Aluízio Azevedo e a Educação (física) Feminina

Por: Delzuite Dantas Brito Vaz e .
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ALUÍZIO AZEVEDO E A EDUCAÇÃO (FÍSICA) FEMININA

LEOPOLDO GIL DULCIO VAZ; DELZUITE DANTAS BRITO VAZ

RESUMO: O objetivo deste estudo é identificar as atividades físicas praticadas durante o período imperial (1823-1889) em Maranhão, e traçar uma parte da construção histórica da participação da mulher maranhense nas atividades físico-esportivas no século XIX. Verifica-se que já em 1827, a mulher maranhense participa das mesmas atividades físicas praticadas pelos homens, e, a partir de 1844, com a fundação do primeiro colégio feminino, têm aulas de educação física. O escritor Aluízio Azevedo, autor de “O Mulato”, faz críticas à inatividade da mulher maranhense, sugerindo a prática de exercícios físicos com base em uma educação positivista, em voga na época. Estabelece-se, ainda, quem foram as primeiras professoras de Educação Física em Maranhão (Brasil).

Palavras-chave: Educação Física; Mulher; História; Maranhão

ABSTRACT: The obejective of this study is to identify the physical activities practiced during the imperial period (1823-1889), and draw up one part of th historical construction of the participation of the natural of Maranhão´s woman used in the physical sporting activities in the XIX century. Its observed that yet in 1827, the natural of Maranhão´s woman used to participate of the same physical activities – riding on foot and on a horseback games (pella – primitive style of tennis) – practiced by men, and had physical education classes. In 1880, Aluizio de Azevedo, author of O Mulato, made a criticism over the inativity of the woman natural of Maranhão, suggesting the practice of the physical exercises, based on a positivist education, fashionable at that time. It´s appointed, yet, who would be the firts teachers of Physical Education in Maranhão (Brasil).

Key words: Physical Education, Woman, History, Maranhão

Manifestações do lúdico e movimento em São Luís do Maranhão – século XIX

São Luís do Maranhão, à época da partida de D. João VI (1816), era uma cidade em crescimento, consolidando e expandindo o conjunto arquitetônico que a opulência maranhense estampou.

À sociedade maranhense não faltavam os contornos de relações sociais definidas. De alicerce agrário, com produção em latifúndio e dominação senhorial, conheceu como culturas econômicas o arroz e o algodão – com as peles e os couros, a cana-de-açúcar, a borracha, a pecuária constituindo-se em negócios complementares -, “fabricando centros urbanos de residência de exportação/importação de mercadorias, formulando uma imagem cultíssima de si mesma (resultado da remessa dos filhos à educação européia)” (CORRÊA, 1993:74). Os comerciantes formavam uma casta que dominava a economia da província. Eles e os ricos fazendeiros, cujos filhos haviam estudado na Europa, formavam a classe dirigente aparentemente iluminada na convencionalmente chamada “Atenas brasileira”.

d’ORBIGNY (1853, citado por MÉRIAN, 1988), registrou, quando de sua passagem por São Luís do Maranhão no século passado, a notável elegância e as maneiras da população branca:

“Em sua maioria criadas em Portugal, as jovens senhoritas da região traziam consigo o gosto pelo trabalho e pela ordem, recato e comportamento geralmente alheios às nativas… Quanto aos rapazes, quase todos eles vão estudar nos melhores colégios da França ou da Inglaterra”. (p. 13).

São Luís conhecia então uma renovação cultural importante: Manoel Odorico Mendes, Francisco Sotero dos Reis, João Francisco Lisboa, Trajano Galvão e, sobretudo Antônio Gonçalves Dias, deram à Província do Maranhão um brilho que ela nunca conhecera (MÉRIAN, 1988).

A vida social procurava manter os foros aristocráticos. À Sociedade Filarmônica sucedera o Clube Familiar. As festas dos Remédios, de Santa Filomena e de Santo Antônio “… serviam de pretexto também para as exibições de modas e de elegâncias… ” (ABRANCHES, 1941:131).

A população de São Luís tinha como atividade de recreação, além das festas religiosas, das danças, dos movimentos literários, os piqueniques como uma das preferidas pelos jovens abastados:

“Quase sempre aos Sábados, à tarde, ou aos domingos pela madrugada partiam da cidade em busca daqueles e outros sítios pitorescos, onde nas delícias do banho nos riachos, da juçara, dos cajus e mangas e das peixadas, pacas ou tatus  com leite de coco e outros pratos saborosos, passavam o domingo, regressando à tarde, quando não o faziam segunda-feira. As vezes levavam damas em sua companhia…” (ABRANCHES, 1941:54).

Outra forma de manifestação do lúdico na São Luís do período imperial se constituía nos passeios a cavalo pela cidade, como ABRANCHES (1993) lembra em seu “Esfinge de Grajaú”, relatando os passeios a cavalo que fazia pelas manhãs, acompanhando o Dr. Moreira Alves, então Presidente da Província:

“… o novo Presidente da Província conhecia a fundo a equitação… Para o espírito estreito de certa parte da sociedade maranhense, afigurava-se naturalmente estranho que fosse escolhido para ocupar a curul presidencial da Província um homem que se vestia pelos últimos figurinos de Paris, usava roupas claras, gostava de fazer longos passeios a pé pelas ruas comerciais…”. (p. 16-17).

Desde antes de 1854 havia em São Luís quem alugasse cavalos para passeios pela cidade e seus arrabaldes, informa VIEIRA FILHO (1971). As cavalgadas para São José de Ribamar, Maioba, Vila do Paço, Turu e outros pontos da Ilha constituíam, de acordo com LOPES (1975) “… divertimento muito de predileção dos homens da melhor sociedade sanluisense”. O cavalo se constituiu como meio dessas atividades, como peça importante para as atividades do lazer, então praticadas, até o advento do automóvel, já no século XX:

“Não faz muitos anos saíam a passeio aos domingos nas cidades da região dos campos baixos do Maranhão, os rapazes das famílias abastadas, montando em fogosos ginetes…

“Em São Luís, até fins do século XIX e mesmo depois, havia esse costume. De três guapos cavaleiros conservou-se muito tempo a lembrança… Saíam os três cavaleiros todos os domingos envergando cartolas cor de cinza…” (p. 51).

Os longos passeios pelos arrabaldes permitiam o contato com o ar livre e com a natureza, e se constituíam forma de divertimento salutar, pois reúnem harmoniosamente a solução quanto ao medo de doenças que impedia a vida laboriosa, por um lado, e o medo da crítica que a rígida moral implicava, por outro. Às mulheres, “responsáveis primordiais na criação dos novos seres”, recomendava-se, sobretudo os exercícios do corpo que obrigavam a andar ao ar livre, como os passeios a pé ou a cavalo.

Às exigências de ordem médica, seguem-se as de ordem econômica, para favorecer a orientação adequada às necessidades práticas que vinham ocupando os indivíduos. Nesta linha de reflexão, HASSE (1985) conclui que não é possível nem deve ser consentido à mocidade “huma applicação séria todo o dia”, sendo preciso dar liberdade ao corpo e ao espírito. “Este, depois de haver descansado, ficaria em melhor estado para o trabalho” (p. 28):

“… Começa a generalizar-se a idéia de que os divertimentos são necessários a todos os homens e, em particular, à mocidade. Esta tem para com eles uma propensão natural e eles servem muitas vezes de hum grande socorro, tornando-se nocivos quando em excesso, levando o espírito a perder a sua força … Os divertimentos, por possuírem um valor determinado ao nível do bom equilíbrio geral, são permitidos e aconselhados desde que mantenham circunspeção.” (p. 28-29).

Aluízio AZEVEDO, em conto autobiográfico, afirma que, aos doze anos, estudante do Liceu, havia uma coisa verdadeiramente série para ele: “era brincar, estabelecendo-se entre minha divertida pessoa e a pessoa austera de meus professores a mais completa incompatibilidade”. Narra as estripulias da época, em companhia dos amigos de infância:

“Criado a beira-mar na minha ilha, eu adorava a água. Aos doze anos já era valente nadador, sabia governar um escaler ou uma canoa, amarrava com destreza a vela num temporal, e meu remo não se deixava bater facilmente pelo remo de pá de qualquer jacumariba pescador de piabas.” (MÉRIEN, 1988:47).

O jogo, enquanto divertimento para os mais jovens torna-se objeto de atenção, “no desejo de promover desde cedo um conjunto de hábitos e de atitudes favoráveis à transformação de usos caducos” (HASSE, 1985:28).

Dunshee de ABRANCHES (1941), em suas memórias, lembra que o “Velho Figueiredo, o decano dos fígaros de São Luís” (p. 155), mantinha em sua barbearia – a princípio na Rua Formosa e depois mudada para o Largo do Carmo – um bilhar, onde

“ahí que se reuniam os meninos do Lyceo depois das aulas, e, às vezes,  achavam refúgio quando a polícia os expulsava do pátio do Convento do Carmo por motivos de vaias dadas aos presidentes da Província e outras autoridades civis e militares …”. (p. 157).

Desde 1836 havia um bilhar funcionando junto ao Largo do Carmo, conforme informa VIEIRA FILHO (1971), autor da “Breve história das ruas e praças de São Luís“. Por essa época, os moradores se recolhiam cedo, pois a cidade mal iluminada e sem vigilância noturna, não oferecia a menor margem de segurança, de sorte que o toque de recolher às nove, era quase desnecessário: “apenas na botica do padre Tezinho, no largo do Carmo, onde havia um bilhar francês, restavam alguns cavaquistas renitentes.” (VIEIRA FILHO, 1971:16).

A botica do padre Tezinho já funcionava dez anos  antes,  pois  Garcia de ABRANCHES (1980) anunciava, em 1826,  que os números anteriores de “O Censor” poderiam ser adquiridos naquele estabelecimento:

“Na mesma Botica se acha á venda uma interessante Obra intitulada – Economia da vida humana – Obra Indiana traduzida do Inglez, e ultimamente do Francez, serve para instrução da Mocidade; para dirigir as paixões; servindo ao mesmo tempo de Recreio ás pessoas de bom gosto; a 320 réis.” (O CENSOR MARANHENSE, no. 10, sábbado, 25 de fevereiro de 1826, p. 178, citado por ABRANCHES, O Censor Maranhense, 1980).

Para defenderem seus ideais, puças e cabras, republicanos e monarquistas, abolicionistas e negreiros, maçons e católicos, dentre outros, passam a criar periódicos e grêmios recreativos de múltiplas denominações para defesa de seus ideais. Dessa mania surge a “Arcadia Maranhense”, e de uma sua dissidência, a “Aurora Litteraria”. Para ridicularizar os membros desta última, aparece um jornaleco denominado “Aurora Boreal”:

“… só faltava fundar-se o Club dos Mortos. E justificou [Raymundo Frazão Cantanhede] tão original proposta dizendo que, se tal fizéssemos, iríamos além dos positivistas: ficaríamos mortos-vivos e assim seríamos governados por nós mesmos“. (ABRANCHES, 1941:174).

O Clube dos Mortos reunia-se no porão da casa dos Abranches, no início da Rua dos Remédios, conforme relata Dunshee de ABRANCHES (1941) em suas memórias: “E como não era assoalhado nem revestido de ladrilhos, os meus paes alli instalaram apparelhos de gymnastica e de força para exercícios physicos” (p. 187), com os membros desse clube abolicionista juntando o útil ao agradável:

“… E, não raras noites, esse grupo juvenil de improvisados athletas e plumitivos patriotas acabavam esquecendo os seus planos de conjuração e ia dansar na casa do Commandante Travassos… Apezar de só ter uma filha, agasalhava na sua hospitaleira residência uma parentella basta e jovial, em que superabundava o sexo frágil. Não faltavam pianistas, violinistas, e cantores nesse grupo variegado de moças casadeiras e gentis. Os saraus ali se succediam desde as novenas de N. S. dos Remédios á véspera de Reis. Era que, todos os annos, a família Travassos armava um presépio. Os ensaios das Pastorinhas iniciavam-se desde fins de Outubro; e, depois delles fatalmente seguiam-se dansas até á meia-noite…”. (p. 187-188).

HASSE (1985) ao tratar da “disciplina do corpo”, afirma que, atuando como verdadeiro instrumento simbólico, econômico e social, o corpo persiste na contínua afirmação de certo valor individual e coletivo num conjunto de práticas através das quais se acionam dispositivos que enunciam o seu autentico estatuto cultural numa retificação constante, integrando-se, dentro destas práticas, os gestos e comportamentos do cotidiano, conservando uma tênue reminiscência aristocrática, enquanto outros pretendem vincar a diferença em face de um poder social decadente como era o da nobreza, ou ainda, firmar certa distinção perante camponeses e operários. A vida, ao se transferir da cidade para o campo, transforma a casa no centro de toda a vida social, “ponto fulcral onde tem lugar a organização, administração e montagem de cada representação individual” (p. 18). Aí, na casa da cidade, têm lugar momentos privilegiados como as reuniões e os banquetes, os bailes e as partidas, ocasiões que alimentam formas de sociabilidade e de ostentação, situações múltiplas propícias a escolhas de futuras uniões.

No que diz respeito à ginástica, a sua importância estaria sobejamente reconhecida pelo enorme apreço que dela haviam feitos as nações mais célebres da Antigüidade. O desporto e a ginástica estabelecem a conciliação entre o contato com a natureza e a promoção de uma disciplina cada vez mais apurada e despercebida. Só a partir do século XIX se torna possível o desenvolvimento da ginástica no sentido de contribuir para o controle e o autodomínio de cada indivíduo tendo em vista o benefício coletivo (HASSE, 1985, p. 32). Através da ginástica procede-se a uma racionalização das atitudes selecionando, organizando e sistematizando novos gestos mais adequados também às representações da nova elegância.

Do encontro daquelas duas visões de mundo, aumentava a atenção sobre o corpo, sobre os gestos, atitudes e movimentos, tornando-se delicado progredir através de qualquer atividade física que ultrapassasse um limiar definido pelo bom tom:

“… Este limiar representava uma autêntica  linha limite que impedia toda a prática para além do simples passatempo, um recurso a formas agradáveis a que uma pessoa bem educada se devia dedicar no desejo legítimo e louvável de promover a perfeita conservação do corpo. Porém, jamais lhe seria permitido que tais práticas de simples passatempo se transformassem em verdadeiras ocupações.” (HASSE, 1985:27)

Ainda segunda essa autora, acompanhando a vida, os manuais de civilidade não deixam de assinalar diferentes formas de movimento e atividades diversas, úteis a uma educação correta e consideradas no quadro das recreações, como uma das coisas indispensáveis à vida, na qual ninguém pode prescindir.

Atividades físicas feminina

Em Maranhão, desde a década de 1820 tem-se informações de que também as mulheres participavam de atividades físicas, conforme relata DUNSHEE DE ABRACHES em suas memórias, quando relata os períodos em que seu tio, Frederico Magno de Abranches – o Fidalgote – e sua amada – Maricota Portinho – passavam no sítio da família. Além de darem longos passeios pelos arrabaldes da ilha, em companhia de outros jovens, os namorados costumavam praticar esportes, como a péla (forma primitiva de tênis):

“… Os dois namorados [Frederico e Maricota Portinho] tiveram assim, momentos felizes de liberdade e de alegria, fazendo longos passeios pelos bosques, em companhia de Milhama, ou passando horas inteiras a jogar a péla de que o Fidalgote era perfeito campeão …” (DUNSHE DE ABRANCHES, 1970:31).

Cabe lembrar que Antônio Francisco Gomes, em 1852, propunha além da ginástica, os exercícios de natação, esgrima, dança, jogo de malha e jogo da pella para ambos os sexos (CUNHA JÚNIOR, 1998:152)

Quanto ao ensino da educação física, desde 1844, quando foi fundado o primeiro colégio destinado exclusivamente às moças, em São Luís, as atividades físicas faziam parte do currículo:

“… não somente sobre as disciplinas escolares com também sobre o preparo  physico, artístico e moral das alumnas. Às quintas-feiras, as meninas internas participavam de refeições, como se fossem banquetes de cerimônia, para que se habituassem ‘a estar bem á mesa e saber como se deveriam  servir as pessoas de distinção’. Uma vez por semana, à noite, havia aula de dança sob a rigorosa etiqueta da época, depois de uma hora de arte, na qual ouviam bôa música e  aprendiam a declamar.” (ABRANCHES, 1941:113-114).

Esse colégio – o “Collegio das Abranches”, como era conhecido o Collégio N. S. da Glória -, fora fundado pelas tias de Dunshee de Abranches, D. Marta (Martinha) Alonso Veado Alvarez de Castro Abranches (mulher de Garcia de Abranches, o Censor), educadora espanhola nascida nas Astúrias provavelmente por volta de 1800 (JANOTTI, 1996) – e pela sua filha, D. Amância Leonor de Castro Abranches, e tinha, ainda, como professora, D. Emília Pinto Magalhães Branco, mãe dos escritores Aluízio, Artur e Américo de Azevedo. É neste colégio que Aluízio de Azevedo faz seus preparatórios para o Liceu Maranhense. Embora escola feminina, aceitava meninos para os preparatórios.

Anos mais tarde, já escritor famoso, Aluízio Azevedo, em sua obra, ao traçar o perfil da mulher maranhense, e sua condição de mulher em uma sociedade escravocrata – cujo papel reservado era apenas o de mãe -, compara a mulher da burguesia maranhense à lisboeta desocupada, denunciando o ócio em que viviam. Como igualmente denunciava “o ócio dos padres que viviam do trabalho de pessoas honestas e crédulas” (MÉRIEN, 1988:158), sendo estes, os padres, também “culpados pelo atraso da instrução pública” (p. 159).

Aluízio considerava que todo “o mal vinha do ócio e da preguiça das mulheres” (MÉRIEN, 1988:164) e apenas uma mudança na educação e na concepção do casamento poderia permitir a realização da mulher:

“Do procedimento da mulher… depende o equilíbrio social, depende o equilíbrio político, depende todo o estado patológico e todo o desenvolvimento intelectual da humanidade…

“Para extinguir essa geração danada, para purgar a humanidade dessa sífilis terrível, só há um remédio: é dar à mulher uma educação sólida e moderna, é dar à mulher essa bela educação positivista, que se baseia nas ciências naturais e tem por alvo a felicidade comum dos povos. É preciso educá-la física e moralmente, prepará-la por meios práticos e científicos para ser boa mãe e uma boa cidadã; torná-la consciente de seus deveres domésticos e sociológicos; predispor-lhe o organismo para a procriação, evitar a diásteses nervosa como fonte de mil desgraças, darem-lhe uma boa ginástica e uma alimentação conveniente à metiolidade de seus músculos, instruí-la e obrigá-la principalmente a trabalhar…. (Aluízio AZEVEDO, Crônica, “O Pensador”, São Luís, 10.12.1880, citado por MÉRIEN, 1988: 166 167).

O mesmo tema é retomado quando da publicação de “O Mulato“, criando-se enorme polêmica na imprensa, ora acusando o autor, ora vozes se levantando para defendê-lo acerca de sua posição sobre a condição feminina. Aluízio tinha consciência que parte dos leitores em potencial era constituída pelas mulheres da pequena burguesia portuguesa e maranhense da cidade e pelas filhas dos fazendeiros que encontravam na leitura uma diversão contra o tédio que pesava sobra a vida cotidiana e ociosa que tinham. No entender de MÉRIEN (1988), os discursos de Raimundo sobre a condição feminina, o papel da esposa e da mãe na educação das crianças, são dirigidos mais a elas do que a Manuel Pescada:

“O senhor tem uma filha, não é verdade ? Pois bem ! Logo que essa filha nasceu o senhor devia ter em vista prepará-la para vir a ser útil… dar-lhe exercícios, alimentação regular, excelente música, estudos práticos e principalmente bons exemplos; depois evitar que ela fosse, como é de costume aqui, perder nos bailes o seu belo sono de criança…”. (ALUIZIO AZEVEDO, O MULATO, 1881: 268-269, citado em MÉRIEN, 1988: 288-289).

Considerando o caso concreto dos bailes, HASSE (1985) afirma que a dança desempenha uma função particular, pois, ela é a forma de entretenimento adequada a tornar mais elegantes e agradáveis os gestos, soltando vigores em excessos. Entre as diferentes qualidades do entretenimento umas, como aquelas que promovem os exercícios do corpo contribuem para a conservação da saúde outras, tendo por principal objeto a utilidade, prestam-se a tornar os jovens mais  agradáveis como é o caso da dança e da música:

“… A dança seria a arte de mover o corpo, os braços e os pés com elegância, ao som da música. Representava uma prenda necessária a quem tem de viver no mundo e um exercício verdadeiramente proveitoso. O seu ensino devia ser indicado desde cedo para poder fornecer desembaraço ao corpo e chegar a dançar com graça e a tempo.” (p. 19).

Os bailes e o teatro representavam formas clássicas de entretenimento distinto. Integravam-se, por isso, com enorme facilidade nos costumes da austera burguesia pela familiaridade existente com estas formas de entretenimento.

Para HASSE (1985), a dança recebia o acordo dos mais renitentes:

… que finalizam por considerá-la indispensável a uma pessoa de certo estatuto social. Por outro lado, os bailes que se organizavam e onde a dança surgia como principal motivo de interesse constituía excelentes meios de demonstrações quase inesgotáveis de poder uma vez que implicavam imperativos de vulto para uma encenação de grandeza insuperável favorecedora de certa rivalidade”. (p. 19).

Para essa autora, tal circunstância não impedia, porém, que não se desejasse criar em torno elas uma atribuição clara de utilidade que justificasse plenamente o tempo perdido de forma ligeira, preocupação, aliás, constante em múltiplos aspectos da vida do século XIX. A moralidade vigente, “rigorosa e hipócrita”, impedia que fosse de outro modo, sossegando-se consciências inquietas relativamente às atividades, cada vez mais generalizadas, que escapavam nitidamente ao foro do trabalho. Na verdade, o baile e a freqüência dos salões bem como o teatro, seriam sempre obrigações sociais desgastantes a que a civilidade e a vida no mundo obrigavam, um costume de fato integrado nos níveis sociais mais prestigiados.

Dois amigos de Aluízio Azevedo, Paulo Freire e Luís de Medeiros, fazem publicar cartas sob pseudônimo – Antonieta (carta a Julia, “Diário do Maranhão“, São Luís, 6.6.1881) e Júlia (carta a Antonieta, “Pacotilha“, São Luís, 9.6.1881), respectivamente – falando “de suas impressões e do impacto que o livro “O Mulato”,  lhes causara” sobre a condição de vida de Ana Rosa, que lembrava a vida que as mocinhas maranhenses levavam. Julia/Luís de Medeiros faz longas considerações sobre a condição da mulher maranhense, “lastimando-se da educação retrógrada que recebera em sua família e no colégio”, onde fora do português, não se ensinava mais nada às moças além de algumas noções de francês, de canto, de piano e de bordado. Para ela, “a falta de exercícios físicos é a origem das perturbações do sistema nervoso que atingem a maioria das moças maranhenses” ((MÉRIEN, 1988:290-2911).

 

Conclusão

No período compreendido entre a “adesão” do Maranhão ao Império brasileiro – 1823 – e a proclamação da República – 1889 -, São Luís viveu um período áureo de produção cultural, que se estendeu até meados do século, fruto do desenvolvimento econômico, seguido de um período de decadência, provocada pela perda gradual do trabalho escravo, consolidado com a abolição da escravatura.

Denominada de “Atenas brasileira”, as recreações aqui praticadas se identificam com aquelas que se aproximam da noção de lazer expressa na origem grega, da “scholé”, em que a aristocracia ocupava seu tempo com atividades de contemplação teórica, especulação filosófica e ócio (JIMENEZ GUZMAN, 1986), típica das sociedades escravocratas. No segundo período, iniciado por volta da década de 1860, aproxima-se, a ocupação do tempo, com atividades que podem ser identificadas como características do “otium” romano, transformando-se num fenômeno elitista, ostentatório, já desprovido de sentido filosófico – conforme denuncia Aluízio Azevedo em sua obra, e observado na descrição da sociedade ludovicence, notadamente em LISBOA (s.d.; 1991) e DUNSHEE DE ABRANCHES (1941; 1993).

Os ludovicences, como hoje, dedicavam-se aos passeios e aos piqueniques pelos arrabaldes da Ilha. E, como hoje, mantinham uma produção cultural intensa, dedicando-se ao teatro, à poesia, ao romance, à crítica dos costumes e, sobretudo, bisbilhotando a vida alheia, conforme está registrado nos inúmeros jornais – políticos e literários -, folhetos, revistas, “bandos”, coletâneas de poesias e peças teatrais publicadas (CORRÊA, 1993; MÉRIAN, 1988), justificando o título de “Atenas brasileira”.

Em Maranhão, desde a década de 20 a mulher participa de atividades físicas, pois como descreve DUNSHEE DE ABRACHES em suas memórias sobre seu tio Frederico Magno, o Fidalgote e sua amada, Maricota Portinho, costumavam, além de dar longos passeios pelos arrabaldes da ilha, em companhia de outros jovens,  jogar a péla – forma primitiva de tênis – durante a estadia de suas famílias no sítio do Censor, como era conhecido Garcia de Abranches. Isso, em 1827.

Quanto ao ensino da Educação Física, desde 1844, quando foi fundado o primeiro colégio destinado exclusivamente às moças, em São Luís, a atividade física fazia parte do currículo. Quem teria sido a professora? As tias de Dunshee de Abranches, D. Martinha? Ou sua filha, D. Amância? Ou teria sido D. Emília Branco, mãe dos escritores Aluízio, Artur e Américo de Azevedo?  Então seria uma delas – ou as três – a(s) primeira(s) professora(s) de educação física no Maranhão (Brasil)?

Bibliografia

ABRANCHES, João Antônio Garcia de. O CENSOR MARANHENSE 1825-1830. (Edição fac-similar). São Luís: SIOGE, 1980. (Periódico redigido em São Luís de 1825 a 1830, por João Antônio Garcia de Abranches, cognominado “O Censor”; reedição promovida por iniciativa de Jomar Moraes).

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CORRÊA, Rossini. FORMAÇÃO SOCIAL DO MARANHÃO: O PRESENTE DE      UMA ARQUEOLOGIA. São Luís: SIOGE, 1993.

CUNHA JÚNIOR, Carlos Fernando Ferreira da. A produção teórica brasileira sobre educação physica/gymnastica no século XIX: questões de gênero. In      CONGRESSO BRASLEIRO DE HISTÓRIA DO ESPORTE, LAZER E       EDUCAÇÃO FÍSCA, VI, Rio de Janeiro, dezembro de 1998. COLETÂNEA…       Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 1998, p. 146-152.

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DUNSHEE DE ABRANCHES MOURA, João. A SETEMBRADA – A      REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1831 EM MARANHÃO – romance histórico.     Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 1970.

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HASSE, Manuela. A disciplina do corpo. LUDENS, Lisboa, vol. 10, n. 1, dez./out., 1985, p. 18-38.

JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. Três mulheres da elite maranhense. In      REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA, São Paulo, v. 16, n. 31 e 32, 1996, p.       225-248.

JIMENEZ GUZMAN, Luís Fernando. TEORIA TURÍSTICA. Bogotá: Universidade     Autônoma de Colômbia, 1986.

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[1] Trabalho aprersentado no VII CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA, ESPORTE, LAZER E DANÇA, Gramado/RS, 29 de maio a 1 de junho de 2000. ANAIS… p. 250-255

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