A Legitimidade da Educação Física Escolar: Confrontos e Desafios

Por: Maria Cecília de Paula Silva.

VII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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O presente artigo refere-se ao processo de construção do ‘Programa Municipal de Educação Física: diretriz curricular, empreendida pelo conjunto de professores da rede publica municipal de Juiz de Fora/MG, durante o ano de 1999. Neste processo, a disciplina Educação Física foi debatida com o conjunto de docentes desta rede publica, que disponibilizaram tempo para tal, na tentativa de buscar saídas que amenizassem não só "as angustias pessoais de se ter aulas significativas e de melhor qualidade, mas também a ausência de uma linguagem comum que pudesse mediatizar o dialogo entre os professores e a comunidade escolar" (Paula Silva; Zacarias et alli, 2000, p. 11).

Isto porque, apesar de a educação física já constar no curriculo há bastante tempo (desde a década de 70), não havia um eixo norteador de sua pratica pedagógica no município, o que acarretava diversos problemas relacionados a indefinição de princípios e mínimos curriculares para orientar o trabalho nas escolas.

A pertinência e a relevância deste problema para a analise das possibilidades escolares da educação física e das discussões a respeito das dificuldades da educação brasileira, se reafirmam cada vez com mais força na medida em que avançamos no inicio deste novo século, com questões como a da formação básica para a classe que vive do trabalho, como a construção da escola publica unitária, entre outros.

Na educação física, estamos diante da discussão a respeito da sua legitimidade pedagógica na escola, ou a reflexão/práxis deste conhecimento/conteúdo escolar, há muito já presente no debate da área, como por exemplo, através dos estudos realizados por Carvalho (1991), Coletivo de Autores (1993), Oliveira (1994), CBCE (1997), Castellani Filho (1998), entre outros. Mais ainda, nestes tempos de hegemonia neoliberal na América Latina e da possibilidade de mudanças com o novo governo brasileiro em curso.

Esta articulação com a educação se destacou no chão da escola em Juiz de Fora/MG, e, no presente texto, no campo da Educação Física. A cidade, além de possuir uma trajetória histórica de lutas no campo educacional, possui um sindicato de professores forte e um grupo significativo de professores de educação física que se colocavam explicitamente insatisfeitos com as diretrizes da educação física escolar publica. Esta insatisfação era debatida principalmente nas obrigatórias reuniões mensais do então departamento de Educação Física e inúmeras soluções foram propostas para tentar afinar a pratica pedagógica ao espaço escolar e a proposta política-pedagógica deste grupo.

Com o acirramento do embate e a busca de solução coletiva, optamos por realizar um período de estudos, pesquisas, discussões temáticas e cursos de atualização, relacionados com o espaço de atuação, políticas educacionais, conteúdos, metodologias, objetivos e avaliação da educação física escolar durante o ano de 1999. Para tal, utilizamos estas obrigatórias reuniões departamentais, anteriormente tidas como momento de relatar e/ou programar as atividades do departamento, para estas discussões, retirando-se das mesmas o caráter obrigatório (conquista da luta sindical) e acentuando sua importância fundamental para este empreendimento.

Pretendíamos inicialmente traçar um eixo norteador da pratica pedagógica de educação física que orientasse todos os professores na elaboração dos planejamentos e na organização desta disciplina no espaço escolar, que ate o momento era realizada de forma difusa e individual, apesar de tentativas de planejamento coletivo semestral.

Apoiados pela Divisão de Educação Física Escolar, estas solicitações se transformaram em um projeto - ação do município e, através do conhecimento historicamente construído e sistematizado da Educação Física, elaboramos um programa municipal de Educação Física, visando sanar algumas necessidades prementes dos professores e entendendo-o como um ponto inicial para novas discussões, reflexões e sistematizações do conhecimento.

Tínhamos ciência que as dificuldades de sistematização de um programa de educação física para as diversas series/ciclos do ensino fundamental faziam parte do contexto particular desta área de conhecimento, que vem passando por um período de criticas, desconstrução e reconstrução de sua práxis no espaço escolar. A este respeito, já na década de oitenta, Medina (1989) ressaltava que esta área estava em crise de seus paradigmas, em ebulição de novas propostas que poderiam traçar avanços na perspectiva escolar.

Considerando-se a perspectiva coletiva, elaborada pelos professores da Rede Municipal, optou-se por uma dinâmica de trabalho baseada em reuniões mensais com todo o grupo de professores da Rede Municipal para a discussão e elaboração coletiva da proposta; palestras sobre temas específicos que foram levantados pelo grupo no decorrer da elaboração do programa; levantamento da cultura corporal de movimento das comunidades/bairros da cidade de Juiz de Fora; cursos sobre questões que necessitassem de aprofundamento; organização de temas para serem discutidos e aprofundados pelos grupos, organizando posteriormente grupos de estudo e de pesquisa; síntese das discussões e resoluções elaboradas nos grupos.

A manutenção posterior dos grupos de estudo a respeito das temáticas consideradas mais polêmicas (opções por série/ciclo; questão do conhecimento/avaliação; ensino noturno) foi um dos itens mais enfatizados por todo o grupo, bem como a busca de intercâmbio com Instituições/ Municípios/ Estados que estariam realizando trabalhos semelhantes e, finalmente, na realização de Seminários com Trabalhos de Pesquisa e Relatos de Experiência dos professores da Rede Municipal de Educação; através da sistematização das ações empreendidas durante a elaboração do programa, a partir da sistematização inicial.

Traçamos como objetivos da primeira parte do presente projeto:

  • Sistematizar um programa de Educação Física de Pré a 8ª séries na rede Municipal de ensino; - Estabelecer um eixo norteador de ação para os professores de Ed. Física, considerando um mínimo de conhecimento a ser desenvolvido no ensino fundamental;
  • Justificar (respaldar) a prática pedagógica dos professores da Ed. Física na sua ação cotidiana, nas relações com a escola e a comunidade;

Para a realização da primeira parte destas proposições, foi proposto um cronograma de atividades, realizadas durante aquele ano letivo, tendo a participação de todos os professores que se dispuseram e se disponibilizaram a estar refletindo, estudando e apontando caminhos para a sistematização do programa municipal. Algumas das atividades do projeto realizadas durante o ano de 1999, foram:

  • Projeto - Apresentação da dinâmica e das entrevistas para a confecção do ‘estado da arte da cultura corporal de movimento da cidade;
  • Discussão sobre o conhecimento (cultura, criança, sociedade), através de textos(e palestras).
  • Discussão dos objetivos da disciplina, através de textos e definição dos objetivos da educação física escolar [Jornada - Curso com Profs. {convidados}];
  • Discussão sobre série/ciclo, elaboração de uma propostas{selecionar textos, palestras, propostas de outros locais para o debate};
  • Sistematização do volume de trabalho do 1º semestre;
  • Tema dos conteúdos - tratamento por conhecimentos, especificações e especializações ;
  • Metodologia(s) - Explanação sobre as possibilidades metodológicas e debate/escolha de uma (palestra/ convidados);
  • Avaliação (discussões e opção de uma possibilidade avaliava);
  • Questões especiais(corpo, gênero, saúde, sexualidade, meio-ambiente, pluriculturalismo);
  • Organização das discussões e redação final. (Paula Silva, 1999,p. 2).

Para um conhecimento da cultura corporal de movimento da cidade, através das comunidades/ bairros, realizei uma pesquisa investigativa, havendo a participação de todos professores da rede municipal na busca de informações/ações realizadas pelas comunidades relacionadas com a cultura corporal. Foram sugeridos uma entrevista/questionário com os alunos, funcionários e moradores das localidades, tendo como referência questões relacionadas com os jogos e brincadeiras praticadas pela comunidade (Jogos populares, folclóricos, de salão, adivinhas, brincadeiras cantadas, competitivos, jogos realizados nas ruas, praças, escolas, etc.); com os brinquedos utilizados nos jogos/brincadeiras (objetos construídos ou adquiridos).

Os movimentos sistematizados da cultura corporal mais explorado pelas comunidades e a forma/nível de envolvimento da mesma, foram também pesquisados como, por exemplo, o correr, subir e descer em morros e árvores, trepar, escorregar, saltar, rolar, girar, dependurar-se, etc.; os esportes conhecidos, explorados e apreciados. A existência ou não de organização de times, treinos, competições e torneios esportivos e em quais modalidades; a participação das representações políticas/esportivas comunitárias nestes eventos; a participação destas comunidades nos torneios municipais e/ou estaduais, bem como a influencia da mídia nestes eventos/manifestações.

Outro ponto de destacado neste mapeamento panorâmico da cultura corporal nas comunidades foram a presença, freqüência e forma de utilização das lutas, danças, ginásticas, festas e atividades de lazer pelas comunidades/bairros. Quais eram as mais conhecidas, apreciadas, praticadas e/ou consideradas nas respectivas comunidades e o local em que eram realizados tais eventos e qual era o impacto de tais realizações nas comunidades ou nas imediações; quem as promovia e como eram aceitas tais atividades; alem da influencia da mídia televisiva, falada e escrita nestas manifestações da cultura corporal.

A participação da escola e dos professores (entre eles, os professores de educação física) em tais atividades foi outra questão explorada neste diagnostico da realidade urbana e rural da infância/juventude local. Esta participação foi registrada com as seguintes características: ocorria-se ou não esta participação e, em caso afirmativo, em que níveis ocorriam. Finalmente, questões relacionadas com os espaços comunitários para a prática de atividades lúdicas e esportivas (praças, quadras, etc...); a política comunitária e/ou municipal de incentivo a tais atividades e o envolvimento da comunidade nas mesmas foram questões presentes neste item do projeto.

Sugestões como essas nos auxiliaram na confecção do "Estado da Arte" das comunidades, no que diz respeito às manifestações da cultura corporal de movimento. Com esta pesquisa exploratória inicial, pudemos caracterizar a realidade da cultura corporal da cidade em geral e das comunidades, em particular, alem de apontar para uma riqueza das expressões corporais e dos sentidos/significados estabelecidos pelas comunidades (por exemplo, da zona rural e da zona urbana), muitas vezes desconsideradas no ensino desta disciplina.

Esta pesquisa também auxiliou-nos na sistematização dos conhecimentos a serem trabalhados no espaço escolar, de forma a tomarmos consciência, da forma mais ampla possível, desta realidade histórica para que ela se constituísse em um elemento de ação pedagógica e de ação política, principalmente.

Este quadro poderá, posteriormente, ser mais bem especificado e explorado, por outros estudos e de acordo com temas específicos, pontuais. Pode contemplar outras indagações importantes das práticas da cultura corporal, lúdicas e esportivas, de Juiz de Fora na construção de uma escola publica e unitária, uma escola que atenda a classe que vive do trabalho nas bases propostas por Marx e Engels, de uma educação omnilateral, onde se consiga alcançar uma totalidade de capacidades, ao mesmo tempo em que oportunize a possibilidade de usufruto destes bens materiais e dos bens espirituais.

Neste projeto ora apresentado, considerou-se o indivíduo inserido no meio histórico-cultural, procurando trabalhar no intuito de trazer o conhecimento da realidade do aluno e indo alem, para formas mais elaboradas de conhecimento, compreendendo-o de sujeito histórico, construtor de seu tempo e sua historia para assim possibilitar uma melhor intervenção social.

Não uma intervenção qualquer, mas em prol do desenvolvimento de uma escola unitária, construída no chão da escola e na luta contra-hegemônica, partindo "de uma construção molecular, orgânica, pari passu com a construção da própria sociedade no conjunto das praticas sociais" (Frigotto, 1996, p.176).

Neste sentido o projeto foi proposto e desenvolvido no município durante o ano de 1999. O resultado da primeira parte deste projeto, expressa a ação coletiva de um grupo de professores, bem como a dinâmica complexa e contraditória da sociedade, expressa o contexto de embates que se travam hoje na sociedade brasileira na busca de romper com todas as formas de exclusão social e na perspectiva de promoção humana. Este projeto significa, por fim, o ponto de inicio para a reflexão constante em torno do conhecimento na escola, compreendendo a educação física como parte integrante do processo educacional escolar, indispensável para a formação do ser humano e para o entendimento e intervenção na/da realidade em sua totalidade.

OBS: A autora, Dra. Maria Cecília de Paula Silva é professora da Prefeitura de Juiz de Fora

Referencias bibliográficas

  •  Carvalho, Mauri. A miséria da educação física. Campinas, SP: Papirus, 1991.
  • CBCE (org.). Educação fisica escolar frente a LDB e aos PCNs: profissionais analisam renovações, modismos e interesses. Ijui, RS: Sedigraf, 1997.
  • Coletivo de autores. Metodologia no ensino da educação física. São Paulo: Cortez, 1993.
  • Frigotto, Gaudêncio. Educação e a crise do capitalismo real. 2.ed. São Paulo: Cortez, 1996.
  • Medina, João Paulo S. A educação física cuida do corpo... e ‘mente’.2.ed. Campinas, SP: Papirus, 1989.
  • Oliveira, Vitor Marinho. Consenso e conflito da educação física brasileira. Campinas, SP: Papirus, 1994.
  • Paula Silva, Maria Cecília. Projeto Práxis: apresentado ao Departamento de Educação Física da PJF/MG. 1999. Texto mimeo.
  • Paula Silva, Maria Cecília; ZACARIAS, Lídia Santos, et alli. Programa municipal de educação fisica: diretrizes curriculares. Juiz de Fora/MG: PJF/Helvetica, 2000.

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