Brincar em Psicanálise: Escutando Professores de Educação de Crianças.

Por: Andrea Giulietti Farias.

2006 28/07/2006

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Resumo

Através do brincar a criança tenta compreender o mundo que a cerca, propiciando condições facilitadoras à sua constituição como sujeito, ao seu desenvolvimento motor, às suas relações sociais e ao seu aprendizado. O objeto de estudo do presente trabalho foi escutar professores sobre o que pensam e como lidam com o brincar. Com o suporte psicanalítico, realizei, numa escola de educação para crianças da rede municipal, uma análise qualitativa do brincar, tal como falado pelos professores. O objetivo principal da pesquisa era investigar o que os professores pensavam do brincar e discutir com eles algumas questões ligadas ao tema. Nesta pesquisa utilizei-me da psicanálise como teoria de referência. A psicanálise pode ajudar os educadores a ter um olhar diferente para a criança, para o brincar e para a educação, o que possibilitaria dar mais espaço para a criação do novo e não só para a reprodução do que já é conhecido, do que está nos livros ou do que já está estabelecido pelo social. É relevante a contribuição da escuta do que dizem os próprios professores a respeito de sua prática, não só porque brincar é imprescindível para a subjetivação, mas também porque são os próprios professores junto com as crianças, os mais implicados nesse processo da construção do saber, do ensino e da aprendizagem. No desenvolvimento do trabalho adotou-se a abordagem qualitativa que pode ser entendida como uma possibilidade de transformação da maneira de se pensar e de se pesquisar em ciências sociais. O conhecimento sobre o fato pesquisado vai se construindo a partir da interrogação que o pesquisador faz aos dados coletados e com base também em tudo o que se conhece sobre o assunto, em toda a teoria acumulada a respeito. Nos estudos qualitativos, a análise dos dados coletados tende a seguir um processo indutivo. O pesquisador não se preocupa em buscar evidências que comprovem hipóteses definidas antes do início dos estudos. As conclusões vão sendo formadas e consolidadas basicamente a partir da coleta e análise dos dados. Foi assim no presente caso, em que o caminho percorrido para o desenvolvimento da pesquisa foi com a formação de um grupo com professores e funcionários da escola que se interessaram pela discussão sobre o tema brincar. Foi formado um grupo de seis professores e uma merendeira, num total de oito pessoas incluindo a pesquisadora. Foram realizados sete encontros semanais na própria escola, todas as quartas-feiras, das 16 às 18 horas, no período de junho a setembro de 2004. As discussões em grupo foram gravadas, com a permissão de todos os participantes. Foram produzidas sete fitas que posteriormente foram transcritas e analisadas. Com base no material gravado nas reuniões semanais foram definidas três categorias de análise a partir de elementos comuns e significativos que apareceram na fala dos professores. Primeiro, a concepção de um novo projeto; segundo, o brincar agressivo e seus limites; terceiro, o brincar e a realidade. A primeira categoria sintetiza a preocupação dos professores em desenvolver a proposta da escola de trabalhar o brincar para aprender; suas dificuldades em cumprir o projeto proposto e a noção do quanto o brincar está distante da realidade da escola. A segunda categoria trata principalmente da questão da agressividade e da violência no contexto do brincar e da escola, além de abordar a questão da autoridade do professor e a dificuldade que ele tem em estabelecer os limites para as brincadeiras. Por último, a terceira categoria apresenta o modo como os professores podem ensinar algo da realidade para as crianças. Será que isso é possível sem o brincar? Nesta terceira categoria apresenta-se também o material que foi coletado com 31 (trinta e uma) alunas do segundo ano do curso de Pedagogia da UFMT. Através dos resultados, principalmente o de que para os professores o brincar ainda é visto, pelo menos em parte, como um passatempo apenas, seria interessante a criação de um espaço para reuniões em que os professores pudessem falar e ser escutados. A criação desse espaço, onde os professores poderiam reunir-se sem respostas prontas, sem receitas, sem pré-conceitos, possibilitaria uma circulação dos discursos para que entre eles pudessem tecer novos sentidos e novas possibilidades para a educação e sua prática, ao se darem conta também de seus próprios limites, implicando-se no que acontece na escola. Esse espaço também serviria para trabalhar as questões relacionadas ao brincar, seja dentro da escola ou inserido durante a formação profissional dos professores.

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