As Representações Sociais da Escola Pública Para Formandos do Curso de Educação Física

Por: Juliana Santos Costa.

X EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

A partir das aulas da disciplina Didática Especial/Prática de Ensino (2006/1), do curso de Licenciatura em Educação Física da EEFD/UFRJ, que a idéia deste estudo fora elaborada. Estas são disciplinas que compõe o currículo obrigatório na formação de professores de Educação Física, que enfatizam o processo pedagógico em escolas. As experiências citadas a seguir são oriundas de quinze alunos deste curso, que é da rede federal de ensino superior, onde o incentivo e a valorização do sistema escolar público deveria ser realidade.

Buscou-se através das experiências vivenciadas pelos graduandos em fase final de formação levantar as representações sociais da escola pública, a partir das experiências anteriores ao curso, bem como as adquiridas no processo de formação. Cabe destacar que apesar do curso oferecer formação plena, com o foco na área escolar, grande parte dos alunos busca tal formação motivados pelas práticas não-escolares e atuações nestas áreas, sem o conhecimento de que a maior oferta de atuação profissional é na área escolar:

"Sou formada pelo Bacharelado da UFRJ, quando saí da faculdade não tinha a menor vontade de dar aulas em escola porém com o tempo fui desgostando do meio do Fitness e isso fez com que eu retornasse para a Faculdade para a complementação pedagógica que me habilita a ministrar aulas em escola" (Aluno 1).

Entendemos, assim com Jodelet (1989), representações sociais como "uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, tendo uma visão prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social" (p.36).

Estaremos apresentando dados que influenciam a construção de representações sociais de escolas públicas da cidade do Rio de Janeiro, favorecendo um confronto de idéias do discurso ideológico dominante com a experiência vivida, na intenção de desmistificar a realidade das escolas públicas.

Um dos princípios da Universidade, especialmente a pública, é a socialização e a estimulação do fluxo de conhecimento pela sociedade.

Tendo compromisso com esta, e a preocupação de formar pessoas críticas, deve informar e discutir o status quo, acusando necessariamente o sistema sócio-político-econômioco vigente - o sistema capitalista neoliberal, e suas relações com o mundo do trabalho.

Identificamos nestas experiências um discurso que difunde certo consenso durante a formação dos alunos. Este discurso é entendido como disseminador das idéias das classes dominantes da sociedade, apontando área de atuação preferencial do professor o mercado Fitness e de Alto-rendimento, em detrimento da Escola, e em especial a Escola Pública: "Meu foco principal é ser técnica de voleibol, mas também pretendo fazer um concurso pra o município" (Aluno 2). Temos a representação destas classes pelos setores conservadores e corporativistas da Educação Física, que aliaram-se de modo imediatista às questões de avanço do neoliberalismo e investiram num outro campo de atuação profissional, o das práticas corporais do meio não-escolar, por meio da regulamentação da profissão de Educação Física (NOZAKI, 2004). Observamos na seguinte fala: "Estou fazendo um curso do CREF de especialização em ginástica localizada, porque antes do estágio na escola não tinha pretensão nenhuma em trabalhar neste ambiente" (Aluno 3).

O que ouvimos...

Ouvimos pouco a respeito da escola, sobretudo da escola pública, durante a formação acadêmica e, na maior parte das vezes, quando escutamos algo de um professor, esta não é apontada como um lugar bom de trabalhar, de atuação gratificante, de emprego razoavelmente estável. Pelo contrário. Poucos professores quando discutiam a escola, sobretudo a pública, apontavam estes aspectos.

A realidade da escola pública, normalmente, tinha sua forma distorcida. A formação desse possível preconceito pode estar baseada em uma grande realidade da Rede Pública de Ensino. No entanto, é apenas uma realidade, quase que estereotipada, que vem sendo evidenciada durante os cursos: "não notei satisfação por parte dos professores da graduação no que diz respeito às escolas públicas.

Muitos acham uma instituição falida" (Aluno 4).

Somando-se a isso, o teor das aulas, muitas vezes de disciplinas especificamente "escolares" era desconectado da área "escola", sendo apontado o "fitness" e o "alto-rendimento" nos exemplos; assim como este próprio mercado como sendo o de melhor acesso e emergente, mascarando novamente a realidade e o contexto em que se encontram ambas as áreas, tanto a escolar, quanto a informal: "Por exemplo, na disciplina recreação não consegui associar os conteúdos com escola" (Aluno 5).

O apontamento para o mercado de fitness e alto-rendimento perpetua as relações existentes na sociedade, notadamente as de exploração do trabalhador e de elitização do conhecimento: "Antes de entrar na faculdade pensava que o curso era prática de esporte e lazer e pensava em trabalhar como personal trainer" (Aluno 6).

A exploração do trabalhador fica evidente quando a remuneração é baixa. Isso é uma situação superficial, sendo conseqüência de uma reserva de mercado, feito durante a formação dos alunos nos cursos, aumentando assim a competitividade e a sujeição a condições de trabalho frágeis, como a não-efetivação dos direitos trabalhistas e conseqüente desvalorização do professor: "Trabalho há 6 anos como professor de musculação e nunca tive carteira assinada" (Aluno 7).

Outro apontamento interessante a esse respeito é que são mercados restritos, elitizados, pois se referem a clubes, academias e outros espaços informais, normalmente pagos, tornando o acesso da maior parte da população inviável.

Paralelamente perpetua as relações existentes em nossa sociedade de exploração, temos a exaltação dos "melhores", a discriminação daqueles que "vencem" e que "perdem", o acesso aos que "podem", durante estas atividades exercidas. O conhecimento gerado pela Universidade, continua assim, mal-distribuído e reservado a uma pequena parcela da sociedade.

Identificamos uma aversão de grande parte dos graduandos com relação às condições de trabalho que supostamente seriam encontradas na rede pública de ensino, seja pela infra-estrutura, pela falta de material ou pela comunidade da escola: "Minha vivência na faculdade de Educação Física não enfocou a realidade das escolas públicas, a maioria dos professores não falava sobre essa realidade, só uns dois que falavam que era importante ter uma estabilidade e fazer um concurso público para professor" (Aluno 8)
O que vimos...

A partir das vivências de Prática de Ensino em Educação Física em duas escolas municipais José Eduardo de Macedo Soares e Bento Ribeiro, localizadas no Bairro Méier e, em visitas a outras escolas públicas, podemos verificar que a estrutura organizacional é adequada ou suficiente para a realização das atividades.

Foi constatado no processo de ensino-aprendizagem, uma metodologia coerente à proposta pedagógica da escola, a qual busca levar em consideração, as vivências acumuladas pelos alunos bem como o contexto que estão envolvidos.

Dessa forma, destacamos que os espaços onde as aulas são realizadas, como quadras e auditórios, são amplos em uma escola apresentando arquibancada, tabela e marcação na quadra e com espaço excedente: "Ficamos surpreendidos com o espaço que nos deparamos, tem até um espaço gramado e rede no gol" (Aluno 9). O mesmo foi observado em relação ao material, o qual é compatível à necessidade, para a execução das aulas. A escola possui uma quadra em ótimo estado, e o material utilizado está muito bem cuidado: "todas as duas tinham quadras e materiais como, bola de futsal, vôlei e basquete, todas tinham aula duas vezes na semana" (Aluno 10).

As professoras de Educação Física preocupam-se com a qualidade de suas aulas e em alcançar seus objetivos. A relação aluno-professor e professor-aluno parece ser harmônica e prazerosa. Observamos a existência de um diálogo entre as professoras de Educação Física com os demais componentes do corpo docente, assim como a direção e supervisão pedagógica. Estes dados são referências para uma gestão escolar participativa: "Percebo uma interação entre as professoras, sobretudo entre o comportamento e rendimento dos alunos. Cabe ressaltar que as condições observadas nestas escolas não podem ser generalizadas a todas escolas municipais do Rio de Janeiro" (Aluno 11).

Conclusões preliminares

Paradoxalmente, ainda hoje, a maior área de atuação para os professores de Educação Física é a escola pública. E é realmente onde o conhecimento pode ser socializado com a maior parte da população, e a presença deste, normalmente necessária. Simultaneamente, ainda há muita mistificação referente à realidade da escola pública, e que deve boa parcela à formação das representações dos alunos, com relação a essa Escola, pelos professores durante os cursos.

A formação das representações sociais da Escola Pública, e a ênfase à procura do mercado Fitness e Alto-rendimento, durante os cursos, vai ao encontro do discurso do sistema CONFEF/CREF´s. A criação do sistema, assim como do curso de Bacharelado (ou mais recentemente chamado de Graduação) e da regulamentação da profissão legitima o status quo de nossa sociedade. O sistema não apresenta intenção alguma de interferir nas relações de exploração do trabalho vigentes, favorecendo a classe dominante/opressora, aqui representada, por exemplo, pelos donos de academias e clubes; colaborando para a exploração tanto dos já formados professores, tanto dos ainda alunos formandos.

Dessa forma, destacamos como conclusões preliminares deste estudo, representações sociais da escola pública, diferenciadas em antes e depois das experiências das disciplinas Didática Especial/Prática de Ensino. Inicialmente as representações eram de um ambiente onde uma educação de qualidade, especialmente em Educação Física, era difícil de acontecer devido às carências relacionadas ao ambiente escolar como de recursos humanos, de materiais e da comunidade. Posteriormente as vivências mostraram que existem escolas com estas dificuldades, mas que é possível desenvolver um trabalho, de qualidade com as comunidades escolares envolvidas.

Do mesmo modo, a existência de escolas com condições favoráveis a esta educação foi identificada também.

Obs. Os autores Juliana Santos Costa (julianasc@oi.com.br), Bruno Rodolfo Martins (brunorm@ufrj.br), Cínthia Ramos de Pinho Barreto (cinthiaufrj@hotmail.com), Rodrigo de Oliveira Alves Nascimento (droan@globo.com) e Luciano Perrota da Silva (luciano_perrottaa2hotmail.com) são da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Referencias bibliográficas

  • Jodelet, D. Réfletion sur le traitement de la notion de représentation sociale en psychologie sociale. Communication Information, 1984. (2 e 3): p.15-41.
  • Libâneo, J.C. Educação Escolar: políticas, estrutura e organização. São Paulo: Cortez, 2005.
  • Nozaki, H. T. Educação Física e reordenamento no mundo do trabalho: mediações da regulamentação da profissão. Tese de Doutorado (Doutorado em Educação) - Niterói: UFF, 2004.
  • Relatórios de prática de ensino. Requisito para obtenção de conclusão da disciplina Didática Especial na UFRJ. 2006.

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