A Formação em Educação Física: em Busca de Uma Integração Entre Escola e Lazer

Por: Edson Farret da Costa Júnior.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Esta nossa inquietação nasceu a partir do momento que trabalhamos no Projeto de Esporte e Lazer (pela Secretaria de Esportes do Município de Niterói - Ministério do Esporte) onde uma das propostas de trabalho é a temática da intergeracionalidade. E observamos, a pouca referência bibliográfica de práticas pedagógicas relacionadas ao tema intergeracionalidade, ou seja, atividades que envolvam indivíduos de gerações diferentes.

Sabemos que o envelhecimento da população brasileira, e mundial, é um fato. Desta forma a terceira idade passa a ser um tema de grande importância, pois temos a lei brasileira Lei nº 4482 de 1994 que implanta a Política Nacional do Idoso e até as campanhas voltadas para um envelhecimento saudável, mas apesar desse esforço ainda presenciamos uma falta de estrutura sócio-cultural na nossa sociedade.

Citamos BOIS apud ALVES JUNIOR (1998, Mímeo, p.1) lembrado por Bianca Viana:

O envelhecimento da população mundial e acrescentamos também a do Brasil, ocorrido no século XX, como também o aumento do número de pessoas consideradas como idosos, bem como da longevidade média, contribuíram por fazer da velhice, mesmo se em todas as épocas existiram velhos, uma novidade para o nosso tempo: não resta qualquer dúvida que a nossa velhice não será a mesma dos nossos pais, avós ou de nossos ancestrais mais longínquos.

Assim, com este aumento do número dos idosos em relação aos jovens, ocorrido no século XX, cresce também as chances de um contato entre estas gerações.

Como professores de Educação Física, onde atuamos tanto na área da educação(escola) quanto na área do lazer, percebemos a importância de lidar com este fato, pois o desrespeito com este grupo já esta se tornando comum, como por exemplo, nos asilos, nas filas dos bancos, por alguns motoristas de ônibus, nos hospitais e postos de saúde, até dentro das próprias famílias e etc.

Objetivando amenizar estas situações precisamos criar situações de ensino e aprendizagem para resgatá-los(idosos) para uma participação social ativa, interagindo-os com outras gerações, fortalecendo-os na sua auto-estima e confiança, tanto para eles como para aqueles que fazem parte do processo.

Abordando a questão da intergeracionalidade, é importante sabermos que o conceito de geração, segundo Goldman e Paz (2002) citado por Santos(2004) tem "múltiplos conceitos e polêmicos debates", das formas mais simplistas que atribuem ao conceito de geração o caráter somente cronológico ou de uma determinada localidade até ao conceito que ultrapassa essa visão associando-o a um compromisso dinâmico entre massa e indivíduo. (p.3)

Percebemos assim, que cada geração tem sua particularidade baseada em seu contexto contexto histórico, influências políticas, econômicas, sociais e culturais (GOLDMAN & PAZ apud Santos, 2204). Temos por exemplo a "geração Coca-Cola", indivíduos que nasceram nos anos 70 e que no final dos anos 80 até meados dos anos 90, consumiam fortemente refrigerante e hambúrgeres.

Desta forma, quando falamos de intergeracionalidade pensamos nas relações entre os diferentes grupos etários, pois "a importância da intergeracionalidade está no intercâmbio entre grupos etários diferentes e na troca que se estabelece entre as gerações, difusão de saberes, na transição da memória sócio-histórica e/ou tradições e passagens de rituais sociais, na perspectiva do fortalecimento dos grupos ou da sociedade". ( GOLDMAN & PAZ, 2002 apud SANTOS SOUZA, 2004)

Sabemos da escassez da exploração deste tema numa perspectiva prática-teórica e que acaba sendo inversamente proporcional a sua importância na nossa sociedade atual. Pois através desta prática, podemos conscientizar que a manutenção de preconceitos tanto atrapalha as relações entre gerações mais novas e as mais velhas.

Portanto, as experiências desta convivência entre gerações não devem se limitar à família e aos programas e política governamentais, mas serem expandidas às instituições privadas e a outras representações da sociedade.

Na Escola ...

Com a nossa pequena, mais importante, experiência no Projeto de Esporte e Lazer - do Ministério do Esporte - na Secretaria Municipal de Esporte e Lazer da Cidade de Niterói, percebemos que a escola também pode (e deve) também ser palco deste tema.

Numa visão crítica de ensino, reconhecemos na escola (enquanto espaço de educação formal) o papel instrutivo e formativo dos indivíduos, contribuindo na construção de uma cidadania com a formação de alunos éticos, participativos, situados no contexto histórico-social em que estão inseridos.

Tendo por base à Lei nº 8.842, de 4 de janeiro de 1994, no Capítulo IV, Das Ações Governamentais, Art. 10, percebe-se que na implementação da política nacional do idoso, são competências dos órgãos e entidades públicas: " III - na área de educação: b) inserir nos currículos mínimos, nos diversos níveis do ensino formal, conteúdos voltados para o processo de envelhecimento, de forma a alimentar preconceitos e a produzir conhecimentos sobre o assunto. "

Assim, calcados numa política nacional, defendemos uma formação do professor em licenciatura plena em Educação Física que também contemple as vivências teóricas e práticas sobre a questão do envelhecimento e intergeracionalidade, para que desta forma possamos dar um passo significativo para transformarmos idéias errôneas sobre o envelhecimento e contribuirmos à um bom convívio entre gerações.

A formação...

Superando uma formação tecnicista e biologizante, que era a base da nossa formação no passado, estamos regatando (pois essa idéia não tem nada de novo e não é essa nossa pretensão) a idéia que a educação física não está restrita somente aos jogos, esporte ou preparação física, mas a diferentes manifestações da cultura corporal e até utilização de outros recursos pedagógicos que aparentemente não se enquadram nessa área de conhecimento ( como leitura de textos, pinturas e colagens e outras manifestações artísticas culturais), a educação física pode criar um espaço de participação construtiva, tanto fora quanto dentro das instituições escolares, desenvolvendo a intergeracionalidade, compartilhando interesses, desafios, prazeres, dúvidas e principalmente alegrias pelas descobertas.

Visando contribuir no repensar desse limite, bem como destacar a necessidade de estimular o avanço qualitativo do saber construído na área da intergeracionalidade, ressaltamos que o ato de formar é concebido como um ato social. Assim, a idéia não é criar discípulos, mas sujeitos críticos e criativos e que possam realizar trocas na relação com os outros, com o conhecimento e com os demais componentes que integram a globalidade do processo formativo acadêmico.

Portanto, uma formação num ambiente universitário deve estar comprometida como diálogo e com a construção do coletiva do conhecimento, e produzida da mesma forma como a realidade humana em seu conjunto, englobando diferentes aspectos que constituem as malhas dosei tecido histórico.

Ou seja, a universidade é construída em ação recíproca com a produção das condições materiais e demais formas da realidade, pois é um espaço de investimentos ideológicos, produzido como expressão do grau de desenvolvimento da sociedade como um todo.

Por essa razão, a formação do professor de educação física precisa envolver um vínculo entre a universidade e demais espaços sociais que compõem a nossa realidade e cultura, para que à reflexão teórico-prática e os saberes científicos, tecnológicos e/ou jurídicos construídos pela humanidade possa atingir seu propósito, que é desenvolver nossa capacidade de orientação em relação a diferentes objetivos e a problemas interdisciplinares, complexos e variados.

Assim, acreditamos numa formação que abranja e assuma uma liberdade como um de seus pressupostos, pois é um exercício utópico que busca a unidade dialética, dinâmica, interdisciplinar e intergeracional entre a denúncia e o anúncio. Isso demanda visitar o amanhã, o futuro, por meio do profundo engajamento autônomo e responsável com o hoje, com o aqui com o agora que fazemos presentes.

Obs. Os autores, Edson Farret da Costa Júnior é professor da rede FAETEC, UNIVERSO e UNIPLI, Luiz Roberto é professor da rede FAETEC e Assessor da Coordenação geral do Projeto Esporte e Lazer da Cidade e Claudia Marins de Araújo é professora de rede particular de ensino básico e Coordenadora do Projeto Esporte e Lazer da Cidade de Niterói.

Referências bibliográficas

  • Alves Junior, Edmundo de Drumond. Procurando compreender as transições demográficas. (Mímeo) 1998.
  • Araújo, Ulisses F. Temas Transversais e a estratégia de projetos. São Paulo: Moderna, 2003.
  • Marcellino, Nelson C. Lazer e educação. Campinas: Papirus, 1987.
  • Souza, Bianca Viana S. Uma proposta Intergeracional. Anais do VIII EnFEFE - Cultura e Educação Física Escolar. Niterói, 2004.
  • Werneck, Christianne L. G. Lazer e Formação Profissional na Sociedade Atual:
  • Repensando os limites, os horizontes e os desafios para a área. Revista de Centro de Estudos de Lazer e Recreação /EEF/UFMH, v.01 - nº1, 1998.

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