A Ludicidade no Primeiro Segmento do Ensino Fundamental

Por: Antônio Sampaio da Silva Júnior.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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1. Introdução: Pensando a temática

Por volta do século XVIII, com a revolução industrial, o tempo das pessoas passa a ser dividido, existindo tempo para o trabalho e outro para as manifestações lúdicas. Nesta sociedade, o homem com as pressões do dia-a-dia, acaba por abandonar muitas vezes aspectos importantes de sua vida, como: prazer, satisfação, espontaneidade, interação e criatividade, deixando de valorizar o desenvolvimento do seu lado humano, em detrimento da produção para obtenção de resultados lucrativos. Dentro deste contexto, a prática de jogos e de brincadeiras foi perdendo espaço na vida do homem pelo trabalho e para o trabalho.

A prática educacional ao longo do anos foi influenciada por duas visões clássicas: a primeira tradicional que não valorizava o lúdico, e outra, baseada na escola nova, que se utilizava do lúdico, mas confundida com a idéia de "deixar fazer o que quiser" (PASSOS,1995).

A educação física, enquanto integrante da escola, participou de maneira efetiva destas duas formas de fazer educação: em um determinado momento, oportunizou a prática de movimentos corporais mecanizados, homogêneos, com forte influência militar, e em um segundo momento, a prática de atividades, chamadas recreativas que surgiram como um mecanismo de aliviar tensões, liberar energias e de manter o controle sobre os corpos, de maneira alegre e feliz.

Atualmente, nas aulas de Educação Física Escolar, o jogo esportivo parece-nos que é o conteúdo que mais prevalece. Desta forma, acreditamos que o lúdico é instrumentalizado, visando o rendimento e aplicação de fundamentos técnicos e táticos do esporte, a valorização da disciplina, da técnica e dos movimentos pré definidos; desconfiamos que se dá pouca importância a imaginação, a liberdade, a vivência de movimentos livres e a interação que representam sua essência lúdica.

Segundo Passos (1995) o lúdico, neste tipo de aula, assume uma característica instrumental, por não mais existir no jogo o interesse desprovido de funcionalidade, passando-a a ser instrumento de ensino na inserção de novos fundamentos, dos quais o lúdico passa a ser um meio para alcançá-lo. Porém sabemos que é possível haver ludicidade no jogo mesmo quando instrumentalizado, mas precisamos preservar a espontaneidade e aguçar a curiosidade.

Alguns professores de Educação Física preocupados com a importância que é atribuída pela Educação Física Escolar ao lúdico, ao jogo e a brincadeira, e questionando a postura do esporte instrumentalizado como elemento fundamental da mesma, lembram que devemos mostrar através das aulas que, na realidade, os jogos tradicionais, em sua maioria, são tão ou mais dinâmicos, criativos educativos do que os esportes modernos e facilitam o aparecimento do lúdico na sua essencialidade (PASSOS,1995).

Neste sentido, acreditamos que algumas escolas têm dado pouca importância a ludicidade na sua essência, notadamente manifestada através dos jogos populares que são manifestações simbólicas de identidade étnica e regional de comunidades e de sociedades, que possibilitam a manifestação do lúdico essencial.

O significado de ludicidade surge da própria palavra sendo relacionada a liberdade, a criatividade, a imaginação, a participação, a interação, a autonomia além de outras qualificações que podem ser atribuídas a uma infinita riqueza que há nela mesma. A prática da ludicidade deveria estar desprendida de regras, interesses, doutrinações, imposições feitas pela sociedade funcionalista e mecanicista em que vivemos (SANTIN,1996).

O homem através do lúdico consegue estabelecer uma relação de criatividade e entretenimento com a sua cultura. O brincar representa a manifestação do psicológico do homem em situações de prazer oposto a realidade, no qual o lado humano do homem se faz presente através de toda sua formação cultural (BROUGÈRE,1998).

Neste contexto, é possível pensarmos em duas possibilidades de entendimento do fenômeno lúdico: o instrumental e o essencial.

O lúdico instrumental tem o seu papel na construção da autonomia e na formação do aluno, assim como o lúdico essencial, porém a essência da aula não fica atrelada principalmente ao lúdico, as suas manifestações, onde este é tido apenas como um meio para que se possa atingir outros fins educacionais, como: aplicação de fundamentos, técnicas, regras. Às vezes, para que se vivencie o lúdico essencial recorre-se ao lúdico instrumental, porém é preciso salientar a importância de que não se pode deve perder a sua referência durante sua instrumentalização (PASSOS,1997).

É possível encontrarmos escolas que têm o processo pedagógico de ensino emancipatório onde o lúdico essencial é um fundamento, tem sua essência, é tido como sério e indispensável na formação do aluno, possibilitando-o transitar dentro e fora do seu eu, trocando papéis e até vivenciá-los como próprio de sua pessoa, estimulando o afloramento de sua cultura, a espontaneidade, a interação, a imaginação, a criatividade, o prazer (FONSECA e MUNIZ,2000).

1.1 Problema

Este estudo pretende investigar de que maneira o professor de educação física vem abordando a temática ludicidade em suas aulas de primeiro segmento do ensino fundamental.

1.2 Questões a investigar

a) Qual perspectiva de ludicidade está sendo utilizada pelo professor de educação física: o lúdico instrumental e/ou lúdico essencial?
b) Quais os conteúdos utilizados pelo professor de educação física que favorecem o aparecimento da ludicidade?
c) Quais os procedimentos metodológicos utilizados pelo professor de educação física que facilitam o aparecimento da ludicidade?

1.3 Objetivos do estudo

Esta pesquisa procura, a partir do contexto da escola pública, identificar e compreender os sentidos de ludicidade utilizados no discurso do professor de educação física no primeiro segmento do ensino fundamental.

1.4 Estratégias metodológicas

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa descritiva, de natureza qualitativa, do tipo exploratório, com a intenção de descrever e de interpretar o conteúdo veiculado por meio de depoimentos de um determinado grupo de atores sociais.

1.4.1 População e amostra

A população/amostra deste estudo é composta por dois professores e quatro professoras de educação física que trabalham no primeiro segmento do ensino fundamental, da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro, nos Bairros: Marechal Hermes e Vila Valqueire, Cidade do Rio de Janeiro.

1.4.2 Instrumentação, coleta e análise dos dados

Como abordagem aos professores, utilizamos entrevistas semi-estruturadas, para analisar essas falas utilizamos a técnica da análise do discurso (MAINGUENEAU,1997), onde foram construídos 9 quadros com as respostas de todos os entrevistados, um para cada pergunta, analisando cada um deles, em separado, e posteriormente, discutindo, de maneira geral, as respostas, tentando elucidar as questões a investigar do estudo.

2. Análise das entrevista

O lúdico nas aulas de Educação Física Escolar não está sendo valorizado pelo professor como essencial da aula, não tem fim em si mesmo, porém todos sabem defini-lo e reconhecê-lo como fundamental na formação do aluno. A aula em sua maioria tem início no lúdico essencial, para depois passar a ser instrumentalizado sendo inserido fundamentos, regras, disciplinas, dando outra direção ao lúdico, que não é sua essência.

Para a escola o método de prática pedagógica através da auto reflexão, vem com um propósito de reformar ações sociais, políticas, econômicas, culturais da sociedade atual. Tanto em relação as suas próprias ações, quanto as ações que estão subjetivamente inseridas em seu próprio ser, tornado-se assim sujeitos de sua própria história e consciente de suas possibilidades e impossibilidades. Busca desta forma valorizar produções próprias de sua cultura, criação, imaginação, espontaneidade, interatividade e participação para evitar a reprodução e a copia de valores como acontece nos esportes institucionalizados (FREIRE,2002).

Percebemos que o lúdico está presente nas aulas de Educação Física do primeiro segmento do ensino fundamental no Município do Rio de Janeiro, em especial, nas escolas cujo os professores entrevistados fazem parte deste material de pesquisa.

Para estes onde o lúdico é "tido como sério", é importante no processo pedagógico educacional, porém durante as aulas os professores não atribuem como conteúdo básico as atividades lúdicas essenciais, mas são instrumentais que muitos julgam ser fundamental para o processo de ensino aprendizagem.

Como já apresentado por PASSOS (1995), o estudo veio confirmar que o lúdico nessas aulas de Educação Física não tem sido valorizado pelo(a) professor(a) Educação Física de forma essencial, valorizando alegria da participação, da imaginação acontecendo ativamente no brincar da criança, sem preocupação com os objetivos externos ao próprio jogo. Os professores entrevistados, em sua grande maioria, conduzem suas aulas baseadas na aprendizagem de regras, técnicas e capacidades psicomotoras, utilizando-se da ludicidade de maneira a alcançar os seus objetivos.

3. Considerações finais

Tendo em vista a relação da ludicidade e da vida do ser humano, compreendemos que a importância da sua manifestação está presente em nosso dia-a-dia: no trabalho, nas ruas, na escola; em todo âmbito que houver um homem sabemos que poderá haver a manifestação do seu lado lúdico (brincadeira e jogo como necessidades humanas).

Também, nos preocupa saber, e precisamos compreender se nossas práticas, enquanto professores de educação física, estão caminhando para uma educação emancipatória, liberta de imaginações, fantasias, criatividade ou para uma outra repressiva, coibidora e autoritária. Este estudo também poderá ajudar o professor de educação física a refletir e analisar, antes de propor suas aulas, se a escolha dos seus conteúdos e métodos estará direcionando, de maneira desigual ou não, a manifestação do lúdico instrumental e/ou do lúdico essencial.

Podemos constatar que o lúdico ainda não está claro na vida das pessoas, por não darem o devido valor as suas manifestações, principalmente para os professores de Educação Física como conteúdo básico e essencial para a formação de um indivíduo, de uma pessoa autônoma, consciente de suas ações.

Gostaríamos que na escola essa ação pedagógica pudesse vir acontecer via diálogo, havendo assim o espaço para a criança manifestar-se através da sua interação, cooperação, reflexão, criação o que favorece o processo emancipatório; como também pode vir a desfavorecer este processo, onde ao invés do diálogo é utilizado outro meio "pedagógico" através da disciplina, da analogia, do autoritarismo, da imposição.

É preciso assumir, com todos os riscos, a vocação utópica da educação, fundada na criatividade da dimensão lúdica (PASSOS,1995). O lúdico parte de dados reais, abrindo espaço para imaginação, esta atribui papéis e valores ao que dá ou não prazer para o indivíduo que decidirá como agir na realidade.

Devemos estar atentos e procurarmos compreender e saber se nossas práticas, enquanto professores de educação física, estão caminhando para uma educação que têm como conteúdo em seu processo de ensino aprendizagem a ludicidade manifestada através da imaginação, da fantasia, da criatividade, da participação, da espontaneidade, do prazer no jogo e na brincadeira valorizando o jogo pelo jogo ou o brincar por brincar. Precisamos refletir como é a abordagem lúdica em nossas aulas, para que possamos perceber como vem sendo abordada esta temática.

Obs. Os autores, professores Antônio Sampaio da Silva Júnior (tonijr_sanil@yahoo.com.br) e Ms. Ingrid Ferreira Fonseca (ingrid.fonseca@terra.com.br) são da UGF e a última professora das redes estadual (RJ) e municipal (S. Gonçalo)

4. Referências bibliográficas

  • Brougere, G. O brincar e suas teorias: A criança e a cultura lúdico. São Paulo: Pioneira, 1998.
  • Fonseca, I. F. e Muniz, N. L. O brincar na Educação Física Escolar: Em busca da valorização de diferentes perspectivas. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Lugar, v.2,v.3, p. 1-12, janeiro- maio./ 2000.
  • Freire, J. B. Educação de Corpo Inteiro. São Paulo: Scipone, 2002.
  • Maingueneau, D. Novas tendências da análise do discurso. Campinas: Ponte, 1997.
  • Passos, K. C. M. O lúdico essencial e o lúdico instrumental: O jogo nas aulas de Educação Física Escolar.(Dissertação de Mestrado) Rio de Janeiro: PPGEF/UGF, 1995.
  • ¬¬¬__________ O lúdico essencial e o lúdico instrumental: O jogo nas aulas de Educação Física Escolar In: COSTA, Vera Lucia de Menezes (org.) Formação profissional em educação física. Rio de Janeiro: Editora da Universidade Gama Filho, 1997, p. 57 - 87.
  • Santin, S. Educação Física: da alegria do lúdico à opressão do rendimento.: UFRGS: Edições: EST/ESEF, 1996.

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