Ambientes e Fatores Estimuladores – da Educação Física Escolar Ao Alto Rendimento

Por: Viviane Aguilar da Silva.

XI EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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OBJETIVO GERAL

Verificar as relações entre os ambientes, fatores estimuladores e a Educação Física escolar na formação do atleta de alto rendimento no futsal masculino.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

- Verificar as influências do desenvolvimento das habilidades psicomotoras infantis, em situações ambientais naturais e fatores estimuladores na evolução e desenvolvimento desses atletas na modalidade futsal masculino.

- Analisar a etapa de formação psicomotora de base na escola e suas influências na formação dos atletas de alto rendimento do futsal masculino.

INTRODUÇÃO

O meio externo de convívio e aprendizagem é o fator mais importante na formação do indivíduo como um todo e o maior desses fatores influenciadores sem dúvidas é a família e o meio ambiente a qual esse indivíduo foi submetido na fase de desenvolvimento de suas habilidades psicomotoras

Segundo Santos (2001) Para um desenvolvimento pleno das funções psicomotoras são necessários estímulos externos, representados por atividades corporais que serão desenvolvidas de acordo com as disponibilidades do meio a qual essas crianças estão submetidas. Não se pode escamotear o papel dos ecossistemas no processo de maturação psicomotora (FONSECA, 2004).

Dentro desta vertente seguem dúvidas sobre quais aspectos são responsáveis para a formação de atletas de auto-rendimento. Segundo Fonseca (2004) se a mente não estiver em sua máxima expressão funcional, o corpo, os músculos e seus fatores de execução motora não são suficientes para obter êxitos. A aprendizagem compreende em síntese, uma modificação comportamental estrutural provocada por experiências e vivências (FONSECA, 2004). Nessa interação entre o homem e o meio externo trazemos questões sobre que tipo de moradia o atleta de hoje teve na sua infância a ponto de estimulá-lo a prática de atividades físicas e a desenvolver sua psicomotricidade?

Quando a criança é estimulada de forma ampla, por meio da exploração do meio ambiente, tem maiores chances de praticar suas habilidades psicomotoras e, conseqüentemente, de dominá-las com facilidade podendo ingressar em algum tipo de esporte utilizando-se dessas habilidades em estado harmônico (CAMPOS, 2004).

Tendo em vista os questionamentos sobre os ambientes e fatores estimuladores a formação psicomotora de base para a formação esportiva de um atleta, foi realizada a pesquisa com atletas de futsal masculino, para a apuração de respostas do âmbito ambiental e sócio-econômico que puderam ser influenciadoras em seus desenvolvimentos psicomotores de base.

FORMAÇÃO PSICOMOTORA

Segundo Lúria (1991), tudo que percebemos no mundo é de maneira estruturada com um padrão de estímulos onde reagimos e nos adaptamos a essas estimulações externas. Para essa adaptação ao mundo externo é necessário que o indivíduo perceba as diversas situações de maneira mais clara e diferenciada possível.

Wallon, citado por Fonseca (1987) salienta que a evolução da criança é processada numa dialética de desenvolvimento, onde estão envolvidos fatores metabólicos, psicomotores, psicossociais, entre outros e Fonseca (1987) cita que a partir dos 12 meses (estágio sensório motor) as relações da criança com seu envolvimento com o mundo aumentam e a correlação entre as experiências motoras e as sensoriais se tornam mais evidentes. É a passagem do biológico ao psicológico e assim começa a fazer sentido a psicomotricidade.

Diretamente relacionado ao desenvolvimento psicomotor está o movimento, que surge como a materialização corporal da conduta total e mental de cada indivíduo, ao integrar e ordenar o campo operacional onde se desenrola a ação para se obter um resultado - do ato ao pensamento. (Fonseca, 1987).

A partir do ato ao pensamento, a criança se liberta das sensações e percepções e é partindo do ato que o homem estrutura seu pensamento se transformando num ser social e integrado. Através do movimento da criança pode-se justificar e fundamentar todos os aspectos de suas ações. Segundo Piaget, citado por Fonseca (1987) a inteligência humana se justifica na adaptação do homem ao mundo exterior em dois sentidos: assimilação - vai do mundo exterior a criança e acomodação - vai da criança para o mundo exterior. A inteligência é o resultado da experiências do indivíduo com o meio, onde ele se incorpora a esse mundo e o vai transformando.

A adaptação ao mundo exterior implica numa relação dialética e permanente entre a assimilação e acomodação, passando de uma fase para outra. A resultante dialética das experiências motoras, integradas e interiorizadas é a inteligência. É a busca do equilíbrio progressivo por meio de adaptação existente entre a criança e o mundo externo. Segundo Le Boulch (1969) a psicomotricidade se dá através de ações educativas de movimentos espontâneos e atitudes corporais da criança, proporcionando lhe uma imagem corporal, contribuindo para formação de sua personalidade.

A integração criança - mundo exterior é o principal componente do desenvolvimento, dos elementos psicomotores. De acordo com a ontogênese psicomotora, o desenvolvimento da criança resulta da sua relação social com o adulto e o desenvolvimento da consciência se constitui pela ação e conduta. (Fonseca, 2004).

ALTO RENDIMENTO E PSICOMOTRICIDADE

Na busca do alto rendimento, varias questões e reflexões sobre aprendizagem psicomotora e sua formação de base do indivíduo são levantadas e segundo Fonseca (2004) temos em principal papel na formação de base os vários ecossistemas envolvidos na maturação neuropsicomotora.

Segundo Fonseca (2004) o alto rendimento se apoia na formação psicomotora de base, construindo uma pirâmide evolutiva. O treino se caracteriza como uma hiperaprendizagem e seu conteúdo exige adaptabilidade permanente. As harmonias cinestésicas, os encadeamentos motores e as sinergias adaptativas inerentes ao comportamento motor, que caracteriza o alto rendimento, requer a construção de engramas motores ao longo de um processo de aprendizagem.

No esporte a aprendizagem psicomotora consiste não só em aprender, mas em reaprender sinergias desenvolvidas nos processos de base, cedidas por experiências com o meio externo.

METODOLOGIA

Para diagnosticar tanto fatores ambientais quanto sócio-econômicos referentes ao desenvolvimento desses atletas foi utilizado questionário como instrumento da pesquisa. Os dados da pesquisa descritiva foram feitos através de cálculo de freqüências relativas e médias.O questionário é composto de perguntas referentes à condição sócio-econômica da família, como tipo de residência, área livre disponível para possível prática de atividades físicas no período da infância e adolescência.

RESULTADOS

Partiremos inicialmente pela a análise de dados referentes ao tipo de moradia, domicílio a qual residiram esses atletas, tanto na fase da infância quanto na adolescência e os espaços físicos disponíveis nesses domicílios que pudessem favorecer construção de habilidades psicomotoras ao desenvolvimento e aperfeiçoamento psicomotor.

Dos atletas residentes no estado do RS observamos que 83,3% moravam em casas com quintal na faixa etária de 0 a 12 anos de idade. Os atletas de MG também constituem um grande número de 72,5% com este mesmo tipo de moradia.

Demonstrando um contrário interessante da atualidade onde há um crescimento progressivo de moradias verticais (UEDA, 2005), não houve respostas positivas sobre essas moradias em ambas as equipes. Houve uma pequena porcentagem de atletas que indicaram morar em sobrado com quintal e casas sem quintal na faixa etária correspondente.

Das moradias apontadas anteriormente 91,6% da equipe do RS e 72,7 de MG possuíam espaços físicos para brincadeiras ou prática de algum esporte. Isso demonstra com clareza uma facilidade para as experiências psicomotoras gerado pelas possibilidades cedidas pelo espaço físico favorável nas duas equipes. Pequenas mudanças referentes a moradia começam a surgir após os 12 anos de idade em ambas as equipes, com prevalência ainda de casas com quintal. Na equipe do RS houve uma queda de 33,3% na opção casa com quintal e em MG uma queda de 8,9%.

Comparando os espaços físicos disponíveis na fase do 0 a 12 anos e os espaços disponíveis à partir dessa idade, percebemos uma diminuição desses espaços nos domicílios de 25% para os atletas do RS e de 18,2% para MG. Mesmo com essa queda a maioria dos atletas obteve de espaços físicos disponíveis em casa para a prática de atividades físicas e brincadeiras.

Verificaremos a seguir a questão sócio-econômica a qual foram submetidos nossos atletas de futsal no seu período de infância a na atualidade: os dados mostram que 50% dos atletas do RS e 36,6% dos atletas de MG possuem mães que completaram apenas o ensino fundamental. Apenas 17% no total das mães de atletas das duas equipes possuíam ensino superior completo.

Tomando como referência os pais, podemos notar que 83,3% dos pais de atletas do RS tem apenas o ensino fundamental, 36,6% dos pais da equipe de MG concluíram o ensino fundamental e 36,6% da mesma equipe concluíram o ensino médio. No total de pais encontramos apenas 8,9% tem formação acadêmica.

Quando nos voltamos a questões econômico-financeiras verificamos que a grande maioria de nossos atletas de futsal vem de classes econômicas mais baixas. A renda familiar média de 70% dos atletas do RS se encontrava em torno de 1 a 3 salários mínimos nos seus períodos de infância. Em MG encontramos 45% com a mesma faixa salarial.

Analisado a faixa salarial familiar desses atletas de futsal na atualidade, constatamos que em 50% dos atletas do RS sua condição financeira permanece entre 3 a 6 salários mínimos com 41,6% com uma média de 4 a 6 salários. Observamos em MG que 45,4% estão na faixa de 4 a 6 salários mínimos de renda familiar atual e apenas 18% na me.dia de 1 a 3 salários mínimos. Não foi encontrado nenhum atleta cuja media salarial ultrapassasse 10 salários mínimos mensais.

Para a maioria da amostra, 75% (RS) e 72,7% (MG), as aulas de Educação Física no 1º Segmento do Ensino Fundamental apresentavam uma metodologia de "aula livre" seguindo o mesmo perfil no 2º Segmento. No Ensino Médio, o tipo de conteúdo se mostrou alterado apresentando 58,3% (RS) "mais esportivo" e 45,5% (MG) "aula livre".

Os dados ainda apontam que 66,7% dos atletas do RS e 45,5% de MG iniciaram a participação em aulas de Educação Física na faixa de 7 aos 10 anos de idade e 25% (RS) e 45,5% (MG), entre 11 e 16 anos de idade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar do grande número de habitações verticais existentes na atualidade, observamos que nossos atletas foram em sua grande maioria criados dentro de espaços físicos bem favoráveis a prática esportiva e desenvolvimento psicomotor. As mudanças de espaços residentes acontecem após os 12 anos de idade na maioria dos jogadores de ambas as equipes, mas não de forma significativa. Permanecem assim os locais para brincadeiras, jogos e experimentação corporal que são indispensáveis para um desenvolvimento adequado e saudável.

Foram encontradas semelhanças no que se refere aos fatores sócio-econômicos, todos foram criados em famílias de baixa renda e com pais e mães em sua maioria com níveis médios de instrução escolar e com uma prevalência de 1 a 3 salários mínimos de renda mensal no período da infância. Mesmo na atualidade a realidade econômica dos atletas não tem grandes mudanças salariais.

Esses mesmos atletas têm, apesar de residirem em posições geográficas distintas, semelhanças também de moradia e estímulos para pratica de atividades, até possivelmente da pratica do esporte que atuam hoje em dia, já que o maior número residiu em casas com quintal ou outro tipo de espaço físico por quase toda fase de crescimento, com pequenas mudanças após os 12 anos de idade.

Todos esses fatores encontrados se mostram propícios ao desenvolvimento psicomotor pela riqueza de possibilidades, decorrentes dos espaços externos aos quais os atletas foram submetidos na infância e adolescência. Percebemos que mesmo com baixas condições sócio-econômicas e uma iniciação tardia nas atividades em aulas de Educação Física, esse atletas tiveram oportunidade de obter uma gama de estímulos psicomotores através de brincadeiras, descobertas e movimentos espontâneos dentro de suas próprias residências; experiências essas imprescindíveis para a formação de bases para prática do futsal.

Obs. Os autores a acadêmica Viviane Aguilar da Silva (aguilar_viviane@yahoo.com.br) e o professor Ricardo Carlos Santos Alves (psicomotricialves@globo.com) que tambmém orientou o trabalho são da Universidade Castelo Branco

REFERÊNCIAS

  •  Alves, Ricardo C. S. A importância da organização psicomotora de base na formação do sujeito. Anais do VIII EnFEFE - UFF - RJ, Anais do VIII EnFEFE, v. 1, n. 1, p. 59-61, 2004.
  • _______, Ricardo C. S., FERNANDES FILHO, José - Esporte de Alto rendimento e bases psicomotoras, Fórum Internacional de Educação Física .(FIEP), Foz do Iguaçu, 2007.
  • _______, Ricardo C. S., FERNANDES FILHO, José - Base esportiva escolar para o esporte de alto rendimento, Fórum Internacional de Educação Física.(FIEP), Foz do Iguaçu, 2007.
  • LE BOULCH, J. La educacion por el movimiento. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1969
  • LURIA, A.R. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Icone, 1991.
  • FONSECA, Vitor da. Escola, escola, quem és tu? Porto Alegre: Artes Médicas,1987.
  • _________ . Manual de observação psicomotora. Porto Alegre: Artes Medicas, 1995.
  • _________. Psicomotricidade - Perspectivas multidiscliplinares. Artmed. São Paulo, 2004.
  • CAMPOS, Wagner de.Relação entre fatores ambientais e habilidades motoras básicas em criança 6 e 7 anos. Revista Makenzie, 2004. Disponível em: http://www.mackenzie.com.br/editoramackenzie/revistas/edfisica/edfis3n3/art11_edfis33.pdf Acessado em 29 de agosto de 2007.
  • NETO, Antonio Stabelini. Relação Entre Fatores Ambientais e Habilidades Motoras Básicas Em Crianças de 6 a 7 Anos. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte - 2004, 3(3):135-140.
  • PIMENTA, A.P.A. Amaral.Perfil epidemiológico da obesidade em crianças: relação entre televisão, atividade física e obesidade. Brasilia: Revista Brasileira de Ciência e Movimento, 2001. Disponível em: http://www.ucb.br/mestradoef/rbcm/9/9%20-%204/completo/c_9_4_3.pdf. Acessado em 29 de agosto de 2007.
  • SANTOS, Rosangela Pires dos. Psicomotricidade. I Editora, São Paulo: 2001.
  • UEDA, Vanda. Caracterizando os Novos Empreendomentos Imobiliarios e as Transformações no Espaço Urbano de Porto Alegre/Brasil. Scripta Nova - Revista Eletronica de Ciencias Sociais, Universidade de Barcelona. Disponível em: http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-194-12.htm. acessado em 28 de agosto de 2007.

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