Cinema e Esportes: Diálogos

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Z Cultural - v.5 - n.3 - 2011

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Sobre a Obra

Introdução

No ano de 1999, às vésperas de um novo século, o cineasta Marcelo Masagão lançou "Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos", um filme-memória onde procurou, a partir de recortes biográficos (reais e ficcionais, de personagens notórios e de pessoas pouco conhecidas), traçar uma síntese do século XX. Em uma das seqüências, Masagão compara o movimento das pernas de Garrincha, ao driblar seus adversários, com o famoso bailado de Fred Astaire, em uma de suas performances cinematográficas. Um verdadeiro pas-de-deux.

Não parece exagerado afirmar que o cineasta, de alguma forma, compara a paixão e o fascínio causados por dois expoentes de manifestações culturais de grande importância no século que passou: o cinema e o esporte. Masagão escolheu um astro dos musicais, um dos gêneros cinematográficos mais populares, e um ícone do futebol, sem dúvida o esporte mais difundido em todo o mundo. Astaire e Garrincha fazem parte do imaginário e ocupam lugar de importância no século que passou: de certa maneira são heróis de uma época.

Cinema e esporte, na verdade, estão entre as linguagens mais acessadas no decorrer do século XX, não somente nos seus espaços específicos (as salas de projeção e os estádios), como também em função da ação dos meios de comunicação, que nelas investiram por se tratarem de produtos de grande penetração popular: "El deporte y el cine son las dos principales ofertas de ocio del siglo XX y constituyen hoy los principales contenidos - en tiempo de emisíon y audiencias alcanzadas - de la industria audiovisual en el mundo entero". [2]

Em todas as redes de televisão aberta podemos identificar uma farta programação de filmes e uma grande oferta de programas esportivos. É difícil encontrar algum jornal ou revista de grande circulação que não possua sessões específicas dedicadas tanto ao cinema quanto ao esporte. Isso se dá a tal ponto que é comum observarmos que atores/atrizes e atletas hoje são tratados em grau de igualdade, como estrelas, por tais mídias.

Vale lembrar o espaço que os grandes eventos de ambos ocupam nos meios de comunicação, notadamente os Jogos Olímpicos e as Copas do Mundo de Futebol, que geram os maiores índices de audiência mundial, e os festivais de cinema, destacadamente a entrega anual do Oscar (premiação concedida pela Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood).

No Brasil não é diferente: dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram que cinema e futebol constituem-se em preferências como forma de diversão fora de casa (e não dificilmente também dentro dos lares) em grandes e médios centros urbanos e suburbanos, onde se concentra 75% de nossa população. [3]

Haveria então maiores relações entre esporte e cinema? Não é novidade a discussão sobre as representações de determinados temas/assuntos em filmes. Já temos reflexões, publicadas em livros e periódicos, sobre negros [4] , homossexuais [5] , o sertão [6] , a mulher [7] , entre outros. Contudo, poucas e parciais têm sido as discussões sobre os relacionamentos entre esporte e cinema, notadamente no Brasil, o que parece surpreendente tendo em vista o importante espaço que as práticas esportivas ocupam na formação da cultura e da identidade nacional.

No que se refere às relações entre esporte e cinema, outras considerações devem ser observadas. Não estamos falando de uma simples representação de uma temática por uma linguagem. Obviamente que o esporte é uma temática, entretanto, mais do que isso é também uma linguagem.

Bernard Jeu é um dos autores que defende essa idéia, procurando apresentar os elementos que compõe uma "gramática" do fenômeno esportivo. Para ele, trata-se de identificar nesta prática social a primazia de uma razão poética, o que vem a ressaltar a importância do imaginário para a consolidação de sua presença, de sua importância e de sua popularidade. Explicitamente, ao falar da poética e do esporte, afirma o autor:

O esporte não se sentirá estranho, ele que é freqüentemente perseguido, vivido, representado como uma fabulosa história, com seus heróis mitológicos, os campeões (...) Daí a necessidade de uma estética do esporte. Ele é comunicação e criação.[8]

Jean-Claude Carrière reforça essa compreensão acerca da existência de uma "gramática" do esporte ao tecer uma comparação com a "gramática" do cinema:

É bem provável que um espectador inexperiente, privado de imagens desde o nascimento e subitamente convidado a assistir um filme atual, não conseguisse ver nada - mesmo que conhecesse o idioma - além de um monstruoso embaralhamento do tempo, exatamente como um extraterrestre num estádio de futebol não faria a menor idéia do que estava acontecendo no jogo. Sem conhecer as regras, sem ter os hábitos de espectadores, ele provavelmente veria todos os jogos como um mesmo jogo repetido incessantemente, enquanto sabemos que, de um jogo para outro, é impossível encontrar dois instantes exatamente idênticos .[9]

Assim sendo, parece que podemos pensar em um diálogo entre duas linguagens. Como se estabeleceram tais encontros no decorrer da história? Haveria maiores semelhanças entre o esporte e o cinema enquanto manifestações culturais tão importantes e influentes no decorrer do século XX?

Este artigo tem por objetivo desvendar como se estabeleceram de forma complexa os relacionamentos e similaridades entre esporte e cinema a partir do momento de gênese das duas linguagens, ou, para ser mais preciso, no momento em que surgem os primórdios de uma sociedade que valoriza o entretenimento e as vivências públicas de lazer, instantes iniciais da constituição de uma indústria cultural; no momento da "invenção da vida moderna", fazendo uso da expressão do livro organizado por Leo Charney e Vanessa Schwartz. [10]

Este esforço de reflexão pode contribuir para o campo dos Estudos Culturais ao trazer uma nova luz para melhor compreendermos o papel da imagem na constituição da sociedade moderna, reafirmando que isso não se deu somente a partir do cinema: outras manifestações também estavam envolvidas nesse processo, inclusive o esporte.

A grande contribuição do cinema foi potencializar esse processo de valorização da imagem, ao ampliar o seu alcance em vários sentidos. Contudo, não forjou sozinho um modus operandis, mas dialogou e construiu sua atuação em conjunto com outras linguagens. Isso pode ser observado com a dança, com a música, com a literatura, entre outras. O que se pretende é discutir como se deu esse processo com o esporte.

Assim, pretende-se chamar a atenção para a necessidade de melhor considerarmos o esporte como objeto de reflexão, concedendo-lhe o espaço que merece por sua importância no decorrer do século XX.

Mais ainda, busca-se discutir uma dimensão que vem sendo somente parcialmente abordada: os aspectos estéticos do fenômeno esportivo. Ao chamar a atenção para as relações entre arte e esporte, identificamos também uma forma de ampliar a compreensão sobre sua presença social. Como bem afirma Jeu:

A arte e a literatura são para o esporte uma sociologia indireta, uma psicanálise, um testemunho (...) A investigação da presença do esporte na arte nos interessa na medida em que nos esclarece sobre a identidade do esporte e sobre o papel do imaginário na constituição das relações esportivas (...) O esporte não é simplesmente o indício de uma sociedade lúdica (ignorada ou tolerada), mas a sociedade lúdica percebida e descrita pelos meios da arte, em um quadro de expressão de sua valorização pela sociedade global. [11]

Este artigo pretende ainda trazer contribuições para os estudos históricos, já que intenta identificar os vestígios do esporte no interior das teias e redes sociais, se alinhando com as iniciativas relacionadas à história cultural. Em certo sentido, é um esforço de promoção de uma "arqueologia" social desta prática.

Endereço: http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/cinema-e-esportes-dialogos-de-victor-andrade-de-melo/

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