A Mercadorização do Futebol e a Escola

Por: Allyson Leandro Barreto.

VI EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Este trabalho foi realizado a partir de estudos relacionados ao futebol, bem como a sua importância no cenário nacional. Estou ciente de que este é apenas um ensaio que procura discutir o futebol e sua estrutura na década de 90, e que estudos mais aprofundados deverão ser realizados. O leitor talvez pergunte: Por que este ensaio discute o futebol na década de 90?. E será que o futebol, ao longo de sua historia não tem muito que nos contar até a década de 90?. Certamente o futebol tem uma historia preciosa, que nos dá conta de entender os fenômenos de varias épocas, no entanto, o que me proponho a discutir é a excessiva mercadorização que essa prática sofreu no começo dos anos 90 e o seu impacto social. O primeiro indicio dessa mercadorização é a co-gestão Palmeiras-Parmalat.

O retorno seria traduzido pelo melhor desempenho da venda de seus produtos. Escolhido o clube, a Parmalat inovou a forma de patrocínio ao participar das ações do time, já que também queria resguardar a sua imagem (Brunoro: 1997: 34).

Não nego a possibilidade de me reter nos fatos históricos buscando explicações, pois as mudanças são frutos de fatos que dialeticamente acontecem, portanto o futebol, como a vida, está em constante transformação. Essas mudanças, de uma certa maneira, fazem com que o futebol se ajuste aos interesses dominantes de cada período, podendo variar de interesses políticos até os interesses mercadológicos, que em última instância são todos ideológicos.

Não estou querendo pontuar momentos, porque sei plenamente que as duas questões, a política e a econômica, acontecem simultaneamente, estou sim querendo contribuir com o desvandamento acerca do futebol como instrumento de dominação.

A greve de 1917, que chegou a paralisar dezenas de milhares de operários, fez ver as autoridades e industriais paulistanos que a cidade precisava de um "esporte de massas" . Como uma criança que se manda brincar "para queimar energias", os operários foram mandados jogar futebol: os municípios isentaram os campos de futebol; os industriais se apressaram em construir grounds, a policia parou de reprimir os rachas em terrenos baldios; os castigos aos estudantes de escolas publicas que fossem pegos jogando futebol, suspensos. Os puristas, que queriam futebol só para a burguesia, engoliram a frustração. O futebol venceu. Contra a subversão de ordem social, o futebol de Friendenreich (Santos: 1999: 106).

Investimento no futebol: uma jogada de lucro

O futebol vive uma crise econômica, e os clubes estão com extrema dificuldade de cumprir com suas folhas de pagamento, principalmente os clubes chamados grandes. Mas no começo da década de 90 e no seu transcorrer as coisas não estavam bem assim. Contratos milionários estavam sendo realizados entre clubes e empresas. Temos o caso já citado entre Palmeiras-Parmalat e podemos citar também o caso do Banco Excel, que investiu em três clubes sucessivamente (conf: Brunoro: 40). O próprio Brunoro, que foi dirigente na co-gestão Palmeiras-Parmalat, escreveu um livro do qual, empresto algumas passagens, aconselhando empresas e dirigentes esportivos a realizarem contratos, pois isso significaria investimento e lucro para ambas as partes.

Hoje as empresas começam a compreender que, além do patrocínio esportivo, podem ter a oportunidade de realizar alguns negócios, participando da compra e venda de jogadores em parceria com o clube, e ainda licenciar a marca do time para utilizá-las em ações de marketing (Brunoro: 1997: 34).

Veja que todos esses fatores são significativos, as empresas poderão contar com um elemento fundamental: paixão dos torcedores pelos seus clubes. O banco Excel que investiu sucessivamente em três equipes (Vitória da Bahia, América de M.G e Corinthians) tinha uma carteira de 120 mil correntista, após essa parceria passou a contar com 450 mil clientes em 1997 (Brunoro: 1997: 40).

Alem disso os clubes e as empresas podem contar com a televisão, que tem investido nos campeonatos esportivos, com isso as empresas contam com a aparição de sua marca para o telespectador, e o clube com o dinheiro pago pelas redes de televisão. A televisão pagou 60 milhões de dólares aos clubes, esse valor aumentou em 1999 para 70 milhões e chegará a 100 milhões em 2004 (Proni: 1999: 44).

Mas para tal fato ocorrer realmente, varias mudanças foram realizadas visando os interesses da televisão e dos patrocinadores, como mudança dos locais e horário dos jogos, calendário entre outras. Nota-se claramente uma mudança no texto em atendimento ao contexto (1).

O futebol, ao atender aos interesses mercadológicos, parece ter esquecido seus torcedores, eles que faziam parte da renda bruta das equipes em outros tempos, hoje parece não significar tanto. O campeonato brasileiro que levou em média no ano de 1971, 28.368 mil pessoas , em 1996 levou apenas 10.913 mil (Brunoro: 35: 1997).

(...) o torcedor que antigamente era o ponto central de todos esse espetáculo e que freqüentava os estádios, poderá desaparecer no próximo século, caso não prestemos atenção em todo esse cenário que está á nossa frente. Afinal, os dirigentes de futebol, pouco se importam com o torcedor e muito menos com o jogador, visto como objeto e mercadoria. Será que não estamos no momento de dialogar sobre essas relações (Camargo: 1999: 73).

Penso que sim, estamos no momento de dialogar e também mudar, mas mudar refletindo sobre o contexto do trabalhador, do amante do futebol, daquele que quer acompanhar o seu time, daquele que não acompanha um time apenas, mas que vê o futebol como a primeira maravilha do mundo.

A mercadorização das pessoas é uma jogada de crescimento das empresas. (...) o atleta vitorioso, bem sucedido é o melhor produto". (Mello: 2000:165).

O narrador esportivo anuncia: * o fenômeno entra em campo. Milhões de pessoas ouvem, assistem e vibram. No corpo do fenômeno, chuteira, meia, camisa, calção com o nome do patrocinador. Em seu comportamento, gestos, falas e posturas rotuladas pelo patrocínio. É verdadeiramente um produto, e caso isso não aconteça, ele não terá valor junto à empresa e muito menos aos seus consumidores que espera dele o rendimento máximo. Considerando que o homem tornou-se uma mercadoria que pode ser vendida e consumida, busco um conceito de Marx denominado coisificação das pessoas (2).

A copa de 1998 nos coloca provas claras de atleta mercadoria, embora os fatos jamais tenham chegado a tona e talvez jamais saibamos a verdade, prefiro seguir a linha de raciocínio proposta por Galeano:

(...) dizem que a pressão da Nike o enfiou na força na final contra a França. O fato é que jogou enfermo, e não pode exibir como devia as virtudes do novo modelo das chuteiras, a R-9, que a Nike estava lançando no mercado através de seus pés (2000: 113).

O que importa o seu estado de saúde? Afinal uma mercadoria, só tem valor se estiver exposta na vitrine, e nesse caso a vitrine é o campo. Sua integridade física não importa, tem-se que justificar o seu salário astronômico, vendendo o produto ilusão.

A Nike contratou o astro Tiger Woods (40 milhões de doláres), o astro Michael Jordan (20 milhões), o campeão de atletismo Michael Johnson (12 milhões) e o atacante da seleção brasileira Ronaldinho (22 milhões), e desde 1987, é a líder de venda em material esportivo à frente da Reebok e da Adidas, que faturaram respectivamente em 1996, 3,5 bilhões e 2,5 bilhões de dólares respectivamente (Brunoro: 1997: 40).

A impressão do senso comum é que ser jogador de futebol é gozar das belezas materiais disponibilizadas pelo mundo do capital. Mais uma vez a vida nos mostra as contradições desta estrutura social, diferentemente das propagadas pelo mundo do capital, diferentemente daquelas que queriam que víssemos apenas pequenas parcelas da realidade.

A representação de que ser jogador profissional é sinônimo de riqueza, não se sustenta na realidade dos números, em face de absurda concentração da renda do futebol brasileiro. Uma pesquisa do departamento de Registro de Transferência da confederação Brasileira de Futebol (CBF) revelou que, em 1998, 52,9% dos jogadores profissionais recebiam quantias inferiores a um salário mínimo; 30,5% de um a dois salários; 7,9% de dois a cinco; 2,7% de cinco a dez; 1,8% de 10 a 20; e 4,3% recebiam o equivalente a mais de 20 salários mínimos (Carrano: 2000: 104).

Mas para a manutenção do simbolismo do sistema é importante que alguns "vencedores" se sobressaiam sobre a grande maioria, que sobrevive com a escassez de recursos, com baixos salários e com privação de toda a produção de riqueza produzida pela humanidade. O futebol, mais uma vez mostra contradições, iguais a da vida profissional e real, pois mostra-nos que esse nunca esteve dissociado da política e da economia.

esse código é o mesmo que vigora no país, em geral: correto e respeitoso é quem cumpre as normas da modernidade triunfante. Como na origem e na infância no nosso futebol, política e futebol têm mais a ver que nossa vã filosofia (Santos: 1999: 111).

Considerações finais

Dentro das informações e analises contida neste ensaio, pois sei que não é definitivo e creio que exista muito mais há ser pesquisado e desenvolvido, pressuponho uma reflexão e uma nova postura para os profissionais que trabalham ou que futuramente trabalharão com o conteúdo futebol em suas aulas. Refletir somente não dá conta de ajustarmos nossas aulas para atender os interesses de uma população apaixonada pelo futebol. Temos que de uma vez por todas assumir a realidade brasileira e com isso a realidade de nosso futebol, bem como as suas contradições. Passar aos nossos educandos essas contradições é uma tarefa árdua e por vezes dolorosas, mas para o educador é um trabalho satisfatório e compensador, visto que o trabalho do educador deve ser o de atender os mais necessitados, hoje a grande maioria da população.

Para isso teremos que mostrar dados que revelem a realidade dos jogadores brasileiros, seja com filmes, com documentos ou reportagens. O método cada um deve propor aos seus educandos; o mais importante é que não criemos a esperança de que um garoto que jogue futebol, necessariamente será um famoso e rico jogador de futebol, como vejo em vários locais que trabalham com esta prática, desvinculando o futebol do processo histórico e político, fato esse desmistificado neste ensaio.

E para além disso, o futebol deve ser aproveitado por nós profissionais, como um instrumento pedagógico de grande valia que pode agregar valores humanos, diferentes destes dos quais nos empurram goela abaixo valores capitalistas como a individualidade e a competitividade.

Notas

  1. Mauro Betti se refere ao texto quando relacionado às regras do jogo e ao contexto relacionado com o social, com a estrutura. Em face disso o futebol têm adaptado as suas regras como mudanças nos horários em função do contexto proposto pela televisão e seus patrocinadores.
  2. Esse termo é fruto da mudança de relação entre sujeito e objeto. Há uma inversão de valores onde o homem vira a coisa e as coisas tomam a personalidade. Os atletas de futebol viraram a coisa, onde os próprios jogadores são os produtos. (Karl MARX, Fetichismo e Reificação. In: Ianni, Octavio (org.). Marx: Sociologia. São Paulo: Ática, 1980.

Obs. O autor, Allyson Leandro Barreto, é da Universidade Cruzeiro do Sul - UNICSUL/SP

Referências bibliográficas

  • Betti, Mauro: Cultura Corporal e Cultura Esportiva. Revista Paulista de Educação Física, 7(2): 44-51, Jul/Dez 1993.
  • Brunoro, José Carlos. Futebol 100% Profissional. São Paulo: Gente, 1997.
  • Carrano, Paulo C. Ronaldinho: ídolo esportivo ou mercadoria global? In: CARRANO, Paulo C. (org.). Futebol: paixão e política. Rio de Janeiro: DP&A, p. 95-110, 2000.
  • Galeano, Eduardo. Depois do mundial: futebol em pedacinhos. In: CARRANO, P. César (org.). Futebol: paixão e política. Rio de Janeiro: DP&A, p. 111-124, 2000.
  • Camargo, V. R. T. Elementos para uma concepção da cultura de massas. In: Marcia Regina da Silva (org). Futebol: espetáculo do século. São Paulo: Musa editora, p. 70-79, 1999.
  • Mello, Francisco Neto: Marketing Esportivo - 2 ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.
  • Pozzi, L.F: Reflexões sobre o futebol empresa no Brasil. In: Márcia Regina (org). Futebol: espetáculo do século. São Paulo: Musa Editora, p. 41-60, 1999.
  • Santos, J.R: Código, padrão e respeito. In: In: Márcia Regina da Silva (org). Futebol: espetáculo do século. São Paulo: Musa Editora, p. 103-114, 1999.

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