Contribuições da Praxiologia Motriz Para a Educação Física Escolar: Uma Experiência na Escola Municipal Santa Helena- Santa Maria-rs

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VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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A Praxiologia Motriz (PM) segue um caminho bastante diferente dos diversos olhares da Educação Física na escola que existem atualmente. Ainda assim, o conhecimento praxiológico não se constitui em uma nova abordagem da Educação Física. O ponto de partida da teoria da ação motriz consiste em estudar e entender a essência dos jogos e esportes, independentemente de seus atores ou contexto, mais precisamente no que tange à lógica interna destas práticas. Assim, entendemos que, com pequenos ajustes e adequações, o conhecimento praxiológico poderá complementar qualquer uma das abordagens de nossa área, fazendo com que o profissional aproxime ainda mais seus propósitos pedagógicos da prática.

Este estudo é uma continuidade do trabalho desenvolvido por Ribas (2002). O autor, com o propósito de mostrar as contribuições da teoria da ação motriz para a Educação Física Escolar, realizou um estudo dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), mais precisamente da relação entre os blocos de conteúdos e das atividades propostas para o Ensino Fundamental e os propósitos apresentados no documento. Os dados revelaram a necessidade de estarmos agregando em nossas reflexões os instrumentos de compreensão da lógica interna dos jogos e esportes para: atingirmos com maior eficiência os objetivos propostos; trabalhar em documentos mais abrangentes como foi o caso dos PCN, com a idéia de estrutura de jogos e esportes e não com exemplo de atividades; considerar o conhecimento praxiológico no processo de estruturação e organização dos conteúdos de Educação Física.

Identificar como o conhecimento da PM poderá contribuir na prática pedagógica cotidiana do professor de Educação Física se constitui no principal objetivo do trabalho. O contexto do presente estudo foi a Escola Municipal Santa Helena, Santa Maria, RS. Com base no Projeto Político Pedagógico (PPP) da Escola e na concepção de Educação e Educação Física do Professor, estamos visando responder as seguintes questões: Como o professor poderá compreender melhor a lógica dos jogos e esportes que vêm sendo tematizados em suas aulas? Como o professor poderá aproximar ainda mais os objetivos do ensino de jogos e esportes das situações pedagógicas propostas?

Como compreender, analisar e transferir estruturas de jogos e esportes? Como selecionar e organizar conteúdos de Educação Física?

O trabalho vem sendo desenvolvido pelos professores João Francisco Magno Ribas, professor do Departamento de Desportos Coletivos da UFSM, e Márcia Cristina Filipetto, professora da Rede Municipal de Ensino de Santa Maria e o acadêmico do 4º Semestre de Educação Física da UFSM, Pablo Aires Araujo. Durante o primeiro semestre de 2004 o grupo se reuniu semanalmente para discutir e organizar as estratégias para conhecer a realidade, assim como estudar os documentos da rede municipal de ensino de Santa Maria e o conhecimento da PM construindo as primeiras reflexões sobre o tema.

Neste texto nos deteremos em mostrar como o conhecimento da cultura corporal foi reestruturado para a 4ª série do Ensino Fundamental. Na seqüência, o relato de como se deu o processo, assim como o resultado parcial dessa etapa do estudo.
O que é praxiologia motriz ?

O francês Pierre Parlebas vem construindo os alicerces da PM há mais de trinta anos. Tem publicado inúmeros artigos (aproximadamente 50 até 1992, segundo Gleyze, 1992), realizado habituais colaborações no jornal "Le monde", além de seis importantes obras sobre o tema. A última delas, e a mais relevante, "Jeux, Sports et Sociétés" (1999), reúne as principais idéias da área em forma de léxico.

Nessa obra, a definição de PM é a seguinte: "Ciência da Ação Motriz e especialmente das condições, modos de funcionamento e resultados de seu desenvolvimento (Parlebas, 1999: 264)". Esse conceito não esclarece muito, já que envolve outros termos, desconhecidos da realidade brasileira, como é o caso da Ação Motriz. Por isso, optamos por ilustrar melhor este conhecimento com base na lógica interna dos jogos e esportes.

A chave do Jogo: a Lógica interna, título de capítulo da recente obra de Lagardera Otero e Lavega Burgués (2003), se constitui em outro relevante caminho para esclarecer esta temática, onde, pode-se dizer que PM é o estudo da lógica interna dos jogos e esportes a partir das regras ou normas de funcionamento. A função dos elementos de análise da PM é desvelar o mundo dos jogos e esportes a partir da compreensão da essência da lógica interna representadas pelas ações motrizes.

As Ações Motrizes estão inscritas nas normas, e aí é que Parlebas diferencia a Ação Motriz de qualquer outro movimento. Tirar a areia do rosto durante uma partida de vôlei de praia é muitas vezes crucial para o desempenho do atleta. Caso não realize este movimento, isso poderá atrapalhar as ações seguintes. Mas, segundo a concepção praxiológica, este movimento não é considerado uma Ação Motriz por que não está previsto no regulamento. Agora, saltar e bloquear uma bola sim, isto é uma das situações motrizes que esta prática nos revela. São as Ações Motrizes que emergem do sistema praxiológico, relativas às suas normas, que interessam à PM. No presente estudo, até o momento, utilizamos os seguintes elementos: grandes situações motrizes1 e o sistema de classificação2.

Apresentando a realidade: rede municipal de Santa Maria e a Escola Municipal Santa Helena

A cidade de Santa Maria, distante 290 Km de Porto Alegre, está localizada na região centro do Estado e rodeada pelo sinuoso perfil de montanhas da Serra Geral, é conhecida como o Coração do Rio Grande do Sul. A população é de cerca de 250 mil habitantes fixos e mais uma população flutuante de aproximadamente 30 mil pessoas, formada principalmente por militares e estudantes (Prefeitura Municipal de Santa Maria, 2004).

Com o objetivo de promover a discussão das concepções que embasam a educação entre os diferentes segmentos da Escola e de fundamentar as propostas político-pedagógicas da Rede Municipal de Santa Maria a prefeitura através da Secretaria Municipal de Educação, implementou a sistematização de Encontros Municipais anuais que representou uma iniciativa inovadora de implementação de políticas públicas de educação. Com esta dinâmica de trabalho a prefeitura buscou garantir a participação da comunidade escolar e valorizar a contribuição dos envolvidos, com o objetivo de fortalecer a Escola como espaço de democracia, integração e inserção (SANTA MARIA, 2004a).

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Santa Helena foi criada em 1972, em função das necessidades da comunidade, atualmente conta com oito salas de aula, mais uma sala de pré-escola com banheiro próprio, uma biblioteca, um laboratório de informática, uma sala de professores com banheiro, uma sala para a coordenação pedagógica, uma secretaria, uma cozinha/refeitório, uma despensa, um banheiro masculino e um feminino, um vestiário masculino e um feminino e uma quadra poliesportiva. Está situada na zona leste da cidade, mais precisamente no bairro Camobí, próxima a UFSM e a Base Aérea (SANTA MARIA, 2004b).

Na primeira etapa deste estudo optamos por focalizar as turmas de quarta série do Ensino Fundamental, pois estas têm seu horário mais estável. A Escola trabalha com duas turmas de quarta série, a turma 41, com 13 meninos e 10 meninas e a turma 42, com 11 meninos e 10 meninas. O tempo destinado às aulas de Educação Física corresponde a quatro módulos quinzenais de oitenta minutos por turma.

O Projeto Político Pedagógico construído pela comunidade escolar se apóia em autores como Phillipe Perrenoud, Moacir Gadotti, Paulo Freire, César Cool, Edgar Morin, entre outros. Segundo este documento, a Escola é uma instituição onde se busca o saber, o fazer e o ser, orientando o educando na construção e no exercício da cidadania, através da sistematização do conhecimento formal, de acordo com a realidade vivenciada pelo mesmo. "A aprendizagem é um processo dialético no qual se constrói o conhecimento e que se reflete na ação e na mudança de comportamento, podendo ser promovida através do desenvolvimento de várias atividades" (SANTA MARIA, 2004b p. 30).

Nesta perspectiva, a Escola encaminha a aprendizagem por projetos, por problematizações, instigando o aluno a encontrar soluções para determinadas situações, buscando uma preparação para a vida em sociedade. Além do conhecimento a Escola prima pelo desenvolvimento das competências3 do aluno, proposta baseada nas idéias de Perrenoud.

Construindo o componente curricular do ppp- 4a série do ensino fundamental

Inicialmente fizemos um contato com a Rede Municipal de Ensino de Santa Maria para apresentarmos o projeto de pesquisa e buscarmos os primeiros documentos que norteiam as ações desta. A seguir contatamos com a direção da Escola Municipal Santa Helena onde tivemos acesso ao PPP da Escola, ponto de partida desse estudo. Desses encontros e estudo dos documentos concluímos que o projeto da escola estava de acordo com os objetivos tratados pela Rede, que apontavam para uma proposta de Educação mais crítica e de construção coletiva, que contemplam idéias de autores citados anteriormente. Vale destacar que a Rede Municipal de ensino ainda não havia concluído o projeto político pedagógico do município já que este vem sendo construído coletivamente nos últimos anos pelas escolas da rede.

No mesmo período o grupo se dedicou a estudar os conceitos básicos da PM, mais precisamente, o sistema de classificação e as grandes situações motrizes, conforme apontou a investigação desenvolvida por Ribas (2002). Assim, nos deparamos com o primeiro desafio: como e quais os elementos da PM poderiam ajudar a reconstruir o programa do componente curricular Educação Física para a 4ª série do PPP da Escola Municipal Santa Helena?

Primeiramente estudamos o componente curricular Educação Física para a 4ª série existente no PPP, com o intuito de identificar as estruturas e idéias que não poderiam ser abandonadas no decorrer do processo. O documento está organizado da seguinte forma:

competências, conhecimento, habilidades e atitudes. As competências estão contempladas em todos os componentes curriculares com os mesmos objetivos, o que nos indicou que não poderíamos alterar essa organização. Já, o conhecimento, as habilidades e as atitudes eram tratados a partir de elementos próprios de cada componente curricular. Foi onde começamos a reconstruir esta parte do documento.

Para isto, retomamos alguns conceitos da PM que seriam relevantes neste momento e identificamos, junto com a professora, suas idéias, perspectivas e concepções de Educação Física. O primeiro caminho encontrado nos levou a compreensão de Educação Física enquanto cultura corporal, da mesma forma como vem sendo tratada nos PCNs. Partindo dessa perspectiva, tratamos de sistematizar o conhecimento considerando os temas relevantes destacados pela professora. Durante este processo, entendemos que apenas listar o conteúdo não seria o suficiente para evidenciar o conhecimento e agregamos ao conteúdo o olhar que estaríamos enfatizando para a 4a série do Ensino Fundamental. Assim, chegamos a seguinte organização:

JOGOS:

Origem e contexto dos jogos praticados na escola; conhecer a estrutura e características gerais.

Conhecer, compreender e desenvolver conceitos de grupo, equipe, outro, jogar com, ... .

Desenvolver uma compreensão cinestésica e cognitiva dos jogos.

Extrapolar as possibilidades de reflexão das diferenças: alto-baixo; novo-velho; pobre-rico; magro-gordo; fraco-forte... .

ESPORTES:

Vivenciar/refletir a dimensão do treinamento no esporte; questão de gênero (características físicas e culturais).
Desenvolver o tema gênero e esporte.

Características contextuais do esporte (regras, regulamento,...).

Valores enfatizados pelo esporte. ATIVIDADES DIDÁTICAS:

Auto-conhecimento explorando temas relativos a postura e mobília escolar.

Conhecimento do outro: compreender as diferentes dimensões/interpretações a partir de vivências do "toque".

Compreender os diferentes "estados de ânimo" em relação ao contexto/meio, coletivo e a "si mesmo".

DANÇAS:

Danças do folclore gaúcho e local (italianas e afro).

Danças de rua.

Ritmos carnavalescos.

Descobrir outras formas de dança vivenciadas pelos alunos.

Considerações finais

Após realizarmos as primeiras orientações referentes às contribuições da PM na sistematização de conteúdos constatamos que as grandes situações motrizes propostas por Parlebas, neste caso, possibilitou o primeiro nível de organização do componente curricular da Educação Física para 4a série. Já o sistema de classificação se destacou nos objetivos e delineamento para cada conteúdo.

As intervenções vêm evidenciando que à medida que o professor vai planejando e desenvolvendo as atividades com os alunos, mais se utiliza do conhecimento do sistema de classificação dos jogos e esportes. Como exemplo relataremos uma situação que aconteceu no projeto.Partindo de um conceito amplo e simples, construído com os alunos, referente a Ataque e Defesa dentro e fora de um jogo, envolvendo sua lógica interna e externa, passamos para o jogo/esporte handebol. Sendo que este conceito construído pode ser utilizado em qualquer jogo/esporte com mais sentido e significado para os alunos. Nesse sentido, acreditamos que cada professor é responsável pelo que ensina e como ensina, sintonizando seus objetivos de ensino e as situações pedagógicas propostas, contando com a PM para uma melhor compreensão deste contexto.

É importante destacar que o presente trabalho revela um nível de sistematização dos conteúdos de Educação Física. A seqüência das atividades de investigação é que poderá indicar se essa sistematização contempla as necessidades do professor e do PPP.

Os autores, João Francisco Magno Ribas é professor do Centro de Educação Física e Desportos da Universidade Federal de Santa Maria, Márcia Cristina Filipetto ‘r professora da Rede Municipal de Ensino de Santa Maria e Pablo Aires Araujo cursa licenciatura em educação física na UFSM.

Notas:

Parlebas (1999), agrupa as diferentes práticas da cultura corporal da Educação Física em quatro grandes categorias: Esporte (situações motrizes competitivas e institucionalizadas), jogos tradicionais (situações motrizes não-institucionalizadas), exercícios didáticos (atividades orientadas por objetivos, metas) e atividades livres (situações motrizes sem regulamento formal).

2 De acordo com Lagardera Otero e Lavega Burgués (2003) a classificação das práticas da cultura corporal de Parlebas parte do princípio de que toda a situação motriz se constitui em um sistema no qual o participante se relaciona globalmente com o entorno físico e outros participantes.

3 Uma competência possui três dimensões: conhecimento (o que se deve saber), habilidades (o que se deve saber fazer) e atitudes (saber agir, saber ser). Na resolução de uma situação-problema o aluno mobiliza conhecimentos e exercita habilidades, e assim adquire as competências (SANTA MARIA, 2004b).

Referências

  •  Gleyze, Jacques. L´EPS au XXs en France. Revue EPS. Nº 15, 1992.
  • Lagardera  Otero, Francisco e Lavega  Burgués, Pere. Introdución a la Praxiología Motriz. Barcelona, Editorial Paidotribo, 2003.
  • Parlebas, P. Jeux, Sports et sociétés: lexique de praxéolgie motrice. Institut du sport et de l´éducation physique, 1999.
  • Prefeitura Municipal de Santa Maria. Direitos reservados 2004 © Prefeitura Municipal de Santa Maria. Apresenta informações referentes ao município de Santa Maria. Disponível em: < www.santamaria.rs.gov.br>. Acesso em: 28 de julho de 2004.
  • RIBAS, João Francisco Magno. Contribuições da Praxiologia Motriz para a Educação Física Escolar - Ensino Fundamental. Tese de Doutorado defendida junto ao programa de Pós-Graduação em Educação Física da Faculdade de Educação Física da Unicamp, no dia 11 de março de 2002.
  • Santa Maria. Secretaria de Educação do Município de Santa Maria. Caderno Pedagógico Número 1, Santa Maria, RS, 2004a.
  • Santa Maria. Escola Municipal Santa Helena. Projeto Político Pedagógico, Secretaria de Educação do Município de Santa Maria, Santa Maria, RS, 2004b.

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