Crossfit® Riscos ou Benefícios? o Que Sabemos Até o Momento?

Por: Jonato Prestes, Leonardo Mesquita de Almeida e Ramires Alsamir Tibana.

Revista Brasileira de Ciência & Movimento - v.23 - n.1 - 2015

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Resumo

O CrossFit® é um método de treinamento novo caracterizado pela realização de exercícios funcionais, constantemente variados em alta intensidade1. Este tipo de treinamento utiliza exercícios do levantamento olímpico como agachamentos, arrancos, arremessos e desenvolvimentos, exercícios aeróbios como remos, corrida e bicicleta e movimentos ginásticos como paradas de mão, paralelas, argolas e barras1,2,3.
O CrossFit® é um dos programas de condicionamento extremo que mais cresce em número de adeptos, além de contar com mais de 10000 academias conveniadas pelo mundo (Crossfit.com). O modelo de treinamento criado em 1995 por Greg Glassman visa desenvolver o condicionamento de forma ampla, inclusiva e geral, preparando os treinados para qualquer contingência física necessitada2. 
O treinamento de CrossFit® visa desenvolver ao máximo as três vias metabólicas e cada uma das 10 valências físicas: resistência cardiorrespiratória, força, vigor, potencia, velocidade, coordenação, flexibilidade, agilidade, equilíbrio e precisão1. Para isso as sessões de treino seguem uma ordem que inicia com um aquecimento seguido de uma atividade para desenvolver força ou melhorar a habilidade em algum movimento específico, para somente então começar a parte de condicionamento metabólico, todos esses componentes juntos constituem o WOD, sigla em inglês para “workout of the day” que significa “treinamento do dia” (tabela 1). Obrigatoriamente os treinos seguirão os três pilares da prescrição que são realizar movimentos funcionais, em alta intensidade e constantemente variados2. Esta atividade, por seu caráter motivacional e desafiador, vem ganhando milhões de seguidores. A aderência é elevada, contemplando desde indivíduos saudáveis, obesos e atletas4.
Até o presente momento as pesquisas a eficácia ou malefícios do CrossFit® são escassas e as que já existem não são conclusivas, ou deixam lacunas metodológicas para futuras investigações2,3,5,6,7,8,9,10. 
Em relação à incidência de lesões no CrossFit®, Grier et al10, analisaram a incidência de lesões em combatentes norte americanos após a implementação do CrossFit® nas rotinas de preparação física antes e após 6 meses. De forma interessante, os pesquisadores concluíram que em ambos (praticantes e não praticantes) houve uma incidência de lesões de ~12%. As principais razões para tais lesões foram a baixa aptidão cardiorrespiratória, sobrepeso/obesidade e ser fumante. Além disso, foi observado que os combatentes praticantes ou não de CrossFit® que já tinham o hábito de praticar treinamento de força possuíam uma menor incidência de lesões. Não obstante, Hak et al8, determinou a taxa de lesões em atletas de crossfit através de um questionário online. Foram observadas uma taxa de lesão de 3,1 por 1000 horas de treinamento, nenhum caso de rabdomiolise foi reportado. Portanto, as taxas de lesões reportadas no Crossfit foram semelhantes ao levantamento olímpico11, levantamento básico12 e ginástica13 e menor quando comparado a esportes de contato como o Rugby14.
Já foi demonstrado que treinamentos de alta intensidade podem levar a apoptose (morte celular) de linfócitos, acarretando uma diminuição dos linfócitos circulantes e consequentemente uma redução na imunidade, que poderá ser maior, quanto mais intenso e frequente for o exercício15. Recentemente, Navalta et al16, investigaram os efeitos de três dias consecutivos de treinamento de alta intensidade (HIIT) até a exaustão e demonstraram que o HIIT induziu a apoptose de linfócitos, o que pode predispor a quadros de imunossupressão. 
Heavens et al5, selecionaram indivíduos treinados recreacionalmente no treinamento de força para realizar um protocolo de treinamento do CrossFit® que consistia em iniciar com 10 repetições e diminuir uma repetição a cada série até que fosse finalizada em uma repetição nos exercícios supino horizontal, levantamento terra e agachamento. Todos os exercícios foram feitos com 75% de 1RM e sem intervalo. Eles encontraram um aumento significativo da interleucina-6 (IL-6) imediatamente após o exercício e após 15 minutos, a mioglobina se manteve alta imediatamente após, 15 e 60 minutos depois e a creatina kinase (CK) permaneceu aumentada desde o repouso até 60 minutos após o programa ser realizado. Nesse aspecto, parece plausível que dias consecutivos de treinamento de alta intensidade podem afetar o sistema imune e consequentemente deixar os praticantes/atletas mais susceptíveis às infecções do trato superior respiratório. Neste caso, sugere-se uma diminuição na intensidade ou a inclusão de dias de descanso entre as sessões.
Em relação às adaptações crônicas, Smith et al3, utilizaram as rotinas de treinamento do CrossFit® e verificaram após 10 semanas de treinamento em jovens adultos, redução de até 20% no percentual de gordura (de 22,2 ± 1,3 para 18,0 ± 1,3%), (de 26,6 ± 2,0 para 23,2 ± 2,0%) e melhoras de até 15% no consumo máximo de oxigênio (de 43,10 ± 1,40 para 48,96 ± 1,42 ml.kg-1.min-1), (de 35,98 ± 1,60 para 40,22 ± 1,62 ml.kg-1.min-1) em homens e mulheres, respectivamente. No entanto, até o presente momento este é o único estudo que avaliou as respostas crônicas ao CrossFit®.
Deste modo, apesar dos poucos estudos publicados até o presente momento, parece que, a prática do CrossFit® não aumenta a incidência de lesões, e pode melhorar as adaptações no sistema cardiovascular, neuromuscular e na composição corporal. Não obstante, mais estudos são necessários para elucidar as respostas agudas nos sistemas cardiovascular e imunológico.

Endereço: http://dx.doi.org/10.18511/0103-1716/rbcm.v23n1p182-185

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