A Prática do Karate Como Ascese Corporal: Moderno X Tradicional

Por: C. J. Martins e F. A. Pucineli.

IX Congresso Internacional de Educação Física e Motricidade Humana XV Simpósio Paulista de Educação Física

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Resumo

O karate é uma arte marcial originária de Okinawa e, como praticamente todas as manifestações culturais deste local, foi resultado também de influências dos países próximos, especialmente da China. Era conhecido como Okinawa-te e/ ou To-de (referência a uma dinastia chinesa). Foi apresentado ao continente japonês na década de 1920, pelo mestre okinawano Gichin Funakoshi. Para que fosse aceito, já que haveria resistências a uma pratica que mencionasse China ou Okinawa em seu nome, teve sua denominação alterada para "karate" ("mãos vazias"), cujo ideograma kara remete ao princípio do vazio, oriundo de tradições chinesas e japonesas. Através de pesquisa documental e coleta de dados realizada em período de estudos na ilha de Okinawa, este trabalho visa discutir a reconfiguração do karate em arte marcial japonesa e em esporte. Além disso, propõe um resgate das maneiras de praticar e conceber o karate, através da ascese corporal e espiritual. As primeiras aproximações no estudo do tema mostram que frente ao estado político e cultural japonês da época, a adaptação somente do nome karate não fora suficiente para que o mesmo fosse bem recebido e ganhasse sua importância. A disciplina, como uma tecnologia de poder, foi um importante dispositivo na reinvenção dos corpos, especialmente após a restauração Meiji (1868 - 1912) - marco na ocidentalização do Japão. Uma nova estética corporal foi concebida visando tornar o karate mais atraente aos olhos da modernidade, especialmente no que tange à disciplina e também às reformulações necessárias para serem possíveis competições, materializadas como esporte. O karate sofreu também uma pedagogização, sustentada por princípios e discursos científicos. Inevitavelmente, o Karate em Okinawa recebera muito dessas influências, mas ainda é possível observar resistências à esportivização e à pedagogização. A grande maioria dos mestres ensina em pequenos e acolhedores espaços conjugados às suas casas, para poucas pessoas, tal como era ensinado o karate antes das massificações que sofreu. Não há exercícios ginásticos, somente a prática do Karate em si, também isenta de combates. O kata é o eixo central e é praticado sem pretensões competitivas, visando principalmente a configuração do gesto, de acordo com as características peculiares de cada estilo. A repetição minuciosa e atenta de cada movimento, orientado pelos mestres, constitui um exercício ascético, no qual o praticante faz presente, em seu próprio corpo, a cultura de Okinawa e sua própria singularidade, visando uma transformação de si. Este trabalho propõe retomar a prática do karate em sua configuração tradicional para contrastá-la com suas configurações modernas. Deste modo procuraremos demarcar sua distinção e enfatizar o aspecto auto transformador da prática como ascese corporal e espiritual.

Endereço: http://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/motriz/article/view/10060/10060

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