Artes Marciais e Escola Pública: Estabelecendo Relações Democráticas de Gênero

Por: Antônio Carlos Vaz.

VII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Atualmente, muitos professores de artes marciais estão buscando uma formação acadêmica em educação física, o que deverá gerar um processo, em médio prazo, de incorporação das artes marciais aos conteúdos da educação física também na escola pública, visto já serem difundidas nas escolas particulares.

Entretanto, nas escolas privadas, os professores de lutas como capoeira, taekwondo, judô, karatê, para ficar nas mais populares, ao serem contratados, geralmente o são para lecionarem apenas lutas, ou seja, são professores específicos das artes marciais, enquanto que para as aulas de educação física são outros os professores, que poderíamos chamá-los de generalistas ou, ainda, de especialistas nas diversas modalidades esportivas. O mesmo ocorre quando as escolas oferecem modalidades da cultura corporal identificadas com o gênero feminino, como o balé, o jazz e danças em geral.

Em uma breve pesquisa junto a 12 professores de taekwondo, ligados à Federação Paulista de taekwondo, que lecionam em escolas privadas, todos declararam serem professores específico da modalidade e, ainda, destacaram o fato de que o valor recebido por hora/aula como professor de taekwondo é maior do que o valor pago aos professores de educação física.

Na medida em que, por pressão dos Conselhos Federal (CONFEF) e Regional de Educação Física (CREF) às entidades federativas das diferentes artes marciais, face à regulamentação da profissão de educador físico ocorrida em setembro de 1998 - e dado que na maioria das cidades do Estado de São Paulo, estas entidades ainda não tenham conseguido por intermédio da justiça, a não sujeição de seu trabalho ao sistema CONFEF-CREF - os mestres, professores e pretendentes a essa graduação, destas diferentes artes marciais vêem buscando formação acadêmica em Educação Física, e, com isso, começam a perceber que seu campo de atuação pode ser ampliado, para além da academia, estendendo-o para a rede escolar pública. E parece óbvio, que ao ingressarem nas escolas públicas, inevitavelmente, incluirão a luta como conteúdo em seus planos de ensino, contribuindo, assim, ao processo de popularização da cultura de lutas.

A questão que se coloca neste artigo é sobre o impacto da introdução da luta como conteúdo nas aulas de educação física nas relações sociais de gênero.

O taekwondo e as relações de gênero

Em pesquisa realizada no site utilizado pela Federação Paulista de Taekwondo (www.taekwondosp.com.br), a fim de levantarmos o que pensam acerca da relação do taekwondo com as duas matrizes de gênero, masculina e feminina, colocamos a seguinte pergunta: "O taekwondo é um esporte mais masculino do que feminino?". O resultado no dia 08/05/2003 de um total de 254 votos era de 51% dizendo que "Não", o taekwondo não é um esporte mais masculino que feminino e 49% dizendo que "Sim", o taekwondo é um esporte mais masculino; entretanto, no dia 16/05/2003 houve uma inversão nas posições, com 51,3% dizendo que "Sim" e de 48,7% dizendo que "Não", num total de 267 votos; e, finalmente, no dia 04/06/2003 num total de 328 votos, o primeiro resultado voltou a se repetir, ou seja, 51% dizendo que não e 49% dizendo que sim. Nota-se que as opiniões estão bem equilibradas, porém vale ressaltar que a maioria das pessoas que acessam o site, são praticantes de taekwondo e, portanto, a visão que tem sobre o assunto é de quem já conhece a modalidade.

O problema principal desta enquete, em função da falta de recursos técnicos do site, foi não podermos solicitar a identificação de sexo do informante, o que impossibilitou um exame mais rigoroso dos referidos dados. Portanto, não foi possível identificar a constituição dos votos que entendem que a luta em tela é um fenômeno social masculino, não sabemos até que ponto as próprias mulheres concordam com esta afirmação, ou o contrário, quantos homens acham que esta arte marcial não é mais masculina do que feminina.

Colada à enquete descrita anteriormente, abrimos espaço para a manifestação daqueles que desejassem se expressar acerca do tema.

Por meio destas manifestações conseguimos reverter, ao menos parcialmente, o prejuízo acima descrito, vejamos algumas mensagens:

"Os meninos são mais fortes, mas as meninas são mais inteligentes", "as mulheres tem mais flexibilidade e memória, é só querer que damos uma surra nos homens", é interessante notarmos o enfrentamento que é colocado por esta atleta, ela expressa a sua indignação mostrando que é possível "enfrentar" os homens, mas ela só consegue ver esta luta a partir do próprio campo estabelecido pelo homem. Dentre as opiniões, algumas pessoas alegam que o esporte é tanto para o homem quanto para mulher, outros expressaram que o esporte é masculino, mas as meninas também podem praticar. Mesmo os que acham que o esporte não é masculino, destacam as diferenças entre homens e mulheres.

O fato de metade dos participantes de taekwondo, que acessaram o site e responderam nossa enquete, entenderem como uma atividade masculina, já suficiente para alertar-nos sobre o papel a ser desempenhado pelos professores e professoras de Educação Física que tratam da cultura de lutas em seus planos de ensino.

Lutas, escolas e gênero

Um grande desafio para os professores de Educação Física, no que diz respeito ao ensino das artes marciais, será quanto ao desenvolvimento de relações democráticas de gênero. Parece-nos evidente que as artes marciais sempre foram vistas como uma atividade masculinizada e masculinizadora. Ou seja, foram historicamente constituídas por homens e para homens, o que significa dizer que, em grande medida, as artes marciais serviram, e ainda servem, como instrumento ideológico ao ser homem. O mesmo raciocínio pode ser aplicado quanto às manifestações da cultura corporal identificadas com fazer-se mulher.

Uma face deste projeto, que estamos chamando de ser homem, e, por necessidade ontológica, o ser mulher, pode ser facilmente constatado, ainda hoje, na maioria das escolas de educação infantil. Em geral, essas escolas oferecem a seus alunos, dependendo do sexo, distintas modalidades da cultura corporal: balé, jazz ou dança moderna para as meninas e lutas para os meninos. Isso pode significar que as lutas, assim como as diferentes manifestações rítmicas e expressivas, estão a serviço de uma formação sexista. Como também constatou Elaine Romero (1994) em sua pesquisa.

"Em torno da menina, quando nasce, paira toda uma névoa de delicadeza e cuidados. Basta observar as formas diferenciais de se carregar meninos e meninas, e as maneiras de os pais vestirem uns e outros. As meninas ganham de presente, ao invés de bola, bonecas e utensílios de casa em miniatura. Além disso, são estimuladas o tempo todo a agir com delicadeza e bons modos, a não se sujarem e não suarem"(DAÓLIO, 1997, p.83).

Este quadro cria, de certo modo, um problema futuro, e muitas vezes contemporâneo, para meninas-mulheres e meninos-homens que recebem, desde os primeiros anos de vida escolar, portanto, ainda em fase inicial de construção de identidades sociais, fortes influências dos tradicionais papéis sociais esperados pela sociedade tanto para homens como para mulheres.

Sobre o menino recai a expectativa de segurança, de altivez, de atuação criativa, corajosa. Ele é estimulado a brincar na rua e lá se defronta com situações de confronto com outros meninos e, assim, vai aprendendo a ser homem (DAOLIO, 1997).

"Os homens são ensinados a competir permanentemente: por um emprego, por um salário melhor, pela promoção na carreira, até pelas atenções de uma mulher. A competição constitui, pois, o traço fundamental da personalidade masculina destinada a desempenhar o papel do macho. Não se pode esquecer a agressividade como componente básico da personalidade competitiva.

Ademais, a agressividade também integra, necessariamente, o modelo do macho. Dito de outra maneira, cabe a ele tomar iniciativas, assumir sempre uma posição ofensiva. Cabe-lhe, ainda, ser intransigente, duro, firme" (SAFFIOTI, 1987, p. 36).

Diante destas considerações não é difícil perceber o papel que as artes marciais podem desempenhar no processo do ser homem, e aí, atentarmo-nos para o fato de, ao incluirmos as artes marciais no currículo da educação física, considerarmos a participação feminina e a masculina em igualdade de condições. O que significa dizer que as artes marciais não precisam ser masculinas e, muito menos, masculinizadoras.

Considerações finais

Assim como para a prática do futebol, nas artes marciais as meninas praticantes podem vivenciar dois tipos de preconceitos: o primeiro é ser identificado como masculinizada, como homossexual; a segunda é por ter que se submeter a uma manifestação da cultura corporal ligada essencialmente a uma das matrizes de gênero, no caso, a masculina, que acaba por reforçar a primeira, criando-se, assim, um círculo vicioso, que se auto-alimenta continuamente. A menos que se interfira ativamente neste processo a fim de alterá-lo (VAZ, 2003).

Este quadro é perceptível não apenas no futebol e nas artes marciais, mas em tantas outras manifestações da cultura corporal que atualmente estão sendo tomadas pelas mulheres. Entretanto, será que elas se propõem a praticar tal como ele é percebido pelos homens? Será que elas se sentem invasoras de um espaço masculinizado? Ou será que procuram transformar essa cultura, adaptando-a às suas características de gênero, de classe, de etnia etc?

Para que os hábitos corporais masculinos e femininos, ao longo do tempo, não tornem um sexo mais hábil do que outro em termos motores é preciso que ambos tenham as mesmas possibilidades culturais. É necessário, portanto, que as diferentes manifestações da cultura corporal esteja a serviço do desenvolvimento integral, e não parcial de homens e mulheres (DAÓLIO, 1997). E isto não depende apenas dos homens, afinal, a organização social de gênero é continuamente alimentada, também, por mulheres (SAFFIOTI & ALMEIDA, 1995).

"A educação é uma obra transformadora, criadora. Ora, par criar é necessário mudar, perturbar, modificar a ordem existente. Fazer progredir alguém significa modificá-lo. Por isso, a educação é um ato de desobediência e de desordem. Desordem em relação a uma ordem dada, uma pré-ordem. Uma educação autêntica re-ordena. É por esta razão que ela perturba, incomoda. É nessa dialética ordem-desordem que se opera o ato educativo, o crescimento espiritual do homem "(GADOTTI, 1991, p. 89).

As intervenções sociais procuram ordenar a reflexão do aluno, de forma a facilitar a compreensão da realidade social, para confrontando-a com o saber que o mesmo traz do seu cotidiano, facilitar uma tomada de posição diante da realidade social. É preciso que o aluno considere sempre a possibilidade da mudança, que esteja sempre atento para os novos dados da realidade e potencializando as novas perguntas, num eterno devir, gerando sempre novas intervenções sociais (COLETIVOS DE AUTORES, 1992).

"Há portanto um engano e uma fraude: engano dos educadores que não vêem as implicações sócio-econômicas e políticas dos seus atos, e a fraude daqueles que vendo-as tentam camuflá-las sob o pretexto de estarem servindo ao humanismo "(GADOTTI, 1991, p. 86)

As práticas discriminatórias que recaem sobre a mulher, atingem igualmente ao homem, ambos são impedidos de atingir um desenvolvimento integral, justamente por não poderem experimentar aquilo que é determinado social, apenas para um dos sexos (SAFFIOTI, 1987). Enquanto formamos homens fortes, competitivos, vitoriosos, entre tantas outras coisas, esforçamo-nos para formar mulheres sensíveis, delicadas, amorosas, emotivas, entre outras tantas. Isto de imediato nos coloca um problema: homens amorosos, sensíveis, emotivos e mulheres vitoriosas, guerreiras, fortes, estão descartados e descartadas de nossas pretensões humanísticas?

Os autores, Prof. Ms. Antônio Carlos Vaz e o graduando Carlos Alberto Mariano pertencem à Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL/SP)

Referências bibliográficas

  •  Coletivo de autores. Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.
  • Daólio, J. Cultura: Educação Física e Futebol. Campinas/SP: Unicamp, 1997.
  • Gadotti, Moacir. Educação e poder: introdução à pedagogia do conflito. 10 ed. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1991,
  • Romero, Elaine. A educação física a serviço da ideologia sexista. Revista Brasileira de Ciência do Esporte, Vol. 15, n. 3, p. 226-234, jun., 1994.
  • Saffioti, Heleieth I. B. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987.
  • Saffioti, Heleieth I. B. & Almeida, Suely S. de. Violência de gênero: poder e impotência. Rio de Janeiro: Revinter, 1995.
  • Vaz, Antônio Carlos. Futebol e masculinidade: um espaço pedagógico para ações afirmativas. In: Seminário Internacional de Educação Intercultural, Gênero e Movimentos Sociais, 2, 2003, Florianópolis/SC. Anais... Florianópolis: UFSC, 2003.

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