Currículo e Formação Docente em Periódico de Educação Física: Trilhando Algumas Questões da Identidade do Professor

Por: Kalline Pereira Aroeira.

VIII EnFEFE - Encontro Fluminense de Educação Física Escolar

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Busca-se neste estudo, acerca da produção publicada em artigos de periódico de Educação Física, analisar a discussão sobre currículo e sua conexão com a formação do professor no âmbito dos cursos de Educação Física. O currículo é entendido numa visão sociopolítica, priorizando compreender as questões curriculares como mecanismo essencial de constituição de identidades individuais e sociais atravessadas por relações de poder (MOREIRA, 1990, 1997, 1999, 2000; MOREIRA; SILVA, 1999; SILVA, 1999a, 1999b, 2000).

O interesse em estudar as questões curriculares deriva de uma atenção especial em relação à conexão currículo e formação - temas que entrecruzam a trajetória dos professores - e à necessidade de questionar algumas faces dos processos educativos ligados ao currículo dos cursos de formação.

O currículo molda os docentes, mas é traduzido por eles mesmos. A influência entre eles, diz Gimeno Sacritán (1998), é recíproca, pois a atuação dos professores em geral, e em especial a de docentes universitários, está condicionada, em boa medida, ao papel que lhes é atribuído no desenvolvimento do currículo.

O que aqui se compreende por conexão entre currículo e formação docente é que o professor é um dos mediadores decisivos entre o currículo estabelecido e os alunos (apesar de seu espaço de decisão estar prefigurado de algum modo dentro de um campo em que o professor atua, de sua instituição, da realidade local em que trabalha, de suas raízes culturais e sociais). É ele, principalmente, quem vai analisar os significados mais substanciais da cultura na qual os alunos têm acesso. Diante disso, reconhecer que esse papel têm conseqüências no momento em que se vai pensar em modelos apropriados de formação de professores é pensar que o currículo, de algum modo, também orienta parte do tipo de formação que esse professor terá, na configuração de sua profissionalização, na sua atuação, na reconstrução dos conhecimentos e práticas prefiguradas pelos currículos escolares.

Com isso, está-se apontando que discutir sobre currículo envolve também refletir sobre a formação docente, porque compreende-se a formação do professor como um campo de conhecimento, investigação e de propostas teóricas e práticas que, dentro da Didática e organização escolar, estuda os processos mediante os quais os professores implicam-se, individualmente ou em equipe, em experiências de aprendizagem e por meio das quais adquirem seus conhecimentos, destrezas e disposições, que lhes permitem intervir profissionalmente no desenvolvimento de seu ensino, do currículo e da escola, com o objetivo de melhorar a qualidade da educação que recebem os alunos (GARCÍA, 1995).

Por isso o interesse em dirigir olhares para a análise de estudos sobre a discussão a respeito do currículo e a formação de professores, especialmente pelas seguintes questões: quais as principais preocupações dessas produções quando o assunto é o currículo e a formação de professores de Educação Física? Que possibilidades, no processo de questionamento ao currículo, essas análises ajudam a apontar? O que a teoria curricular crítica sugere indagarmos com base na produção analisada?

Diante disso, a pesquisa detém-se na investigação de uma temática em revista, constituindo-se do estudo da produção discursiva sobre o tema currículo e formação de professores em periódico de Educação Física. Isso não significa dizer que não se busca fazer a articulação com o material interno da Revista, contudo é importante evidenciar que o interesse do estudo não é analisar o papel da Revista Brasileira de Ciências do Esporte de Educação Física na estruturação de seu campo.

A opção pelo estudo em periódicos deve-se por sua importância ser captada como instrumento privilegiado para a construção do conhecimento, constituindo-se em guia prático do cotidiano educacional e escolar, permitindo ao pesquisador estudar o pensamento pedagógico de um determinado setor ou grupo social, a partir do discurso veiculado, e a ressonância dos temas debatidos, dentro e fora do universo escolar (BASTOS, 1997).

Destaca-se, como argumenta Maria Helena Camara Bastos, ao estudar a imprensa periódica educacional no Brasil (1808-1940), que esse corpus documental afigura-se como fonte privilegiada de estudo: jornais, boletins, revistas, magazines, feita por professores para professores, feita para alunos por seus pares ou professores, feita pelo Estado ou por outras instituições, como sindicatos, partidos, associações e Igreja. O seu estudo possibilita avaliar a política das organizações, as preocupações sociais, os antagonismos e as filiações ideológicas, as práticas educativas e escolares.

Na Educação, alguns estudos já têm tomado como fonte os periódicos. Focalizando o tema currículo no Brasil, um dos primeiros estudos desenvolvido sobre currículo em revistas educacionais brasileiras foi realizado por Marlucy Alves Paraíso. A autora indica, que, apesar do produtivo avanço teórico que tem ocorrido nas reflexões sobre currículo, nos últimos anos, muito ainda precisa ser estudado nessa área. Suas análises sobre a produção registrada em revistas da Educação revelam que ainda faltam estudos sobre o efeito dessas teorias curriculares críticas nas instituições educacionais brasileiras de todos os níveis (PARAÍSO, 1994).

Sobre a formação de professores, recentes investigações têm focalizado esse tema com o estudo em periódicos (GODOY; SALLES, 1998; AUD, 1998; CARVALHO; SIMÕES, 1999, 2001). Um desses últimos estudos, realizado por Janete Magalhães Carvalho e Regina Helena Silva Simões, analisando as perspectivas e tendências da formação docente, registradas nas discussões de periódicos da Educação, na década de 90, aponta análises em torno de quatro eixos principais: a busca da articulação teoria e prática, tomando o trabalho pedagógico como núcleo fundamental desse processo; a necessidade de integração entre o Estado, as agências formadoras e contratantes de profissionais de educação; a construção de competência profissional aliada ao compromisso social do professor; e a exigência interdisciplinar na formação de professores (CARVALHO; SIMÕES, 2001).

Este estudo ao focalizar análises sobre a conexão currículo e formação de professores, entendida aqui como uma importante relação a ser pensada entre os temas que entrecruzam a trajetória dos professores, focalizou a fonte documental no período de 1979 a 2002 (início da publicação da Revista até momentos mais recentes), em que, além de avaliar essas questões, pode penetrar em outras mais gerais, não só no que se refere a características do contexto em que os artigos se inserem (ciclo de vida Revista), como também em questões específicas relacionadas com o tema currículo e a formação de professores na Revista Brasileira de Ciências do Esporte.

A tarefa de análise conduziu-se a partir da sistematização de dados acerca do periódico, em que se compreende a identificação de alguns contextos: num primeiro momento (anos 1980), os investimentos de participantes pela luta por um campo científico para a Educação Física e a preocupação da formação do professor ligada às ciências entendidas legítimas para a Educação Física com os currículos devendo acompanhar essa definição; num segundo momento (anos 1990 a 2000), registram-se preocupações em ampliar a discussão curricular a questões curriculares mais amplas em um processo político-social, com vistas à busca de paradigmas emergentes para a intervenção político-pedagógica dos profissionais de Educação Física nos diversos espaços educativos.

Identifica-se que os artigos analisados só dedicam atenção às questões ligadas à legislação curricular de forma tardia, na década de 1990. As produções mais recentes (por exemplo, publicadas na década de 1980) que compõem o corpus documental, quando foram elaboradas, estavam em vigência o Parecer 215/87 e a Resolução nº 3/87, mas vão ser mencionadas na produção com maior atenção no final dos anos 1990.

Dos 34 artigos identificados abordando a temática currículo e formação de professores, apreendem-se alguns aspectos ligados a características dessa produção: a) quanto à classificação do tipo ou natureza do estudo: mais da metade dos artigos selecionados (19 de 34 artigos) classificam-se como apresentação de pesquisas; b) sobre a ênfase temática, 13 dos 34 artigos tratam de forma direta da temática Formação Profissional e os demais incidem análises de forma fluida entre outros temas co-relacionados, como Estágio Supervisionado, Reforma Curricular; Disciplinas do Curso de Licenciatura, entre outros; c) os artigos analisados apresentam presença significativa no v. 21, n. 1 e v. 22, n. 3, aquele se refere à publicação em que se exterioriza a produção apresentada em congresso do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, e o outro corresponde a um número dedicado à temática Formação Docente e Prática Educativa em Educação Física; d) as produções não apontam uma referência bibliográfica recorrente significativa quanto à utilização de autores curriculistas e à área de formação de professores, entretanto é possível sinalizar, a partir do ano 1999, o uso de produções estrangeiras (por exemplo, Michael Apple e Henry Giroux), bem como de literaturas cada vez mais recentes no campo educacional.

Sobre o conteúdo dos artigos, analisa-se que pouco pautaram suas associações a conceitos da discussão curricular crítica. O método "inventado" por esta pesquisa buscou explorar cada documento (artigo) e, ao mesmo tempo, o conjunto dos documentos utilizando inicialmente o levantamento dos núcleos temáticos (com base na leitura dos resumos da produção e quando necessário, dos artigos), e também a construção das fichas de análise (dos artigos selecionados). Diante disso, foram criadas as categorias com a lógica de, a partir das perguntas centrais e norteadoras, explorar-se as fontes.

Como categoria central, a unidade de registro: Currículo e Formação de Professores: uma das questões que trilham a identidade do professor. Dessa categoria, foi possível visualizar, três subunidades de registro: 1) Formação do Professor nas Disciplinas e Conteúdos Curriculares; 2) Avaliação da Legislação Curricular e Teorias Curriculares no Contexto da Educação Física, Perfil e Características do Professor de Educação Física; 3) Possibilidades, Elementos Inovadores na Formação de Professores de Educação Física e Desafios.

Os dados apontam que a análise da discussão sobre currículo e formação docente em Educação Física indica elementos para se pensar a identidade do professor, no que se refere à necessidade de se questionar os currículos da área quanto ao significado do conhecimento, das práticas pedagógicas e do perfil da formação acadêmico-profissional desenvolvido. A discussão dos dados, com base principalmente na teoria curricular crítica, identifica questões a serem pensadas sobre o currículo e a formação de professores: a) no que se refere a analisar os estereótipos ligados ao gênero nos currículos e instituições educacionais; b) no que diz respeito a questionar os conceitos que se permitem compreender o currículo que se faz; c) ao indagar o significado das práticas pedagógicas no currículo e os elementos que precisam ser repensados no currículo; d) ao inquirir questões ligadas às reformulações curriculares e às possibilidades a serem pensadas nesse processo.

No contexto dos temas enfatizados pelas teorias curriculares, ao discutir sobre a formação docente e currículo em Educação Física, considera-se como principal preocupação o ensino, especialmente relacionado com o significado das disciplinas no curso de formação de professores. As principais preocupações dessas produções, quando o assunto é o currículo e a formação de professores, consentem em admitir a necessidade de se repensar os currículos de Educação Física. Entre elementos pensados nessa discussão, estão a organização dos cursos, das disciplinas, dos programas e cuidados com metodologias que garantam novas relações entre universidade e escola, em um ensino reflexivo.

Conforme a análise dos dados, algumas das possibilidades a serem consideradas no processo de questionamento e reformulação curricular a serem pensadas nesse contexto são a reconceptualização curricular e a indagação acerca da diferença e da diversidade.

Diante disso, é válido enunciar a necessidade de ampliar estudos na área, analisando a questão do currículo ligado a temas das teorias curriculares e a importantes categorias, como gênero, raça/etnia, geração, classe social e identidade. Nesse sentido, é relevante lembrar que uma fonte nunca está esgotada e que, enquanto houver perguntas, o material não estará suficientemente explorado, entendimento que inclui a necessidade de se estar apontando outras investigações, focalizando não só a temática aqui em pauta como outras que se referem ao trabalho com artigos da Revista Brasileira de Ciências do Esporte.

Por fim, reitera-se, portanto, assim como faz Moreira (1995), a necessidade de não dissociar a reflexão teórica sobre currículo e sobre formação do/a professor/a da luta pela transformação das circunstâncias que vêm impedindo que idéias e teorias já formuladas se materializem nas salas de aula de nossas escolas e universidades.

A autora, Kalline Pereira Aroeira, é do Centro Universitário Vila Velha (UVV-ES)


 Referências

  • Aroeira, Kalline Pereira. Currículo e formação docente em periódico de educação física: trilhando algumas questões da identidade do professor. 2004. 380 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.
  • Auad, Daniela. Os cadernos de pesquisa e a ausência da categoria gênero nos estudos sobre formação de professoras. In: I congresso Luso-Brasileiro de História da Educação, 2., 1998. São Paulo. Atas...São Paulo: Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1998. v. 1, p. 230-234.
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  • Carvalho, Janete Magalhães; SIMÕES, Regina Helena Silva. A formação de professores em nível superior, para atuar no ensino básico: construindo pontes entre a teoria, o imaginário social e a prática. Vitória: UFES/PPGE/CP, 2001. (Relatório final de pesquisa CNPQ).
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  • Moreira, Antônio Flávio Sociologia do currículo: origens, desenvolvimento e contribuições. Em aberto, Brasília, v. 9, n. 46, p. 73-83, abr./jun. 1990.
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  • Moreira, Antônio Flávio. Currículos e programas no Brasil. 6. e. São Paulo: Papirus, 2000.
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  • Silva, Tomás Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999a.
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  • Silva, Tomás Tadeu da (Org.). Identidade e diferença. Petrópolis. Vozes, 2000.

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