Dança com Lobos

Por: Nicolau Sevcenko.

Folha de São Paulo - n.27521 - 2004

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Vivi alguns dos momentos mais intensos da minha vida em quadras de handebol. O jogo era uma fissura, uma paixão, uma compulsão. Sempre que podia, passava na quadra o dia inteiro, treinando, jogando e, exausto, voltava para casa e ia dormir sonhando que continuava no jogo. Compartilhei das primeiras gerações que introduziram o handebol em São Paulo, entre os anos 60 e 70. Tudo era muito novo e excitante, não havia padrões de treinamento, de técnica, de formação tática, posicionamento ou de jogadas. Era um mundo novo para ser incorporado, vivido e inventado em plena ação. Era pura liberdade, explosão e imaginação.


Por sorte fiz parte de uma geração incrível. Entre o colégio e, depois, os clubes, em cerca de uma década, deu para encher uma sala de troféus e um baú de medalhas. Jogava no colégio Américo de Moura, heptacampeão dos jogos estudantis. Depois vieram o turbilhonante Juventus, o General Motors, o São Caetano e o Santo André. Eu era um finalizador, mas dependia, para cada movimento, de um grupo de autênticos gênios na armação: Vitché, um cérebro com braços e pernas; Cidão, um instinto com pernas e braços; Artur, a agilidade do vento e a visão da águia; Montanha, olímpico e gelado; Alberto (o atual técnico da seleção brasileira), o raio-X do jogo, de todo e qualquer jogo. Os goleiros eram prodígios: Rossini, Fred, William. E outros, muitos outros para mencionar aqui.

Há quem pense, porque o handebol é um esporte de contato intenso, que ele depende de físico, confronto e atrito. Ledo engano. Os segredos do jogo são sutileza, ritmo, presença de espírito e força de imaginação. Ao contrário do basquete, que implica uma marcação em estrela e uma área penetrável por todas as direções, no handebol a defesa se fecha numa coluna cerrada, e a área é zona proibida para os jogadores. Isso cria uma situação travada, com ataque e defesa se enfrentando num espaço superlimitado, entre a marca da área e a linha pontilhada dos nove metros. Com base só na força, sobretudo diante de uma defesa de molejo flexível, que avança e recua em bloco ao mesmo tempo, não passa nem a cavalaria americana.


O único jeito de fazer ruir essa muralha, é desestabilizando a sua unidade estrutural. Só há um modo de conseguir isso: dançando. Eis a revelação, o handebol é uma forma simultaneamente rigorosa e improvisada de dança. Diante de um adversário solidamente plantado, em coesão flutuante, é preciso criar redemoinhos, vários deles, em direções contrárias. O que ganha o jogo é graça, inovação, surpresa e coordenação coreográfica. Dançar, hipnotizar, desestruturar a concentração do oponente e correr para comemorar.


Claro que para conseguir esse resultado há fundamentos essenciais: técnica, controle de bola, jogo de equipe e um amplo repertório tático-estratégico. Preparo físico, como sempre, é crucial. Mas um jogador de handebol tem que ser acima de tudo um inspirado. Esse jogo abriu minha imaginação em dimensões que eu ainda estou explorando até hoje.


Que as seleções brasileiras brilhem em Atenas e inspirem esta nação nesses tempos tão turvos.

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Nicolau Sevcenko é professor de história na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humana da USP e autor de "Orfeu Extático na Metrópole" (Cia. das Letras), entre outros.

Endereço: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0808200404.htm

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