A Relevância da Animação Cultural no Contexto Escolar: Reflexões a Partir da Representação do Conceito de Cultura Entre o Corpo Docente do Ciep Padre Paulo Correa de Sá

Por: Américo Venceslau Freire Júnior.

XI EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Este estudo tem como temática a questão da cultura. Ao buscar uma contextualização sobre o conceito de cultura percebo que este foi mudando de acordo com as características da sociedade. Mais precisamente, as
"suas definições modificam-se no decorrer do tempo em função das relações de poder e dos interesses envolvidos nos embates e tensões entabuladas pelos atores sociais que por motivos diversos transitam no campo gerador e gerado ao redor do conceito" (MELO, 2004, p. 87).

Compreendo que vivemos numa sociedade heterogênea, e que essa heterogeneidade gera a existência de uma diversificada produção de bens culturais, fato este que legitima certos bens culturais produzidos, onde uns possuem mais valor que outros. Preliminarmente, sugiro alguns pontos de reflexão como: Por que será que certos bens culturais são mais valorizados que outros ? Quem determina que um certo bem cultural deverá possuir ou não mais destaque que outro ?

Ao se pensar em cultura, imaginamos manifestações dos mais variados tipos, as quais são produzidas por vários extratos da sociedade.

Para auxiliar o entendimento da heterogeneidade da produção cultural acho interessante trabalhar com a proposta de Melo (2003) que subdivide este conceito em três padrões estéticos.

O primeiro deles é o que se pode chamar de (1) cultura erudita. Esse padrão cultural, na maioria das vezes está associado a grupos de pessoas de elevados níveis socioeconômicos, o que não significa ser uma regra. É interessante pensar que apesar desse padrão cultural está presente apenas para uma pequena parcela da sociedade, as escolas o utilizam como referência, o que de certa forma culmina e/ou pode culminar num distanciamento do educando com o que se propõe a ser ensinado.

Dias (2006) contribui de forma significativa para a compreensão da idéia de um choque cultural entre os alunos das camadas humildes da sociedade e a escola ao sinalizar que "(...) esses alunos não dominam os mesmos códigos culturais difundidos e requisitados pela cultura escolar, pois seu lugar de enunciação e seus códigos de conduta tende a assumir um caráter bastante diferente daquele associado à escola" (p.437).

Em meio a essas disputas de espaço pelos diversos tipos de culturas, existe uma produção industrial da chamada (2) cultura de massa que é difundida pelos meios de comunicação, os quais possuem uma capacidade incalculável de promover o consumo desses bens culturais produzidos. A indústria cultural opera sob a lógica mercantil, o que fará com que haja a necessidade de que os produtos lançados na mídia sejam bastante voláteis e de fácil substituição por outros novos produtos.

Dessa forma a indústria cultural atinge o seu objetivo que é o consumo em larga escala de seus produtos que, em muitas vezes, "sequer passam por um processo de produção original, partindo quase sempre de outras manifestações, e distorcendo seus sentidos originais para torná-las formas de consumo fácil e banal" (MELO, 2003, p.58).

Estamos vivendo num mundo globalizado, onde a indústria cultural nos possibilita viajar o mundo pela televisão, se comunicar pela internet com pessoas dos mais variados lugares, usar roupas produzidas em diversos países, cada qual com seus moldes culturais, utilizar palavras em nosso vocabulário que não são da língua portuguesa, porém que falamos com bastante freqüência, entre muitas outras coisas que não podíamos pensar em fazer a tempos atrás. Todas essas evoluções geram conseqüências e uma delas é que já não possuímos uma identidade que seja atrelada exclusivamente a um determinado território (CANCLINI, 2006).

Já a (3) cultura popular, advindas das classes economicamente menos favorecidas da sociedade, é vista como inferior e suas manifestações são consideradas ilegítimas, impróprias e inadequadas (DIAS, 2006).

A escola, ao longo de sua história, mostra-se como um potente aparelho reprodutor dessa forma de enxergar a cultura popular, pois, segundo Giroux (1987), "a relação entre o papel dos educadores e a sociedade mais ampla tem sido mediada pela imagem do professor, como um servidor público dedicado a reproduzir a cultura dominante no interesse do bem comum" (p.10).

Suspeito que esta relação não seja assim tão linear. Neste sentido, este estudo buscará, inicialmente, compreender o como os professores representam o conceito de cultura.

A partir das representações sobre cultura poderei refletir sobre possíveis intervenções pedagógicas no âmbito cultural, as quais defino com o conceito de animação cultural.

Sendo a animação cultural uma área de estudo ainda recente. Entendo, tal como Melo (2003), que este campo de estudo pode contribuir para uma intervenção pedagógica no campo da cultura, possibilitando promover diversas maneiras de encarar a realidade social ao oportunizar o acesso a novas linguagens culturais de forma direta ou indireta.

Pensando no contexto escolar, e novamente buscando apoio em Melo, corroboro da afirmativa que "em nosso país poucas são as discussões relacionadas à possível contribuição da animação sociocultural no âmbito das escolas, ainda restritas em sua maioria a uma formação clássica" (2006, p.4).

Seria então este estudo tendencioso? Penso que não, pelo contrário, acredito que a partir dele poderei verificar os entendimentos de cultura, mesmo entendendo antecipadamente que o contexto escolar está permeado, como toda a sociedade, por uma formação cultural clássica.

Desta forma, e mais explicitamente, este estudo objetivará: (1) verificar as representações de cultura entre professores; (2) refletir sobre a importância da animação cultural no âmbito escolar.

ASPECTOS CONCEITUAIS PRELIMINARES

Penso ser necessário neste momento, expor as definições, do que pretendo chamar, de representação e de animação cultural.

Por representação, utilizo a conceituação de Costa (1999) por acrescentar ao diálogo à questão do poder. Mesmo não se detendo especificamente a questão das representações sociais, a autora conceitua representação de forma bastante plausível entendendo-a como:

"(...) o resultado de um processo de produção de significado pelos discursos, e não como um conteúdo que é espelho e reflexo de uma ‘realidade’ anterior ao discurso que a nomeia (...) são noções que se estabelecem discursivamente, instituindo significados de acordo com critérios de validade de legitimidade estabelecidos segundo relações de poder" (p.41).

As representações permitem a produção de significados segundo um jogo de relação de poder onde os mais poderosos conferem significados àqueles que possuem menos poder, atribuindo, assim, seus significados sobre os outros grupos.

Gilly (2001), ao desenvolver um trabalho sobre as representações sociais no campo da educação, denuncia e confirma o supracitado quando afirma que

"(...) o sistema escolar sempre sofreu, em maior ou menor grau, as marcas originárias de grupos sociais que ocupam posições diferentes em relação a ele: discurso dos políticos e dos administradores, discurso dos agentes institucionais dos diferentes níveis de hierárquia, discurso de usuários" (p.322).

Neste sentido, acredito que as representações sociais no campo educacional são um campo privilegiado para que possamos observar como ocorre a sua construção, evolução e transformação no interior dos grupos sociais, e desta forma pensar o papel destas construções nas relações deste grupo com o objeto de representação (GILLY, 2001, p.322).

Já para a animação cultural, me aproprio das palavras de Melo (2006) que a conceitua como:

"(...) uma tecnologia educacional (uma proposta de intervenção pedagógica), pautada na idéia radical de mediação (que nunca deve significar imposição), que busca contribuir para permitir compreensões mais aprofundadas acerca dos sentidos e significados culturais que concedem concretude a nossa existência cotidiana (considerando as tensões que nesse âmbito se estabelecem), construída a partir do princípio de estimulo às organizações comunitárias (que pressupõe a idéia de contribuir para a formação de indivíduos fortes, para que tenhamos realmente uma construção democrática), sempre tendo em vista provocar questionamentos acerca da ordem social estabelecida e contribuir para a superação do status quo e para a construção de uma sociedade mais justa" (p. 8).
A animação cultural, nesse sentido, seria uma ferramenta educacional que iria contribuir para que, pouco a pouco, seja diluída a idéia de que uma forma de representação seja mais legítima que outra.
Penso que a animação cultural

ASPECTOS METODOLÓGICOS PRELIMINARES

Pretendo realizar uma pesquisa do tipo etnográfico em educação, que caracteriza-se, segundo André (1995), por utilizar "as técnicas que tradicionalmente são associadas à etnografia, ou seja, a observação participante, a entrevista e a análise de documentos" (p.28). A observação é participante porque parte do princípio de que o pesquisador, de certa forma, interage com a situação estudada, influenciando-a e sofrendo influência da mesma. Com as entrevistas podemos aprofundar nossas questões e esclarecer os nossos problemas, enquanto que os documentos contextualizam nosso cenário de estudo, dando condições confrontar as entrevistas com outras fontes.

Nossa escolha pela pesquisa etnográfica tem relação com a sua busca de construção de hipóteses, de conceitos, de teorias, não se prendendo a constatações. Neste sentido é que é possível neste tipo de pesquisa um plano de ação aberto e flexível, onde os focos da investigação, as técnicas de coleta, os instrumentos e os fundamentos teóricos vão sendo revistos, reavaliados, reformulados e repensados. No limite, nossa opção tem a ver com a possibilidade de descobrir como a realidade, e mais especificamente a realidade escolar, vai sendo construída a partir dos conceitos, das relações e de possíveis formas de entendimento.

Desta forma o contexto a ser estudado é de uma unidade escolar integrante da Rede Municipal de Educação do Município do Rio de Janeiro. Sendo um Centro Integrado de Educação Pública (CIEP) que se situa no subúrbio da Zona Oeste da cidade, Padre Miguel.

Nossa opção é por trabalhar com o público-alvo dos docentes da Rede Municipal de Educação do Município do Rio de Janeiro, onde buscarei observar algumas aulas e realizar as entrevistas com os professores.

Nas entrevistas buscaremos tratar das questões referentes à cultura para que se possa identificar as representações acerca do conceito. Inicialmente, tenho algumas propostas de possíveis questões que nortearão os meus questionários de entrevistas. Buscarei compreender as representações de cultura a partir das seguintes questões: Para você o que cultura ? ; Qual a cultura trabalhada na escola? ; Existe um choque cultural na escola, ou seja, existe um choque entre a cultura que a escola trabalha e a que os alunos trazem?

Acredito que a partir do conhecimento das representações de cultura dos professores poderei caminhar na perspectiva da relevância da animação cultural no âmbito escolar.

Obs. O autor, Américo Venceslau Freire Junior (junior_eefd@hotmail.com) fooi orientado pelo professor Felipe Rocha dos Santos, ambos do ANIMA- UFRJ

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Canclini, Nestor Garcia. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: UFRJ, 2006.
  • Costa, Marisa Vorraber. Currículo e Política Cultural. In: COSTA, Marisa Vorraber. (org.). O Currículo nos limiares do contemporâneo. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.
  • Dias, Cleber Augusto Golçalves. Animação cultural e lazer na escola. In: Anais do X encontro fluminense de educação física escolar. Niterói: UFF, 2006.
  • Giroux, Henry A. Escola crítica e política cultural. 2.ed. São Paulo: Cortez Autores Associados, 1987.
  • Melo, Victor Andrade de; ALVES JÙNIOR, Edmundo. Introdução ao lazer. Barueri, SP: Manole, 2003.
  • Melo, Victor Andrade de. A animação cultural, os estudos do lazer e os estudos culturais: diálogos. Licere, Belo Horizonte, V.7, n.2, p.86-103, 2004.
  • Melo, Victor Andrade de. Animação cultural: um ponto de vista desde o Brasil, um ponto de vista desde a América Latina. Animador Sociocultural: revista iberoamericana, v. 1, p. 1, 2006.

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