As Experiências Docentes Precoces em Educação Física

Por: Mauro Sérgio da Silva.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

Nesse breve trabalho tratarei de um problema que vem ocorrendo há mais de uma década no sistema de ensino do Espírito Santo, que é a inserção nas escolas de acadêmicos dos mais variados cursos, assumindo a função de professor regente de classe, mesmo de acadêmicos que sequer fazem algum tipo de licenciatura.Um fato de relevância atual, no curso de Licenciatura Plena em Educação Física (EF) do Centro de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Espírito Santo (CEFD/UFES), diz respeito a esses acadêmicos que se inserem no mercado de trabalho muito precocemente, tornando-se, logo nos períodos iniciais, acadêmicos-docentes.

Propor trabalhar com esse tema é me dispor a falar de minhas experiências como acadêmico-docente que começaram logo no primeiro período do curso de licenciatura supracitado. Enveredei-me cedo no trabalho docente devido a questões financeiras; comecei, a princípio, lecionando ciências numa escola pública estadual, concomitantemente com um trabalho numa escolinha de futebol de areia.

Embora atuasse nesses dois campos, almejava trabalhar com EF escolar, o que só foi possível a partir do terceiro período.

No início do quarto período, tive a oportunidade de me inserir no Laboratório de Estudos em Educação Física (LESEF - esse laboratório foi criado em 1996, tem como perspectiva contribuir para a avanço da área de conhecimento que diz respeito à EF, por meio de elementos que possibilitem a compreensão e fundamentação desta como disciplina escolar, com o intuito de contribuir para a construção de uma teoria crítica para a EF). O contato com os professores desse laboratório, a oportunidade de participar de uma pesquisa, o fato de ter construído como objeto de estudo minha própria prática, acredito que tenham sido fatores que potencializaram mudanças significativas em meu trato pedagógico na escola.

Meu trabalho na escola apresentou dois momentos distintos: o primeiro - ao chegar à escola, no qual lancei mão dos conhecimentos que havia obtido até aquele instante (refiro-me aos conhecimentos adquiridos antes e durante a graduação, com destaque aos conhecimentos referentes à aprendizagem motora); e o segundo - consistiu numa mudança substancial de minha prática, ao menos de acordo com meu ponto de vista. Nessa ocasião comecei a pensar objetivos mais audaciosos como: proporcionar aos alunos uma reflexão acerca dos problemas sócio-políticos e econômicos da atualidade por meio do "movimentopensamento" (Bracht, 1999, p. 54).

Apesar de todas as adversidades que enfrento cotidianamente, construí uma história bem interessante na escola. Embora esteja desenvolvendo um trabalho consideravelmente bem sucedido, uma questão veio me inquietando, qual seja, o fato de que fui me construindo como acadêmico-docente em EF a partir de determinados elementos: estudos individuais; minha relação com o LESEF; as experiências na escola, que constituíram momentos de grande relevância durante minha formação inicial. Disso tudo, deu-se a construção de um problema de estudo: as incursões pedagógicas precoces de acadêmicos de Educação Física em escolas: que influxos essas experiências podem ter sobre a formação inicial e o trabalho docente em escolas?

Gostaria de ressaltar que as reflexões aqui contidas referem-se a um esforço de síntese de meu trabalho monográfico de final de curso de graduação, que teve como objetivo: identificar como o trabalho docente precoce tem influenciado os rumos da formação inicial dos acadêmicos em EF, buscando estabelecer relações com o conhecimento que tenha sido veiculado durante a graduação e as experiências profissionais em escolas.

Para alcançar meu intento, lancei mão de uma pesquisa de natureza qualitativa, o que de acordo com Molina Neto (1999, p. 12), "[...] oferece mais agilidade e liberdade para a reflexão no tipo de análise estabelecida pela investigação". E dentre as várias propostas de pesquisa qualitativa existentes, optei pela de cunho etnográfico.

As incursões pedagógicas precoces: Contradições e possibilidades

Como referido anteriormente, as experiências docentes precoces são um fato concreto e acredito que merecem um trato mais aprofundado do que o que foi dispensado até o momento. Pois, é preciso ressaltar que o trabalho docente está constituído de momentos relevantes, que podem favorecer o avanço acadêmico da área de conhecimento da EF e da educação em geral. Entretanto, no decorrer do curso de licenciatura, não pude identificar nenhuma iniciativa que tivesse a intenção de sistematizar, aproveitar ou mesmo orientar tais experiências (salvo raras exceções, como o meu caso, que tive a oportunidade de me inserir no LESEF, onde me foi oportunizado discutir em alguns momentos sobre as questões que eram suscitadas em minha prática), o que penso que seria necessário, pois vislumbro que essas experiências podem influenciar de forma bastante incisiva nos rumos da formação acadêmica.

É importante perceber que as experiências docentes precoces se concretizaram num momento crucial na formação dos profissionais do ensino - a formação inicial. Visto dessa forma, o acadêmico-docente pode proporcionar o embate dos conhecimentos produzidos academicamente, com os saberes que são construídos no cotidiano escolar, para sua prática pedagógica.

Vale ressaltar que o sistema de ensino capixaba abre a possibilidade de nos tornarmos professores muito cedo, proporcionando um considerável número de acadêmicos-docentes nas escolas, em todas as disciplinas. Aliado a isso, está a política de não realização de concursos públicos, o que tem aumentado a cada ano o déficit de professores nas redes; a pouca atratividade dos salários que são pagos, dentre outros problemas, numa política que privilegia o privado em detrimento do público.

É importante destacar que foi a partir de minhas experiências na escola que direcionei meus estudos e conseqüentemente minha formação, para buscar uma prática pedagógica que viesse ao encontro das exigências da disciplina que leciono. Dadas essas circunstâncias, cabe identificar em que medida as experiências docentes precoces e a formação inicial se inter-relacionam, e em que pontos se distanciam? Que pistas podem ser fornecidas por essas experiências para a melhoria dos cursos de licenciatura? São questões que ainda demandam maior esforço teórico e aprofundamento.

As experiências docentes precoces acontecem num momento que podem enriquecer sobremaneira o trabalho pedagógico, consolidando uma formação inicial com alicerces mais rijos. O aproveitamento dessas vivências pode ser considerado como o reconhecimento das influências que o cotidiano escolar possui na construção da identidade docente. Pois, se por um lado pode engendrar práticas que se queiram mais inclusivas, por outro, pode favorecer até mesmo a saída do candidato a professor da escola.

Minha preocupação com essa temática pode ser atribuída ao fato de acreditar veementemente que as experiências docentes precoces durante a formação inicial, independentemente dos motivos que levaram os acadêmicos a realizá-las, são decisivas para sua formação, com influxos decisivos para os futuros rumos profissionais.

Considerações: Um final como recomeço

A questão que me dispus investigar vem de certa forma lançar um desafio para a formação inicial, pois tenta articular os saberes que são constituídos nas docências precoces aos currículos. Inicialmente tem apresentado limitações, aliás, talvez não tenham percebido o enorme potencial formador que essas experiências como professor já na formação inicial possuem. Uma grande questão está em como valorizar os saberes pedagógicos, "[...] o saber que o professor constrói no cotidiano de seu trabalho e que fundamenta sua ação docente, ou seja, é o saber que possibilita ao professor interagir com seus alunos, na sala de aula, no contexto da escola em que atua" (AZZI, 2002, p. 43).

Linhares (2003) afirma que o tempo e espaço em nossa contemporaneidade deve ser redimensionado para a construção de outras formas de racionalidade e política, tendo essas que contrapor os modelos superficiais de ensino, nos quais a aprendizagem adquire um sentido de produto e não de processo. Nesse ensejo, vejo o preenchimento de uma lacuna que pode ser realizada pelo acadêmico-docente, em virtude desse estar em meio a vários processos: na formação inicial, no cotidiano escolar; e, por essa relação direta com esses dois universos, pode ter em mãos um maior leque de fontes de conhecimento para sua reflexão. Por isso, vejo na graduação o momento de aproveitar as experiências docentes precoces, devido aos alunos estarem mais suscetíveis a mudanças de atitude, por serem ainda os contatos iniciais com uma carreira, por estarem mais afeitos a novas experiências/possibilidades, pelo caráter de menor responsabilidade que pode ser atribuído, por ainda não se ver como um profissional habilitado. Para tanto, é preciso sistematizar uma epistemologia dos saberes práticos a partir das experiências docentes precoces e que, por meio dessa, possa ser veiculado um conhecimento que consolide uma formação de professores que, diante dos problemas surgidos no cotidiano escolar, tenham sustentáculo prático/teórico, e, por conseguinte, possibilidade de produzir um novo saber para a situação que se apresente.

A temática aqui discutida ainda demanda maiores esforços na busca de uma melhor compreensão dos elementos que se fazem envolvidos. Contudo, não tenho a pretensão de estabelecer nenhuma verdade e sim instigar o debate, para que fiquemos atentos às experiências profissionais que são realizadas pelos acadêmicos durante a formação inicial, dada a sua dimensão formativa.


Obs
. O autor, prof. Mauro Sérgio da Silva (maurosdasilva@yahoo.com.br) é professor da rede municipal de Vitória - ES e membro do grupo de estudos "Nós" da Escola e doLESEF /CEFD/ UFES

Referências

  •  Azzi, S. Trabalho docente: autonomia didática e construção do saber pedagógico. In PIMENTA, S. G. (Org.). Saberes pedagógicos e atividade docente. São Paulo: Cortez, 2002, 3a ed., p. 35-60.
  • Bracht, V. Educação física & ciência: cenas de um casamento (in)feliz. Ijuí: Unijuí, 1999.
  • Linhares, C. F. Órfãos de guerra? A educação nos labirintos de tempos e espaços contemporâneos. In VIELLA, M. A. L. (Org.). Tempos e espaços de formação. Chapecó: Argos, 2003, p. 13-47.
  • Molina Neto, V. Etnografia: uma opção metodológica para alguns problemas de investigação no âmbito da educação física. In Molina Neto, V.; Trivinos, A. N. S. (Org.). A pesquisa qualitativa em educação física. Porto Alegre: UFRGS/Sulinas,1999, p. 107-139.

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