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O presente trabalho é fruto de um grupo de pesquisa que se dedica a desvendar os caminhos, as práticas da Educação Física Escolar enquanto disciplina constituída dos projetos pedagógicos das escolas brasileiras. Todos os profissionais que se dedicaram a este trabalho estão envolvidos com os estudos teóricos e práticos sobre esse componente curricular e atuam diretamente e indiretamente nas escolas.

Entendemos que os Parâmetros Curriculares Nacionais são as principais referências para a Educação Física Escolar brasileira, apesar de considerar que muitos estudiosos e professores atuantes contestem alguns pontos vinculados em tais Parâmetros. Contudo, acreditamos que existe grande possibilidade de tais Parâmetros conterem elementos que expressam bem a cultura de movimento do povo brasileiro. Pensando assim, este estudo inicia-se a partir das propostas ali estabelecidas, procurando sempre suprir as deficiências que nesses Parâmetros possam existir.

O trabalho foi desenvolvido em cinco capítulos. O primeiro estabelece um panorama da preparação e atuação profissional em educação física escolar brasileira e suas implicações no contexto atual.

O segundo apresenta fundamentos e princípios constitucionais brasileiros que balizam a concepção de ser humano, de cidadania, de sociedade e de seus objetivos como nação, em especial no que tange a educação, a cultura e a família. Essa apresentação se faz importante para uma crítica ao distanciamento encontrado nos discursos da área frente aos princípios básicos constitucionais, refletindo sobre suas dissonâncias e contradições conceituais que podem, nos aspectos da ação educativa, garantir ou privar o acesso a direitos rumo a plena formação de um ser humano capaz de liderar sua própria história. O resultado dessas reflexões legitima os ideais de formação humana do primeiro capítulo e, sobretudo, permeia, dá sustentabilidade e conduz os próximos capítulos, em que a Educação Física Escolar é apresentada como uma disciplina que possui uma coluna vertebral em toda a extensão do Ensino Básico (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio) com um corpo estruturado de conhecimentos que facilitem a atuação profissional.

Esta forma organizada da Educação Física Escolar tem como referencial teórico filosófico os princípios de Formação Humana entendida como o processo de aquisição de normas, regras e regulamentos que servem de base para viver dentro de um grupo social e os princípios de Capacitação entendidos como o processo de apropriação dos conhecimentos que se acreditam úteis para viver dentro dessa organização social, oferecidos por Maturana e De Rezepka (1995) e pelos princípios da Biologia da Cognição de Maturana (1995).

Chaparim (2003) indica que os estudos de ordem biológica na área da Educação Física, permeados pelo paradigma de orientação controle/energia estão relacionados aos estudos morfológicos e fisiológicos do corpo humano em seus aspectos celular, muscular, respiratórios, energéticos entre outros, tendo como objetivo principal o desenvolvimento das capacidades físicas humanas.

Contudo, a Biologia da Cognição e sua conseqüente Biologia do Amor vêm vincular-se na abordagem sociocultural da Educação Físicas, que de acordo com Pérez Gallardo et al. (1997, p.1), se caracteriza pela “observação do homem como ser integrado no meio físico e social, sendo constantemente modificado por ele e ao mesmo tempo servindo como agente modificador de seu meio”.

Além dos elementos já indicados a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), nessa abordagem sugerida pretendemos facilitar o reconhecimento e a aprendizagem das manifestações da cultura corporal que fazem parte de cada grupo social, ou seja, a Educação Patrimonial. Assim, ao escolhermos os conteúdos da aula, tendo em vista os objetivos propostos, priorizamos aquelas manifestações da cultura corporal advinda e relacionadas com as bagagens culturais dos educandos, iniciando-se a partir deste conhecimento e ampliando em direção a outras manifestações culturais. As experiências vividas pelos educandos e por suas famílias, por possuírem uma carga afetiva, influenciam a importância por eles atribuída aos conhecimentos e às manifestações da cultura corporal. Assim, as capacidades e habilidades que visamos desenvolver estimularão o aprendizado se forem contextualizadas por eles, e se tiverem relação com as suas experiências e com a sua cultura.

Por exemplo, se desejamos que nossos educandos aprendam um determinado tema, realizamos uma sondagem junto a eles para identificar o conhecimento e as experiências que já possuem a respeito. A partir daí, elaboramos estratégias de ensino que, utilizando os conhecimentos identificados, possibilitem que aprendam outros, ampliando dessa forma sua cultura de maneira prazerosa e agradável. Para melhor contextualizar a sondagem, podemos pedir-lhes que pesquisem junto aos seus pais, avós e parentes o conhecimento que possuem.

No âmbito da Educação Física, a Biologia do Amor implica focalizar o processo educativo junto aos educandos, nos valores humanos de convivência social desejável, tendo como meio para que este processo ocorra, a aquisição e desenvolvimento de habilidades motoras da cultura patrimonial, para que sejam capazes de realizar aquilo que desejarem.

No terceiro capítulo focalizamos a Educação Física Escolar na Educação Infantil, a partir do “berçário” até o “jardim”, que representa o período pré-escolar. A proposta é facilitar à criança a apropriação da cultura patrimonial do grupo familiar, ao qual ela pertence, num ambiente matrístico (meio ambiente socioafetivo de respeito e de acolhimento da criança como ser humano), de forma assistemática em todas as atividades presentes na pré-escola. A apropriação e a socialização das manifestações culturais que compõe a cultura patrimonial dentro do ambiente de educação formal é ratificada pela importância de se valorizar as culturas sem estabelecer avaliações comparativas, dado que não existe cultura melhor ou pior, mas sim culturas diferentes.

A cultura patrimonial do grupo familiar é constituída pelos jogos e brincadeiras, aprendidos espontaneamente em processos de convivência intergeracional, que fizeram parte do repertório das culturas infantis transmitidas de geração a geração. A proposta de trabalho escolhida é assistemática, porque a idéia é manter as características de aprendizagem natural e espontânea da criança dentro de um meio ambiente de interação familiar estendido, semelhante à agrupação ancestral.

O quarto capítulo trata do Ensino Fundamental e tem como propósito oferecer aos alunos todos os conhecimentos da cultura corporal da área da Educação Física, à qual eles têm direito, partindo da educação patrimonial do grupo familiar e da sua localidade até as experiências universais.

No último capítulo, que trata da Educação Física Escolar no Ensino Médio, a proposta está orientada para capacitar o aluno a exercer sua cidadania, trabalhando a autonomia e oferecendo-lhe os conhecimentos necessários para atuar em sua comunidade como um Líder Comunitário ou Agente Cultural.

Evidentemente, não pretendemos com este trabalho esgotar as reflexões e ações da Educação Física Escolar, mas propiciar ao leitor uma projeção de um novo olhar sobre o tema.

Referências Bibliográficas

CHAPARIM, Fernanda Célia Alcântara Silva. Desvelando os Significados da Vivência da Ginástica Geral para Adolescentes de uma Instituição Salesiana de Proteção à Criança e ao Adolescente. Dissertação de Mestrado, Campinas: FEF-UNICAMP, 2003.

MATURANA, H. e De REZEPKA, A.N. Formación Humana y Capacitación. Santiago de Chile: Dolmen Ediciones, 1995.

MATURANA, Humberto. El sentido de lo humano. Santiago de Chile: Dolmen Ediciones, 1995.

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