As Contribuições da Concepção Hegemônica Acadêmica de Corpo Para Legitimação da Educação Física nos Seus Campos de Inserção

Por: Rosemary Coelho de Oliveira.

VII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Resgaste histórico

A pesquisa, que ora se apresenta foi enviada para o CNPq, com a intenção de conseguir financiamento para a mesma, bem como é um desdobramento do projeto de pesquisa do candidato a orientador, Valter Bracht, intitulado "A Educação Física como componente curricular e o discurso legitimador" que, em linhas gerais, pretende: a) identificar o discurso legitimador construído pela Educação Física para afirmar-se no currículo escolar do Brasil; b)analisar os elementos macro-sociais que influenciaram na possibilidade de tal discurso, que favoreceram a sua aceitação social; c) analisar em que medida as mudanças macro-sociais desgastaram o discurso original construído pela Educação Física e estão a exigir sua reconstrução. E, para tanto, utiliza-se de eixos de discussão (eixos temáticos) para sua revisão e elaboração teórica.

A estreita vinculação deste projeto com o projeto estruturado pelo orientador, compreende a discussão do eixo temático C, qual seja, a visão de corpo hegemônica e legítima na nossa cultura e suas repercussões no papel atribuído à Educação Física. Todavia, antes de problematizar questões acerca do tema, se faz necessário discorrer sobre a constituição do corpo histórico e culturalmente- evidenciando suas repercussões na Educação Física- compreendendo os diversos sentidos incorporados pela concepção de corpo bem como apresentando algumas profícuas questões envolvendo visão de corpo e a legitimação da educação física como componente curricular.

As distintas áreas de conhecimento construíram formas diversas de olhar e compreender o corpo humano. As ciências biomédicas, mais especificamente a Medicina, irá organizar e divulgar uma determinada perspectiva de corpo que remonta aos séculos XVII, XVIII e XIX e que influenciou fortemente a gênese da Educação Física. De acordo com (BRACHT, 1999, p. 70)

"se enfocarmos o discurso dos médicos do século XVIII na Europa, identificaremos uma mudança do entendimento do corpo, quer dizer, o advento da ciência moderna faz com que a Medicina construa uma outra visão de corpo, crescendo como conseqüência, o entendimento da importância do movimento como forma de manter e promover a saúde. Portanto, aquilo que vai servir de referência para fundamentar a importância da Educação Física está ancorado no discurso médico do século XVIII."

O corpo na modernidade, principalmente no período industrial e pós-industrial, foi compreendido como lugar das mais distintas manipulações fundamentadas a partir de uma racionalidade dada pela máquina. Assim, o corpo é compreendido como um produtor e consumidor de energia. Daí as preocupações com a economia de gestos, economia de energia física no século XIX e com o desejo compulsivo de gastar energia nos dias atuais (SOARES, 2001).

Além disso, ao apoiar-se em técnicas quantitativas, a medicina atuou/atua a partir de uma perspectiva normativa, através da proposição de trabalhos, de tabelas padronizadas de peso e altura para homens e mulheres de determinadas faixas etárias no âmbito da análise da composição corporal, determinando equações e correlações ideais a partir de estatísticas.

A partir desta perspectiva, o corpo é entendido como objeto de investigação, sofrendo intervenções a partir de um referencial oriundo basicamente das ciências biológicas, cujos pressupostos desconsideram os aspectos sócio-históricos e culturais constituintes do corpo. Segundo Silva (2001, p. 36),

"a cultura é fundamento de todos os fenômenos do corpo humano, tal qual seu fundamento biológico. Ao se criarem modos de vida diferentes, criam-se também modos de funcionamento orgânico diferentes, que apesar de se mostrarem como constantes fisiológicas, são equilíbrios instáveis ante as diferentes necessidades que se apresentam no cotidiano [...]."

A redescoberta do corpo

Paulatinamente, ao longo do século XX, a visão sobre o corpo, até então fundamentada num enfoque meramente biológico, incorpora contribuições advindas de disciplinas das Ciências Sociais e Humanas, ganhando força um enfoque de cunho psicológico, a partir da descoberta/ redescoberta do enaltecimento do prazer corporal e da estética. Isso resulta, em grande medida,

"...de uma profunda crise de civilização e de civilizações, e à primeira vista, poderia entender-se como reflexo da crise do próprio Estado, porventura enfraquecido na sua missão de utilizar o corpo como instrumento privilegiado no controle e regularização das condutas humanas. Em qualquer caso, julga-se que as novas maneiras de pensar, sentir agir o corpo são indicadores de uma mudança (CRESPO, apud DAOLIO et al, 1999, p. 185)."

Esses reordenamentos também se fazem presente na Educação Física; sendo assim, a partir da década de 90, o corpo ganha centralidade nos temas discutidos na área, como destaca (Lima, 1999). De acordo com ele,

"...neste final de década, a Educação Física brasileira estaria transitando da crítica epistemológica à crítica estética. Identifica-se um deslocamento das temáticas até então privilegiadas no campo. Os temas concernentes à problemática epistemológica da Educação Física [...], cedem lugar, tudo leva crer, à temática do corpo. O corpo desponta como o grande tema da educação física."

Aliada a essa perspectiva biologicista, outra forma de se entender o corpo no mundo e que hoje tem sido responsável pelo crescente interesse da mídia em focalizá-lo é a política de consumo e mercado, as quais o corpo tem sido submetido, sendo caracterizado como objeto de desejo dentro da nossa sociedade. Silva (1999, p. 59), afirma que o corpo se encontra

"localizado na cultura de consumo que domina boa parcela das sociedades contemporâneas e que se pode atingir a todos os indivíduos. A gestão do desejo no interior do consumismo que o mercado cria está ambiguamente vinculada ao ideal cultivado de um ser perfeito, que é permanentemente exigido dos indivíduos; ambíguo porque se deve consumir tudo e, ao mesmo tempo, manter uma postura de controle e autodeterminação, inclusive para se obter o corpo ideal (...)."

Tendo em vista, a perspectiva biológica que sustentava, talvez indiretamente, o modelo que legitimava a Educação Física, as reordenações sobre o significado de corpo, irá afetar seriamente esta área de conhecimento, como componente curricular.
Além disso, é importante compreender que a educação corporal não é atribuição exclusiva da Educação Física, isso porque entendemos que toda educação é corporal; sem dúvida, à educação física é atribuída uma tarefa que envolve as atividades de movimento que só pode ser corporal, uma vez que humano.

A educação física que se pretende legítima no âmbito escolar e não-escolar, deve superar as posições dualistas, que hoje separam corpo e mente, natureza e cultura. De acordo com Bracht (2001), "se quisermos superar, por exemplo, a oposição saber x fazer, corpo x mente, não podemos querer justificar a Educação Física por ela tratar do "corpo", já que queremos trabalhar com uma visão de corpo que não é a de corpo biológico"

Ao perceber o crescente interesse em relação as questões que permeiam a temática do corpo, a partir da construção de concepções que destoam da visão tradicional da Medicina, nosso interesse é analisar de que forma a área da Educação Física tem compreendido o corpo nos últimos anos e de que forma a compreensão hegemônica existente na área, colabora para a legitimação da Educação Física nos ambientes de inserção, enfatizando num primeiro momento, o âmbito da escola, identificando o discurso feito na área sobre a temática do corpo, durante os últimos vinte anos, na Revista Brasileira de Ciências do Esporte.

O delineamento assumido por esta pesquisa se caracteriza como pesquisa teórica, embora compreenda também uma análise documental. Enquanto pesquisa teórica, ela estará voltada para a elaboração, construção e burilamento de conceitos e à formulação de quadros de referências (DEMO, 1989).

As nossas fontes de estudo serão os periódicos brasileiros da área de Educação Física, tomando como referência o Catálogo de Periódicos de Educação Física e Esporte (1930-2000) publicado por Ferreira Neto et at. (2002). A opção pela imprensa periódica deve-se ao entendimento de que estas fontes explicitam a construção e divulgação do discurso legítimo do campo educacional (CATANI e SOUSA, 1999), neste caso da campo/área da Educação Física.

A escolha pela Revista Brasileira de Ciências do Esporte, foi dada a sua credibilidade diante do meio acadêmico, e por ser uma publicação de um órgão científico reconhecido pela CAPES, além de não estar vinculada a nenhuma instituição de ensino. Os artigos do periódico abarcam o período de 1980 a 2000 e trazem discussões pertinentes à temática dessa pesquisa. Para a compreensão dos artigos será utilizado a análise de conteúdo que, "...consiste em desmontar a estrutura e elementos desse conteúdo para esclarecer suas diferentes características e extrair suas significação" (DIONNE e LAVILLE, 1999, p. 214).

Dessa forma, dois serão os procedimentos metodológicos: a) análise documental dos artigos selecionados publicados no periódico; b) análise, interpretação e discussão da literatura concernente ao tema estudado.

No primeiro momento do estudo, selecionamos todos os artigos da Revista Brasileira de Ciências do Esporte, que possuíssem em seus títulos, a palavra corpo e suas derivações, como: corporal, corporalmente, corporeidade, corpóreo entre outras, em seguida, analisaremos a partir de qual paradigma a temática vem sendo tratada nos últimos vinte anos, ou seja, a partir de quais abordagens que o corpo vem sendo compreendido dentro do ambiente acadêmico e especificamente, na revista selecionada. Em seguida, a partir da análise que a revista for submetida, construiremos um texto que descreverá o forma que o tema do corpo vem sendo conduzido. E ainda, estaremos realizando leituras dos autores que publicam mais freqüentemente sobre a temática, buscando analisar os discursos hegemônicos a partir da década de oitenta do século XX.

A autora, Rosemary Coelho de Oliveira é acadêmica em educação física (UFES) e acadêmica integrante do LESEF/ UFES

Referências bibliográficas

  •  Bracht, V. Saber e Fazer pedagógicos: acerca da legitimidade da Educação Física como componente curricular. In: CAPARROZ, F. R. (org). Educação Física Escolar: Política, investigação e intervenção. Vitória, ES: 2001.
  • Catani, D. B.; Souza, C.P. Imprensa periódica educacional paulista (1890- 1996): Catalogo. São Paulo: Plêiade, 1999.
  • Daolio, J.; Goellner, S. V.; MELO, V. A. Memória, Cultura e Corpo: intervenção e conhecimento. In: Goellner, S. V. (org). Educação Física/ Ciências do Esporte: intervenção e conhecimento. Florianópolis: Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, 1999. p. 185 - 189.
  • Demo, P. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo: Atlas, 1999.
  • Dionnne, J.; Laville, C. A. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa de ciências humanas. Belo Horizonte: Artmed, 1999.
  • Ferreira Neto, A. et al. Catálogo de periódicos de educação física e esportes (1930- 2000). Vitória, ES: Proteoria, 2002.
  • Lima, Homero Luis Alves. Pensamento Epistemológico da Educação Física Brasileira: das controvérsias acerca do estatuto científico. 261f. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 1999.
  • Silva, A. M. Corpo, Ciência e Mercado: reflexões acerca da gestação de um novo arquétipo de felicidade. Campinas, São Paulo: Autores Associados, 2001.
  • Soares, Carmem. Imagens da educação no corpo. Campinas, São Paulo: Autores Associados, 1998.


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