As Práticas Corporais em Evidência no Programa Tempo de Aprender

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58 Reunião Anual da SBPC

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INTRODUÇÃO:

A pesquisa enfocou os impactos do Programa Tempo de Aprender (PTA) nas práticas corporais dos alunos de uma turma de uma escola da rede pública de ensino. A partir das diretrizes do PTA, foram modificadas a organização da escola e seus princípios pedagógicos. Este Programa utilizou como referencial a teoria da atividade, fundamentada na concepção histórico-cultural. A análise dos códigos e normas presentes na escola contribuiu para um entendimento das relações dos profissionais da escola e suas implicações nas práticas corporais dos alunos. A pesquisa teve como objetivos: (1) investigar os processos de controle e apropriação presentes nas relações entre o Estado, as classes populares e a escola; (2) investigar as relações sociais ocorridas no cotidiano da escola onde o PTA estivesse em andamento. Buscamos, com estes objetivos, o relacionamento entre: (a) possíveis transformações das práticas corporais dos alunos e (b) novos ordenamentos do ambiente escolar decorrentes da implementação do PTA.


 METODOLOGIA:

Baseamo-nos em Ezpeleta & Rockwell (1986) quanto à orientação teórico-metodológica. Para estas autoras a etnografia deve ser entendida como um "enfoque" ou "perspectiva", onde método e teoria relacionam-se sem esgotarem os problemas que surgem a partir dessa relação. Desta forma, o trabalho etnográfico deve ser concebido a partir de questões teóricas que se articulam na construção do objeto de estudo, sustentando a tarefa de observação e interpretação das realidades desconhecidas. Esta pesquisa, de caráter etnográfico, ocorreu numa escola da rede pública estadual de Santa Catarina, em Florianópolis, numa das quatro turmas de 5ª série. O principal meio de coleta de dados da pesquisa foi a observação participante. Compreendemos a observação como uma organização da visão, dado que utilizamos uma série de noções que possuíamos antes, estruturadas a partir de nossa questão de pesquisa. Todas as aulas observadas foram descritas em diário de campo, numa espécie de relatório de cada aula (protocolo de observação 1). Foram realizadas observações participantes de 24 alunos(as) da turma investigada durante a sua presença nas dependências da escola, de acordo com protocolo de observação 2 e diário de campo. Também fizemos levantamentos e análises de dados em documentos oficiais da Secretaria de Estado da Educação e do Desporto de Santa Catarina e da escola, referentes às políticas públicas relacionadas com o ambiente escolar pesquisado e ao planejamento das disciplinas investigadas.

RESULTADOS:

Em nossa pesquisa diagnosticamos que a escola investigada era depredada e apresentava altos índices de reprovação e evasão. O PTA surgiu como resposta do governo do Estado de Santa Catarina à distorção idade/série, tendo como referencial a teoria da atividade de aprendizagem. Houve um nítido declínio das sanções objetivas como a violência física, representando um declínio do poder das normas na instituição escolar. As punições foram sendo gradativamente substituídas pela idéia de autocontrole como necessidade para a vida em sociedade. A Educação Física deixou de ter como foco certos objetivos específicos, participando do PTA numa perspectiva interdisciplinar, buscando a valorização da escola. Dessa forma, acreditamos que o PTA tenha atingido seus objetivos na escola pesquisada, pois vêm modificado sua organização, criando as condições para a transformação das práticas corporais dos alunos e professores envolvidos no cotidiano escolar. Contudo, pensamos que a escola deve retornar ao Estado os resultados desta experiência, como forma de mostrar que a educação pública de qualidade pode ser realizada desde que as condições sociais de cada unidade escolar sejam reconhecidas e que as condições objetivas para o desenvolvimento da proposta sejam garantidas.

CONCLUSÕES:

Podemos notar que o critério do gosto na realização das atividades na busca do prazer começou a fazer-se cada vez mais freqüente nos processos de interação do cotidiano escolar. Esta constatação convenceu-nos de que para as nossas crianças e adolescentes o valor da escola está nos seus conteúdos, principalmente quando estes parecem úteis para a vida daqueles e, além disso, prazerosos ao serem vivenciados. Em outras palavras, o controle por parte do Estado através das normas impostas em seus documentos oficiais (tais como as portarias e os livros da Proposta Curricular do Estado de Santa Catarina) influencia na transformação das práticas corporais daqueles que vivenciam o cotidiano escolar. Contudo, as formas de apropriação destas políticas públicas pelos professores, administradores e alunos geram outros ordenamentos, conhecimentos e resultados que se diferenciam das expectativas do Estado no momento em que fomenta tais políticas públicas para a educação. Na escola investigada, o PTA desencadeou um processo de atuação coletiva entre os professores, buscando ensinar os alunos a gostar e desgostar da escola, ampliando o leque de experiências dos mesmos, levando o gosto, a utilidade e a norma para o ato de ensinar/aprender. As brincadeiras e os brinquedos mostraram-se como ótimos instrumentos para realização desta tarefa. Concluímos que as diretrizes presentes no PTA contribuíram para a transformação das práticas corporais dos indivíduos que se relacionam no cotidiano escolar.

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