Construindo um programa de Educação Física para o ensino médio

Por: Marcelo Nunes Sayão.

V EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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 Este trabalho apresenta o caminho percorrido até aqui na construção de um programa de educação física para o ensino médio a ser desenvolvido no Ginásio Público Ayrton Senna da Silva, pertencente a Rede Estadual de ensino, localizado no Rio de Janeiro no Bairro de São Conrado. Atende, majoritariamente, alunos que pertencem a população do morro da Rocinha e adjacências, além de ter um razoável contingente de alunos oriundos do bairro de Jacarepaguá. Além do ensino médio, também atende ao terceiro e o quarto ciclos do ensino fundamental, que compreendem da 5a a 8a séries. Na verdade a construção do programa abrange também essas ciclos, mas, para efeito deste trabalho, nos deteremos ao ensino médio.


 Este programa vem sendo efetivado mais sistematicamente neste ano (2001), pois, atualmente, a equipe de educação física é composta por dois professores que tem concepções de ensino semelhantes o que possibilitou o estabelecimento de uma formulação comum. Até o ano passado a falta de diretrizes por parte da escola e divergências entre a equipe composta por três professores, impediam que o programa fosse construído, assim cada professor desenvolvia seu trabalho de forma isolada.


 Quanto aos alunos, na sua maioria são adolescentes, na faixa entre os 15 e 20 anos, no entanto, encontramos um número razoável que vão além desta idade. Muitos trabalham, ou estão procurando um trabalho, e poucos tem como perspectiva a continuação dos estudos a nível superior. A maioria termina o ensino médio na busca de uma melhor qualificação para entrar no mercado de trabalho. Assim parecem ter um objetivo pré-determinado, não por opção, mas por necessidade objetiva, já que a realidade é percebida como algo difícil de ser alterada, e que a escola, na maioria dos casos, pode lhes oferecer um trabalho de nível médio no setor de serviços. Esta visão de educação utilitarista demonstrada pelos alunos, mesmo que de forma inconsciente, não é neutra e denota um modelo de sociedade.

 Entretanto esta não é a única visão possível, assim, também é função da escola discutir com o aluno tais possibilidades, na perspectiva de conscientemente, agirem coerentemente com a concepção de mundo pela qual optaram e acreditam. Por não sermos neutros, nossa proposta está baseada na concepção de sociedade, de educação, de escola e de homem na qual acreditamos. Contudo nossa intenção é tomá-la também como um elemento para reflexão das concepções de sociedade e educação.


 A educação que queremos


 A sociedade pela qual lutamos é aquela onde a democracia é entendida como um direito de acesso aos bens produzidos pela sociedade, possibilitando a todos uma condição de vida digna pela superação das desigualdades e das injustiças sociais, e como possibilidade de participação nas decisões que dizem respeito a sociedade como um todo, ou seja, que cada um tenha a capacidade de ser dirigente, se radicalize.


 Para tal entendemos que a escola precisa formar um indivíduo diferente do que temos hoje, ou seja, solidário ao invés de individualista, participativo ao invés de egocêntrico, cooperativo ao invés de competitivo. Este homem deve respeitar as diferenças mas de forma alguma pode aceitar as desigualdades e as injustiças, deve adotar portanto, no seu dia-a-dia, ações que venham a consolidar esta mudança de posição.


 Tendo clareza do cidadão que queremos ajudar a formar e da sociedade que gostariamos de construir buscamos uma linha pedagógica que sirva como orientação para a nossa conduta na relação com os alunos. Assim optamos pela chamada pedagogia Crítico Social dos Conteúdos.


 Acreditamos que esta pode ser utilizada como referência já que tem como proposta instrumentalizar o aluno, socializando o conhecimento históricamente produzido, para que o mesmo possa interferir na sociedade de forma autônoma transformando-a. Como diz Luckesi, este pedagogia propõe que a escola "atue na preparação do aluno para o mundo adulto e suas contradições, fornecendo-lhe um instrumental, por meio da aquisição de conteúdos e da socialização, para uma participação organizada e ativa na democratização da sociedade" (1994: 70)


 Para servir como referência no campo específico em que estamos trabalhando, a educação física, optamos pela abordagem denominada de Crítico Superadora, representada na obra conhecida como Coletivo de Autores (1993). Nesta obra, que tem como paradigma a cultura corporal, os conteúdos a serem trabalhados com os alunos devem ser selecionados de acordo com a sua relevância social, contemporaneidade, e adequação as capacidades sócio-cognitivas dos alunos, caminhando, em certo sentido junto a pedagogia Crítico Social dos Conteúdos. Valoriza ainda na escolha destes conteúdos à simultaneidade para que o aluno compreenda que os fatos não se dão isoladamente, à compreensão das diferentes formas de organizar o pensamento sobre o conhecimento e a noção de provisoriedade do conhecimento que auxilia a desenvolver a idéia de historicidade.


 Dessa forma defende que a educação física deve encaminhar uma reflexão sobre a cultura corporal. Esta é entendida como o conjunto de formas de representações do mundo produzidas historicamente e desenvolvidas culturalmente. Aí estão incluídas todas as formas exteriorizadas na expressão corporal, seja no jogo, na brincadeira, no esporte, na mímica, na ginástica, na dança e em outras formas criadas pelo homem no decorrer da sua história. Assim à "reflexão da cultura corporal, a expressão corporal é uma linguagem, um conhecimento universal, patrimônio da humanidade que igualmente precisa ser transmitido e assimilado pelos alunos na escola" (Coletivo de Autores, 1993: 42).


 Ao mesmo tempo em que dá outro sentido ao conteúdo a ser trabalhado na educação física, a concepção Crítico-Superadora questiona aspectos do esporte, da busca pela aptidão física, da disciplina do corpo entre outras coisas, que estão diretamente relacionadas ao modelo de sociedade que temos hoje, e que queremos transformar. Critica então a simples repetição de atos motores que transforma o aluno em reprodutor de movimentos, a competitividade exacerbada, a disciplina que forma o "corpo dócil". Ao fazer isso, essa concepção está dando mais um passo na busca de relacionar os temas da cultura corporal tratados na disciplina educação física e a sociedade, o homem, a história. Desse modo "podemos dizer que os temas da cultura corporal, tratados na escola expressam um sentido/significado onde se interpenetram, dialéticamente, a intencionalidade/objetivos do homem e as intencionalidades/objetivos da sociedade" (Coletivo de Autores, 1993: 62).


 Construindo o planejamento


 Baseado nesses princípios selecionamos alguns conteúdos que consideramos relevantes para a formação do aluno e procuramos distribuí-los nas três séries que compõem o ensino médio. Esses conteúdos são: a relação entre a educação e a educação física; os esportes; jogos competitivos e jogos cooperativos; o futebol e suas relações com a sociedade; jogos populares; expressão corporal; folclore; a educação para o lazer e a relação entre a educação física e a saúde.


 A partir deste momento procuramos dividir o conteúdo nas três séries, sendo que alguns deles podem se repetir em mais de uma série diferente aprofundando ou ampliando o que foi dado na série anterior. Além disso consideramos que um conteúdo pode ser trabalhado mais sistematicamente em um bimestre e ser também abordado no dia-a-dia como uma diretriz, como é o caso, por exemplo, da educação para o lazer.


 Como estamos implantando este programa no ano de 2001, o mesmo abrange, neste momento, as primeiras séries, pois serão elas que ao passar por todo o processo a ser construído nos auxiliarão na avaliação da efetivação desta proposta. Na primeira série definimos os seguintes conteúdos para serem trabalhados no ano letivo: A relação entre a educação é a educação física, as possibilidades da educação física (atividades), jogos competitivos e cooperativos no primeiro bimestre. O futebol, suas relações com a sociedade no segundo bimestre. Jogos populares e jogos desportivos (identidade e cultura e os esportes mais populares) no terceiro bimestre. E no último a relação entre a educação física e a saúde.


 Materializando


 Hoje, seguindo o programa elaborado, estamos trabalhando os conteúdos definidos para o primeiro bimestre. Assim, no primeiro dia de aula, apresentamos o programa aos alunos e discutimos com eles todos os temas a serem abordados durante o ano letivo e, em um segundo momento discutimos a relação das aulas a serem dadas no primeiro bimestre. Isso foi feito buscando abrir a discussão sobre a construção do programa, dando a mesma um caráter coletivo, possível de ser modificado em qualquer momento do processo.


 No tema que iniciou o bimestre - a relação entre a educação e a educação física - procuramos debater com os alunos as diferentes possibilidades existentes para a educação e também para a educação física. Assim discutimos diferentes conceitos para educação apontando que cada professor, cada escola, cada aluno pode ter um, e que a educação que queremos deve surgir do debate travado pelas diferentes concepções dos diferentes sujeitos que constroem a escola no seu dia-a-dia.


 O mesmo foi feito com a educação física, onde discutimos as diferentes formas de entender e trabalhar essa disciplina, incluíndo no debate o programa de educação física que propusemos, deixando claro que este é resultado de um determinado entendimento do que seja educação e educação física. Neste processo temos a preocupação de não transformar a educação física em uma disciplina teórica e assim, ao mesmo tempo em que procuramos debater os conceitos tentamos aplicá-los em aulas onde eles tivessem atividade físicas.


 Seguindo essa linha procuramos trabalhar as diversas possibilidades da educação física na quadra. Assim, em uma aula fomos perguntando aos alunos que atividades faziam parte da educação física e fomos realizando as atividades sugeridas por eles. Ao final tinhamos práticado, em todas as quatro turmas de primeira série, basicamente os esportes mais conhecidos, futebol, volei, basquete e handebol e o jogo de queimado. Isso foi um motivo utilizado para iniciar um debate tanto no que diz respeito a existência de outras possibilidades de atividades e a importância de conhece-las, como também para questionar a forma como se encaminha uma aula.

 Nesse segundo tema procuramos discutir um pouco a relação entre o prazer que estas atividades proporcionam e a contribuição que elas podem dar para formação deles enquanto cidadãos. Em outro momento trabalhamos diferentes formas de aula de educação física tentando opor uma aula onde o professor leva o "jogo pronto", e o aluno aprende o movimento por repetição tendo que se adaptar as regras, e outra onde o aluno pode construir o jogo e as regras se adaptam as suas necessidades.


 O outro tema a ser trabalhado no bimestre é a diferença entre jogos competitivos e jogos comparativos, onde buscaremos relacionar as situações de competição e cooperação com o seu dia-a-dia e com os valores do meio em que vivem e da sociedade como um todo.

 Novamente iremos procurar conjugar as discussões que o tema sucita com a vivência de atividades na quadra, facilitando a percepção do que foi debatido no cotidiano.


 Ainda construíndo


 Na verdade o que procuramos fazer é justamente fornecer aos alunos os instrumentos que a educação física dispõe para que os mesmos possam conhecer e interferir na realidade. Esses instrumentos estão materializados nos conteúdos da disciplina e nas relações que estes estabelecem com a sociedade. Ao mesmo tempo, no nosso cotidiano, buscamos incentivar a prática do debate, da reflexão, da participação, pois assim acreditamos que já estamos exercitando a construção da aula, do programa, da escola, da educação física, da educação, do homem e da sociedade.


 Notas


 Sobre a disciplina do trabalho com o corpo Foucault diz que "o momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano que visa não unicamente o aumento das suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de um relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente." (1991, 127)


 Obs.
O autor deste trabalho é professor do Ginásio Público Ayrton Senna da Silva da Rede Estadual de Educação - R.J.


 Referências Bibliográficas


 Coletivo de  autores. Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1993
Foucault Michel. Vigiar e Punir. 8a ed. Petrópolis: Vozes, 1991.
Luckesi, Cipriano C. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 1994.

 

 

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