Brasil Abaixo de Zero

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Blog da Katia Rubio - 2014

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Sou daquelas que costuma ler jornal feito de papel todos os dias durante o café da manhã. Se isso faltar é pior do que não ter Ovomaltine para o leite ou a torrada sem o requeijão, já que não tomo café. Café da manhã sem cheiro de tinta é mais ou menos arroz sem feijão, Romeu sem Julieta, Cosme sem Damião e aquelas tantas duplas já consagradas. Essa coisa de usar mouse ou o dedo pra ficar subindo e descendo tela serve para o resto do dia e que faz sentido em qualquer lugar: no elevador, no meio do trânsito, andando em qualquer lugar, subindo escada ou em meio a aglomerados, ou pior, pra ficar passando recado de um lugar para o outro em meio a uma aula ou reunião em que você deseja expressar suas ideias, mas por algum motivo alheio a sua vontade somente os pensamentos podem ganhar forma. Como se nós professores não soubéssemos interpretar esses gestos historicamente consagrados, no passado com um pedaço de papel e hoje com um arremedo de tecnologia. Ou seja, o tempo passa, mas os comportamentos permanecem os mesmo. Às vezes a juventude é tola e presunçosa.

Mas, esse preambulo todo foi necessário para dizer que uma vez mais saio da mesa do café da manhã de um domingo com a proposta do texto para esse espaço de reflexão que as novas mídias nos proporcionam.

Muito bem, às vésperas da abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno a equipe olímpica desse país tropical se prepara para enfrentar os rigores não apenas do frio de Sochi, mas também todo o esquema de segurança e medo que cercam essa edição olímpica gelada. É muito curioso como se tenta fazer da “festa olímpica” contemporânea um lugar de fantasia e sonho como é Magic Kingdom, em Orlando. Todo mundo sabe, seja da família olímpica ou não, que essa festa mudou radicalmente depois da invasão da Vila Olímpica de Munique, em 1972, quando os atletas passaram a ser protegidos como os Beatles eram no final dos anos 60 ou os pop stars atuais. Hoje fica claro, que mais do que proteger os atletas é preciso proteger o “espetáculo” que atrai tanto público, mas acima de tudo investimentos que não são desse mundo. E lá estão os maiores aparatos tecnológicos para impedir qualquer ação terrorista ou intenção de macular uma vez mais aquilo que foi idealizado no Século XIX para ser um momento de congraçamento entre os povos, uma trégua nos confrontos internacionais ou ainda a reedição de um ritual milenar. Forget it! Claro está que o romantismo que moveu Coubertin e seus contemporâneos a escrever a Carta Olímpica, que, diga-se de passagem, ainda fundamenta o Movimento Olímpico mesmo sendo um documento absolutamente utopista, perdeu-se ao longo do Século XX juntamente com outras tantas utopias. Seria possível imaginar aquelas forças de segurança de filme de ação hollywoodiano atuando conjuntamente com a reinvenção da KGB para proteger um espetáculo globalizado? Isso sim parece uma ficção, mas não é. Assim o mundo se reorganizou e caminha sabe-se lá para onde.

Enfim, se olharmos com atenção as edições olímpicas de verão e de inverno e abstrairmos das competições (para muitos uma manifestação entediante de movimentos agonísticos e acrobáticos) teremos ali retratada a dinâmica de uma sociedade composta de diferentes dimensões culturais agrupadas sob a égide de um movimento dito universalista, amalgamado, porém no cavalheirismo britânico do século XIX. E essa talvez seja a justificativa maior que muitos hoje apresentam para querer participar dessa festa a qualquer custo: fazer de conta que faz parte desse grupo distinto, seleto e desenvolvido. Ser olímpico é fazer parte do mundo desenvolvido.

Já faz tempo que me dedico a estudar e entender a dinâmica do chamado Movimento Olímpico por meio da visão do atleta e parece que quanto mais estudo mais me surpreendo com os achados não da excentricidade desse fenômeno em si, mas de todos aqueles que se envolvem com ele. Sejam atletas, dirigentes ou estudiosos.

Depois de entrevistar mais de mil atletas olímpicos brasileiros penso que já consigo entender um pouco da psicodinâmica desses seres fora do normal, que dedicaram os melhores anos de suas vidas a fazer algo incomum à média humana. São habilidosos, alguns mais fortes, outros mais ágeis e outros tantos velozes, mas o fato é que se distinguem da média porque além de fazerem tudo isso eles têm uma característica que é não sucumbir diante das adversidades, de ter uma obstinação irracional e acima de tudo fazer isso impulsionados por uma paixão avassaladora própria dos realizadores das grandes ações humanas. Resumidamente, esse é o perfil de um olímpico, muito embora nessas minhas andanças mundo afora eu já tenha descoberto três raros exemplares de pessoas que foram atletas por acaso. Sim. Por uma daquelas fatalidades do destino eles acabaram sendo convocados e participaram de edições olímpicas sem ter tudo isso que faz uma pessoa chegar a esse lugar raro. E o que é mais assustador: as consequências em suas vidas foram desastrosas. É mais ou menos como querer que uma Saveiro transporte a turbina de uma hidrelétrica em sua caçamba… Os efeitos são devastadores! Creiam-me. Isso não é uma bobagem. Mesmo que muitos atletas cheguem aos Jogos Olímpicos sabedores das poucas chances que têm de conseguir um bom resultado, ainda assim o estabelecimento de uma meta o faz lutar por aquilo que é possível. O impossível reside apenas na esfera do devaneio!

Voltando ao café da manhã de hoje li sobre a equipe brasileira de bobsled que irá aos Jogos Olímpicos de Inverno nos próximos dias. A primeira coisa que chama a atenção nessa matéria é que uma equipe que competirá a vários graus abaixo de zero em apenas poucos dias ainda está em Ribeirão Preto treinando a 35 graus acima de zero. É incrível pensar que a única referência gelada mais próxima desses obstinados é o chopp que se toma no Pinguim. Mas até aí tudo bem, afinal a Jamaica também já provou que um país tropical pode sonhar em montar uma equipe dessas e sua história fazer sucesso. Mas o que de fato me causa indignação é que nem as condições climáticas, nem os equipamentos usados são de fato próximos da realidade que será enfrentada, repito, daqui a apenas poucos dias. Os atletas brasileiros improvisam o trenó que usarão com carrinhos de supermercado, carrinho de rolimã ou mesmo veículos quebrados. Do ponto de vista humano fico realmente sensibilizada ao ver tamanha determinação em algumas pessoas que sabem que enfrentarão realidades completamente adversas no ambiente competitivo. Lá, como já aconteceu com vários atletas que eu entrevistei, eles contarão com um equipamento de segunda mão, com tecnologia ultrapassada, que não lhes dá qualquer chance de sucesso. Vários países contam com a transferência da expertise de companhias como a BMW, Ferrari, Audi, produtoras dos bólidos mais rápidos que se conhecesse na atualidade e que correm em pistas asfaltadas para as pistas geladas. E os atletas brasileiros estão aqui, no verão abrasador que faz esse ano, empurrando seus equipamentos como se fosse o carro dos Flinstones. Minha incompreensão e espanto forjam então a seguinte questão: Pra que tudo isso? Os atletas parecem muito cônscios de suas limitações e objetivos. Apontam que se ficarem entre as 20 melhores equipes das 30 participantes a meta terá sido alcançada.

Meu contato com os atletas olímpicos de inverno não é grande muito embora já tenhamos entrevistados alguns. Há aqueles que também foram olímpicos, vários deles moram fora do país, alguns nem falam o português pela falta de contato. Mas esse não me parece ser o caso da equipe de bobsled cuja ascendência esportiva está no atletismo.

Diante do aqui exposto fico então com duas hipóteses.

A primeira é que os destemidos atletas encaram e encarnam esse desafio dentro do mais nobre espírito olímpico associado ao romantismo do Século XIX em que o que importava era participar, celebrar o encontro de tantos esportistas. Vale lembrar que essa postura levou Coubertin a se apropriar do conteúdo do sermão do bispo Ethelbert Talbot, da Pensilvânia, durante o ato religioso nos Jogos Olímpicos de 1908 que resultou na máxima “o importante não é ganhar, mas competir”. Até aí nenhuma objeção. Seria maravilhoso que pessoas de todo o mundo, amantes do esporte, do espírito olímpico e do congraçamento entre os povos pudessem ir a Sochi brincar na neve. Mas isso é tão fantasioso como é o desejo de qualquer cidadão do mundo de querer entrar naquela cidadela fortemente guardada por forças internacionais nos próximos dias sem ingressos para as competições.

A segunda é que num arroubo desenvolvimentista espera-se fazer parte de uma festa mesmo sem ter o traje de gala apropriado para isso. E diferentemente da Cinderela, que conta com a ajuda de animaizinhos e fadas capazes de produzir uma roupa linda e mágica para o encontro com o príncipe, e cujo efeito acaba exatamente a meia-noite, mais uma vez os atletas brasileiros passarão por um grupo de bravos, porém precários sujeitos que mostram ao mundo o desejo de dar passos maiores que as pernas. E a Copa do Mundo está aí esse ano apenas para confirmar essa hipótese.

Por katiarubio
em 26-01-2014, às 11:11

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Comentários

Gosto muito de acompanhar as reflexões sobre o tema! Ambas as hipóteses se confirmaram na minha pesquisa sobre os Jogos de Inverno em que tb tive a chance de entrevistar atletas brasileiros em Vancouver 2010:

http://www.cefd.ufes.br/sites/www.cefd.ufes.br/files/Disserta%C3%A7%C3%A3o.%20Doiara.pdf

Acrescento que é mais seguro pensar que entre os pólos extremos do romantismo do século XIX e o ceticismo do século XXI há um grande pêndulo de significados diversos. Um exemplo interessante é o professor Bruce Kid – Professor da Universidade de Toronto. Ex-atleta olímpico, hoje estudioso e crítico do Jogos Olímpicos em muitos aspectos, se coloca como alguém que embora reconheça todas as fragilidades do Movimento Olímpico na contemporaneidade, acredita nos ideais olímpicos como algo que valha a pena preservar.Essa é uma visão peculiar, que envolve a experiência de ter sido atleta e a formação acadêmica. :)

Endereço: http://web.archive.org/web/20140705161603/http://blog.cev.org.br/katiarubio/2014/brasil-abaixo-de-zero/

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