Cultura Lúdica na Prática da Educação Física Escolar

Por: Ailton Bezerra Lima.

IX EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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A cultura lúdica

Ao associarmos a importância, de relacionar a cultura com o meio social ao qual ela pertença, tentando preservar a identidade cultural de uma determinada localidade com o seu acervo cultural, tendo este acervo à representatividade na consciência coletiva.

A sociedade que se preocupa em preservar a sua identidade visa ao seu próprio crescimento. A indiferença com a cultura enquanto instrumento de poder é um ato que terá conseqüências indesejáveis no nosso futuro, porque implica na questão da manutenção da identidade nacional, dos seus valores, da sua herança, do seu patrimônio cultural e ainda temos que ressaltar que fica em jogo a noção de cidadania, assim como, necessariamente, a questão fundamental da memória nacional. Segundo Brougère (2000):

"Esse aprendizado diário, por sua vez, depende da transmissão dos conhecimentos de uma geração para outra, ou seja, de uma cultura base para as transformações internas e para as adequações que o mundo exterior ao grupo exige, compreendendo desde as técnicas engendradas na manipulação do natural até o conjunto de valores e crenças necessárias para a convivência e a manutenção do grupo". (pág. 65)

Está nos discentes, de uma maneira subjetiva, o motivo das nossas questões; visando de uma maneira direta ou indireta, sua melhoria de vida, o respeito a sua identidade e a sua memória, norteando, assim, nossa conduta no campo da cultura.

É preciso pensar na preservação da cultura e da identidade cultural de um povo. Temos a escola, como principal instituição de educação formal de nossa sociedade, podendo e devendo participar de uma forma real e de uma maneira ideal para a conquista deste propósito. Baseado no Coletivo de Autores (1992)

"... os conteúdos... a serem apreendidos na escola devem emergir da realidade dinâmica e concreta do mundo do aluno. Tendo em vista uma nova compreensão dessa realidade social, um novo entendimento que supere o senso comum, o professor orientará, através dos ciclos, uma nova leitura da realidade pelo aluno, com referências cada vez mais amplas". (pág. 87)

Buscamos reunir um conjunto de informações sobre a cultura lúdica popular, com o propósito de preservação desta cultura e da identidade cultural das comunidades nelas inseridas e, ainda, permitir maior acesso a esse patrimônio cultural.

A educação física escolar

A Educação Física é uma componente curricular, sendo obrigatória nas escolas de ensino fundamental e médio. Os indivíduos na busca da melhor qualidade de vida necessitam também da prática de brincadeiras e jogos.

Devemos sempre que possível, assegurar que a Educação Física é uma peça fundamental para o bem-estar do corpo, cuja circunstância de pleno equilíbrio torna-se imprescindível para a melhoria do aprendizado.

Mais especificamente dentro do contexto da Educação Física Escolar faz-se necessário que haja uma mais perfeita integração na relação educando - educador. O professor deve perceber que os alunos não desenvolvem simultaneamente o mesmo nível de consciência pessoal, nem corporal, pois cada aluno possui a sua própria história de vida, que ele carrega consigo para a sua vida escolar. Na visão reflexiva de Piccolo (1993), ela nos expõe que: "Para que a Educação Física faça parte do ato educativo, ela não pode ter uma ação pedagógica mecanizada, pois assim estaria estimulando a sua inexistência como prática no contexto escolar". (pág. 12)

É importante ressaltar que o ato educativo é feito de maneira que possamos respeitar a individualidade do educando - cada ser é único - devemos fazer com que a seu modo ele se expresse que demonstre ao educador as suas limitações e as suas possibilidades. Para Piccolo,

"A Educação Física Escolar deve objetivar o desenvolvimento global de cada aluno, procurando formá-lo como indivíduo participante; deve visar a integração desse aluno como ser independente, criativo e capaz, uma pessoa verdadeiramente crítica e consciente, adequada à sociedade em que vive; mas esse objetivo deve ser atingido através de um trabalho também consciente do educador, que precisa ter uma visão aberta às mudanças necessárias do processo educacional". (pág. 12)

Os brinquedos, brincadeiras e os jogos

As brincadeiras, os brinquedos e os jogos que fazem parte de uma sociedade, possuem as suas raízes num contexto genuinamente social e é através delas as crianças (re)criam as suas experiências culturais, buscando assim, uma concepção do seu mundo, ou seja, a criança brinca e joga para se conhecer e para compreender o mundo que está ao seu redor. Na execução destas atividades, a criança compreende que faz parte de um grupo social, conseguindo assim, arquitetar a sua própria identidade cultural.

Durante a realização das brincadeiras e dos jogos as crianças são levadas a interrogar, modificar e descobrir a sua realidade cotidiana. Elas possuem a chance de (re)construir hipóteses a respeito do meio ambiente a qual encontra-se inserida, ou melhor, a criança possui a necessidade de melhor se relacionar com o seu grupo social.

Nossos papéis sociais e como devemos nos relacionar com os hábitos culturais de determinado grupo social é expresso na fala de Brougère que nos diz: "O brinquedo se mostra como um objeto complexo que permite a compreensão do funcionamento da cultura ... os efeitos do brinquedo sobre a criança, no âmbito de sua socialização ou de sua integração no universo codificado de uma determinada cultura". (pág. 09)

Percebemos a importância dos jogos, das brincadeiras e dos brinquedos, eles influenciam no desenvolvimento da criança tanto no que diz respeito ao seu auto-conhecimento como também auxilia no seu desenvolvimento psico-social: linguagem, imaginário, memória, capacidade criadora, concentração, socialização, cooperação. Com essas atividades lúdicas a criança começa a conhecer o seu próprio corpo tendo como seu ponto referencial o espaço físico, sendo assim, com os exercícios de motricidade, ela percebe a sua relação do seu eu com o mundo que a cerca.

Entendemos que a brincadeira, o brinquedo e o jogo por si só não se tornam suficiente para o pleno aprendizado e desenvolvimento das crianças, se faz necessário associá-la as mais variadas atividades do cotidiano escolar, para assim, uma atividade complementando a outra e todas unidas num único objeto - a criança possa permitir a ela a oportunidade para agir, refletir, debater, pensar, criar e duvidar.

Citando Brougère, percebemos que:

"... o brinquedo é dotado de um forte valor cultural, se definimos a cultura como o conjunto de significações produzidas pelo homem. Percebemos como ele é rico de significados que permitem compreender determinada sociedade e cultura... a brincadeira pode ser considerada como uma forma de interpretação dos significados contidos no brinquedo".(pág. 08)

O professor e as atividades culturais lúdicas

O professor torna-se o responsável legal para que o universo lúdico infantil faça parte do cotidiano escolar, pois serão também eles os indivíduos com a autoridade de fazer a inserção da cultural lúdica infantil dentro do trabalho de sala de aula.

O papel do educador é fundamental porque as atividades lúdicas desenvolvidas pelas crianças nas ruas não possuem o mesmo sentido quando está, são inseridas dentro da instituição de ensino, neste momento, as atividades passam a ser orientadas, ou seja, elas ganham um cunho pedagógico, possuem um direcionamento para o processo ensino-aprendizagem.

Devemos procurar dar o tempo necessário para que as brincadeiras, os brinquedos e os jogos apareçam, mas inicialmente os educadores podem juntamente com os alunos realizar dentro da escola uma pesquisa de atividades lúdicas infantis tradicionais, entrevistando diretores, funcionários, professores e outros alunos e num segundo momento, sugerir a realização da mesma tarefa com as suas respectivas famílias. Após essa etapa, auxiliado pelo professor catalogar essas atividades, como uma forma de preservar a memória popular que é transmitida oralmente de uma geração à outra. Assim, estimulamos a preservação da identidade cultural de uma região, através do resgate de um repertório de atividade lúdico infantil que os educadores podem usufruir e que podem ser aproveitados no cotidiano com as crianças.

Devemos ressaltar que essas atividades, necessitam ter uma objetividade e devem se inserir num contexto pedagógico, cumprindo o seu papel no processo ensino-aprendizagem a partir do lúdico.

Cultura lúdica no universo da educação física escolar

Almejamos oferecer um elo de ligação como um instrumento articulador entre as práticas de Educação Física no contexto do cotidiano escolar infantil e a cultura lúdica popular, segundo Brougère,

"... as crianças também aprendem à medida que vão vivendo. A herança cultural recebida de seus antepassados pode transparecer na confecção artesanal de um objeto, na prática de um culto religioso, em todas as formas, enfim, em que se manifesta o ensino informal e mesmo no ensino formal..." (pág. 65).

Pretendemos resgatar e incluir esta cultura lúdica no primeiro segmento do Ensino Fundamental, ressaltando tanto o enfoque teórico quanto o prático através de o ensino regular, de oficinas, de observações e de iniciação aos estudos bibliográficos e de campo, pois devemos considerar a cultura trazida do meio familiar e comunitário pelo aluno no planejamento curricular, com vistas a aproximar o aprendizado formal e não formal, em razão da importância de seus valores na formação do cidadão. Para o Coletivo de Autores,
"Num programa de jogos para as diversas séries, é importante que os conteúdos dos mesmos sejam selecionados, considerando a memória lúdica da comunidade em que o aluno vive e oferecendo-lhe ainda o conhecimento dos jogos das diversas regiões brasileiras e de outros países". (pág. 67)

Pretendemos contribuir demonstrando que existe um elo de ligação entre os jogos e as brincadeiras cotidianas com a da cultura popular e este é propulsor na formação do desenvolvimento da criança de forma holística levando-a a construção consciente de sua identidade enquanto cidadão, para Brougère se "... embutir a idéia de que sua cultura, sua tradição e seus conhecimentos serão preservados através da transmissão dos mesmos para suas crianças...". (pág. 62)

Conclusão

A atividade lúdica é o caminho para a criança se conhecer e compreender o mundo que a cerca e a se constituir como um ser pertencente a um grupo social; construindo assim a sua identidade cultural.

Na realização de uma atividade lúdica é permitida a criança a exploração do próprio corpo em relação com o ambiente físico e a sua psicomotricidade. Assim sendo, torna-se imprescindível, uma reflexão no sentido de uma inserção da Educação Física num contexto cultural.

Para que a cultura lúdica infantil adquira seu espaço no cotidiano das instituições de ensino é primordial a atuação dos docentes, cabendo a ele se deixar envolver dentro do contexto mágico das brincadeiras/jogos das crianças. Segundo Tojal, com uma visão holística, entende que seja o período de se compreender o "... momento de se pensar em devolver à Educação Física à abrangência do seu significado cultural". (pág. 45)

Obs. O autor, prof. Ailton Bezerra Lima (tomlima49@ig.com.br), é mestrando em História Social (U Severino Sombra) e leciona na rede estadual (RJ).

Referências bibliográficas

  • Aguiar, Carmem Maria. Educação, Cultura e Criança. Campinas, SP: Papirus, 1984.
  • Brougere, Gilles. Brinquedo e Cultura. 3ª edição. São Paulo, Cortez, 2000.
  • Coletivo de Autores. Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.
  • Faria Jr., Alfredo Gomes de. Fundamentos Pedagógicos da Educação Física. Rio de Janeiro. Ao Livro Técnico. 1986.
  • Freire, João B. . Educação de Corpo Inteiro. São Paulo: Scipione, 1994.
  • Freyre, Gilberto. Casa-Grande e Senzala. 28ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1992.
  • Gadotti, Moacir. História das Idéias Pedagógicas. 8ª edição. SP: Editora Ática, 2001.
  • Kishimoto, Tizuko M.. Jogos Infantis: o jogo, a criança e a educação. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1993.
  • Le Goff, Jacques. História e Memória. 4ª edição. Campinas: editora da Unicamp. 1996.
  • Magale, Nilza B. Folclore Brasileiro. Petrópolis: Editora Vozes, 1999.
  • Oliveira, Franklin de. Morte da Memória Nacional. 2ª edição. Rio de Janeiro: Topbooks. 1991,
  • Ortiz, Renato. Cultura Brasileira & Identidade Nacional. São Paulo: Brasiliense. 1986,
  • Piccolo, Vilma L. Nista. (Org.). Educação Física Escolar: Ser ... Ou Não Ter?. Campinas. São Paulo: Editora Unicamp, 1993.
  • Resende, Helder G. de. Reflexões sobre algumas contradições da Educação Física no âmbito da escola pública e alguns caminhos didáticos-pedagógicos na perspectiva da cultura corporal. In: Revista Movimento. Ano 1. Nº. 1. Setembro/1994.
  • Santos, José Luiz dos. O que é Cultura. 7ª edição. SP: Brasiliense, 1986.
  • Tojal, João Batista A. Gomes. Motricidade Humana: o paradigma Emergente. Campinas, São Paulo: Editora da UNICAMP, 1994.

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