Cultura, Valores e Educação Física Escolar

Por: Walmer Monteiro Chaves.

VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Introdução

Frente à crise de valores que ocorre atualmente em nossa sociedade, a escola encontra-se com uma árdua tarefa de contestar essa situação caótica, trabalhando a questão dos valores e atitudes, por vezes, na contramão da realidade social.

Se a escola, como instrumento de desenvolvimento do ser humano, não se manifestar de forma antagônica a determinados valores que são passados aos nossos alunos e ficar submetida aos ditames do mercado e a outros interesses que não tenham cunhos educativos, desvia-se da sua função primordial de formar o cidadão íntegro, ético, consciente de suas ações e sujeito da sua história.

O objetivo deste trabalho é suscitar a reflexão acerca dos valores negativos ou contravalores inseridos e transmitidos pela sociedade e o papel da escola, especificamente da Educação Física, na contraposição aos mesmos.

A situação-problema está centrada na seguinte questão: como a Educação Física pode colaborar na conscientização dos alunos frente aos contravalores inseridos no contexto social?

No papel de educadores devemos atentar para a formação de uma atitude crítica por parte dos alunos visando à reflexão frente aos valores que nos são oferecidos ou impostos. Devemos ser agentes dessa função no sentido de não reproduzirmos um sistema que aliena e aniquila o indivíduo, sob a égide da competitividade e do individualismo.

Cultura, valores e escola

Segundo Forquin (1993), o significado da palavra cultura baseia-se essencialmente, num " [...] patrimônio de conhecimentos e de competências, de instituições, de valores e de símbolos, constituído ao longo de gerações e característica de uma comunidade humana particular". (pg. 12)

Para Rios (2002), "educação é transmissão de cultura", sendo assim, podemos inferir que diversas manifestações culturais devem ser trabalhadas com os educandos e, não somente, as predominantes nos países considerados de "primeiro mundo", pois dessa forma estaremos reduzindo as possibilidades e oportunidades aos alunos, bem como elitizando o conhecimento.

Beresford (1999) afirma que os valores possuem uma dupla e conflitante polaridade, ou seja, existem os valores positivos e os valores negativos que podem ser considerados como contravalores, antivalores ou desvalores.

A escola deve adotar uma posição crítica em relação aos valores que transmite, explícita ou implicitamente, visando aspectos construtivos ou positivos ao invés de alguns contravalores que ferem a moral, a ética, a estética,..., e que, por vezes, são passados pelo contexto social.

Dessa forma deve-se atentar para os valores que são transmitidos para os jovens, no sentido de uma reflexão crítica, pois estes são introjetados e contribuem para a construção de sua identidade, personalidade e do cidadão crítico e participativo ou alienado e passivo na sociedade.

Desafios a serem enfrentados...

Nesta parte do trabalho, destacaremos alguns desafios que devemos enfrentar em nossa práxis educativa, lembrando que não devemos descartar o conhecimento externo que impregna a cultura escolar, mas sim viabilizarmos uma pedagogia de superação do senso comum, visando o envolvimento dos alunos nas discussões sobre os valores que estão embutidos neste conhecimento, destacando os positivos e construtivos para sua formação.

Temas ou pontos de tensão -


• Forte pressão da indústria do corpo-objeto, da cultura e do lazer: valores estéticos (padrões de beleza, dietas alimentares / anorexia e bulimia, uso de anabolizantes e silicone, ...); sexualidade (erotização precoce, diversidades de apelos sexuais, corpo-máquina, ...); músicas com letras pouco ou nada educativas e danças com requintes de sensualidade para todas as idades; competitividade exacerbada em contraposição ao prazer, à ludicidade e ao ócio; adornos corporais (brincos, tatuagens, piercing,...) e criticidade ao utilizá-los; dentre outros.


• Perspectiva inclusiva x perspectiva seletiva: as aulas devem estar voltadas para todos os participantes, e não somente para os "melhores" em termos de rendimento / performance.


• Esporte na escola x Esporte da escola: o esporte escolar deve estar voltado para o lúdico e o prazer de todos os participantes e não com os valores desportivos embutidos no esporte de alto nível / rendimento; desportivização x jogos adaptados.


• Reconhecimento do pluralismo cultural: adoção de uma postura não preconceituosa e não discriminatória diante das manifestações e expressões dos diferentes grupos étnicos e sociais (religiosos, econômicos, filosóficos, esportivos, ...) e das pessoas que deles fazem parte.


• Importação da cultura de outros países (estrangeirismo) em detrimento da cultura nacional: não cabe aqui rejeitar o conhecimento de qualquer tipo de cultura, mas alertar para que a cultura nacional não seja substituída por modelos vindos de fora. Por exemplo, podemos citar a implantação de termos técnicos, de vestimentas inadequadas ao nosso clima, do "Dia das Bruxas" (por onde anda o saci-pererê, o lobisomem, ...?), dentre outros.


• Mitos / senso comum x conhecimento científico: com relação à atividade física, cabe-nos a tarefa de romper com o senso comum e discorrer sobre o conhecimento científico atualizado.


• Questões éticas: uso de doping, anabolizantes, deslealdade, não cumprimento das regras estabelecidas, "gatos" nos esportes,..., em contraposição aos princípios de lealdade, justiça, respeito mútuo, dignidade, solidariedade e cooperação.


• Corrupção / Impunidade x Honestidade / Punição.


• Respeito ao meio ambiente: preservação x destruição.


• Competitividade exacerbada x competição natural: esta última respeitando valores éticos, morais, estéticos, individuais, emocionais, discutindo as situações de vitória / derrota ou acerto / erro, valorizando as diversas formas de manifestações individuais / competências,... .


• Hábitos alimentares inadequados x alimentação natural / saudável.


• Mídia e recursos tecnológicos provocando hábitos e valores indevidos (filmes violentos, propagandas de cigarros e bebidas alcoólicas, doenças hipocinéticas, ...)


• Banalização da violência x Não violência.


• Falta de limites (família, sociedade,...) x limites organizacionais (normas, autoridade, hierarquia, disciplina, ....).


• Sedentarismo e vigorexia x prática de atividade física regular e saudável.

• Individualismo x individualidade / respeito e tolerância às diferenças / cooperação e solidariedade.

• Grafites e pichações x trabalhos artísticos na escola.

• Movimento virtual x movimento real (significado, intenção, comunicativo, relacional, ...).
• "Ter x Ser": consumismo alienante x consumo necessário / natural; valorização do consumo de bens e serviços em detrimento dos valores humanos.

• Segregação e rotulação de alunos por características específicas x pedagogia inclusiva.
• Valores e expressões corporais pré-concebidas x novas vivências (espontaneidade, criatividade, tolerância, diversidade, diferenças, ...).

Naturalmente existem outras questões a serem levantadas e refletidas e, desta forma, devemos reiterar a responsabilidade do profissional da Educação Física na construção de um conhecimento científico que viabilize informações e valores positivos para a formação dos alunos.

"A Educação Física escolar não pode reproduzir a miséria da falta de opções e perspectivas culturais, nem ser cúmplice de um processo de empobrecimento e descaracterização cultural". (PCN, 1998, p. 83)

"O professor que atua na escola, além de um conjunto de conhecimentos técnicos provindos de sua formação acadêmica, lida com um conjunto de valores, hábitos, com uma tradição, com um determinado contexto, enfim, atualiza significados continuamente". (DAÓLIO, 2003, p. S34)

Para Daólio, a cultura escolar da Educação Física é um processo dinâmico, repleto de nuanças, sutilezas e representações sociais e qualquer abordagem que negue esta dinâmica cultural inerente à condição humana, "[...] correrá o risco de se distanciar do seu objetivo último: o homem como fruto e agente de cultura. Correrá o risco de se desumanizar". (ibid, p. S37)

Considerações finais

Dentro desse quadro de inversão de valores que por vezes ocorre na sociedade, torna-se competência dos professores tomar consciência dessa situação e assumir responsabilidades sem ultrapassar seu mandato e nem deixar se abater e desanimar da luta.
Não podemos ingenuamente acreditar que a escola por si só solucionará as questões suscitadas neste trabalho, uma vez que a violência, os preconceitos, as desigualdades, as discriminações e, enfim, os contravalores estão presentes no cotidiano e são amplamente divulgados pela mídia. Porém cabe a escola a função precípua de resistir e mostrar os valores realmente positivos que devem ser introjetados pelos alunos na construção de cidadãos críticos e participativos na sociedade.

Os conteúdos atitudinais, que correspondem ao saber ser, devem ser mais valorizados no contexto escolar que ainda prioriza os conteúdos conceituais (o saber) e os procedimentais (o saber fazer), visando a formação integral dos alunos.

Os professores devem envolver os alunos em atividades de pesquisa e em projetos de construção do conhecimento, promovendo amplos debates sobre os temas polêmicos e atualizando constantemente as informações.

A relação pedagógica deve ser periodicamente avaliada no sentido da preservação da autoridade e da comunicação dos conhecimentos nas aulas. Devemos buscar novas estratégias de ensino, suscitando trabalhos que estimulem projetos e despertem interrogações a serem solucionadas em parceria com os professores das diversas disciplinas, os coordenadores, os alunos e, enfim, toda comunidade escolar.

Os professores devem atentar para a relação entre o discurso e a prática educativa, pois a reflexão teórica despertada pelo profissional deve vir consubstanciada pela conduta prática do mesmo, caso contrário, todo trabalho realizado tende a ser desvalorizado pelos alunos.

Finalizando, se existem contradições entre os valores que a escola afirma e os costumes ambientes da sociedade, Antunes (2001,p. 80) destaca que os professores devem "reconhecer os limites pessoais mas jamais renunciar ao objetivo de fazer de sua prática pedagógica e de sua escola "um novo país, uma nova cidade", um lugar onde ainda se acredita na integridade, na justiça, na beleza e na bondade".

O autor, o professor Walmer Monteiro Chaves é mestre em Ciência da Motricidade Humana, professor das redes municipais de Itaboraí e São Gonçalo, da rede particular de Niterói , da UNIMATH e da UNIVERSO.

Referências Bibliográficas

  •  Antunes, Celso.Como desenvolver as competências em sala de aula.Petrópolis:Vozes, 2001
  • Beresford, Heron. Valor: saiba o que é. Rio de Janeiro: Shape, 1999.
  • Brasil. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física. Brasília: MEC / SEF, 1998.
  • Daólio, Jocimar. A cultura da Educação Física escolar. Motriz. Rio Claro, v.9, n.1, supl., p. S33-37, jan/abr 2003.
  • Forquin, Jean-Claude.Escola e cultura: as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
  • Rios, Terezinha Azerêdo. Ètica e competência. 12 ed. São Paulo: Cortez, 2002.

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