A Manifestação do Inconsciente nos Mega Eventos

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Blog da Katia Rubio - 2014

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Costumava dizer meu falecido pai que atingimos a plenitude e o controle da situação quando somos capazes de zombar de nós mesmos, afinal ver os defeitos alheios não é lá tarefa das mais difíceis. Ele próprio, um anedotista incorrigível, era capaz de fazer rir com observações das pequenas mazelas da vida cotidiana em um ambiente cercado da falta de novidades. Essa sutileza e ironia transpiravam na página de passatempos e humor do jornal da cidade sob sua responsabilidade ao longo de alguns anos. Alimentar sua produção não era tarefa simples e para tanto ele costumava recrutar os netos como pesquisadores de textos de humor em diferentes veículos de comunicação (do básico livro de literatura aos almanaques de farmácia). Acredito que essa prática não apenas ajudou para a qualidade da editoria sob sua responsabilidade, mas principalmente alimentou nos quatro netos a veia satírica que ainda hoje eles aprimoram a cada dia na convivência ordinária com diferentes grupos sociais.

O que me fez remeter à figura de meu hilário pai era de fato sua capacidade ímpar de fazer sorrir às situações mais desgraçadas da vida. Aquilo que de fato o fazia sofrer, e aí não havia ironia que bastasse, era o destrato aos animais. Considerava uma covardia sem par um cavalo ser surrado para puxar uma carroça, um cão na rua esquálido ou uma onça ter que ser anestesiada para ser retirada do alto de uma árvore perto da casa dele em Peruíbe. Certa vez até arrumou confusão com um carroceiro que batia sem parar em um cavalo carregado de entulho exausto pelo calor de um verão impiedoso.

Mas, voltando ao humor, ontem tomei contato com uma campanha desencadeada na Cidade Maravilhosa, sede da final da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. Inconformado com o despropósito dos preços das coisas básicas que assola a cidade em pleno verão, um cidadão indignado lançou a campanha: Rio Surreal, cujo propósito é denunciar os preços abusivos de produtos e serviços no Rio de Janeiro.

Vale lembrar que o surrealismo foi um movimento cultural que agitou o princípio do breve Século XX e foi fortemente influenciado pela teoria psicanalítica, uma das rupturas do discurso do conhecimento moderno, entendida por Stuart Hall como influenciadora no deslocamento final do sujeito cartesiano.

A palavra surreal no presente é usada como gíria para se referir a algo desproporcional, absurdo, “fora da casinha” e não como uma manifestação do inconsciente na atividade criativa ou para produzir arte que aos pouco estava sendo destruída pelo racionalismo.

André Breton, Apollinaire, Artaud, Buñuel, Magritte, Dalí ou Max Ernst jamais poderiam imaginar que sua ação vanguardista pudesse colaborar para um outro tipo de movimento, também contestatório, mas cuja base é a insatisfação com questões básicas da vida cotidiana como o preço de um picolé, de um copo de água, de um filé com fritas ou de uma garrafa de cerveja. E mais uma vez o humor se apresenta como uma arma letal, capaz de produzir vítimas fatais sem derramar sangue. Para explicar essa questão recorro à psicanálise que fundamentou a escola surrealista. Vale lembrar que Freud apresentava o chiste, palavra originada no alemão witz, cujo significado é fazer humor ou gracejo, como uma forma de a pessoa poder dizer em tom de brincadeira aquilo que ela não pode falar abertamente, dando assim espaço para a manifestação do inconsciente.

No surrealismo os artistas, cineastas e escritores buscavam formas alternativas de enxergar o mundo e para isso fizeram uso do humor, do sonho e da contralógica para libertar o homem daquilo que eles denominavam de uma existência utilitária, subvertendo assim as ideias do bom gosto e do decoro.

Incrível pensar que uma ação social e coletiva pautada em uma ideia recalcada no inconsciente possa gerar 5 mil curtir na página oficial do movimento nas redes sociais em poucos dias. E talvez com isso seja possível analisar os movimentos de massa que começaram no ano passado durante a Copa das Confederações e se prolongam com a repressão aos “rolezinhos” atuais nos Shoppings da elite paulistana e quem sabe mais o quê durante a Copa do Mundo. O humor tem para o brasileiro a poder de um AK-47: pode não ser o mais preciso, o mais ergonômico, nem o mais leve, mas sua facilidade de produção em massa e simplicidade de operação e manutenção levou-o a ser a arma mais fabricada, vendida e reproduzida no mundo. Presente em muitos conflitos foi responsável por incontáveis baixas em diferentes guerras independentemente de quem fosse o inimigo.

Em uma guerra travada sem trincheiras, brasileiros de todos os estados, e principalmente do Rio de Janeiro, se veem diante de uma situação incontrolável, que invade suas vidas, como os turistas de veraneio tomam as cidades litorâneas durante o verão, causando tumulto à pacata vida dos habitantes locais. Somos invadidos por discursos ufanistas de que precisamos (isso quer dizer, somos obrigados) gostar e apoiar eventos que são responsáveis por desfigurar nossas cidades, a tumultuar nosso dia-a-dia e ainda de lambuja nos levam a escutar impropérios de gringos que pensam que sabem e conhecem mais do nosso país do que nós mesmos. E o que vejo de mais grave nisso tudo é a conivência e o oportunismo de setores da sociedade que estão atentos a esses movimentos para levar vantagem do inexorável.

Sim. A Copa está aí e tem gente cobrando R$ 5,00 por um copo de água, R$ 20,00 por um misto quente, R$ 28,00 por uma pipoca grande em ambientes onde a concorrência é possível e vale a lógica do mercado, conforme apontam as imagens dos cardápios fotografados por apoiadores do movimento Rio Surreal. Ou seja, isso quer dizer que se está sendo cobrado um preço abusivo por um produto ou serviço é porque tem gente pagando, regra básica de lei da oferta e da procura. E então se estou indignada com os preços cobrados pelo copo de água eu vou preparar minha maleta térmica com líquidos bebíveis e não vou comprar nada na praia, o que levará o vendedor a baixar seus preços tornando-o real, e não irreal ou surreal. E assim se passa com a pipoca, a empadinha, o filé com fritas, o material escolar, automóveis e apartamentos. Isso é regra básica do capitalismo.

Difícil mesmo é lidar com as reservas de mercado, como acontecerá com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, quando não teremos a opção nem de levar de casa nossa lancheira, nem tampouco escolher nossas marcas preferidas. Nesse caso as regras de oferta e demanda serão determinadas pelos donos da bola e pelos senhores dos anéis. Então não é difícil entender porque o inconsciente de tantos cidadãos começa a produzir estratégias de enfrentamento e mecanismos de defesa para suportar a pressão que recai sobre nós, cidadãos de diferentes partes do Brasil. Há quem prefira armas concretas de diferentes formatos e calibres. E outros preferem as virtuais ou abstratas capazes de chamar a atenção para o conflito latente que já se dá em diferentes partes do país.

E por que será que tanto se resiste a esses movimentos?

Os mega eventos estão aí e não há nada que possa impedi-los. Que ainda seja tempo então de entendimento dos diferentes níveis de insatisfação que assola o país e que se manifesta seja em encontros presenciais de grupos de bem, mal ou pouco vestidos, de sátiros urbanos capazes de enxergar nos cardápios os prejuízos pela recepção de convivas indesejados ou dos doutos analistas arautos do apocalipse que previram o fim do mundo há anos atrás e ainda aguardam a confirmação de suas profecias.

Não desejo que todas essas festas causem prejuízos morais ou materiais seja ao país ou aos gringos do bem. Mas assim como o surrealismo foi uma maneira de enxergar o mundo, capaz de restaurar o poder da imaginação limitado pelos limites do utilitarismo da sociedade burguesa, espero que o desejo de Breton da construção de uma sobre-realidade (surrealité) se concretize o mais breve possível aproximando sonho e realidade… E que ainda seja tempo para isso.

19.1.14

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