Academia da Saúde Pública

Por: RADIS.

RADIS - Comunicação em Saúde - n.109 - 2011

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Programa do SUS vai atacar sedentarismo, obesidade e doenças crônicas, ocupando espaço dominado pela iniciativa privada.

Experiências como a Academia da Cidade, no Recife, servem de modelo para programa do Ministério da Saúde em todo o país.

No parque Sítio da Trindade, ginástica ao som de música ajuda a emagrecer. No Caps álcool e drogas Eulâmpio Cordeiro, o corpo fala pelo dependente químico em sessões de grupo. No Centro Médico Ermírio de Moraes, alongamento e caminhada auxiliam na recuperação de pacientes com hipertensão e diabetes. No Caps infantil Zaldo Rocha, jogos esportivos melhoram a interação de crianças com deficiência. Realidades diversas, um só programa em uma só cidade: Academia da Cidade, criado pela Secretaria de Saúde do Recife, em 2002. O objetivo inicial era incentivar a prática de atividades físicas e de lazer, mas quase dez anos depois o programa ganha contornos próprios em cada uma das áreas onde funciona.

A experiência foi uma das que serviram de modelo para que o Ministério da Saúde lançasse programa nacional semelhante, o Academia da Saúde. Em abril, o ministério anunciou que financiaria a criação de espaços adequados para a prática de atividades físicas e de lazer em municípios de todo o Brasil, definindo como meta a instalação de quatro mil polos até 2014.

reconhecimento

"O Academia da Saúde não é uma invenção, é o reconhecimento de projetos exitosos de lugares como Vitória, Belo Horizonte, Recife, Aracaju, Curitiba e Maringá", diz o diretor de Atenção Básica do Ministério da Saúde, Heider Pinto. "Observamos o impacto dessas experiências, que conseguiram reduzir níveis de pressão, diminuir o uso de medicamentos e melhorar a qualidade de vida, porque se vinculam a redes sociais".

O programa nacional marca a ocupação pela saúde pública de um universo quase inteiramente dominado pelo comércio. Os principais benefícios da atividade física ficam encobertos diante do apelo ao cuidado estético com o corpo, num círculo em que se estimulam exercícios exagerados em academias privadas, consumo de suplementos vitamínicos e dietas restritivas.

"Se tiver de escolher entre pagar para fazer exercício ou não fazer exercício, uma parcela considerável da população não vai fazer", analisa Heider. O Academia da Saúde é também oportunidade de fortalecer o papel dos profissionais de Educação Física como parte da equipe do Sistema Único de Saúde, cuja entrada é recente.

Dados de 2009 do Vigitel, pesquisa por telefone realizada anualmente pelo Ministério da Saúde, indicam que 16,4% dos adultos brasileiros são sedentários - não fazem atividade física no tempo livre, durante deslocamentos ou em tarefas como limpeza da casa e trabalho pesado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a prática de 30 minutos de atividade física em cinco ou mais dias por semana.

O sedentarismo tem consequências: 48,1% dos adultos do país estão acima do peso e 15% são considerados obesos, segundo o Vigitel de 2010 - há cinco anos, o percentual era de 42,7% para excesso de peso e de 11,4% para obesidade. Números diretamente ligados a hábitos sedentários e padrão alimentar inadequado, como baixo consumo de frutas, legumes e verduras.

Os brasileiros estão comendo menos feijão, fonte de ferro e fibras: o consumo em pelo menos cinco dias por semana foi de 66,7% em 2010 ante 71,9% em 2006. Frutas e hortaliças aparecem no cardápio de apenas 18,2% dos entrevistados na quantidade recomendada pela OMS - cinco porções diárias ou 400 gramas. Mais: 34,2% dizem que se alimentam de carnes vermelhas gordurosas ou de frango com pele; 28,1% bebem refrigerantes cinco vezes ou mais na semana.

promoção, prevenção e cultura local

"O programa Academia da Saúde é uma estratégia voltada à promoção da saúde e à prevenção de doenças crônicas e, ao mesmo tempo, à divulgação da cultura local e de hábitos saudáveis", resume Heider Pinto. Por meio do programa, o Ministério da Saúde oferece financiamento para a criação de polos com infraestrutura, equipamento e pessoal qualificado para a orientação de atividades física e de lazer.

Esses polos são espaços de cerca de 300 metros quadrados, abertos à realização de atividades individuais, em equipamentos para alongamento, abdominal e flexão, e coletivas, em aulas de ginástica, capoeira, dança, jogos esportivos, yoga e tai chi chuan, entre outras. Também está prevista área de convivência, com mesas de jogos (dominó, baralho, dama, xadrez)."Os polos vêm enfrentar um conjunto de problemas de saúde, mas criam um espaço público de convívio que não é só da saúde", explica Heider. "Além das atividades físicas, devem oferecer atividades culturais e incentivar a interação entre as pessoas, trazendo mais vida para comunidade".

cadastramento

Apesar de congregarem outros setores, como Cultura e Educação, os polos precisam funcionar sob a orientação de profissionais da saúde. As ações devem contar com a participação de profissionais da Atenção Primária que atuem na Estratégia Saúde da Família, especialmente nos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf). "Esse vínculo permite que o profissional da unidade de saúde recomende que um usuário com dores musculares, hipertensão ou diabetes procure a academia e vice-versa", diz Heider. "De um lado e de outro não dá para separar promoção, prevenção e recuperação de saúde. O programa integra essas três faces".

Heider: Academia da Saúde resulta de projetos exitosos de cidades brasileiras. (Foto: Luís Oliveira/Ascom-Ms)Os municípios tiveram até 31 de julho para cadastrar seus projetos, informando a modalidade de polo a ser criada, o local escolhido e as comunidades a serem beneficiadas. Há três modalidades de polos: a básica, com área de vivência e espaço externo com área multiuso; a intermediária, que inclui depósito de materiais e equipamentos para alongamento; e a ampliada, com estrutura de apoio (sala de vivência, sala de acolhimento e banheiros) e com jardins.

Após avaliação das propostas, o ministério autoriza o repasse dos recursos, que variam de R$ 80 mil a R$ 180 mil, dependendo da modalidade do polo. "Percebemos uma vontade muito grande das prefeituras de aderir ao programa", afirma o secretário de Atenção Básica. "Temos capacidade de financiar mil projetos por ano, chegando a quatro mil até 2014".

Há também uma linha de financiamento para custear as ações a serem desenvolvidas, medida que pode evitar a construção de polos e seu posterior abandono. Pelo país, existem dezenas de experiências de instalação de equipamentos de ginástica em parques e praças, que por falta de ocupação profissional e manutenção acabam virando sucata ou são apropriadas indevidamente por pequenos grupos.

"Muitos municípios só colocam equipamentos de ginástica em lugares públicos, mas isso não é Academia da Saúde", comenta Heider. "A Academia da Saúde pressupõe gestão social, relação com serviço de Saúde e profissionais atuantes".

Para receber a verba de custeio, os municípios precisam garantir o funcionamento supervisionado desses polos por 40 horas semanais. "Queremos acesso com atividades, não só o acesso", diz Heider.

Endereço: http://www.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/109

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