A Relação Entre Professor-escola-sociedade e Sua Influência na Educação Física

Por: Angelo dos Santos.

X EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

Send to Kindle


Introdução

"Foi enterrado ontem às 4 horas da tarde, em Osasco, o professor Alcir de Oliveira Porciúncula. Trabalhara na véspera, dando aulas de recuperação, até 10 da noite [...] Matou-o o trabalho, o estafante e inglório trabalho de lecionar. Pois o Prof. Alcir era só isso: professor. Família grande - 6 filhos - tinha que tirar do magistério o sustento para ela". ( Folha de S.Paulo, 26/07/1978 )

Considerando-se o professor como um mero repassador de conhecimento, sua função é colocada à parte da corrente que determina os rumos de uma sociedade. Entretanto, encarando-se o professor como uma das engrenagens que fazem parte da máquina chamada escola, responsável por elaborar, manter e aperfeiçoar o produto final chamado sociedade, que por sua vez alimenta os sonhos, anseios e ideologias de cada indivíduo, entre eles, aquela pequena engrenagem representada como professor, fecha-se um círculo de interação e desenvolvimento. Deixando a visão metafórica de lado e partindo para a linguagem clara, significa dizer que o professor tem em suas mãos a matéria prima bruta para a construção de qualquer sociedade: o ser humano. A escola, por sua vez, representa o elo que deve apresentá-lo à sociedade, assim como apresentar esse mundo novo e suas perspectivas a ele. À sociedade cabe enxergar em si mesma o próprio processo avaliativo, retornando então à escola de forma aperfeiçoada e desenvolvida.

"a escola se dá como o lugar do encurtamento do projeto político coletivo da sociedade com os projetos pessoais e existenciais de educandos e educadores. É ela que viabiliza que as ações pedagógicas dos educadores se tornem educacionais, na medida em que as impregna das finalidades políticas da cidadania que interessam aos educandos. Se, de um lado, a sociedade precisa da ação dos educadores para a concretização de seus fins, de outro, os educadores precisam do dimensionamento político do projeto social para que sua ação tenha real significação enquanto mediação da humanização dos educandos. Estes encontram na escola um dos espaços privilegiados para a vivificação e efetivação de seu projeto". (SEVERINO,1992)

É possível encarar esse processo sob dois aspectos que divergem quanto a sua finalidade. Segundo SAVIANI (1986), de um lado temos uma escola que serve de instrumento de equalização social, constituindo-se em "uma força homogeneizadora que tem por função reforçar os laços sociais, promover a coesão e garantir a interação de todos os indivíduos no corpo social"; de outro, uma escola também encarada como instrumento da sociedade, sendo que esta é instrumento de discriminação social, entendendo a educação como "dependente da estrutura social geradora de marginalidade, cumprindo aí a função de reforçar a dominação e legitimar a marginalização".

Relativamente a esse processo cíclico de interação, ocorre, inserida no contexto, a proposta pedagógica para a educação física. Esta inserção, segundo CASTELLANI (2002), "requer que a percebamos, por um lado, como um componente curricular responsável pela apreensão (no sentido da constatação, demonstração, compreensão e explicação) de uma dimensão da realidade social, na qual o aluno está inserido, que denominamos cultura corporal, parte da cultura do homem e da mulher brasileiros".

Este estudo passa então a seccionar a mencionada relação, discutindo as duas vertentes apresentadas e a sua influência na atuação do professor de educação física.

A relação entre o professor e a escola

Do professor espera-se, através de suas ações pedagógicas, que o seu trabalho intelectual seja transformador da estrutura organizacional da escola, integrada à transformação estrutural mais ampla da sociedade da qual ele participa. A escola, entendida como a vitrine para os projetos sociais, serviria de instrumento viabilizador das ações pedagógicas propostas pelo professor. O professor ao decidir o objetivo, conteúdo, e a metodologia aplicada, revela o seu posicionamento político, fazendo da educação um ato político, que orienta a práxis do educador. A escola, dessa forma, se organiza centrada no professor transmissor do acervo cultural. Contudo, o professor, a partir da organização material do processo de trabalho escolar, bem como suas relações sociais de produção, organiza-se sob a forma de trabalhador coletivo, tornando-se assim um "professor proletário", a partir da perda do controle do processo de trabalho. Referente à dimensão intelectual do trabalho do professor, a exigência de habilitação e formação tem sido reduzida a partir da organização da prática pedagógica sob a forma de divisão de trabalho.

"Na prática, ele está reduzido a mero repassador de informações que, no atual estágio tecnológico das escolas, ainda exige alguma qualificação de voz, braços, pernas, mas que já pode ser perfeitamente substituída pela máquina, como vídeo-cassete, aparelhos de projeção etc. Além de sua desqualificação, acontece sua desvalorização relativa como força de trabalho. Reduz-se o custo geral de reprodução da força de trabalho, determinando que seu preço também se reduza". (WENZEL, 1994)

Da mesma forma que o professor não se torna um agente da revolução, por ser um instrumento produtor de valores de uso que favoreçam a produção de capital, a escola, enquanto reprodutora das condições necessárias ao funcionamento da sociedade capitalista ao realizar a mercadoria força de trabalho no mercado, também não será esse agente.

Os professores, rebaixados então ao nível de instrumentos de produção de capital, passam a ter valores diferenciados, de acordo com o lucro que possam produzir. Dessa forma pergunta-se: O que levaria um professor de português ou matemática a ser excluído do conselho de classe de uma instituição de ensino? Não há quem consiga imaginar tamanha incoerência. Mas, o que levaria um professor de educação física a sequer ser lembrado nessa convocação? Verifica-se, nessa situação, a desvalorização do professor de educação física em relação aos demais, que pode ser encarada sob dois aspectos: o primeiro, refere-se à irrelevância do produto, ou seja, a desqualificação da disciplina no processo de desenvolvimento do aluno. O segundo aspecto refere-se à ineficiência do produto, ou seja, a desqualificação do professor no processo de execução da função. Nota-se, em ambos os casos, a discriminação ou relativamente à profissão ou ao profissional.

No que tange à participação do professor de educação física na política pedagógica adotada pela escola, CASTELLANI (2002) apresenta o segundo questionamento:

"Temos o que ensinar?". Ultimamente, vê-se a educação física brasileira atada ao paradigma da aptidão física, o que indica que o profissional de educação física não conhece ou não reconhece na cultura corporal um conhecimento necessário. O autor responde então ao questionamento de forma positiva, lembrando que "precisamos, mais do que depressa, redimensionarmos o espectro do conhecimento a ser (re)conhecido pelos profissionais da área, de modo a garantir que a Cultura Corporal do brasileiro seja aprendida como dimensão significativa da sua realidade social complexa".

Após inúmeros anos buscando a sua própria identidade profissional, o professor de educação física acabou por não conquistar espaço dentro das instituições de ensino, que passaram a encará-lo como responsável por divertir os alunos enquanto os outros professores tinham a tarefa de cuidarem do desenvolvimento intelectual daqueles que representavam financeiramente a manutenção e lucratividade da instituição. Algumas gerações serão necessárias até que uma gama ainda grande de professores mal formados ou mal orientados possam dar lugar ao professor consciente da sua importância igualitária junto ao corpo docente da instituição, no desenvolvimento dos alunos. "Esforço significa não-acomodação; participação significa atualização; cooperação significa partilha na disseminação e inseminação de uma nova intuição da vida. Esperar de braços cruzados, neste caso, é dar terreno a novas investidas do poder opressor e continuar na submissão". (SILVA,1989).

Apresenta-se então, na relação professor-escola, a primeira divergência entre as tendências: por um lado, a escola provedora de recursos materiais e sociais ao professor, que determina através do seu posicionamento político as ações pedagógicas a serem aplicadas; por outro lado, a escola impregnando das finalidades políticas - corretas ou não - as ações pedagógicas dos educadores que agem como instrumento da política econômica das escolas, representando dessa forma, uma relação entre opressor e submisso.

A relação entre o professor e a sociedade

É difícil imaginar a ação do professor junto à sociedade sem a ação interveniente da escola. Entretanto, para isso, inclui-se outros organismos sociais sistematizados como a família, igreja, partidos, clubes e outros, em sua área de influência.

"considerarei o professor (da escola de 1º e 2º graus) um trabalhador intelectual, prioritariamente (portanto não exclusivamente) difusor do conhecimento necessário (mesmo que insuficiente) à transformação efetiva da realidade com vistas à satisfação das necessidades propriamente humanas[...] quanto mais clareza o professor tenha de que está inserido na luta pela socialização da cultura, melhores condições ele vai adquirindo de exercer concretamente (e não apenas em palavras ou boas intenções) sua função na direção da satisfação das necessidades propriamente humanas". (RIBEIRO,1984)

Essa intelectualidade, inerente a todos, é que pode ser explorada pelo professor como difusor de cultura, voltando o seu trabalho não apenas para a profissionalização, ou para a mecanização do conhecimento, e sim levando os indivíduos a modificar a concepção de mundo, promovendo novas maneiras de pensar. Entretanto, o trabalho do professor, de caráter intelectual, tem sido direcionado para privilegiados, configurando-se dessa forma como de inutilidade social, na produção de uma sociedade igualitária, levando à banalização da categoria. Para representar esse descaso, talvez não exista termo tão duro, porém tão apropriado quanto "coisificação do professor", utilizado por SILVA (1989) onde, "coisificados, os professores passam agora a fazer parte da categoria dos oprimidos".

Um fator de crucial importância para definir o futuro da relação do professor com a sociedade é a evolução tecnológica. Os professores passam a competir, até certo ponto, de forma desigual com a fantástica rapidez com que as informações chegam direto aos nossos lares sem passarem pelo crivo acadêmico, configurando teorias e posicionamentos absolutamente subjetivos e infundados que transformam-se em verdades inquestionáveis numa questão de alguns "cliques". Ao professor cabe ser proativo, evitando o risco de posicionar-se numa situação tão refém da tecnologia quanto o seu próprio aluno.

Uma vez incorporada a idéia de difusão cultural, a palavra "cultura" passa a fazer parte da educação física, ligada a termos como "física", "corporal", "de movimentos" e outros, e a partir da década de 80 a área deixa de ser explicada apenas sob o ponto de vista predominantemente biológico para também relacionar-se às ciências humanas. Essa dinâmica cultural relacionada ao corpo e movimento humano é que definirá o trato pedagógico a ser adotado. Porém, algumas incorreções relativamente à expressão "cultura" ainda podem ser vistas na área. "O termo ainda é confundido com o conhecimento formal, ou utilizado de forma preconceituosa quantificando-se o grau da cultura ou como sinônimo de classe social mais elevada, ou ainda como indicador de bom gosto". (DAOLIO, 2004)

Na linha das interpretações errôneas, surge outra corrente dentro da educação física que não está relacionado à "cultura corporal", mas sim ao "culto ao corpo" - o que apesar de parecido na escrita, são distintos em sentido. Hoje o professor de educação física, em grande parte, atende à ditadura da beleza e à explosiva expansão das academias de ginástica, de forma indiscriminada e até mesmo desqualificada. Essa desqualificação advém principalmente, mas não exclusivamente, da absorção pelo mercado de trabalho de profissionais não especializados, que passam de alunos a professores, da noite para o dia, por questões financeiras pessoais ou das academias, aliando-se a isso, a carência de profissionais especializados no mercado que estejam dispostos a assumir a baixa remuneração proposta. Coloca-se então dentro de um mesmo balaio: professores, mestres, doutores, praticantes de esportes, curiosos e oportunistas. Tamanha confusão ideológica faz com que a imagem da educação física, como um todo, saia arranhada ou deturpada.

Dessa forma, apresenta-se na relação professor-sociedade, a segunda divergência no processo: o professor difusor da cultura dá lugar ao professor sem autoridade moral perante a sociedade, onde desatualizado do conhecimento fica parado no tempo, passando a atuar como qualificador de mão de obra servil.

A relação entre a escola e a sociedade

Como foi visto anteriormente, a sociedade utiliza-se da escola como elemento para a vivificação e efetivação dos projetos sociais, porém esta relação não é unidirecional. São muitas as histórias dos tempos de escola, daqueles que nasceram e cresceram em comunidades pequenas, distantes ou carentes, e que vivenciaram a relação direta de desenvolvimento social proporcionada pela exteriorização das atividades escolares. Dentre essas histórias, podemos citar a da Prof. Maria Luisa Santos Ribeiro e a sua escola:
"ela nasceu junto com a cidade. E tem uma história muito ligada à história da cidade. Foi construída pela população, tijolo por tijolo.[...] Então a cidade sempre participou muito da vida da escola e a escola da vida da sociedade. As pessoas da cidade ou a construíram ou tinham passado pelos seus bancos.[...] Quase todo o movimento cultural da cidade sempre partia de dentro da escola, quer dizer, era a escola alimentando, criando e mantendo movimentos de cultura, como por exemplo, corais, teatro, fórum de debates, concursos de contos, de poemas, concurso de oratória, etc". (RIBEIRO, 1984)

Entretanto, a escola pode cumprir várias funções e atender a diversos interesses. Conforme FRIGOTTO (1984), a escola pode cumprir as seguintes funções: desenvolvimento de um saber não-específico e condições sociais necessárias ao desenvolvimento capitalista; formação de profissionais de alto nível (engenheiros, advogados, economistas e administradores) para empresas capitalistas ou na tecnocracia estatal; circulação e realização de mais-valia produzida; e, finalmente, pode cumprir um papel de contenção - especialmente a nível superior - de um exército de reserva, funcional ao mercado de trabalho.

A alienação proposta pelo sistema capitalista opressor tende a anular ou canalizar esta qualificação produzida aos interesses do próprio sistema, mantendo-o longe dos perigos das mudanças. Dessa forma, as escolas passam a funcionar como uma agência de legitimação das desigualdades sociais, reproduzindo de forma fiel o "status quo" atual. Para ameaçar essa ordem social capitalista e transformar a escola num instrumento de sua superação, WENZEL (1994) aposta no movimento progressista, pois apoia-se basicamente na lei da contradição. Todavia, o autor completa:

"a impressão que se tem é que, de fato, está admitindo uma certa dualidade em relação à escola, isto é, que ela tanto pode servir aos interesses capitalistas, como também contrariá-los. É como se a escola se constituísse em um ‘realidade’ neutra, que pode ser direcionada conforme o rumo imprimido pelos seus agentes, notadamente os professores e dirigentes. Por isso, o esforço de ‘conscientizar’ os professores para que modifiquem suas posturas conservadoras e as transformem em posturas revolucionárias"
Seguindo um caminho de paralelismo, a história da educação física surge, de forma empírica, do contexto social. GHIRALDELLI (1988)

apresenta as cinco tendências e correntes da educação física brasileira: a Educação Física Higienista (1930); a Educação Física Militarista (1930-1945); a Educação Física Pedagogicista (1945-1964); a Educação Física Competitivista (pós-64); e, finalmente a Educação Física Popular. Se verificarmos que, durante tão curto espaço de tempo, o professor de educação física teve que readaptar-se entre o agente de saúde, o depurador da raça, o educador a serviço do crescimento da rede de ensino público, o descobridor de atletas-heróis, e o promotor da organização dos trabalhadores, veremos que a educação física sempre esteve em busca de seu tempo, servindo aos objetivos da sociedade da época, sem atuar na vanguarda do processo de mudanças sociais.

Finalmente, configura-se a terceira divergência no processo, que se refere à relação entre a escola e a sociedade: a escola, encarada inicialmente como espaço de vivificação dos projetos de desenvolvimento social e incrementadora de mudanças, passa a servir então como legitimadora das desigualdades sociais impostas pelo sistema capitalista, que recebe em troca o profissional tecnocrata, desprovido de interesse ou capacidade de promover transformações sociais.

Considerações finais

Observou-se neste estudo que, cada etapa do processo de relação professor-escola-sociedade está inserida nos objetivos gerais do sistema dominante, de forma que após o processo cíclico estar completo, ele torna-se cada vez mais dominante, seja ele qual for. O estudo apresentou a necessidade de evitarmos o escorregamento para uma posição idealista e voluntarista, procurando demonstrar que a escola é determinada socialmente. Uma vez que vivemos numa sociedade capitalista, dividida em classes com interesses opostos, a escola sofre a determinação do conflito de interesses que caracterizam esse tipo de sociedade. Visto que não é de interesse da classe dominante a transformação histórica da escola, ela procura preservar o seu domínio através de mecanismos que evitem os processos de mudanças.

Da mesma forma que o restante da sua classe profissional, o professor de educação física, em virtude da sua curta e conturbada história, vê-se em busca de seu espaço, dividido pela atuação de leigos no seu mercado de trabalho, refém das diretrizes político-sociais. Na tentativa de alcançar respeito profissional e social, o professor de educação física busca livrar-se do eixo paradigmático da aptidão física e passa a perseguir então, o saber necessário às suas ações pedagógicas, que lhe garantam importância dentro da política educacional, que reside na função de socialização do conhecimento.

Obs. Os autores, Angelo dos Santos (angelodossantos@ig.com.br) é graduando na UNIVERSO e o prof. Ivan Martins Leite de Luna (lunaivan@hotmail.com) é da UNIVERSO e da UNIABEU

Referências bibliográficas

  • Castellani Filho, Lino. Política educacional e educação física. São Paulo: Autores Associados, 2002.
  • Daolio, Jocimar. Educação física e o conceito de cultura. São Paulo: Autores Associados, 2004.
  • Frigotto, Gaudêncio. A produtividade da escola improdutiva: São Paulo: Autores Associados, 1984.
  • Ghiraldelli Jr., Paulo. Educação Física progressista. São Paulo: Ed. Loyola, 1988.
  • Ribeiro, Maria Luisa Santos. A formação política do professor de 1º e 2º graus. São Paulo: Cortez, 1984.
  • Saviani, Dermeval. Escola e democracia. São Paulo: Autores Associados, 1986
  • Severino, Antônio Joaquim et al. Sociedade civil e educação. São Paulo: Papirus, 1992
  • Silva, Ezequiel Theodoro da . O professor e o combate à alienação imposta. São Paulo: Autores Associados, 1989 (Coleção polêmicas do nosso tempo; v.34).
  • Wenzel, Renato Luiz. Professor: Agente da Educação?. São Paulo : Papirus, 1994.

Comentários


:-)





© 1996-2014 Centro Esportivo Virtual - CEV.
O material veiculado neste site poderá ser livremente distribuído para fins não comerciais, segundo os termos da licença da Creative Commons.