Avaliação em Educação Física

Por: Marco Antonio Santoro Salvador.

VI EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Avaliação e poder

Apesar de ser considerado como o momento mais importante e temido por alunos e seus respectivos pais, no processo ensino-aprendizagem do cotidiano escolar, acredito que avaliação continua detendo a liderança dos aspectos pedagógicos menos pesquisados em Educação Física Escolar. Talvez por revelar as limitações e as incoerências de nossas metodologias e objetivos educacionais de nossa prática pedagógica e, quem sabe, por denunciar nossas tendências autoritárias que se revelam na prática da avaliação e nas conseqüências diretas na relação com os nossos alunos.

O que se pode constatar é que, pesquisando alguns anais de congressos relevantes em Educação Física Escolar, a quantidade de trabalhos sobre o tema é ínfima em relação à importância que a avaliação ocupa no processo pedagógico escolar. Como exemplo, destaco o X Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE), realizado em outubro de 1997, no qual se constata apenas dois trabalhos apresentados especificamente sobre a questão do processo de avaliação em Educação Física Escolar, entre centenas de trabalhos inscritos.

A minha hipótese é a de que, dentre outros fatos, tendemos a refutar o que nos causa desconforto e conflito de forma significativa por não encontrarmos condições necessárias para a superação e por temermos a perda do poder de nossa autoridade como professores e, se eu estiver certo, as poucas pesquisas refletem esta hipótese.

O que tem sido revelado é o quadro contraditório em que a escola se encontra, reproduzindo um discurso democrático e crítico, mas na realidade desenvolvendo uma prática autoritária e tradicional (Mizukami, 1986).

De acordo com essas reflexões, arrisco afirmar que a prática escolar da avaliação tem servido mais como instrumento de controle e seletividade dos alunos, do que um diagnóstico que revele os resultados do processo ensino-aprendizagem de alunos e professores, no contexto escolar, nos seus êxitos e nos seus fracassos.

Souza (1993), em sua pesquisa com professores de Educação Física Escolar do Estado do Rio de Janeiro, constatou que na sua amostragem de 36 docentes pesquisados em seu processo de avaliação escolar, um total de 26 professores avaliavam na forma tradicional (clássica), 1 professor avaliava na forma humanista (de caráter psicológico) e 9 professores não apresentavam características suficientes que pudessem classificar as suas tendências em avaliação escolar, ou seja, na tendência crítico social ou participativa; nenhum professor a praticava no processo ensino-aprendizagem em Educação Física Escolar.

Se levarmos em conta que a última tendência citada valoriza a participação mútua e permanente entre professores e alunos em um mecanismo de constante diagnóstico no cotidiano das aulas, num processo de avaliação recíproca entre todos, buscando um olhar crítico da realidade social, estamos constatando um sério hiato entre o discurso e a prática de nossa avaliação escolar e conseqüentemente em nossa prática pedagógica.

Mensuração ou diagnóstico

Rodrigues (1988) considera que o processo de avaliação não pode ser medido simplesmente numa balança ou fita métrica. Para o autor, avaliar é verificar como o conhecimento está se incorporando no educando e como este modifica sua compreensão de mundo, elevando a sua capacidade de participar da realidade em que está vivendo.

A avaliação deve ser um processo contínuo no cotidiano das aulas, no qual alunos e professores podem dialogar sobre conteúdos e métodos em busca da construção do conhecimento. A aprendizagem deve se desenvolver em um ambiente solidário em que as partes envolvidas tenham de cooperar na superação de obstáculos e de seus conflitos que surgem deste processo, e a avaliação deste conjunto deve se realizar de forma crítica e transparente.

O professor deve deixar bem claro sobre o que vai avaliar, como avaliar, para quê avaliar e o que pretende atingir neste processo, motivando os alunos a participarem desta construção.

Fensterseifer (1997) analisa que o processo de avaliação também é uma ação eminentemente social, não sendo apenas uma atividade de um sujeito isolado nem mera atividade técnica, mais que isso, é um produto social de um certo tipo de sociedade que mantém profundas contradições em seu arcabouço, produzindo desigualdades sociais entre os seres humanos, tentando convencer que esta diversidade social é um fato natural.

Devemos reavaliar o processo de avaliação e conseqüentemente o processo pedagógico, questionar os seus objetivos e metodologias e redimensionar o nosso papel social na busca de uma sociedade mais justa e democrática, que ofereça oportunidades iguais a pessoas diferentes, que construa o conhecimento voltado para o bem-estar de todos e não apenas o de uma classe social.

É necessário redescobrir o prazer da descoberta, construir um caminho que priorize a autonomia e a emancipação no processo ensino-aprendizagem, para que a avaliação possa servir como diagnóstico de alunos e professores, transformando estas reflexões em ações e, assim sucessivamente, avançando o sistema de interrelações na escola.

Na avaliação por mensuração, tendemos a quantificar elementos subjetivos, que compõem o universo humano como gestos, atitudes, emoções, concepções, dentre tantos outros aspectos. O poder do professor, pela esfera do saber e da especificidade de conteúdos, desvela, de um lado, o dono das informações e, de outro, os alunos apenas como receptores destas mensagens, que serão traduzidas em pontos, décimos e centésimos para quem melhor reproduzir o conhecimento oferecido pelo professor. O processo tende a se tornar desinteressante, sem desafio, sem significado, desprazeroso, sem criatividade, sem diálogo, ou seja, sem vida.

Reproduz-se uma competição velada sobre vencedores e perdedores, reforçando uma tendência da sociedade, traduzida em atitudes individualistas e em comportamentos submissos ou indiferentes (alienados), corroborando com o intrincado sistema social hierárquico em que vivemos.

Portanto, acredito que o processo de avaliação deve servir como diagnóstico para o avanço do conhecimento na esfera da escola atenta às dificuldades dos educandos na compreensão da realidade em que vivem, oferecendo novas oportunidades de conhecimento, levando-se em conta as limitações tanto de professores quanto de alunos.

É necessário ressaltar que para se vislumbrar um processo de avaliação nestes moldes, é preciso estar fundamentado em um conhecimento maior, em um conjunto de idéias mais aprofundadas, que é uma pedagogia que assume clara posição de uma educação de tendência crítica e transformadora desta realidade social, pois, falar em avaliação é assumir um tipo de ideologia, uma concepção de mundo, uma atitude de transformação, uma coerência entre o discurso e a prática.

Entre ensaios, experiências e pretensões

Arrisco afirmar novamente que o processo de avaliação é o espaço mais delicado e intocado do processo pedagógico talvez, também, porque a sedução do poder seja tão forte que, constantemente, por nossas inseguranças ou por falta de controle, proporcionado pela situação de avaliação, se torne tão difícil transpor em suas contradições, pois, são os nossos valores, de uma educação geralmente tradicional, em confronto com uma concepção dialética e transformadora. Afinal, são tantos dogmas rígidos que construímos pela vida...

Enfocando especificamente a Educação Física Escolar, vamos encontrar no movimento humano a sua expressão corporal como linguagem, que é o nosso objeto de estudo.

No campo pedagógico, encontraremos na tendência crítico-social dos conteúdos (Libâneo, 1987) nosso referencial teórico que analisa, em síntese, que a atualização da escola consiste na preparação do aluno para o mundo adulto e suas contradições, fornecendo-lhe um instrumental por meio de condições de conteúdos e da socialização para uma participação organizada e ativa na democratização da sociedade (p. 30).

No campo da Educação Física, tomamos como referencial a proposta denominada de cultura corporal (coletivo de autores, 1992), cuja visão de indivíduo e de sociedade referenda nossos anseios e nos proporciona elementos de uma prática pedagógica transformadora; assim busca desenvolver uma reflexão pedagógica sobre o acervo de formas de representação do mundo, que o homem tem reproduzido no decorrer da história, exteriorizadas pela expressão corporal: jogos, danças, lutas, exercícios ginásticos, esporte, malabarismo, contorcionismo, mímicas e outros, que podem ser identificados como formas de representação simbólicas de realidades vividas pelo homem, historicamente criadas e culturalmente desenvolvidas (p. 38).

Assim, a proposta se baseia nestes dois referenciais, levando-se em conta as condições de trabalho que as escolas públicas oferecem (Escola Estadual Visconde de Cairu e Colégio Pedro II) e a diversidade dos diferentes grupos de estudo de cada escola, cada qual com sua construção específica, pelo acúmulo de estudos em livros, textos e periódicos, por vezes diferentes, e pelas direções trilhadas de acordo com as concepções político-pedagógicas dos grupos. Portanto, tentarei sintetizar as experiências escolares, nos seus campos de confluência, me arriscando a apresentar um projeto que possa unificar estas duas experiências bem próximas, fruto de exaustivo processo de professores anônimos das duas escolas que acreditam em uma educação transformadora e portanto uma utopia de contribuir na construção de um mundo melhor.

Graças à oportunidade desta conferência, tenho a honra de representar os dois grupos acima citados. A proposta tem como princípios norteadores a valorização das experiências acumuladas pelos alunos, a aplicação de conteúdos ligados a sua realidade e significação social, a valorização da cultura popular, a afirmação da auto-estima e a utilização de uma avaliação que identifica conflitos no processo ensino-aprendizagem e suas superações.

A proposta sugere a realização de diagnose com os alunos, objetivando a composição do seu perfil e suas expectativas, para montarmos o processo de avaliação de forma significativa.

Nossa avaliação se baseia em processo contínuo, cumulativo e qualitativo, com a participação ativa dos alunos, valorizando a atitude crítica, o sentido de coletividade, a reflexão, o compromisso com o grupo e a apreensão dos conteúdos técnicos específicos de forma individualizada.

Os instrumentos utilizados para a realização da avaliação compreendem uma ficha de observação do professor e um relatório individual do aluno, constando os mesmos itens de avaliação da ficha do professor.

Os critérios do processo de avaliação são de caráter tanto objetivo quanto subjetivo que interagem no cotidiano escolar das aulas. Estes se dividem em 3 blocos assim denominados: Formação do Cidadão (autonomia, criticidade, auto-estima, respeito coletivo, cooperação, participação), Utilização Prática Consciente do Desempenho Motor (coordenação motora, ritmo, lateralidade, orientação espacial, agilidade) e Aspectos Técnicos Cognitivos Assimilados (abstração, formulação de questões e de hipóteses, contextualização do tema com a realidade do seu cotidiano e experimentação prática dos conteúdos apreendidos).

E as principais estratégias eleitas para suporte do processo de avaliação são a diagnose, a auto-avaliação, a construção de regras coletivas e desportivas, os jogos populares e cooperativos, os debates e os trabalhos em grupo, a organização de eventos esportivos e culturais entre outros.

Entre avanços e recuos, construímos estes ensaios teóricos e práticos com a pretensão de superar as contradições entre o discurso e a prática pedagógica em Educação Física Escolar, esperando que possa ter contribuído na reflexão dos leitores.

Obs. O autor, Marco Antonio Santoro Salvador, é professor do Colégio Pedro II e da rede estadual do Rio de Janeiro

Referências bibliográficas

  •  Fensterseifer, Alex. Possíveis caminhos para avaliação. GTT. 1.13 - Anais do X Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte. Goiânia, outubro de 1997.
  • Freire, João Batista. Educação de Corpo Inteiro: Teoria e Prática da Educação Física. São Paulo: Scipione, 1997.
  • Libâneo, José Carlos. Democratização da Escola Pública. A pedagogia Crítico-social dos conteúdos. São Paulo: Ed. Loyola, 1987.
  • Metodologia do ensino de Educação Física. Coletivo de autores. São Paulo: Ed Cortez, 1992.
  • Mizukemi, M. G. N. Ensino e as abordagens do processo. São Paulo: EPU, 1986. Documento do projeto de Capacitação de Docentes. Departamento de Educação Física e Folclore. Colégio Pedro II: maio, 2001.
  • Rodrigues, Neidson. Da mistificação da escola à escola necessária. São Paulo: Ed.Cortez, 1998.
  • Salvador, Marco Antonio Santoro. A questão da autoridade nas aulas de Educação Física: da desigualdade necessária à busca da igualdade essencial. Monografia de Pós-Graduação Lato Sensu em Educação Física Escolar. Niterói: UFF, 2001.
  • Sarmento, Diva Chaves (org.). O discurso e a prática da avaliação na escola.Juiz de Fora: EDUFJF, Ed. Pontes, 1997.
  • Souza, Nádia. Tendências em avaliação em Educação Física. In: VOTRE, Sebastião (org.) Ensino e ava-liação em Educação Física. São Paulo: Ed. IBRASA, 1993.

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