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“A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será.” (Eduardo Galeano)

Neste  domingo( 21 de junho)o Brasil terá a Venezuela pela frente. Pensando no definição de Eduardo Galeano, não podemos deixar de recuar no tempo e darmos uma espiada ,memorialista, no primeiro jogo contra a Venezuela nas eliminatórias de 1969.

João Saldanha,  comunista  assumido,dirigente do PCB,  era o técnico.Um técnico independente que nunca admitiu, nem durante a fase mais feroz da ditadura , interferências na convocação.Caiu por isso, e pelas denuncias contra torturas e assassinatos de presos políticos no pais, como a de seu amigo Carlos Marighella ,em novembro de 1969.

Mesmo tendo montado a base da seleção tricampeã no México não resistiu. Saldanha também não  dava entrada  para interesses comerciais , mercantilistas. Barrava qualquer mutreta.Não custa lembrar que foi a primeira Copa transmitida  ao vivo para todo o mundo. Os interesses escusos e as propinas engatinhavam no futebol mundial e brasileiro.João Havelange, presidente  da antiga CBD começava sua trajetória de “negociante do futebol”.Uma prévia do que estamos assistindo.

Mas neste primeiro jogo contra a Venezuela , temos uma passagem inédita, reveladora e muito engraçada. Bons tempos aqueles.Boas risadas e lembranças que não podem ser esquecidas.

Afinal como disse Dario Fo , dramaturgo italiano, premio Nobel de Literatura,  “ o riso libera o ser de um peso para dar coragem.É a relação entre o medo e o falso medo, é o desequilíbrio equilibrado.”

A chave do Brasil para as eliminatórias para a Copa do México, apontava como adversários Colômbia, Venezuela e Paraguai em jogos de ida e volta. A estréia da seleção ocorre no dia 6 de agosto de 1969, Bogotá, com vitória do Brasil por 2 a 0, dois gols de Tostão. Para este jogo a Seleção passa por um período de adaptação a altitude de Bogotá, chegando com 20 dias de antecedência ao local do jogo.

Escalações:     Brasil – Félix (Fluminense), Carlos Alberto Torres (Santos), Djalma Dias (Atlético Mineiro), Joel Camargo (Santos), Rildo (Santos), Piazza (Cruzeiro), Gérson  (Botafogo), Jairzinho (Botafogo) (Paulo César Caju) [Botafogo], Tostão (Cruzeiro), Pelé (Santos), Edu (Santos).

Colômbia – Largacha, Segrera, O. Lopez, Castro, Segovia, Garcia, Agudelo , Tamayo, Gallego (Santa), Ortiz, Brand.

Gols: Tostão (2)

Saldanha manteve praticamente o mesmo time durante os seis jogos das eliminatórias. As substituições realizadas, obedeciam a variações do desenvolvimento tático dos jogos e pequenas contusões. Mudanças mais importantes, somente no inicio de 1970.

O segundo jogo contra a Venezuela no dia 10 de agosto em Caracas, foi fácil. 5 a 0.  Três gols de Tostão e dois de Pelé. Nesta partida, porém, durante o primeiro tempo, o time passeia em campo de sapato alto, indo para o intervalo com o placar em branco.

Os jogadores perdiam os gols e riam…. Aqui podemos saborear mais uma das tiradas de João e sua presença como técnico

.           Através de citação do site oficial da CBF, podemos conhecer um pouco mais do nosso personagem.

          “A diferença técnica entre as duas Seleções era muito grande, o que apontava para uma vitória de goleada do Brasil. Só que o time não conseguiu se encontrar no primeiro tempo, jogou um futebol abaixo de suas possibilidades, e por isso a expectativa de muitos gols se viu frustrada no 0 a 0 com que o jogo se encerrou na primeira fase.

          À beira do campo, furioso com a atuação da equipe, João Saldanha esperava impaciente que os jogadores se dirigissem ao vestiário. Quando isso aconteceu, encontraram a porta fechada – as chaves estavam nas mãos de Saldanha, que foi logo gritando.

          – Não vou dar instrução nenhuma. Para jogar esse futebolzinho que vocês jogaram, nem adianta. Voltem lá e façam o que vocês sabem!

          Os jogadores reagiram. Argumentando que precisavam beber água, utilizar o banheiro, insistiram para Saldanha abrir o vestiário.

          – Não tem água, não tem nada! No vestiário ninguém entra – falou Saldanha.

O time voltou direto para o campo, como confirma o capitão Carlos Alberto Torres.

          – Ele não abriu mesmo, apesar dos pedidos. Ainda disse que os venezuelanos não jogavam nada e que a gente tinha obrigação de vencer por goleada.

No link o próprio Saldanha e  Gérson contam a história.Ao fundo Carlos Alberto   Torres.Vários gols do Brasil. Em 1 minuto. Retirado do documentário “João”de Beto Macedo e André Siqueira.

https://www.youtube.com/watch?v=C_uky9BMNoI

Dos jogos das eliminatórias, já se sabia que o mais difícil, o mais tenso seria contra o Paraguai, em Assunção, marcado para 17 de agosto de 1969. Com atuação irrepreensível, o Brasil venceu por 3 a 0, todos os gols no segundo tempo, impondo-se em campo tática e tecnicamente. Além de Gérson, os destaques da partida foram Jairzinho e Edu, em sintonia com o bom posicionamento da defesa, onde Djalma Dias cumpriu jornada de craque.

Os jogos das eliminatórias no Brasil

6 x 2 contra a Colômbia. 6 x 0 contra a Venezuela. 1 x 0 contra o Paraguai. Os três jogos disputados no Brasil pelas eliminatórias para a Copa de 1970, não apresentaram qualquer risco. O último jogo contra o Paraguai registrou o maior público pagante da História do Maracanã – 183.341 pessoas.

Nestas três  partidas, destaque para a atuação do meio campo e  do artilheiro das eliminatórias  Tostão(10 gols), provando com sua categoria que poderia sim, perfeitamente, ser titular ao lado de Pelé.

Até o final, das eliminatórias, sob o comando de João, foram 13 vitórias em 13 jogos….

Obs: Este artigo  tem como base o livro “ Vida que Segue :João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970” .  Nova Fronteira. Organização e  criação de Raul Milliet Filho.

Endereço: http://web.archive.org/web/20150708220109/http://blog.cev.org.br/raul/

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