Capoeira, Trabalho e Educação

Por: Neuber Leite Costa.

60 Reunião Anual da SBPC

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INTRODUÇÃO:

O presente trabalho surge da necessidade de estudar alguns acontecimentos da atualidade que dizem respeito a uma das maiores manifestações da cultura baiana e brasileira - a capoeira. Parte das condições objetivas que garantem a vida humana, ou seja, do trabalho humano, para que se possa compreender a construção do que denominaremos, aqui, de cultura capoeirana e avaliar os fatos vinculados a essa temática que inferem, direta e indiretamente, na sua práxis. Mergulhamos no estudo da educação, do trabalho e da capoeira, tendo como objetivo principal desvendar a relação estabelecida entre esses entes a partir da reordenação do mundo do trabalho na Educação Física e dos resultados diretos e indiretos que atingem a capoeira e o capoeira na sua formação e, por conseguinte, no trato com o seu conhecimento. Foram analisadas, especificamente, as conseqüências sociais para a cultura capoeirana, resultantes dos ajustes no mundo do trabalho, mediadas pela regulamentação da profissão de Educação Física - lei 9696/98, bem como as formas de resistência desenvolvidas para a sua preservação.


METODOLOGIA:

Elegemos para discutir as problemáticas deste trabalho categorias teóricas, dentre as quais enfatizamos a totalidade, a particularidade e a singularidade. Optamos pela utilização do método dialético, estabelecendo, todo o tempo, um diálogo com os sujeitos envolvidos, a partir da realidade posta, além de participar ativamente dos processos (dos encontros, debates, mesas redondas, seminários, audiência pública, mobilizações de rua e conversas informais) que ambientalizaram a construção histórica da problemática. Coletamos materiais pertinentes ao assunto através de impressos, na internet e em forma de gravações. Em seguida, realizamos revisão bibliográfica e análise desses documentos (livros, revistas, jornais, vídeos, relatórios, leis, projeto de lei, ação de inconstitucionalidade e normativas internas). Para o levantamento das informações, valemo-nos da técnica da entrevista semi-estruturada e para apreciação do material apreendido, utilizamos como técnica a análise do discurso.


 RESULTADOS:

A complexidade que envolve a regulamentação da profissão de Educação Física e como essa medida interfere na constituição da cultura capoeirana, ao tentar gerenciá-la promove a ressiginificação metodológica, ideológica e da formação do capoeira. Indica os argumentos que comprovam a incoerência dessa área do conhecimento, ao regulamentar a capoeira, bem como os processos de resistência desencadeados. Como conseqüência disso, partiu-se para sua regulamentação, através de entidades esportivas, e sua configuração como tal. No nosso entendimento esse processo engessa a manifestação enquadrando-a numa lógica antagônica a uma práxis emancipatória. Mas os resultados no nosso estudo demonstram que nem toda a comunidade capoeirana tem esse entendimento. Destacamos os movimentos de resistência e as ações que foram empreendidas para demonstrar à sociedade baiana que a maior parte dos integrantes dessa cultura não quer ser regulamentada através de uma suposta profissionalização de outra área de conhecimento.


 CONCLUSÕES:

Desse modo, foi possível provar que existe resistência às investidas do sistema CONFEF/CREF e que a capoeira de um modo geral não aceita essa condição docilmente. A comunidade capoeirana não precisa desse tipo de organização, nosso estudo também demonstra isso. Essa necessita se organizar sim, sem dúvida, porém dentro de moldes democráticos, acolhedores, participativos e amplos, respeitando a liberdade, a diversidade, a ludicidade e as contradições dessa manifestação cultural. A comunidade capoeirana não constitui uma classe revolucionária, pois não possuem um projeto de superação do que está posto. Daí a necessidade de uma práxis revolucionária. A peleja dos trabalhadores da capoeira deve somar-se à luta dos trabalhadores em geral, na busca da superação da configuração dessa atividade, estranhada na contemporaneidade. Podemos nos arriscar a dizer que a luta do trabalhador da capoeira, hoje, é para se reconhecer como ser humano. Ao mesmo tempo, observamos um avanço devastador da desumanização das relações sociais, que atinge cada vez mais os seres, como reflexo do imperialismo e das políticas neoliberais. Os casos de emancipação são poucos e esparsos, por isso a dificuldade.

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