Caracterizando o Subcampo Político/burocrático do Esporte e Lazer no Brasil.

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Políticas Públicas e Esporte no Brasil.

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Resumo

O estudo das políticas públicas de esporte e lazer no Brasil é um dos objetos de pesquisa que vem sendo priorizado e sistematizado, em nossa trajetória acadêmica. Nesse caminho, construído em grande parte no interior do Centro de Pesquisa em Esporte, Lazer e Sociedade (CEPELS) e no programa de pós-graduação em Educação Física, da Universidade Federal do Paraná, elegemos como principal interlocutor e referencial teórico-metodológico o sociólogo francês Pierre Bourdieu[1].

Considerando apenas a produção científica institucional, no programa de pós-graduação, em nossa dissertação de mestrado (STAREPRAVO, 2005) dialogamos com a estrutura básica do pensamento de tal autor. Bourdieu fornece a possibilidade de apropriação de alguns conceitos, como noções operatórias da análise. Neste caso, destacam-se três conceitos básicos da construção teórica de Bourdieu – campo, habitus e capital[2]. Essa filosofia, condensada em um pequeno número de conceitos fundamentais – e que tem como ponto central a relação, de mão dupla, entre as estruturas objetivas (dos campos sociais) e as estruturas incorporadas (dos habitus) (BOURDIEU, 2007a) –, foi a linha teórica condutora da pesquisa que investigou as relações entre a Federação Paranaense de Desporto Universitário (FPDU) e o Estado. Já em nossa tese de doutorado (STAREPRAVO, 2011), buscamos avançar na utilização dos preceitos teórico-metodológicos de Bourdieu, para a leitura de espaços sociais específicos. Ao estudar as políticas públicas de esporte e lazer no Brasil, bem como a produção científica sobre o assunto, propomos caracterizar os espaços sociais de produção das políticas e das pesquisas científicas como subcampo político-burocrático e subcampo científico-acadêmico[3], respectivamente.

Tratando especialmente do subcampo político-burocrático do esporte e lazer, por ser um termo ausente na literatura nacional até aquele momento e, portanto, recente, no presente capítulo, buscaremos avançar na conceituação do subcampo, sua composição e características.

 

[1]  Nesse sentido, cabe uma referência especial aos professores Wanderley Marchi Júnior e Fernando Marinho Mezzadri, meus orientadores de doutorado e mestrado, respectivamente, que participaram do amadurecimento da utilização de Pierre Bourdieu, como um referencial alternativo à leitura das políticas públicas de esporte e lazer no Brasil.

[2]  Segundo Bourdieu, para compreender-se realmente o sentido e funcionamento do espaço social, é necessário entender as relações entre as posições ocupadas por aqueles que podem produzir, utilizar e reproduzir um determinado habitus, que emana das estruturas e é internalizado pelos agentes. Espaço social, este que assume a forma específica de um campo ou subcampo. A caracterização do campo se dá através da definição do espaço social em que se encontram fixadas as posições, e os agentes sociais movimentam-se objetivando conquistas. Outra característica do campo é seu objeto de disputa e seus interesses específicos. Em outras palavras, o campo é definido como “o lócus onde se trava uma luta concorrencial entre os atores em torno de interesses específicos que caracterizam a área em questão”  (ORTIZ, 1994, p.19). Além disso, para a existência do campo, devem existir, em seu interior, somado aos objetos de interesse e disputa, pessoas (agentes) dotadas de habitus, que identifiquem e legitimem as leis imanentes ao jogo (MARCHI JR., 2001). A posição de cada agente no interior do campo, por sua vez, está relacionada ao capital que dispõe, sendo este compreendido em múltiplas dimensões, como econômico, social, cultural, simbólico, entre outros.

[3]  Estudar a produção científica de uma área requer a investigação do espaço social (campo ou subcampo) em que esta produção está se materializando. No caso brasileiro, pode-se dizer que esse espaço social se estrutura como um campo científico-acadêmico, lócus de relações, tendo como protagonistas agentes, que têm por delegação produzir conhecimento científico. Apesar de Hey (2008) entender o campo como acadêmico, e não científico – uma vez que no Brasil, tem-se mais presente a ideia de academia, com cada área do conhecimento sendo uma espécie de sociedade de caráter científico e com membros próprios, mas que tem um ethos comum global –, admite-se, aqui, o campo como indissociavelmente acadêmico e científico, uma vez que a produção é científica, e o meio onde é produzida é acadêmico. O campo científico-acadêmico é, então, entendido como o lócus em que ocorrem práticas institucionalizadas de produção do conhecimento; que envolve, sobretudo, a ideia de universidade. Cada área no interior do campo científico-acadêmico, por sua vez, pode ser entendida como um subcampo científico-acadêmico, na qual as especificidades da área delimitam o espaço social de atuação dos agentes a ela vinculados, no caso, as políticas públicas de esporte e lazer.

 

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