As Concepções Político-pedagógicas Para Educação Física Escolar: Análise a Partir de Experiências de Implantação de Políticas Públcas

Por: Alex Pina de Almeida.

X EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

Este trabalho tem o objetivo analisar parte da produção acadêmica recente sobre a Educação Física Escolar (EFE) na Revista Brasileira de Ciências do Esporte (RBCE). A RBCE é uma publicação de excelente qualidade que, desde 1979, reflete as preocupações da educação física nas suas distintas áreas, abrangendo desde a história até as mais atuais demandas da cultura e do meio ambiente.

Classificada pela CAPES como "Qualis C Internacional" é uma das melhores revistas nacionais da área. Isso indica uma posição privilegiada no campo, e significa que é legitimada pelos intelectuais da área para as trocas de capital social (Bourdieu, p.67, 1998).

Pela sua influência no campo da EFE é que decidimos analisar os artigos publicados sobre EFE desde o ano 2000.

Tomamos inicialmente como fonte os artigos publicados na RBCE de 2000 até 2006. Foram analisados quarenta (40) artigos, ensaios e resenhas, que representam os estudos sobre o ensino básico e seu universo pelo olhar da educação física. Os artigos foram classificados a partir de três temas explicitados nos textos, a saber: a - concepções político-pedagógicas; b - propostas didático-metodológicas; c - análises e intervenções no cotidiano da EFE, aquelas que tratam das intervenções práticas em diferentes situações de ensino. Nesse texto estaremos realizando uma análise preliminar apenas dos artigos que tratam das concepções político-pedagógicas. Cabe ressaltar, que o artigo em tela está vinculado a um projeto maior que tem a intenção de analisar a recente produção da educação física escolar brasileira nos principais periódicos do campo.

Neste primeiro exercício de análise dos quarenta (40) artigos levantados encontramos a seguinte distribuição temática:

a- sobre as concepções político-pedagógicas foram encontrados quinze (15) artigos, o que demonstra que existe a preocupação em analisar as políticas implementadas na educação formal nos diversos âmbitos administrativos (municipal, estadual e federal) e em criticar estas propostas com pretensões a determinar que caminhos que a EFE deve trilhar para desenvolver a plenitude de suas possibilidades na escola;

b- sobre as propostas didático-metodológicas foram encontrados quinze (15) artigos que refletem a tentativa de planejar a intervenção na escola; a diversidade de realidades estudadas e os métodos apresentados;

c- sobre as análises e intervenções no cotidiano da EFE foram encontrados dez (10) artigos, embora numericamente inferior aos demais temas, isso indica a importância que as análises sobre as intervenções têm se tornado um tema recorrente para os pesquisadores da área. Todavia, a reflexão sobre o ‘dever ser’ da educação física ainda predomina na produção nesse campo. Enfim, por meio destas análises, fica patente que os diversos níveis do ensino básico são material rico de significados para o estudo da EFE e geram um conjunto variado de propostas na tentativa de reorganizar o currículo da disciplina na escola e interferir nas atividades cotidianas. Isso sinaliza que há insatisfação no campo e continua a merecer reflexões permanentes.

A escola é ainda um espaço fundamental para formação das novas gerações mesmo com toda revolução vivida nos últimos tempos no campo da informação e de sua disseminação. A escola deve manter um diálogo reflexivo com as novas competências demandadas pela sociedade que extrapolam a dimensão conceitual e instrumental dos conteúdos de ensino. Os conteúdos de ensino hoje são entendidos de forma ampla de modo que devem contemplar atitudes, valores e experiências individuais e coletivas em constante diálogo com a sociedade contemporânea. A EFE, nessa direção, tem um papel fundamental na construção dos projetos pedagógicos gerados em cada escola em função da diversidade de conhecimentos e do seu enraizamento na vida social. Essa disciplina em conjunto com as outras deve tratar de questões que estão na ordem do dia do mundo contemporâneo para a formação cultural dos alunos.

As possibilidades de trabalho da EFE na escola são muitas, desde a aula regular até as variadas atividades extra-classes, como por exemplo, colônias de férias, gincanas, olimpíadas, festivais e outras atividades complementares. Essas atividades podem ser abordadas por meio das danças, das ginásticas, das lutas, dos esportes ou através da exibição de filmes, de debates com especialistas da área, de apresentação de trabalhos, visitas a instituições esportivas e sociais. De fato, se as possibilidades são variadas, percebemos pelos textos analisados, que o campo apresenta uma espécie de insatisfação com o reduzido papel que a educação física tem exercido na escola.

Numa análise panorâmica dos artigos levantados, inferimos que esses três temas refletem o interesse da comunidade acadêmica da área em procurar soluções para a EFE participar mais incisivamente da vida pedagógica das escolas por meio da transmissão dos conhecimentos acumulados pelo campo.

Os textos analisados sobre a EFE tratam de discussões sobre educação, política e pedagogia, passando por análises do cotidiano nas quais são destacados aspectos da realidade que estão presentes em experiências singulares na escola.

A escola pública é o local em que grande parte da população é formada intelectual e culturalmente. Trabalhar nesta instituição em qualquer esfera (municipal, estadual ou federal) é um desafio e requer um olhar atento para as propostas, quer política, quer didática, quer de intervenção, pois grande parte deste público pode ampliar os seus conhecimentos, atitudes, valores e habilidades, ampliando seu capital cultural (Bourdieu, p.315, 1987). A escola no Brasil continua sendo uma instituição fundamental na aquisição de capital cultural, principalmente para as classes menos favorecidas.

Em função da amplitude do tema e dos limites desse tipo de comunicação, optamos trabalhar apenas com as concepções político-pedagógicas enfocando quatro aspectos: a) exposição do assunto, b) os principais referenciais teóricos, c) os atores e as estratégias utilizadas para a coleta de dados, d) as conclusões dos autores. Dos quinze (15) artigos selecionamos sobre esse tema, onze (11) se referem ao debate ou a análises político-pedagógicas de forma geral e abrangente, e quatro (4) discutem tais concepções pedagógicas a partir de políticas governamentais localizadas na esfera do município e do estado.

Os 15 artigos sobre concepções político-pedagógicas abordam as seguintes temáticas: nove (9) enfatizam o debate e as críticas sobre as políticas/tendências pedagógicas utilizando conceitos chaves ou palavras-força como: cultura corporal, cultura de movimento, cultura corporal de movimento e o movimento renovador da EF; seis (6) são de natureza histórica, sendo que um (1) trata do esporte na escola, cinco (5) tratam de higienismo e eugenia.

Os autores mais citados são: Valter Bracht - seis (6), Lino Castellani - cinco (5), Tarcisio Mauro Vago - quatro (4). No campo da educação diversos autores são referências sem haver concentração significativa de nenhum autor nos textos levantados sobre o tema.

As obras mais utilizadas foram as seguintes: Educação Física e Aprendizagem Social, de Valter Bracht, em quatro artigos, e Metodologia do Ensino da EF de autoria de um Coletivo de Autores pela Educação Física em três artigos.

Desse universo quatro (4) artigos tratam de análises das experiências de implantação de políticas públicas para EFE, sobre esses deteremos nossa análise a seguir.

A partir de então passamos a expor as concepções político-pedagógicas que nortearam os trabalhos determinando o tema central, os referenciais teóricos principais, a metodologia e as conclusões dos autores
O primeiro artigo analisado Educação Física e a Cultura Corporal: as Orientações Didático-Metodológicas em Questão (Jan/maio 2000 p.77-80), de Evilásio Martins Vieira, foi desenvolvido a partir da verificação de como "o processo de formação continuada, materializado pelas políticas educacionais, tem influenciado o empreendimento de ações didático-metodológicas numa perspectiva crítico superadora" (p.77)

O referencial teórico foi à Cultura Corporal proposto no livro Coletivo de Autores de 1992. Os professores de Educação Física, oito no total, que participaram do curso de formação continuada promovido pela Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco, foram submetidos a uma entrevista semi-estruturada, com intuito de avaliar a influência do curso nas suas ações cotidianas.

Vieira concluiu que "os professores, em geral, continuam reproduzindo as práticas corporais baseadas em pressupostos eminentemente biológicos esportivos" (p.77) mas evidenciaram o trabalho aqueles que procuraram inovar numa "perspectiva transformadora" e que é necessário aprofundar a discussão sobre o tema para superar o contexto atual.

O segundo artigo O pensamento dos professores de Educação Física sobre a formação permanente no contexto da Escola Cidadã: um estudo preliminar (maio 2001, p.73-84) da Drª Rosane Kreusburg Molina e Drº Vicente Molina Neto, procurou por meio de programas de Formação Permanente, "a reflexão sobre a especificidade da Educação Física no currículo escolar e sua contribuição para o projeto pedagógico da Escola Cidadã (...) interpretar e discutir, (...) o pensamento e as representações dos professores de Educação Física a respeito do papel da escola, do significado de sua prática docente e o que representa a Educação Física no contexto da Escola Cidadã" (p.73). O referencial pedagógico utilizado foi o da Cultura Corporal de Movimento proposto por Valter Bracht em 1999.

O título do curso de Formação Permanente "a prática de investigar a própria prática" foi inspirado em Paulo Freire (p.75) determinando assim um referencial teórico mais amplo. Participaram do curso 40 professores da Secretaria Municipal de Porto Alegre-RS e as análises partiram de informações colhidas durante o curso por meio de documentos produzidos pelos professores e observações e diálogos não estruturados como "forma complementar, para obter informações sobre as representações dos professores" (p.75).

As conclusões dos autores Molina e Molina Neto, foi que os professores se mostraram insatifeitos com "os conhecimentos postos à disposição pelos pensadores da Educação Física que não tem dado respostas satisfatórias aos problemas do cotidiano da escola e das aulas de Educação Física" (p.83). Ficou evidente a necessidade de um processo de reflexão permanente o que gerou a implantação de um grupo de estudos composto por professores da Escola de educação Física da UFRGS e de professores da rede municipal de ensino.
O terceiro artigo A Educação Física no contexto da política de educação municipal: analisando a experiência do município de Camaragibe-PE (maio de 2003, p.53-68) da Ms. Ana Lúcia Felix dos Santos, é a síntese da sua dissertação, que indica a construção do objeto de investigação se deu em função de "(...) sabermos da existência da Proposta Curricular, que havia adotado a concepção crítico-superadora enquanto perspectiva teórica, procuramos investigar como se deu seu surgimento, qual a dinâmica que possibilitou sua formação e que possíveis facilidades e/ou obstáculos poderiam estar sendo encontrados na sua efetivação prática de política, no concreto dos processos ensino e aprendizagem na sala de aula" (p.54).

A análise do texto Proposta Curricular do Município de Camaragibe-PE aponta na direção da perspectiva crítico-superadora do Coletivo de Autores de 1992 e relacionado com o Movimento renovador da Educação física (p.57, nota de rodapé).

Os dados da investigação foram levantados a partir da análise dos documentos da Proposta Curricular e das entrevistas com quatro gestores e quatro professores da Secretaria Municipal de educação de Camaragibe-PE.

Ao final do trabalho Santos, sugere que: a formação profissional dos professores, tanto na fase inicial como num processo de formação continuada; as mudanças nas condições do trabalho docente e o apoio do poder local a Proposta, são condições imprescindíveis para implantação de uma luta política pela mudança da ordem social maior (p.67).

A Ms. Carmem Elisa Henn Brandl no quarto artigo A nova política para o ensino médio: um estudo da Educação Física a partir das novas diretrizes e dos novos projetos pedagógicos (maio de 2003 p.71-86) faz uma pesquisa com o "objetivo de conhecer a realidade da Educação Física no ensino médio dos colégios estaduais de Marechal Candido Rondom- PR, através da análise dos novos projetos pedagógicos das escolas locais e do discurso dos dirigentes escolares e de professores de Educação Física destes estabelecimentos de ensino" (p.71). O referencial teórico utilizado foram os Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino médio e específico da EF de 1997.

A pesquisa coletou informações a partir da análise dos projetos pedagógicos de três escolas e de questionários com perguntas abertas e fechadas para três dirigentes, um de cada escola e de dez professores, num total de treze questionários respondidos.

A pesquisadora concluiu que na comparação entre as propostas dos "projetos pedagógicos das escolas e a realidade das aulas de educação Física, através do discurso de seus dirigentes e professores, pode-se concluir que houve grande avanço na disciplina, porém existem algumas divergências entre proposta e realidade, desde a fase de elaboração e aprovação dos projetos até sua aplicação no dia a dia" (p.71).

Os quatro artigos analisados têm em comum a implantação de políticas públicas a partir de concepções político pedagógicas da EFE. Os quatro textos adotaram como referências canônicas as propostas relacionadas às teorias críticas da Educação, mas com referenciais distintos na EFE: duas utilizaram como base o Coletivo de Autores de 1992, uma o livro Educação Física, Ciência: cenas de um casamento (in)feliz de Valter Bracht e o último os Parâmetros Curriculares Nacionais.

Os trabalhos são unânimes em propor uma formação permanente para que as concepções propostas possam ser implantadas. Alguns dos professores que participaram como informantes das pesquisas revelaram desconhecimento das teorias apresentadas, outros insatisfação com as propostas apresentadas, indicando não serem exeqüíveis no cotidiano escolar.

As conclusões, sobre a formação permanente e de discussão das propostas pedagógicas, descritas nos diversos artigos indicam que ainda há um longo caminho a percorrer, pois, apesar de todas se mostrarem preocupadas com as transformações sociais e adotarem posturas críticas, as condições materiais e política para aplicação nas escolas, bem como atuação dos professores necessitam, de mais tempo e apoio para que surtam o efeito desejado.

Três dos artigos analisados apontam para o descompasso ou distância entre as concepções ideais para EFE, baseadas ou próximas das teorias críticas de educação, e a apropriação de tais concepções e modelos pelos professores de EF que estão atuando no cotidiano escolar. A conclusão é óbvia, os professores ainda reproduzem as concepções tradicionais apesar de indicar possíveis avanços.

Deve-se destacar que os avanços apenas indicam marcas e indícios da incorporação parcial de termos, conceitos ou palavras-força que se aproximam das concepções idealizadas como críticas. O que parece ser desconhecido nessas análises, é que os professores não estão preocupados com uma coerência abstrata em seu cotidiano, pois consomem criativamente os conhecimentos disponíveis e fazem de suas práticas e discursos algo que possui coerência contextual e local.

O artigo de Molina e Molina Neto revela que existem projetos que avançaram em relação às teorias críticas e a sua apropriação, quando se preocupam com a insatisfação revelada pelos professores em relação a elas e informa que um grupo foi implantado "com o objetivo de estudar os problemas e as tensões que os professores enfrentam, (...) na execução das aulas de educação física propriamente ditas" (p.83).

Registramos também que sentimos falta da inclusão de alunos e de professores de outras disciplinas na aplicação dos instrumentos de coleta de dados, pois, acreditamos que estas opiniões dariam mais densidade aos resultados das pesquisas.

Obs. Os autores, prof Alex Pina de Almeida (alexpina1951@yahoo.com.br) é da EEFD/UFRJ e o prof. Antonio Jorge G Soares (ajsoares@globo.com) é da F. Educação da UFRJ, da UGF e pesquisador do CNPq

Referência bibliográfica

  • Bourdieu, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1987.
  • ¬¬¬__________. Escritos de Educação. Petrópolis: Vozes, 1998.
  • Martins, Evilásio. Educação Física e a Cultura Corporal: as Orientações Didático-Metodológicas em Questão. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v.21, n. 2 e3, p. 77-80, janeiro e maio 2000.
  • Molina, Rosane Kreusburg e Molina Neto, Vicente. O pensamento dos professores de Educação Física sobre a formação permanente no contexto da Escola Cidadã: um estudo preliminar. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v.22, n.3, p.73-84, maio 2001.
  • Santos, Ana Lúcia Felix dos. A Educação Física no contexto da política de educação municipal: analisando a experiência do município de Camaragibe-PE. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v.24, n.3, p.53-68, maio 2003.
  • Brandl, Carmem Elisa Henn. A nova política para o ensino médio: um estudo da Educação Física a partir das novas diretrizes e dos novos projetos pedagógicos. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v.24, n.3, p.71-83, maio de 2003.

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