A Influência do Clima Motivacional na Participação dos Alunos nas Aulas de Educação Física

Por: Walmer Monteiro Chaves.

VII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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O objetivo do presente trabalho é estudar a influência do clima motivacional na participação dos alunos nas aulas de Educação Física escolar. Baseado na Teoria Social Cognitiva da Abordagem por Objetivos/Metas (Nicholls,1984; Duda,1989) existem duas metas denominadas de tarefa e ego, que estão relacionadas à composição desse clima nas aulas.

A hipótese norteadora baseia-se na afirmação de que o desenvolvimento de procedimentos didático-pedagógicos voltados para a meta tarefa, influencia o clima motivacional das aulas provocando mudanças comportamentais nos alunos, que irão contribuir para a participação dos mesmos nas atividades de aula.

A questão central desse estudo está pautada na não-participação dos alunos nas aulas de Educação Física. A preocupação, pois, com o tema motivação relacionado à participação surge justamente na compreensão de que todo indivíduo deve ser respeitado em todos os espaços sociais, sobretudo nos espaços educativos. Criando-se oportunidades para que todos possam participar das atividades propostas nas aulas e desfrutar de seus benefícios, valorizam-se as diferenças individuais e as diversas formas de participação.

O professor exerce uma forte influência no processo de criação do ambiente nas aulas em função de determinadas práticas ou ações pedagógicas que utiliza, contribuindo para a determinação da meta tarefa ou para a meta ego nas aulas. Portanto, esse trabalho tem como pressuposto considerar que o professor ao estabelecer o clima motivacional de suas aulas deve priorizar a meta tarefa, ao invés da meta ego, uma vez que a primeira é pedagogicamente mais desejável no contexto escolar, conforme Bzuneck (1999).

Teoria social cognitiva da abordagem por objetivos / metas

Essa teoria apresentada por Chaves (2002) no VI EnFEFE, fundamenta-se em duas metas denominadas por Nicholls (1984) e Duda (1989) de tarefa e ego, que são qualitativamente diferentes entre si e fornecem explicações específicas dos comportamentos de realização, característicos das situações de aprendizagem escolar. Cada uma das metas representa um propósito ou razão para o aluno aplicar esforço e obter sucesso numa determinada atividade, seja de natureza cognitiva, psicomotora, afetiva ou comportamental.

Um indivíduo que possui um envolvimento denominado de tarefa nas atividades, apresenta as seguintes características (DUDA,1993/1994; STEPHENS,1998; RASCLE et al.,1998; PAPAIOANNOU e KOULI,1999; BZUNECK,1999; TRESURE e ROBERTS, 2001): o sentimento de sucesso na realização de atividades depende de si mesmo; possui uma auto-referência em relação às suas habilidades; sente grande prazer e satisfação em participar, jogar e atribui o sucesso à equipe; não está preocupado com a performance para o rendimento, mas para a aprendizagem; sucesso associado ao duro esforço, persistência e utilização das habilidades para a realização das atividades; compromisso social, compreensão e cooperação com os colegas; não se utiliza do esporte como meio de status social e promove atitudes éticas e lícitas para obter sucesso na realização das tarefas; boa concentração e atenção nas atividades não desistindo frente às dificuldades; inovação, criatividade e aprendizagem; considera o erro como informativo e parte do processo de crescimento; fracasso considerado como falta de esforço e o resultado é visto como consequência do esforço pessoal; sentimento de orgulho e satisfação após sucesso conquistado com esforço e de culpa, associado à falta de esforço, e finalmente, escolha de tarefas mais desafiadoras e de risco, implicando em níveis mais altos de desempenho.

Por outro lado, uma pessoa que possui um ego envolvimento apresenta as seguintes características (ibid): sucesso associado à superior habilidade e sensação de competência; preocupação em derrotar os adversários; maior competitividade e individualismo; utilização do esporte para aumentar a popularidade, status social e sua auto-estima; atenção voltada para o rendimento e performance; valoriza a vitória e, se possível, com o menor esforço; capaz de utilizar meios ilícitos para vencer (fraudes, doping, técnicas e táticas enganosas, agressividade, deslealdade,...); importa-se com a opinião de outras pessoas sobre o seu desempenho; são menos persistentes, desistindo de certas atividades; frente a um desempenho negativo reage justificando a falta de interesse na atividade, uso inadequado de estratégias e equipamentos, fatores externos (arbitragem, azar, pressões da torcida, clima,...); busca menor grau de dificuldade nas atividades para obter sucesso mais facilmente; maior nível de ansiedade e tensão frente à competições; utiliza medidas padronizadas para obter sucesso; constante comparação com outras pessoas no que tange ao rendimento; fracasso atribuído a falta de capacidade, despertando sentimentos negativos e escolha de tarefas mais fáceis, com menos riscos, implicando em níveis mais baixos de desempenho.

Metodologia

O presente trabalho trata de um estudo de caso, que utilizou na pesquisa cento e quatro alunos de três turmas da quinta série do ensino fundamental, da Escola Municipal Cecília Augusta dos Santos / Itaboraí-RJ. As turmas são compostas de alunos de ambos os sexos, dentro de uma faixa etária entre doze e dezoito anos.

O instrumento utilizado foi o "Task and Ego Orientation in Sport Questionnaire", criado por Duda (1989) e Duda e Nicholls (1992), conforme Chi e Duda (1995).

Durante os seis meses de pesquisa, foram adotados procedimentos didático-pedagógicos voltados para o estabelecimento de um clima motivacional pautado nos princípios da meta tarefa.

Resultados

Para melhor entendermos os resultados das aplicações do questionário, a predominância de metas é analisada dentro de uma escala geral de sete a trinta e cinco pontos. Os resultados próximos ao índice sete refletem uma fraca predominância e próximos ao índice trinta e cinco refletem uma forte predominância da meta analisada.

Podemos observar que os valores referentes à meta tarefa aumentaram nas três turmas, bem como, os relacionados à meta ego diminuíram, resultado positivo e de acordo com a hipótese inicial desse estudo.

Conclusões do estudo

Com base nos resultados dessa pesquisa, pudemos observar que os procedimentos didático-pedagógicos voltados para a meta tarefa, utilizados durante as aulas de Educação Física, influenciaram no clima motivacional e na participação dos alunos.

Durante as aulas realizadas a cobrança por rendimento e performance entre os alunos diminuiu, aumentando a aceitação das diferenças entre os indivíduos do grupo, o que estimulou uma maior participação dos alunos, reduzindo, assim, possíveis situações de exclusão ou marginalização.

Num ambiente baseado na meta tarefa os alunos se sentiram mais seguros e satisfeitos com suas experiências nas aulas, pois foram destacados o esforço e o aperfeiçoamento pessoal, que são fatores sobre os quais eles podem ter controle.

O nível de satisfação dos participantes nas aulas também aumentou, pois os alunos não estavam preocupados com o seu desempenho atlético, mas com a sua forma individual de participar, traduzindo-se na auto-expressão.

Na questão de gênero também ocorreram mudanças comportamentais, pois de início, os meninos queriam participar nas aulas durante um tempo maior do que as meninas. No decorrer da pesquisa, os meninos passaram a entender e respeitar a divisão igualitária do tempo de realização das atividades, bem como, as meninas passaram a reivindicar mais os seus direitos. As atividades realizadas em conjunto propiciaram um melhor entrosamento entre os meninos e as meninas.

O índice de faltas não justificadas nas aulas foi mínimo, o que expressou a intenção e o interesse dos alunos em participar efetivamente das atividades propostas e não apenas pela obrigatoriedade legal.

As atitudes de cooperação e solidariedade entre os alunos aumentaram, proporcionando uma maior integração entre os alunos que apresentavam uma melhor performance e os que não apresentavam muita habilidade na execução das atividades. Com isso, o grau de união entre os integrantes das turmas aumentou, reforçando os laços afetivos / relacionais e auxiliando na eliminação de possíveis exclusões nas aulas.

A avaliação feita com critérios pautados na meta tarefa, proporcionou aos alunos que, a princípio, julgavam-se incapazes ou com rendimentos técnicos inferiores aos demais, a possibilidade de obterem boas notas, baseadas no empenho, esforço e potencial de cada um. Este estímulo incentivou-os a participarem mais das atividades, bem como, influenciou positivamente na autoconfiança e na auto-estima dos mesmos.

As atividades desenvolvidas a partir de brincadeiras e jogos que fazem parte do conhecimento dos alunos, reduziram a tensão, a ansiedade e o medo em relação às novas atividades e esportes a serem realizados. Considerando-se que essas turmas nunca tiveram aulas de Educação Física anteriormente, a redução do clima de tensão facilitou a participação de alguns alunos que mostravam-se inseguros inicialmente.

Os jogos e atividades lúdicas proporcionaram um ambiente descontraído que estimulava a participação dos alunos de forma espontânea e prazerosa, envolvendo-os num clima saudável e de alegria.

A utilização de jogos cooperativos contribuiu muito para a participação dos alunos, pois o sucesso nessas atividades depende do envolvimento de todos. Sendo assim, os alunos passaram a conhecer e valorizar mais seus colegas, visando a inclusão nas atividades e o destaque coletivo.

Na realização das atividades competitivas alguns alunos apresentaram, inicialmente, dificuldades em relação à vitória ou à derrota. Os alunos "derrotados" saíam reclamando, insatisfeitos e, por vezes, se tornavam agressivos e os alunos "vitoriosos" não respeitavam os primeiros, vangloriando-se e zombando destes.

Conforme o trabalho foi se desenvolvendo, pudemos perceber que os alunos, de uma forma geral, passaram a encarar a vitória / acerto e a derrota / erro como sendo situações naturais e presentes no processo de aprendizagem. Com essa tomada de consciência suas atitudes mudaram, gerando um clima mais fraterno e acolhedor durante as atividades competitivas.

O problema deste trabalho estava centrado na não-participação dos alunos nas aulas de Educação Física. Dessa forma, podemos afirmar que, nesse estudo de caso, esta questão foi superada, pois, através da utilização de procedimentos didático-pedagógicos, voltados para a meta tarefa, conseguimos garantir a todos os alunos, sem exclusões, a participação efetiva nas atividades propostas.

De acordo com os resultados da pesquisa, em termos numéricos ou subjetivos, podemos afirmar que não houve contradição em relação à hipótese norteadora desse estudo.

Os autores: Walmer Monteiro Chaves, mestre em Ciência da Motricidade Humana (UCB); professor das redes municipais de Itaboraí e São Gonçalo e particular de Niterói , a Dra. Nilza Magalhães Macário, orientadora deste trabalho, do Programa de Mestrado em "Ciência da Motricidade Humana" da UCB


Referências bibliográficas

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  • Chaves, W.M. O clima motivacional nas aulas de Educação Física: uma abordagem sócio-cognitivista. In: VI Encontro Fluminense de Educação Física Escolar (EnFEFE). Anais... Niterói: UFF, 2002.
  • Chi, L. & DUDA, J.L. Multi-Sample Confirmatory Factor Analiysis of the Task and Ego Orientation in Sport Questionaire.Research Quarterly for Exercise and Sport. v 66, p.91-98,1995.
  • Duda, J.L. Relationship between task and ego orientation and the perceived purpose of sport among high school athletes.Journal of Sport & Exercise Psychology. v.84, p.318-335, 1989. DUDA,J.L.Goals:a social cognitive approach to the study of motivation in sport.Em Singer et al.,Handbook on research in sport psychology (pp.421-435).New York:Macmillan,1993.
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