Contribuições da Revista Arquivos:: o Papel da Educação na Educação Física na Década de 1940

Por: Bruno Lima Patrício dos Santos.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

Em linhas gerais, este trabalho focaliza resgatar e acurar historicamente as contribuições dos periódicos da revista ‘Arquivos’ - elaborada e produzida pela Escola Nacional de Educação Física e Desportos (ENEFD) - no que diz respeito aos estudos e ao desenvolvimento da educação física no âmbito social.

Precedente a presente etapa do trabalho (no EnFEFE de 2004), analisando o Decreto-Lei 1.212 - que foi responsável pelas diretrizes gerais que delinearam as condições à fundação da ENEFD, bem como o papel que ela ocuparia na sociedade -, foi realizado o levantamento histórico acerca da fundação da instituição, bem como os objetivos do governo do Estado Novo ao elaborá-la. Com isso, buscamos cria melhores condições para compreendermos o objetivo pelo qual os periódicos foram elaborados, já que sua formulação e produção estavam contempladas no documento.

Situado nas condições estruturais vislumbradas pela etapa anterior, e também nas condições históricas da época, tomamos como principal base de dados os artigos contidos nos periódicos da revista Arquivos ambicionando abordar as contribuições dos autores pertinentes a suas visões sobre a relação entre educação e a educação física. A partir de então, temos como foco central desvelar os valores pertinentes à importância da educação física na sociedade.

Dada a extensão do trabalho, torna-se mais profícuo delimitá-lo à década de 1940. Esse fator é atribuído a dois elementos. O primeiro deve-se ao fato de que na segunda metade da década, a ENEFD passara por uma reformulação político-estrutural e também paradigmática referente aos conteúdos da educação física, por parte do corpo docente. Onde alguns deles utilizaram a revista almejando difundir suas idéias. O segundo é atribuído ao fato de que no final da década - em 1949, sua quinta edição - houve uma cessão nas produções, retornando somente em 1953 em condições totalmente adversas. Diversos fatores podem ter potencializado a parada nas publicações. Contudo, acreditamos que uma das influências mais fortes tenha sido por conta da mudança na diretoria da Escola, onde Alberto Latorre de Faria assume o cargo de diretor da ENEFD - e suas preocupações maiores estavam voltadas às condições estruturais da instituição.

Com isso, ao resgatar as contribuições teórico-reflexivas sobre o assunto, efetuadas por nossos antecessores, cremos que estamos contribuindo na implementação de conteúdos à compreensão alusiva o ofício da educação física na sociedade.

Novos horizontes à educação física

A ENEFD foi a primeira escola de educação física fora dos recintos militares ligada a uma Universidade - Universidade do Brasil, hoje conhecida como UFRJ. Todavia, nos primeiros anos de atividades, era muito vigente a caracterização militarista em seu cotidiano. A volumosa participação da Escola de Educação Física do Exercito como precedente à elaboração da ENEFD é um dos fatores; outro que podemos apontar é a grande intervenção do Estado Novo em suas dinâmicas institucionais, nos anos pós-fundação.

A preocupação do Estado em manter uma linearidade na escola era tamanha que a intervenção estatal era parte de sua organização estrutural contemplada no Decreto-Lei 1.212. O artigo 50, referenda que o presidente da república poderia comissionar funcionários públicos (civil ou militar) para exercer qualquer cargo ou função na instituição. Resultado disso foi que os primeiros diretores da ENEFD concedidos a militares: o primeiro diretor efetivo da ENEFD foi cedido ao Major Inácio Freitas Rolim; outro diretor foi o Capitão Antônio Pereira Lira: titulações estas que foram indicadas pela União.

Porém, o declínio do Estado Novo propiciou nova dinâmica política no interior da ENEFD. Os primeiros personagens a assumiram posições críticas acerca da forma como a educação física foi conduzida nesse período foram os professores Waldemar Areno e João Peregrino Júnior. A partir da segunda metade da década de 1940, ambos incomodados com o caráter reprodutivista e mecanicista pela qual a educação física vinha sendo referendada iniciaram o trabalho de exaltar elementos epistemológicos que até então estava sendo obscurecidos, segundo eles.

Tal pioneirismo de reforçar novos paradigmas à educação física no seio social torná-se mais visível se remetermo-nos as palavras de Peregrino Júnior:

o vosso papel, portanto, é o de pioneiros. A Educação Física entre nós, confessemos francamente, apesar dos seus consideráveis progressos, achasse ainda na fase preliminar de captação de adeptos, de difusão de princípios, de doutrinação e esclarecimento. Sois vós, portanto, os primeiros a semear nos espíritos boas sementes. Os que vierem depois colherão os frutos. Mas a glória e a alegria da semeadura são vossas, embora os proveitos da colheita possam vir a pertencer a outros (1946, p.08).

Nesse cenário, duas dessas publicações são mais concisas sobre os conteúdos que essa corrente acadêmica almeja à Educação Física: A Educação Física e o Mundo de Amanhã, escrita por Peregrino Júnior; e Profissão de Fé, escrita pelo professor Waldemar Areno.

No primeiro, Peregrino Júnior realizou reflexões referente aos valores simbólicos que confluíram a campo da Educação Física nos anos antecessores até o atual momento. Em suma, ele realiza uma crítica pelo fato de que os elementos que vinham sendo impregnados à Educação Física não permitiam que se visualizasse o homem em sua totalidade (ser biológico, psicológico e social).

Com um posicionamento diferenciado, mas que vai ao encontro das escrituras de Peregrino Júnior, Waldemar Areno toma o rumo de refletir sobre a importância da Educação Física na sociedade - também tomando como base os ‘valores’ que conotam a importância da profissão no seio social. Inspirado nas teorias de John Dewey, Areno primeiramente faz menção referente ao modo como a Educação foi sendo concebida historicamente sob a óptica de diferentes intelectuais (Platão, Aristóteles, Rousseau). Isso para fundamentar a crítica sobre a dissociação entre Educação Física e Educação consolidada historicamente.

Reconhecendo a posição central que a ENEFD ocupava no âmbito nacional, eles logo procuraram dar visibilidade ao que piançavam.

Escreveram alguns artigos teórico-reflexivos que remeteram críticas ao sistema reprodutivo e desencadearam posicionamentos que claramente focalizava o florescimento de diferentes meios de intervenção. Pois, Waldemar Areno (1946) diz que
existe naturalmente a imperdoável ignorância dos pseudo-intelectuais, dos que não acompanham a evolução dos processos educativos, não conhecem nem na superfície, o papel da Educação Física na formação do Homem moderno. Mas pululam também os reacionários, os inimigos permanentes, os que vêm na Educação Física o meio de cumprir as exigências legais sem lhe atender o amparo merecido, sem fazer dela, como deviam, o alicerce firme da Educação total (p.13).

Esses posicionamentos foram fortalecidos após o II Congresso Panamericano de Educação Física, realizado no México, em outubro do mesmo ano. Ele utilizou a revista seguinte (julho de 1947) para difundir ainda mais seus posicionamentos referentes à Educação em nossa profissão. Sendo que dessa vez ele sustentou sua argumentação referendando as discussões que permearam o evento.

Suas reivindicações não se limitaram ao campo ideológico. Houveram mobilizações na busca de mudanças estruturais com a finalidade de aliviar a forte intervenção estatal no cotidiano da Escola. Uma evidência disso foi a reestruturação na grade curricular estabelecida em 1945. O resultado dessa mobilização se consolidou no dia 9 de fevereiro, onde o diretor da ENEFD - Capitão Antônio Pereira Lira - apresenta ao Ministro o Ante-projeto da reforma dos currículos da Escola. Outro ponto que podemos ressaltar é a exigência dos reivindicadores para que pudessem escolher seus representantes através de uma lista tríplice, retirada na congregação - e não mais por intermédio do Governo Federal.

Palavras finais

Através desses acontecimentos, foi possível potencializar o fortalecido por disputas políticas internas que dinamizavam a ENEFD; nesse mesmo período os professores aglutinaram adeptos às suas idéias, onde alguns autores delinearam em suas publicações a mesma diretriz desencadeada por Areno e Peregrino Júnior.

Com isso, suas ideais foram disseminados a outras áreas de conhecimentos. Exemplo disso são os dois artigos de Maria Helena Sá Earp em que vislumbra abordagens psíquico-educacionais à dança (1946 e 1947). Podemos apontar também Cecília Stramandinoli e Maria Jacy que fizeram o mesmo tipo de abordagem referente à educação infantil (1947), dentre alguns outros.

Vale lembrar que a militância dos professores da ENEFD não se resume à mobilização intra-institucional. Tornou-se comum os professores participarem de eventos no exterior e elaborar comparações sobre a concepção da educação física nos países visitados com o Brasil. Boa parte das vezes utilizava a revista para divulgar seus relatórios - como foi o caso de Waldemar Areno no México; Alberto Latorre de Faria e Antônio Pereira Lira na Argentina e no Uruguai. Além disso, eles regiam palestras por todo o Brasil e utilizavam outras revistas como meio de comunicação - como o caso da 0Revista Brasileira de Educação Física, que tinha sua sede no Distrito Federal, mas circula em boa parte do Brasil.

Tomando como base esse cenário, notamos que após a queda do Estado Novo, houve um levante - não somente na ENEFD - teórico conceitual que buscou refletir a papel que a educação física poderia - e no case deles deveria - assumir frente à sociedade. Portanto cremos que resgatar e compreender estas dinâmicas podemos aportar elementos substanciais para debater a função da educação física na escola e na sociedade.

Obs. Os autores, acadëmicos Bruno Lima Patrício dos Santos e Ian Anderson de Andrade cursam a EEFD/UFRJ e são bolsistas da FAPERJ / Centro de Memórias Inezil Panna Marinho.

Referência

  • Areno, Waldemar. Profissão de fé. Arquivos da ENEFD, Rio de Janeiro, n.2, jun.1946, p.9-16.
  • ¬¬¬__________. II Congresso Panamericano de Educação Física realizado no México em outubro de 1946. Arquivos da ENEFD, Rio de Janeiro, n.3, 1947, p.5-25.
  • ¬¬¬__________. Relatório da viagem ao norte do Brasil. Arquivos da ENEFD, Rio de Janeiro, n.4, jun.1948, p.26-43.
  • Arquivos da ENEFD. Rio de Janeiro, n.1, out.1945.
  • ¬¬¬__________. Rio de Janeiro, n.2, jun.1946.
  • ¬¬¬__________. Rio de Janeiro, n.3, jun.1947.
  • ¬¬¬__________. Rio de Janeiro, n.4, jun.1948.
  • ¬¬¬__________. Rio de Janeiro, n.5, set.1949.
  • Brasil. Decreto-lei nº 1.212, de 17 de abril de 1939. Cria, na universidade do Brasil, a Escola Nacional de Educação Física e Desportos.
  • Marinho, Inezil Penna. História da Educação Física e dos Desportos no Brasil. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Saúde.
  • Melo. Escola Nacional de Educação Física e Desportos - uma possível história. Campinas: Unicamp, 1996. Dissertação (Mestrado em Educação Física).
  • Peregrino Júnior, João. Nosso Aparecimento. Arquivos da ENEFD, Rio de Janeiro, ano 1, n.1, p.2, out./1945.
  • ¬¬¬__________. A Educação Física e o mundo de amanhã. Arquivos da ENEFD, Rio de Janeiro, ano 2, n.2, p.5-8, jan./1946.
  • Pintor, Luiz José Marques. A Criação da Escola Nacional de Educação Física e Desportos da Universidade do Brasil e sua Inserção na Política no Estado Novo.Rio de Janeiro: UFRJ, 1995. (Mestrado em Educação Física).
  • Sá Earp, Maria Helena. A dança como fator de Educação. Arquivos da ENEFD. Rio de Janeiro, ano 1, nº 1, p. 19-23, out/1945.
  • ¬¬¬__________. O campo psicológico da dança educacional. Arquivos da ENEFD. Rio de Janeiro, ano 2, nº 2, p. 17-20, jan/1953.
  • Santos, Bruno Lima P. História: as contribuições da revista "arquivos" no campo da educação física escolar. Niterói, VIII EnFEF, separata, 2004. (Anais).

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