As aulas de Educação Física escolar e o entendimento da prática de atividade física dos idosos por parte dos alunos: Um relato de experiência

Por: Gabriela Aragão Souza de Oliveira.

V EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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 Velho, caduco, gagá, inútil, coroa, quadrado, ultrapassado, da antiga, do arco da velha, da velha guarda... Todos nós já nos deparamos, pelo menos uma vez em nossas vidas, com um dos rótulos ou expressões estigmatizantes a respeito dos idosos, seja rotulando um familiar, um colega de trabalho ou a nossa própria pessoa. Para envelhecer não é necessário noventa anos é necessário sim o desuso, o fazer que pareça velho, o obliterar-se.


 Elza Berquó, em 1996 nos alertava sobre a grande população de idosos que iríamos encontrar em nossas cidades no século XXI, para ela na virada do século o Brasil teria 82% de seu contigente de idosos vivendo em cidades, chamava atenção das cidades e pedia que elas se aparelhassem no intuito de oferecer recursos de várias ordens demandados para os idosos. Hoje, continuamos assistindo ao descaso com idoso. Dado a diminuição na taxa de fecundidade e da mortalidade mundial, a tendência é que o mundo envelheça (IBGE,1998), sendo cada vez mais necessário que os órgãos públicos, os formuladores de políticas sociais e a sociedade de maneira geral, se interessem pela questão do idoso.


 Os interesses econômicos se sobrepõem as necessidades das pessoas, os idosos são vistos como encargos que a sociedade tem de cumprir. Não se pensa nos idosos pela experiência de anos de trabalho, e sim pela incapacidade de produção, capacidade esta determinante numa sociedade capitalista. Assim, não respeitamos o idoso como cidadão historicamente construído e inserido na sociedade em todas as suas instâncias, a começar pela família que o renega e o trata à margem de suas decisões quotidianas.


 Para Renato P. Veras (1994) "na velhice, a manutenção da autonomia está intimamente ligada à qualidade de vida" (1). Consideramos que envelhecer com qualidade de vida, rompendo barreiras impostas por uma sociedade produtivista, que se utiliza e explora o homem no momento que ele está inserido no processo de produção, é um exercício de cidadania e que pode e deve começar a ser percebido já na fase escolar.


 A promoção da saúde põe ênfase na questão da autonomia, que "representa nível de liberdade ou independência que o indivíduo apresenta para suprir necessidades básicas de seu cotidiano, sem precisar recorrer ao auxílio de terceiros" (Castanheira, Teixeira e Lima, 1990).


 A promoção da saúde pode ser vista como uma resposta às críticas ao conceito de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) "como um completo bem estar físico, mental e social e não apenas como ausência de doenças". Esta concepção é criticada por seu caráter estático e subjetivo, pela sua limitação à esfera individual e a não referência a dois outros fatores que afetam a saúde como o meio ambiente e a transcendental propriedade da mente humana. Consideramos saúde como resultado de multifatores não somente como relação causal com a atividade física, mas como resultado das condições de habitação, renda, trabalho, alimentação, lazer, acesso aos serviços de saúde, acesso e posse da terra, etc. ( Faria Júnior,1991).


 A lei de diretrizes e bases da educação (LDB) sustenta que o compromisso por excelência da escola brasileira é com a construção da "cidadania" (Brasil, 1997). E segundo os parâmetros curriculares, os alunos devem conhecer, organizar e interferir no espaço de forma autônoma, bem como reivindicar locais adequados para promover atividades de lazer, reconhecendo-as como uma necessidade básica do ser humano e um direito do cidadão"(Brasil, 1997b).


 Na área da educação, a lei que trata da política nacional do idoso, tem como uma das ações governamentais inserir nos currículos mínimos, nos diversos níveis de ensino formal, conteúdos voltados para o processo de envelhecimento, de forma a eliminar preconceitos"(BRASIL,1996).


 A disciplina Educação Física na escola tem como um de seus propósitos incluir questões que aproximem o ensino da educação física e a prática de atividades físicas com a vida cotidiana, tratando de um tema ausente nos currículos escolares que é o de preparar também os jovens para compreender e refletir sobre o envelhecimento da sociedade brasileira.


 O envelhecimento enquanto um processo multidimensional merece uma abordagem multidisciplinar, propiciando condições aos jovens de conscientizarem-se, preparando-os para enfrentar questões impostas por barreiras cronológicas e discriminatórias (BRASIL,1997b). Desmistificando o envelhecimento e fazendo com que os alunos incluam a atividade física como prática permanente, valorizando e adotando hábitos saudáveis como um dos aspectos básicos da qualidade de vida, agindo com responsabilidade em relação à sua saúde e à saúde coletiva.


 Os Parâmetros Curriculares consideram como fundamentais as atividades culturais de movimento com finalidade de expressão de sentimentos, afetos e emoções e com possibilidades de promoção, recuperação e manutenção da saúde. Desta forma a proposta é de se desmedicalizar a saúde, incorporando então a educação para a saúde, considerada como uma categoria pedagógica.(ibid.).
A escola, os alunos e o bairro que fizeram parte deste trabalho


 O Instituto Educacional Teixeira Carelli Leite é uma escola particular, situada no município de Nova-Iguaçu/RJ, tendo aproximadamente seiscentos alunos, divididos no ensino infantil, ensino fundamental e médio, que estudam nos turnos da manhã e da tarde. A Educação Física curricular é ministrada apenas no segundo segmento do ensino fundamental (5º a 8º série), a escola não segue nenhum critério de seleção de conteúdo para a disciplina, apenas faz exigência quanto as avaliações bimestrais que devem ser divididas em três etapas: um trabalho, uma prova teórica e uma prova prática, o que de certa forma permite ao professor desenvolver práticas pedagógicas tendo em vista seus compromissos políticos com os alunos, com a escola, com a comunidade e com a sociedade.


 Em 1999, pelo quarto ano consecutivo lecionei na escola para a mesma turma, que estava na 8º série, turma esta composta de 20 alunos, e como durante esse tempo havíamos discutido com eles questões referentes a educação, a educação física e a promoção da saúde, decidimos com a turma que durante o primeiro bimestre faríamos um trabalho de campo sobre um assunto de interesse dos alunos. Decidimos então, discutir sobre a prática de atividade física dos idosos.


 O primeiro passo foi conhecer o bairro Santa Eugênia onde o trabalho se realizaria . Os alunos percorreram o mesmo, e identificaram que ele possui três escolas públicas e duas particulares, o comércio se constitui de duas padarias, uma empresa de ônibus e um hipermercado. Reconhecendo a atividade física como um dos fatores da Promoção da Saúde, argumentávamos a questão da falta de espaços públicos para à prática de atividade física no bairro, já que o mesmo não possui nenhuma praça ou área de lazer para tal prática, apenas a quadra de uma escola de samba (Leões de Iguaçu), que é liberada uma vez por semana para a comunidade e o SESC (Serviço Social do Comércio), que dispõe de diversas atividades como a natação, hidroginástica, yoga, ginástica corretiva, ginástica localizada, musculação; porém a dificuldade é arranjar vagas nestas turmas, que segundo os moradores do bairro é difícil, tendo para conseguir uma vaga nestas atividades, que acordar de madrugada e enfrentar filas, além de pagar taxa mesmo sendo sócio.


 Os alunos questionaram o fato de quem não tem condições de pagar, além da falta de conhecimento para a prática autônoma. E que por todos estes fatores, viam os moradores do bairro e principalmente os idosos sem vontade, disposição ou compreensão da importância desta prática como um dos fatores referentes à Promoção da Saúde.


 Sabemos que preconceitos, estereótipos e discriminações aparecem com mais vigor quando à idade se combina outras categorias como gênero, raça e classe social, parece-nos superficial então a veiculação pela mídia dos benefícios da prática de atividade física sem a menção sobre as dificuldades de prática dessas minorias, dificuldades pautadas por inúmeros fatores desde econômicos até sociais.


 Shannon e Etkin (1994), ressaltam a dificuldade dos programas de atividade física regular atingirem indivíduos de baixo nível econômico, e apontam como barreiras a pobreza, qualificação e formação de equipe, inflexibilidade, temor e sub-cultura. O que ajuda a corroborar nossa intenção enquanto professora de apresentar aos alunos todos os fatores, que envolvam a prática de atividade física informal dos idosos de um bairro de classe média baixa, que eles conhecem e vivenciem à realidade enquanto moradores, parentes, vizinhos e enquanto futuros idosos.


 Mas afinal, qual o objetivo deste trabalho na escola


 Procurar compreender com os alunos desta escola particular, como pessoas consideradas idosas do bairro Santa Eugênia em Nova Iguaçu percebiam a prática de atividades física e como a relacionavam com a saúde. Fazer uma reflexão à respeito da influência dos equipamentos urbanos públicos (2) na adesão e no abandono da prática de atividade física por parte dos idosos, além de permitir que os estudantes façam reflexões críticas sobre a prática de atividade física fora do ambiente formal da escola.


 O trabalho de campo


 Utilizamos como instrumento um questionário semi-estruturado, elaborado a partir de discussões sobre o objetivo do trabalho com as seguintes questões situadas: Qual é o seu nome?; Qual a data do seu nascimento?; Qual é o seu endereço?; Você trabalha? (se a resposta for não ou aposentado, escrever a profissão que exerceu); O que você faz no seu dia a dia?; Qual é o seu grau de escolaridade?; Você prática alguma atividade física?; Qual o nome da atividade física e quantas vezes por semana?; Você conhece um lugar no seu bairro para a prática de atividades físicas?; Para você, quais os motivos que levaram você a praticar atividade física e se não pratica ou abandonou, explique seus motivos?; Você sentiu mudanças depois que começou a praticar atividade física?; Para você, o que uma pessoa deve fazer para ter uma vida saudável?


 As entrevistas foram realizadas após algumas orientações da professora, a saber: a) explicar para o entrevistado o objetivo do trabalho e apresentar a declaração elaborada pela professora e pelas diretoras autorizando o aluno à realizar as entrevistas. b) a entrevista seria realizada somente se o entrevistado tivesse tempo para as respostas e, se ele no caso de abordagem nas ruas do bairro não tivesse praticando atividade física. c) o entrevistador não poderia interferir nas respostas dos entrevistados, deixando que os entrevistados respondessem de próprio punho o questionário, apenas orientando quando solicitado e transcrevendo as respostas se o entrevistado fosse analfabeto e d) cada aluno teria que realizar pelo menos quatro entrevistas com os idosos do bairro Santa Eugênia.


 Ao final de quinze dias, foram entrevistados oitenta e dois idosos, sendo que destas entrevistas, quatro foram eliminadas por não corresponderem as orientações previamente estabelecidas.


 Descrição dos resultados


 Após a análise das entrevistas (3) feita pela turma: dos 78 idosos entrevistados, apenas 43% praticavam atividade física, enquanto 57% não praticavam atividade física. Dentre os 33 idosos que praticavam atividade física, 24 eram do sexo feminino e 9 eram do sexo masculino4). Das 24 idosas, 19 caminhavam, 2 pedalavam, 1 fazia ginástica de academia e 1 fazia alongamento. Dos 9 idosos, 3 caminhavam, 2 faziam natação, 1 jogava futebol, 1 corria, 1 fazia hidroginástica e 1 cavalgava. Ficou claro para nós, que a caminhada é a atividade física mais praticada pelos idosos do bairro, pois dos 33 entrevistados que praticam atividade física 68% faziam caminhada. Acreditamos, que isso deve-se ao fato de que é uma atividade sem custo, que pode ser realizada em grupo ou individualmente e sem muito esforço físico, além disso necessita apenas do espaço físico das ruas do bairro.


 Verificamos o grau de escolaridade dos entrevistados, com o intuito de investigar se o mesmo influenciava ou não na prática de atividade física. Encontramos uma significativa diferença entre o grau de escolaridade do sexo feminino em relação ao masculino. Das senhoras entrevistadas, nenhuma tinha iniciado o curso superior e sete eram analfabetas, já entre os senhores entrevistados, três tinham iniciado seus estudos a nível de terceiro grau e dois eram analfabetos. Fato este que não nos espanta, pois até algumas décadas atrás, a mulher não recebia incentivo para avançar nos estudos, sendo muitas vezes recriminadas se quisessem concluir os estudos, já que a sociedade impunha que o objetivo maior de sua vida era casar, ser mãe e cuidar da família.


 Mas, embora os homens entrevistados para este trabalho, tenham um grau de escolaridade superior ao das mulheres; isto não resultou em uma maior adesão por parte deles na prática de atividades físicas regulares e nem no entendimento desta como um dos fatores para aquisição de saúde.


 Analisando as entrevistas e discutindo estas com os alunos que conheciam bem o bairro e a maioria dos idosos entrevistados para o trabalho. Concluímos que os idosos que não praticavam atividade física (45 ao todo), justificavam seu sedentarismo por falta de tempo, pelas poucas condições oferecidas pelo bairro para a prática de atividade física e pelo até o não relacionamento da atividade física como um dos fatores de aquisição de saúde, que para muitos dos idosos sedentários esta é apenas vinculada a ausência de doenças.
Já os idosos que praticavam atividade física regularmente, os principais motivos para a adesão desta prática, são a prescrição médica e a crença de que saúde e atividade física tenham uma relação causal.


 Conclusão


 Sabemos que o cenário para a atividade física com os idosos, deve estar marcado por um horizonte de solidariedade entre familiares, entre gerações, entre amigos, entre professores, ou seja entre a sociedade em geral. Desta forma, temos que buscar garantir alegria, saúde, bem-estar, diminuição do estresse, reabilitação e socialização que são as razões mais apresentadas para a participação em qualquer tipo de atividade física regular pelos idosos. Apresentando para os alunos, através de nossas aulas nas escolas particulares e públicas, que o avanço da idade é natural da vida, procurando desmistificar os preconceitos referentes aos idosos, como um grupo que está fora do contexto social e salientando a necessidade da compreensão sobre um atendimento adequado e de qualidade para os idosos, segundo suas especialidades e prioridades, principalmente no que diz respeito a autonomia quotidiana dos idosos.


 O trabalho objetivou levar os alunos a serem capazes de analisar no contexto da sociedade em que vivem, que o envelhecimento é normal, e que deve sim ser relacionado com a prática de uma Educação Física permanente. Ressaltamos, enquanto educadores a necessidade de desenvolvimento de propostas que visem a integração intergeracional., incutindo na sua prática pedagógica uma educação física escolar comprometida com a promoção da saúde, compreendendo que a educação física precisa fazer parte do cotidiano das atividades de tempo de lazer e de vida das crianças, jovens, adultos e idosos.


 Obs:
A autora é mestranda em Educação Física na Universidade Gama Filho e Especialista em Educação Física Escolar/UFF/RJ.


 Notas:


 (1) Segundo Ferreira, 1982 apud Alves Junior (1982), por não haver consenso alguns preferem considerar a qualidade de vida, como algo indefinível, pois esta dependeria das necessidades básicas que variam para cada país, região ou grupo.


 (2) A escola está situada neste bairro e a maioria dos alunos desta turma residem neste bairro, por isso a escolha do bairro com campo de coleta de dados para o trabalho


 (3) Estamos entendendo neste trabalho equipamentos urbanos públicos, a saber: as praças, os aparelhos de ginástica e lazer localizados nestas praças, etc.


 (4) É importante ressaltar que a significativa diferença no número de mulheres e homens entrevistados, deu-se pelo fato de que as mulheres foram mais solicitas para as entrevistas, enquanto os homens foram mais fechados para as mesmas.


 Referências Bibliográficas:


 Alves Junior, Edmundo Drummond. O Idoso e a Educação Física Informal em Niterói, dissertação de mestrado, Rio de Janeiro: UFRJ, 1992.
Berquó, Elza. Algumas considerações demográficas sobre o envelhecimento da população no Brasil. In: Anais do I Seminário Internacional "Envelhecimento Populacional - uma agenda para o futuro". Brasília: MPAS, SAS, 1996.
Brasil Lei 8842, de 4 de janeiro de 1994. Direitos da Terceira Idade, Rio de Janeiro: Auriverde, 1996.
Brasil, LEI 9394 de 20 de novembro de 1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Rio de janeiro: Auriverde,1997a.
Brasil, Secretaria de Ensino Fundamental do Ministério da Educação e do Desporto, Parâmetros Curriculares Nacionais: educação física, Secretaria do Ensino Fundamental: Brasília, 1997b.
Castanheira, Elen Rose L., Teixeira, Ricardo Rodrigues, LIMA, Angela Maria Machado de. Envelhecimento e Ação Programática: da necessidade a construção de um objeto. In: Scraiber, Lilia Blima (org.). Programação em saúde hoje. São Paulo: Huatec, 1990.
Etkhin, Shannou E. Reaching the hard to reach: active living programs for low socioeconomic individuals. In: Quinne y, Arthus, Gavvin, Lise, Wall, A.E.Ted (eds.). Toward Active Living: Champingn.
Faria Junior, Alfredo Gomes De. Educação Física, Desporto e Promoção da Saúde. Oeiras: Câmara Municipal, 1991.
Veras, Renato Peixoto. Envelhecimento populacional no mundo e no Brasil. Advir, Rio de Janeiro, n.3, p.37-44, mar.1994.

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