A Política dos e nos Jogos Eletrônicos

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Blog do CEV - 2019

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Há quem pense que os jogos eletrônicos são um fenômeno contemporâneo de pessoas que se trancam em seus quartos e estão alheios ao que se chama de realidade. Integrados pelos meios virtuais jogadores do mundo inteiro interagem em tempo real de diferentes partes do planeta, independentemente do fuso horário ou do idioma que falam. Jogar e comunicar-se e por meio dessa interação pode ser também um gesto político.

Prova disso aconteceu na semana passada durante a final da competição do Hearthstone Grandmasters, em Taiwan. Na ocasião o atleta de Hong Kong, Chung Ng Wai, conhecido pela comunidade como Blitzchung, e vencedor da temporada regular de competição, surgiu na tela paramentado com máscara anti-gás e óculos, como os usados pelos manifestantes que ocupam as ruas de sua cidade natal há mais de 4 meses, contra a China. Esse ato, entendido como uma provocação pelos dirigentes da Blizzard Games, companhia estadunidense desenvolvedora e publicadora de jogos como World of Warcraft, Overwatch e o próprio Hearthstone, levou à suspensão de Chung Ng Wai das competições do próximo ano, bem como ao embargo da premiação de 3 mil dólares a que tinha direito pela vitória na competição. Foram também demitidos os dois comentaristas que conduziram a entrevista.

A Blizzard Games tentou com a suspensão, manter um política de boa vizinhança com o governo chinês, mas o tiro saiu pela culatra. Ato contínuo os consumidores dos jogos saíram em apoio ao atleta, demonstrando a força da comunidade gamer e o alcance do fenômeno eSport.

Fãs e clientes manifestaram-se em protestos online entendendo o ato como uma forma de censura à liberdade de expressão. De formas que foram da organização de boicotes, a cancelamento total de contas, pessoas do mudo inteiro, mesmo aquelas que pouco sabem da geopolítica internacional, inundaram as redes sociais contra a suspensão do atleta e a falta de liberdade na China. Vale lembrar que parte das ações da Blizzard Games pertence a grupos chineses.

A forma mais criativa de protesto foi adotar uma propriedade intelectual da Blizzard, a personagem de nacionalidade chinesa Mei, do jogo Overwatch, como mascote dos protestos de Hong Kong. O meme corre nas redes comprovando a ineficiente da tentativa de censura.

Mas, não é só de Hearthstone que vive o mundo dos games. Outras companhias aproveitaram o entrevero para se manifestar sobre o assunto e, de certa forma, capitalizar para suas criações os jogadores insatisfeitos com a postura da Blizzard.

É o caso do fundador e CEO da Epic Games, responsável pelo gigante Fortnite, que se pronunciou, via twitter, contra o ocorrido. Embora 40% das ações de sua companhia pertençam à gigante chinesa Tecent, Tim Sweeney afirmou que parte da política da empresa é apoiar o direito de seus jogadores e criadores de falar livremente sobre política e direitos humanos. Ao ser questionado sobre o fato de investidores chineses já estarem saindo da NBA em função da postura crítica dos dirigentes da liga de basquete, Sweeney disse que esse tipo de censura não acontecerá enquanto for CEO e investidor majoritário.

Isso prova que política e economia não se separam nem do esporte, nem de sua versão eletrônica. Em um mundo globalizado e interligado por redes virtuais, nada se camufla ou se apaga com um click em tempo real.

Como afirmou Calois, o esporte não é bom nem ruim. Ele é aquilo que fazem dele.

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