A Organização Espacial Escolar e Sua Influência nas Aulas de Educação Física

Por: Marcelo da Cunha Matos.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

A presença da disciplina Educação Física na escola depende, em parte, da existência, da diversidade das instalações, bem como de sua acessibilidade. Cabe a cada instituição de ensino pensar em sua organização, adequando as suas demandas para que o corpo discente não seja prejudicado no aprendizado.

A infra-estrutura de uma escola é um fator importante para um bom desempenho do aluno nas aulas de Educação Física, seguindo critérios de distribuição harmoniosa e de qualidade estética, de forma a responder às necessidades dos diversos tipos e níveis de prática esportiva.

Os sentidos e práticas sociais produzidos ao redor do esporte não podem ser negligenciados. É, portanto, nos espaços da cidade e no cotidiano das pessoas que o esporte encontra formas variadas de existência e manifestação.

Dessa forma, a instituição escolar não pode estar ausente nesse contexto e também necessita de espaços coerentes que comportem manifestações culturais diversas, que permitam um lidar pedagógico adequado com o fenômeno esportivo.

Sendo assim, o objetivo deste estudo é analisar a importância da organização espacial escolar e sua influência nas aulas de Educação Física. Posteriormente, verificaremos se os resultados revelam alterações na dinâmica das aulas.

Logo, poderemos verificar se nessas escolas houve uma organização espacial escolar coerente ou se tais escolas não se preocupam com um espaço físico adequado, podendo levar a uma deterioração do ensino da Educação Física. Nesse contexto, certas questões devem ser refletidas, tais como: Nas escolas com uma organização espacial escolar coerente, o espaço físico é bem explorado nas aulas de Educação Física? E as aulas de Educação Física sofrem influência nas escolas com um espaço físico atrofiado?

Tal estudo se justifica por ser de fundamental importância para analisarmos como os espaços  sejam eles campos, quadras, piscinas, salas de dança e lutas etc  são dimensões importantes no aprendizado motor, afetivo e cognitivo do aluno, identificando os significados destes equipamentos para o ensino da Educação Física.

Metodologia

Buscaremos alcançar nosso objetivo a partir de um estudo de casos através de análises de quatro Instituições de ensino do tradicional bairro da Tijuca, localizado na Zona Norte carioca. Analisaremos escolas de características distintas: duas escolas públicas, sendo uma com amplo espaço para as aulas de Educação Física e a outra com uma área imprópria para tal, e mais duas escolas particulares, também respeitando o mesmo critério das instituições públicas, ou seja, uma com um espaço apropriado e a outra não. A pesquisa se baseará em observações de campo nas respectivas escolas, analisando seu espaço físico e sua relação com as aulas de Educação Física. Ouviremos relatos de professores e alunos das instituições a respeito da problemática em questão.

Após este embasamento teórico, o presente projeto coletará dados ao longo dos trabalhos de campos que serão feitos nas escolas visitadas, além de analisarmos esses resultados. Dessa forma, teremos subsídios suficiente para saber se o espaço físico tende a ser algo importante numa escola para atender as necessidades do professor de Educação Física.

Desenvolvimento do trabalho

Para esclarecermos as questões acima, analisarmos a temática em tela e darmos embasamento ao trabalho, trabalharemos de forma interdisciplinar em seu primeiro momento, abordando pertinentes contribuições que a Geografia pode nos fornecer através do significado de espaço, área a qual me sinto a vontade em trabalhar, já que tenho formação acadêmica neste campo - licenciado e bacharel pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faremos também uma análise histórica sobre a questão da organização espacial escolar e a influência desta sobre a Educação Física Escolar.

Conceito de espaço

Conceito oriundo da Geografia, existem diversas vertentes que explicam o significado de espaço e suas complexidades.
A geografia crítica e a geografia cultural servirão como base principal para a construção do pensamento abordado nesse estudo, pois elas nos trarão sólidos alicerces capazes de perceber que

"(...) o espaço constitui uma realidade objetiva, um produto social em permanente processo de transformação. O espaço impõe sua própria realidade; por isso a sociedade não pode operar fora dele. Consequentemente, para estudar o espaço, cumpre apreender sua relação com a sociedade, pois é esta que dita a compreensão dos efeitos (...)"(SANTOS, 1985, p. 49).
Como podemos perceber através da citação acima, não podemos negligenciar as ações impostas pela sociedade ao espaço, pois sem tais informações a análise torna-se incompleta. O espaço não é estático, pelo contrário, ele encontra-se em constante processo de modificação e interação com o meio.

Dessa forma, ao encaminharmos a problemática em questão para o âmbito escolar, perceberemos também que a população que freqüenta uma instituição de ensino age, interage e altera o espaço, seja negativa ou positivamente.

O espaço físico escolar possui grande importância para o corpo discente em diversos aspectos, uma vez que este será cenário diário de estudo, discussões, debates, reflexões, convívios sociais e lazer. Deve ser convidativo para os alunos, um lugar que represente relações de intimidade e afetividade, em que se manifesta através de apreciação visual ou estética e pelos sentidos a partir de uma longa vivência (TUAN apud CORRÊA, 1995). Dessa forma, podemos criar vínculos afetivos e possibilitar um ambiente facilitador para o desenvolvimento cognitivo, além de estabelecer ou restabelecer valores como preservação e valorização de um espaço social.

Nesse contexto, é válido citarmos outro conceito muito trabalhado pela Geografia, mais precisamente a geografia cultural. A escola com essas características torna-se para o aluno um espaço vivido, ou seja, um espaço íntimo banhado com experiências pessoais e por representações simbólicas. Tais simbolismos vão traduzir "em sinais visíveis (...) as suas aspirações, crenças, o mais íntimo de sua cultura" (ISNARD, 1982, p. 71).

Sendo assim, ao estabelecer com o espaço escolar esta relação, o corpo discente tende a gerar em sua mente um espaço referente ao afetivo, ao mágico, ao imaginário, podendo proporcionar um melhor desenvolvimento do aluno em diversos aspectos dentro da escola.
Ao enfocarmos para o âmbito escolar, o espaço é analisado por Escolano (1998), no qual comenta:

"Os espaços educativos, como lugares que abrigam a liturgia acadêmica, estão dotados de significados e transmitem uma importante quantidade de estímulos, conteúdos e valores (...), ao mesmo tempo em que impõem suas leis como organizações disciplinares"(p.27).
Além disso, a maneira como este espaço será organizado deve ser considerado para avaliarmos se o aprendizado sofrerá influência. Por isso, faremos uma análise histórica da organização espacial escolar, uma antiga questão, pouco difundida atualmente por estudiosos da educação.

Organização espacial escolar

Numa escola alguns itens aparecem como necessários para um bom funcionamento e desenvolvimento da instituição como um todo, principalmente para o corpo discente. Nessa perspectiva, pensar, planejar e organizar espacialmente de maneira correta a infra-estrutura de uma escola proporciona um aprendizado diferenciado. Segundo a LDB, lei 9.394 de 1996 de diretrizes e bases da educação brasileira, o Estado tem o dever de garantir "padrões mínimos de qualidade de ensino, definidos como a variedade e quantidade mínimas, por aluno, de insumos indispensáveis ao desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem" (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, SECRETARIA DE EDUCAÇÃO MÉDIA E TECNOLÓGICA 1999, p. 40).

Sendo assim, o que de fato deve ser considerado indispensável dentro do ambiente escolar? Para isso, alguns estudos por exemplo tem sido elaborados para avaliar a capacidade estrutural das escolas e reorganizar o ensino básico do país. Entre os anos de 2000 e 2002, por exemplo, um grupo de profissionais trabalhou no projeto "Os Padrões Mínimos de Funcionamento para o Ensino Fundamental - Ambiente Físico Escolar", do Programa Fundescola do MEC, responsável pelo desenvolvimento do projeto (BRANDÃO, 2004).

Chegou-se, por fim, ao consenso de que o trabalho seria abordado em três aspectos: mobiliário escolar, espaço escolar e material didático. Estabeleceu-se que a escola é uma organização de prestação de serviços educacionais; que todo e qualquer aluno tem direito aos mesmos serviços, no mesmo padrão de qualidade, independentemente da localização ou do tamanho da escola que freqüentem, tentando acabar com alguns paradigmas no que se refere ao tratamento do ambiente escolar (BRANDÃO, 2004).

Nesse contexto, a Educação Física encontra-se no meio desta grande problemática. Como publicado na reportagem acima, mesmo com uma área inadequada de trabalho, nenhuma disciplina deve diminuir a sua qualidade no ensino por questões estruturais e todos os alunos têm que possuir uma aprendizagem igualitária com o mesmo tratamento pedagógico.

Assim, a sociedade escolar ao saber organizar e usar os espaços de ensino, explorados não só pela Educação Física, mas pelas diversas disciplinas, poderá obter diversos ganhos pedagógicos e ser mais coerente com a própria LDB e o PCN da Educação Física. Infelizmente, o que vemos atualmente é um desinteresse pela maioria das escolas em analisar essa necessária questão. Podemos corroborar tal fato ao observarmos a criação de diversos colégios em casas e edifícios - comprados ou alugados - que, na época de sua construção, não tinham o objetivo e nem características funcionais e arquitetônicas para abrigar uma escola. Por isso, tal estudo pretende explicitar suas conseqüências para a Educação Física.

"Uma sociedade só se torna concreta através de seu espaço, do espaço que ela produz e, por outro lado, o espaço só é inteligível através da sociedade" (CORRÊA, 1995, p. 26).

Obs. O autor, Marcelo da Cunha Matos, é acadêmico da Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ e Geógrafo formado pela UERJ.

Referências bibliográficas

  • Brandão, Maria Beatriz A. O MEC pagou e abandonou um belo projeto. Jornal O Globo. Rio de Janeiro, 10 de novembro, 2004.
  • Corrêa, Roberto L. Espaço, um conceito-chave da Geografia In: CASTRO, I. E., CORREA, R. L. e GOMES, P. C. C. (orgs.). Geografia: Conceitos e Temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995, p. 15-47.
  • Isnard, H. O Espaço Geográfico. Coimbra. Almedina, 1982.
  • Ministério da educação, secretaria de  educação média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino médio. Brasília: Ministério da Educação, 1999.
  • Ministério do esporte, secretaria nacional de esporte educacional. Organização estrutural do Programa Segundo Tempo. Brasília: Ministério do Esporte, 2003. Disponível na Internet: http://www.esporte.gov.br/segundotempo/manual__diretrizes.pdf. 02 de abril, 2005.
  • Santos, Milton. Espaço e Método. São Paulo: Nobel, 1985.
  • Vinão Frago, A.; Escolano, A. Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como programa. Rio de Janeiro: DP&A, 1998.

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