As diferencias e as imagens do outro no ensino regular

Por: Maria Elisa Caputo Ferreira.

IV EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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 O presente estudo tem por objetivo apresentar e analisar as discussões que surgiram no decorrer da disciplina "inclusão de crianças com necessidades especiais nas aulas de Educação Física"


 O curso procurou discutir e esclarecer temas relacionados a um novo paradigma que permeia o sistema educacional atualmente, sendo este fundamentado em ideais de uma sociedade inclusiva.


 A metodologia utilizada nas aulas buscou analisar a inclusão de alunos com necessidades especiais no Ensino Regular e a participação efetiva dos mesmos na sociedade, tendo como alicerce a incorporação das diferenças individuais como balizadora do processo educativo. A viabilização desse projeto foi possível através da leitura de textos, análises de vídeos, realização de entrevistas com pessoas com necessidades especiais e seus familiares, além de relatos da professora e diretora de escolas que trabalham com propostas inclusivas. A leitura de livros incluiu autores como: AQUINO, 1998; CARMO, 1988; CARONE, 1998; CARVALHO,1997; 1998; FERREIRA,1993; FERRÉ, 1998; GUIRADO, 1998; LARROSA, 1998; MANTOAN e col., 1997; MORAES,1997; PIERUCCI, 1999; SASSAKI, 1997. WERNECK, 1998,1999.


 Reflexões a respeito da "diferença"


 Vivemos numa sociedade de classe com papéis, funções e status pré-estabelecidos, na qual a valorização da figura humana passa por fatores relacionados à capacidade intelectual e a condições de produtividade. Valoriza-se sobremaneira o que culturalmente convenciona-se: "belo, sadio, forte, eficiente, produtivo..." Essa concepção reflete o pensamento dominante, principalmente a partir do final do século XIX.


 Ainda hoje, reconhecemos força nessa corrente de pensamento e, em meio a uma sociedade deficiente, a DIFERENÇA é um problema significativo.


 A igualdade e a diferença são conceitos que expressam relações binárias nas quais dois elementos se defrontam como pólos dialéticos. A noção de igualdade mais forte e persistente da cultura ocidental não foi moldada pelos textos jurídicos e políticos, e sim pelo cristianismo. Mas a idéia cristã de igualdade está indissociavelmente ligada à idéia da diferença, através do conceito de pessoa. Há na ética cristã, uma espécie de ímpeto igualitarista que opõe continuamente a norma de igualdade ao fato da desigualdade. Essa idéia cristã de igualdade perante Deus foi, ao longo do tempo, aperfeiçoada e codificada como igualdade perante a lei: que afirma que todos os cidadãos são iguais, sem distinção de qualquer natureza, embora se afirme, concomitantemente, que as desigualdades sociais e regionais devem ser reduzidas pela ação do Estado, por meio da erradicação da pobreza e da marginalização.


 As democracias modernas, segundo CARONE, 1998, buscam a reconciliação entre a liberdade e a igualdade de modo tal que a igualdade só poderá ser considerada um valor democrático positivo se contribuir para o fortalecimento das liberdades individuais. Para CARONE, a igualdade de oportunidades é um conceito ou princípio que se reporta a uma realidade social com desigualdades diferenciadas, resultantes de distintas determinações históricas que precisam ser tornadas visíveis e reconhecidas pela sociedade como um todo. O princípio da igualdade de oportunidades é, de fato, segundo o autor, socialista de inspiração e contrário à tradição liberal, na medida em que propõe uma igualdade positiva, mas pode ser absorvido pelo modelo capitalista de produção de riquezas por ter uma funcionalidade: a de permitir uma distribuição maior da população e dos segmentos historicamente excluídos. A promoção da igualdade desses segmentos proporcionará, funcionalmente falando, a sua integração social e a conseqüente diminuição dos focos de tensão social.


 Mas, PENSAR a igualdade de oportunidades, é refletir, a partir de nós mesmos e partilhar com os outros, o debate sobre nossas diferenças que se complementam, em lugar de se excluírem mutuamente. Assim pensando, o outro é uma realidade que se nos impõe quotidianamente, um outro concreto, com identidade, com história, com uma constituição afetivo-emocional, que não é outra coisa, não é outro mais do que nós mesmos.


 Os outros não são outra coisa que aquilo que nós fizemos e vamos fazendo deles (FERRÉ, 1998). Justamente isto e não outra coisa é o que nós somos: aquilo que os outros fizeram e estão fazendo de nós. Esse outro, nós-outros o fazemos, ou seja, vocês e eu, e fazendo-o, nos fazemos. Podemos sair cada manhã e desfazer com nossas práticas esse outro que entre todos, temos feito e, desfazendo-o, encontrar-nos com o outro.


 Segundo a autora, andamos, nestes tempos às voltas com essas imagens do outro sem o reconhecimento, talvez, de que o fazemos a partir de um espaço: nosso espaço. A partir do espaço de nossos saberes e de nossas práticas, o espaço de nós mesmos, o espaço do outro em nós-outros que já não nos mostra o outro a não ser situado. E nesse espaço de nossos pensares, de nossos dizeres, de nossos fazeres, andamos, situados às voltas com as imagens do outro. Para a autora, sair do próprio espaço a partir do próprio espaço é o longo caminhar de face ao vento e de costas para cima em busca da maravilha que é sair com o outro; uns e outras, umas e outros sair, livres já da presença e da ausência do outro, da presença e da ausência também do outro, porque de ambas se concebe e entre ambas se alumia o nós-outros.


 Bem, mas nós somos professores, como as representações sobre a DIFERENÇA, incidem na Escola?


 Ao tratar da escola, GUIRADO:1998, destaca que a mesma é, ao mesmo tempo, ocasião para a reprodução da mesmidade e para a produção da diferença. Como uma organização particular da educação, a escola retira sua força do processo de repetição de relações sociais, que perdem para os que as fazem, seu caráter relativo, instituído, e ganham legitimidade e naturalidade incontestáveis. Segundo a autora, enquanto nós representamos ( formamos imagens de) as situações que vivemos concretamente, cada vez mais nos parece natural que este ou aquele seja nosso lugar , que esta ou aquela atitude seja tomada e estranhamos os macacos que ficam fora de seus galhos.


 Assim, a cena institucional da aprendizagem escolar nada mais é do que o imaginário social, regulador e legitimador de práticas educativas, sem que disso tenhamos a menor consciência.


 Por sua natureza institucional, traduz a autora, a escola é um dispositivo que nos põe atores em uma cena com demarcações de lugares, previsões de papéis e de textos. E, nisso nos indiferencia. Como atores, todos e cada um de nós, sem distinção, fazemos e portamos discursos, desempenhamos papéis, em íntima relação com esses lugares previstos.


 Conclusões


 Ao término do trabalho concluímos que o entendimento e a incorporação da proposta inclusiva é fundamental para a participação das pessoas com necessidades especiais na sociedade. Concordamos com a afirmação de SASSAKI (1999):


 "Uma sociedade inclusiva vai bem além de garantir apenas espaços adequados para todos. Ela fortalece as atitudes de aceitação das diferenças individuais e de valorização da diversidade humana e enfatiza a importância do pertencer, da convivência, da cooperação e da contribuição que todas as pessoas podem dar para construírem vidas comunitárias mais justas, mais saudáveis e mais satisfatórias". (p.164)


 Sabemos que na atual conjuntura, tem-se percebido avanços em direção à inclusão. Podemos citar a LDB e o sistema de ciclos, em substituição à seriação, como exemplos. Mas mesmo com essas medidas acreditamos que uma "efetiva inclusão" ainda está por vir. É preciso ainda profundas modificações estruturais em nossa sociedade e cabe a nós, educadores, trabalhar em prol de uma melhor conscientização e ação em prol de uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais humana.


 Obs. A autora profa. Ms. Maria Elisa Caputo Ferreira é professora da Faculdade de Educação Física e Desportos da UFJF.


 Revisão bibliográfica


 Aquino, Júlio Groppa (1998). Diferenças e preconceito na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus.
Carmo, Apolônio Abadio do (1988) Deficiência física: a sociedade brasileira cria, " recupera" e discrimina. Brasília: SEDES/PR
Carone, Iray. Igualdade versus diferença: um tema do século In: Aquino, Júlio Groppa (1998). Diferenças e preconceito na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus.
Carvalho, Edler R. (1997) A nova LDB e a educação especial. Rio de Janeiro: WVA.
Carvalho, Edler R. (1998) Temas em educação especial . Rio de Janeiro: WVA.
Ferreira, J.R. (1993) A exclusão da diferença . Piracicaba, UNIMEP.
Ferré, Núria P.de Lara Imagens do outro: imagens, talvez, de uma outra função pedagógica. In: Larrosa, Jorge e Pérez de Lara, Nuria (org) (1998). Imagens do outro: traução de Celso Mário Teixeira. Petrópolis/RJ: Vozes.
Guirado, Marlene. Diferença e alteridade: dos equívocos inevitáveis. In: Aquino, Júlio Groppa (1998). Diferenças e preconceito na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus.
Larrosa, Jorge e Pérez de Lara, Nuria (org) (1998). Imagens do outro: traução de Celso Mário Teixeira. Petrópolis/RJ: Vozes
Mntoan, Maria Tereza e colaboradores (1997) A integração de pessoas com deficiência: contribuições para uma reflexão sobre o tema. São Paulo: Memnon.
Moraes, Maria Câncida. (1997) O paradigma educacional emergente. Campinas, São Paulo: Papirus. p.83-112.
Pierucci, Antônio Flávio (1999) Ciladas da diferença. São Paulo. Editora 34.
Sassaki, Romeu Kazumi (1997) Inclusão: Construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: WVA.
Werneck, Cláudia (1998) Muito prazer, eu existo. 4ª ed. Rio de Janeiro: WVA
____________ . (1999) Sociedade Inclusiva. Quem cabe no seu todos? Rio de Janeiro: WVA

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