A Sistematização dos Conteúdos nas Aulas de Educação Física Escolar: a Teoria na Prática

Por: Evânia Nunes de Angeli.

VII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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O presente trabalho trata de questões pertinentes à Educação Física no que se refere ao trato que é dado aos conteúdos das aulas de Educação Física Escolar.

Apesar de terem surgido muitas propostas metodológicas nas décadas de 80 e 90 em contraposição aos modelos que até então predominavam, alguns aspectos dessas propostas não se apresentavam claramente. Um deles particularmente me chama atenção: os conteúdos das aulas de Educação Física Escolar.

O objetivo deste trabalho é compreender quais os critérios utilizados pelo professor nas aulas de Educação Física para a sistematização e construção do conhecimento desenvolvido nas referentes aulas.

As orientações, isto é, os caminhos que as propostas metodológicas apresentaram e apresentam são como norteadores para o planejamento, aplicação de conteúdos e avaliação para a escola e/ou para a Educação Física. Porém, a meu ver, a questão da seleção, organização e seriação dos conteúdos não ficou adequadamente resolvida.

Durante minha vida estudantil no ensino fundamental e médio, as aulas de Educação Física transcorriam a cada dia e a cada ano sem que nada de novo acontecesse. Os conteúdos (normalmente voleibol, basquete, handebol e futsal - aqui está outra questão, o da esportivização da Educação Física, que muito me oportuna mas que não será discutida neste trabalho) se tornavam ainda mais repetitivos durante a 5ª, a 6ª, a 7ª e a 8ª séries e então eu percebia que em nada eles (os conteúdos) se acresciam ou se delimitavam.

Já na graduação em Educação Física, durante os trabalhos de visitas às escolas e conseqüente observação das aulas, também me importunava a repetição de conteúdos que acontecia a cada ano letivo como foi apresentada nitidamente por professores e por alunos.

Daí o meu interesse nesta temática. Quais os critérios utilizados pelo professor de educação física para que haja uma sistematização e construção de conhecimentos por parte dos alunos?

De acordo com Chaves (2001, p.101) "a maneira como o conteúdo é selecionado, organizado e proposto ao aluno poderá facilitar ou dificultar sua aprendizagem, razão pela qual deve haver critérios para a seleção dos mesmos".

É certo que algumas questões estruturais como espaço físico, materiais disponíveis, número de alunos por turma; e/ou questões institucionais como algumas conjunturas que são impostas e até mesmo o próprio Projeto Político Pedagógico (PPP) estabelecido pela escola podem interferir na escolha do conteúdo e principalmente na forma de ser desenvolvido.

Selecionar e organizar são ações que estão intimamente ligadas quando tratamos dos conteúdos, por isso muitas vezes encontraremos reflexões acerca dos dois temas, porém é na organização que desejo centrar meus estudos por perceber que a organização dos conteúdos ainda não claramente entendida.

Assim, fui a campo, tentar verificar da maneira mais sistematizada como se dava o processo de seleção e principalmente de organização dos conteúdos por parte dos professores da rede municipal de Vitória (ES).

Tendo-se em conta que o sentido de uma pesquisa qualitativa não está na obtenção do maior número de informantes, concentro minha preocupação em perceber como professor organizou seus conteúdos de 5ª a 8ª série do 1º grau.

Por fim, serão apresentados os resultados obtidos nessa pesquisa e as devidas considerações e se possível as conclusões acerca das formas de organizações dos conteúdos das aulas de Educação Física relatado pelos professores entrevistados.

2. Surgimento de propostas metodológicas

Dentro desse contexto, a década de 80 foi considerada como "um período fértil" , como afirma Muniz (1996, p.2), por apresentar um amadurecimento acadêmico nas questões conceituais referentes à Educação Física, ao esporte, ao lazer, à recreação.

O engajamento de professores em cursos de mestrado e doutorado no Brasil e no exterior, a implementação de cursos de pós-graduação em níveis lato sensu e stricto sensu, assim como um aumento significativo no número de publicações, pesquisa e eventos acadêmicos contribuíram para que a década de 80 e posteriormente a década de 90 se destacassem no contexto histórico da Educação Física.

Assim, muitas propostas foram pensadas e desenvolvidas para a Educação Física a partir da ação/intervenção no dia a dia da escola.

Entre muitas produções acadêmicas que surgiram na referida década, algumas como as propostas teórico-práticas se destacaram sendo denominadas ora de críticas, ora de renovadoras, mas sempre com o intuito, pelo menos a princípio, de crítica e superadora daquelas que comumente são chamadas de tradicionais.

Trabalhos como Muniz (1996) e Alvarenga (2002), todavia tem demonstrado os limitados impactos das propostas sobre o cotidiano da Educação Física escolar.

3. A teoria na prática

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa que se utilizou de métodos de inquirição. A coleta de dados foi feita com a aplicação de questionários aos professores de Educação Física e, em seguida, entrevistas do tipo guiada.

A população deste estudo é composta pelos professores da rede municipal de Vitória. A delimitação do grupo amostral se deu pelos docentes que se propuseram a espontaneamente responder o questionário enviado.

Os questionários foram enviados aos professores para que pudéssemos verificar, através de suas respostas, se eles utilizavam alguma proposta metodológica ou quais propostas metodológicas eram utilizadas nas aulas de Educação Física na escola.

Porém, a Educação Física, assim as outras disciplinas, enfrentam um sério problema, entre tantos outros na educação brasileira: as contratações temporárias de professores. Isto fez com que muitos professores que responderam o questionário no final do ano letivo de 2002, já não estivesse mais na escola agora em 2003, reduzindo a amostra do estudo. Assim a amostra ficou restrita a três escolas onde três professores foram entrevistados.

Não posso deixar de mencionar a limitação do meu estudo, por concentrar minha investigação na fala do professor durante a entrevista, o que necessariamente não representa a realidade dos fatos. Fica claro que a observação sistemática das aulas de Educação Física em todas as escolas do grupo amostral seria fundamental para uma real constatação das respostas apresentados nos questionários.

4. Discussão dos resultados

Percebi nas respostas obtidas uma certa confusão, ou uma verdadeira salada de propostas metodológicas utilizadas pelos professores para a realização de suas aulas.

Se tratando mais especificamente sobre conteúdos das aulas de Educação Física, os informantes foram unânimes em responder que os conteúdos se fazem repetir todos os anos letivos e que esses conteúdos normalmente se resumem os esportes. E ainda, todos os informantes mostraram, através de sua fala, que esses conteúdos são organizados baseando-se no grau de dificuldade que cada tarefa ou esporte apresenta, isto é, quanto mais elevada for a série mais difícil será atividade aplicada.

Dois dos informantes afirmaram que além do grau de dificuldade de cada atividade proposta, falam do grau de maturidade dos alunos que também são considerados no momento de organizar os conteúdos das aulas, exatamente por um estar ligado ao outro.

Notei ainda que cada respondente disse utilizar uma certa proposta metodológica para as suas aulas de Educação Física, mas a forma como é conduzida a organização dos conteúdos das aulas parece ser a mesma: todos afirmam organizar pelo nível de dificuldade da atividade proposta.

Esse aprendizado motor demonstra a que a sistematização do conhecimento se deu apenas do movimento pelo movimento, quando deveria envolver todo o contexto que cerca o movimento desde os conceitos que explicam o mesmo até as explicações político-filosóficas das existências dos modelos dos saltos.

Se a Educação Física é componente curricular dentro das escolas, ela tem um conteúdo específico para dar conta, não podendo ser repetido da forma como tem sido feito pelos professores nas redes de ensino. Ela deve contribuir para a construção do conhecimento.

É possível concluir também que, mesmo existindo propostas metodológicas que possam servir de orientação para os professores de Educação Física elas não são utilizadas. E que estas propostas ainda estão limitadas a projetos e intenções que tentam ser materializadas, longe portanto, de se constituir numa práxis que é sonho que alguns intelectuais.

Não se pode deixar de mencionar que, independente da utilização de uma proposta metodológica para as aulas de Educação Física e muito mais importante que isso, a intencionalidade do professor deve se fazer presente no intuito conseguir uma prática pedagógica onde professor e aluno possam interagir no processo de ensino e aprendizagem.

6. Considerações finais

A partir de todos os dados apresentados pode-se concluir que, hoje, mesmo que existam propostas metodológicas para a orientação da prática pedagógica do professor, os conteúdos das aulas de Educação Física continuam se repetindo nas escolas (pelo menos do município de Vitória) como aconteciam nas décadas anteriores.

Não só a repetição de conteúdos se faz presente ainda hoje, como também foi notado a predominância do esporte nas aulas de Educação Física escolar. Isso me faz refletir se consideramos a cultura corporal de movimento como sua temática observa-se uma redução e um empobrecimento dos conteúdos a serem transmitidos na escola. 

Será que, com o esporte como único conteúdo hegemônico da Educação Física escolar e a repetição de conteúdos que se apresenta, é possível haver a construção de conhecimento? Parece-me que sim, todavia, claramente limitado.

Quanto às propostas metodológicas, essas parecem estar reduzidas à projetos e boas intenções dos intelectuais que as elaboraram, pois o que eu pude perceber foi uma certa indefinição no conhecimento e aplicação das propostas. Especificamente no que se refere à prática, pude perceber, através da fala dos professores, que todos "caem" na mesma forma de organizar os conteúdos, qual seja, através do grau de dificuldade da atividade proposta.

Contudo, é relevante perceber, independente da proposta adotada e de sua eficiência e eficácia, qual é a intencionalidade do professor ao planejar suas aulas, selecionar os conteúdos e conseqüentemente organizá-los. Neste sentido, minha preocupação é que a prática pedagógica seja uma possibilidade de transmissão e construção cultural, e não apenas uma recepção de movimentos como atividade unicamente motora.

A autora, Evânia Nunes de Angeli é do PET/LESEF da Universidade Federal do Espírito Santo

Referências bibliográficas

  •  Alvarenga, Ana Maria. Influências das abordagens pedagógicas renovadoras em Educação Física na organização da atividade docente diária. Dissertação de mestrado. Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2002.
  • Bracht, V. A constituição das teorias pedagógicas da educação física. Cadernos CEDES, vol.19. n.48. Campinas. agosto, 1999.
  • Caparroz, F. E. O esporte como conteúdo da educação física: uma "jogada desconcertante" que não "entorta" só as nossas "colunas", mas também nossos discursos. Perpectivas em Educação Física Escolar, v.2. n.1. Niterói, 2001.
  • Chaves, W. M. Reflexões acerca da seleção de conteúdos na Educação Física Escolar. In: Encontro Fluminense de Educação Física escolar, 5., 2001, Niterói. Anais... Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2001, p.101-103.
  • Freire, J. B. Educação de Corpo Inteiro: teoria e prática da Educação Física. 4. ed. São Paulo: Scipione, 1994.
  • Tani et alli. Fundamentos da educação física escolar: elementos para uma abordagem desenvolvimentista. São Paulo: EDUSP, 1991.
  • Muniz, N. L. Influências do pensamento pedagógico renovador da Educação Física: sonho ou realidade? Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 1996.
  • Soares, C.L. et al. Metodologia do Ensino de educação física. São Paulo: Cortez, 1992.
  • Taffarel C.N.Z et al. Visão didática da Educação Física: Análises críticas de exemplos práticos de aulas. 1. ed. Rio de Janeiro: Ao livro técnico, 1991.

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