos países da chamada Cortina de Ferro até os anos 70 assistiu a uma reversão nesse quadro a partir dos anos 80 quando então uma “revolução” ocorreu por conta de uma série de fatores. É possível começar pela “exportação” dos atletas brasileiros, que em contato com atletas de outras escolas, começaram a “inventar uma tradição” (1), levando ao desenvolvimento de um novo estilo de se jogar voleibol, um estilo brasileiro. Isso não ficou restrito apenas aos atletas. Técnicos, preparadores físicos, médicos, psicólogos, estatísticos saíram por esse mundo de meu deus buscando informações para serem aplicadas junto aos atletas. Alguns afirmam que foi uma estratégia de tentativa e erro, um processo de seleção natural que fez um grupo chegar à medalha de prata em 1984, consagrando aqueles como a geração de prata, e inaugurando um novo tempo para o voleibol brasileiro. Somado a isso houve também uma mudança na gestão do voleibol que somou a profissionalização de alguns times à cumplicidade da mídia na veiculação das competições, transformando-as em um espetáculo para além dos ginásios. Assim estavam dadas as condições para que o voleibol brasileiro se transformasse em uma referência mundial, medalhista e campeão olímpico no feminino e no masculino, com um estilo copiado em vários outros países.

Claro que isso não ocorreu sem esforço. Já se vão quase 30 anos de movimento intenso por parte de quem se dedica a ver o esporte nesse patamar. Pessoas incansáveis que dedicaram suas vidas para ter o esporte nessa condição para não mais ouvir que é impossível ganhar de poloneses, soviéticos ou americanos.

O mesmo pode ser visto com o judô. Criação do japonês Jigoro Kano foi utilizado durante anos como uma disciplina escolar, fonte de inspiração para o desenvolvimento de disciplina, coragem, determinação, uma filosofia de vida. Kano preparou mestres para levar sua proposta pedagógica para o mundo, uma vez que sua intensão não era gerar competição. Isso o levou, inclusive, a ser contrário ao judô nos Jogos Olímpicos, retardando a inclusão da modalidade no programa para 1964, ano em que os Jogos ocorreram em Tóquio. E assim o judô chegou ao Brasil tanto pelos imigrantes japoneses que vieram tentar a vida em uma nova terra como pelas mãos de pessoas que se dedicaram ao desenvolvimento da modalidade e seus valores morais(2). A inclusão do judô nos Jogos Olímpicos provocou uma transformação em sua prática em função da competição e da busca da vitória. É óbvio que no princípio os japoneses eram imbatíveis e essa impressão era compartilhada não apenas entre os brasileiros, mas por atletas de todo o mundo. Muitos atletas relatam terem ouvido de seus mestres a necessidade de treinarem para serem bons ou melhores do que eram até aquele momento, mas que não adiantava quererem ganhar dos japoneses porque eles eram os melhores do mundo. E assim como outras tantas profecias auto-realizadoras algumas gerações de judocas brasileiros chegaram a Campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos cumprindo o papel que lhes foi imputado: ser os coadjuvantes da festa dos japoneses. Esse cenário foi revertido quando alguns atletas, insatisfeitos com esse papel, resolveram quebrar aquela tradição e inventar uma outra. A assim nasceu a chamada “escola brasileira do judô” (3).

Walter Carmona relata o quanto ficava indignado ao ouvir de seus mestres de ascendência japonesa sobre a supremacia e invencibilidade dos judocas japoneses e o quanto isso desestimulava os brasileiros a buscarem resultados mais expressivos. E foi justamente essa descrença que o levou a buscar resultados nunca antes alcançados: ele queria provar que era possível sim quebrar uma tradição; que era possível sim ser medalhista olímpico mesmo sendo um “gaijin”. Embora Shiaki Ishii fosse o primeiro medalhista brasileiro do judô foi depois de 1984 com Walter Carmona, Douglas Vieira e Luis Onmura que o judô brasileiro ganhou medalhas em todas as edições olímpicas até o presente, tornando-se uma das potências mundiais da modalidade, mesmo sem ter a visibilidade e o apoio da mídia que o voleibol teve.

Esse mesmo desafio eu vejo chegar agora ao tênis de mesa brasileiro. Modalidade de fácil massificação, presente em muitos locais de lazer e de custo pouco elevado, pela primeira vez na história a seleção brasileira irá completa aos Jogos Olímpicos com 6 atletas, 3 homens e 3 mulheres, importante avanço para o crescimento da modalidade. Vi no Brasil Open de Tênis de Mesa de 2012 uma geração talentosa aparecer. Garotos e garotas entusiasmados com a possibilidade de despontarem para o mundo de um esporte onde ainda predomina o imaginário da potência chinesa.

Espero ver acontecer com o tênis de mesa o mesmo que ocorreu com o voleibol e o judô. Que prevaleça o espírito de superação de uma profecia que determinou que apenas uns e não outros são competentes para chegar entre os melhores. Que os formadores estimulem e incentivem seus pupilos a buscarem a excelência e não a vitória a qualquer custo. E quem sabe assim assistiremos a mais uma mudança na cultura de uma modalidade.

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1 – O termo tradição inventada foi cunhado pelo historiador Eric Hobsbawm que afirma que toda tradição teve seu início de forma casual ou pensada, mas que passou a ser adotada como obrigatória a partir de um marco que no presente pouco se sabe onde se iniciou.

2 – Para maiores informações sobre esse tema ver NUNES, A. V. A influência da imigração japonesa no desenvolvimento do judô brasileiro: uma genealogia dos atletas brasileiros medalhistas em Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais. 2011. Tese de doutorado (Educação Física) – Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo.

3 – Essas histórias estão narradas no livro Heróis Olímpicos Brasileiros. Editora Zouk.

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Apesar da falta de apoio financeiro, do inúmeros problemas sociais, acredito que alguns esportes podem mudar de patamar dentro de alguns anos, e o tênis de mesa é um deles. Os chineses dominam, os japoneses estão próximos, mas os brasileiros influenciados por essas duas nações e mais algumas outras, pode evoluir bastante. Lembro quando reunimos quase todos os tenistas que participaram de um Panamericano (acho que foi a de Indianápolis)num evento demonstrativo realizado num clube que trabalhei como coordenador de esportes. Já naquele tempo, achava que o tênis de mesa tinha tudo para se tornar popular. Na equipe vários nikkeis, entre eles o saudoso Claudio Cano. Não sei o que aconteceu nos bastidores politicos das federações, mas o certo é que tudo parou por aí, sem grandes avanços. Como os tempos são outros, tudo pode ser diferente.

Por Edison Yamazaki
em 3-07-2012, às 20:55.

Endereço: https://web.archive.org/web/20140831111212/http://blog.cev.org.br/katiarubio/2012/a-forca-da-cultura-no-esporte/

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